{"id":21932,"date":"2008-10-09T16:24:09","date_gmt":"2008-10-09T16:24:09","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=21932"},"modified":"2008-10-09T16:24:09","modified_gmt":"2008-10-09T16:24:09","slug":"o-merchandising-social-da-tv-globo-e-os-desertos-verdes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=21932","title":{"rendered":"O &#8216;merchandising social&#8217; da TV Globo e os desertos verdes"},"content":{"rendered":"<p>   \t \t \t \t \t<!-- \t\t@page { margin: 2cm } \t\tP { margin-bottom: 0.21cm } \t--> \t     <\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\" class=\"western padrao\">Foi o professor Arlindo Machado, pelo que me lembro, que conceituou de forma brilhante a import&acirc;ncia de analisarmos a televis&atilde;o n&atilde;o como um meio em si &ndash; tal como Adorno ou McLuhan, para se odiar ou venerar a tev&ecirc; &ndash;, mas pelo conte&uacute;do dos seus programas. Os brasileiros preocupados com os rumos democr&aacute;ticos da nossa Na&ccedil;&atilde;o precisam ficar atentos ao conte&uacute;do espec&iacute;fico de cada programa de grande repercuss&atilde;o e rediscuti-los urgentemente, a julgar pelo que se passou na novela &ldquo;A Favorita&rdquo;, da TV Globo, no s&aacute;bado (4).<\/p>\n<p>Entrou em pauta neste dia o tema da celulose e o respeito ao meio ambiente, de forma expl&iacute;cita, na fala entre a personagem Donatela (interpretada por Claudia Raia) e Augusto C&eacute;sar (interpretado por Jos&eacute; Mayer). Contextualizando: Donatela &eacute; uma mulher que est&aacute; atualmente do lado do &ldquo;bem&rdquo; no imagin&aacute;rio simb&oacute;lico dos telespectadores (que &ldquo;torcem&rdquo; por ela), buscando justi&ccedil;a contra sua advers&aacute;ria Flora (Patr&iacute;cia Pillar), uma criminosa da pior estirpe (capaz de seq&uuml;estrar a pr&oacute;pria filha por dinheiro).<\/p>\n<p>Donatela vive atualmente escondida de todos, ao lado de Augusto C&eacute;sar, &ldquo;um homem bonito, atraente, rom&acirc;ntico e delirante&rdquo;, segundo a descri&ccedil;&atilde;o no site oficial da novela. Segue um breve relato sobre Augusto: &ldquo;&Eacute; uf&oacute;logo atuante e realiza encontros para medita&ccedil;&atilde;o. Ganhou fama de doido quando resolveu largar o rock para se tornar um eremita &agrave; espera de um disco voador. Acredita que a mulher Rosana Costa foi abduzida por alien&iacute;genas h&aacute; 13 anos e ainda vai retornar ao planeta para viver junto dele e do meio-filho, Shiva L&ecirc;nin.&rdquo; Atualmente, ele efetivamente pensa &ndash; fruto de seu del&iacute;rio &ndash; que Donatela &eacute; a tal esposa abduzida.<\/p>\n<p><strong>O &ldquo;debate&rdquo; sobre o meio ambiente<\/strong><\/p>\n<p>Este lun&aacute;tico tentou convencer sua &ldquo;esposa&rdquo; que n&atilde;o deveria vender seu lote de terra para a explora&ccedil;&atilde;o de eucalipto, em benef&iacute;cio de uma grande empresa comandada por Gon&ccedil;alo Fontini (Mauro Mendon&ccedil;a).<\/p>\n<p>Gon&ccedil;alo, este grande empres&aacute;rio, &eacute; estrategicamente posicionado no roteiro: &ldquo;&Eacute; um homem inteligente, culto, &iacute;ntegro e dedicado &agrave; fam&iacute;lia. Sua autoridade &eacute; imposta naturalmente. Quando jovem, Gon&ccedil;alo tinha id&eacute;ias comunistas, mas, ao longo da vida, traiu seus ideais e tornou-se um homem riqu&iacute;ssimo. Apesar disso, &eacute; discreto e n&atilde;o gosta de ostenta&ccedil;&atilde;o nem de bajuladores. Gon&ccedil;alo &eacute; muito apegado &agrave; neta Lara e sofre com o assassinato de seu filho &uacute;nico Marcelo.&rdquo; Sendo inteligente e culto, na percep&ccedil;&atilde;o dos autores, faz algum sentido que &ndash; de acordo com a ideologia da emissora &ndash; tenha &ldquo;tra&iacute;do&rdquo; seus id&eacute;ias e se tornado &ldquo;riqu&iacute;ssimo&rdquo;.<\/p>\n<p>Voltando &agrave; cena em quest&atilde;o, Donatela argumenta com Augusto (o &ldquo;delirante&rdquo;) que ele deveria vender suas terras. Augusto se defende com dois argumentos: construiu sua vida ali, naquela terra, ao lado da esposa (a que foi &ldquo;abduzida&rdquo;, que ele pensa ser a Donatela) e acredita que &ldquo;esse pessoal s&oacute; pensa em lucrar&rdquo;.<\/p>\n<p>Donatela (a justiceira, do &ldquo;bem&rdquo;), por sua vez, deu outros dois argumentos: &ldquo;Qu&ecirc; que tem? Todo mundo precisa de papel&rdquo; e &ldquo;Pelo que sei, &eacute; tudo 100% reflorestado&rdquo;.<\/p>\n<p>&Eacute; curioso que a TV Globo fa&ccedil;a uma campanha semelhante &ndash; para n&atilde;o dizer igual &ndash; &agrave;s campanhas, por exemplo, das empresas Aracruz Celulose e Stora Enso, l&iacute;deres no mercado da ind&uacute;stria de celulose. Teria sido mais um exemplo do &ldquo;merchandising social&rdquo; &ndash; uma esp&eacute;cie de inser&ccedil;&atilde;o de temas sociais para debate p&uacute;blico no conte&uacute;do de m&iacute;dia &ndash; ou uma propaganda pol&iacute;tica<\/p>\n<p><strong>Desinforma&ccedil;&atilde;o a servi&ccedil;o das grandes empresas<\/strong><\/p>\n<p>Os telespectadores n&atilde;o conhecem, pelas m&atilde;os da mesma emissora e do seu departamento de jornalismo, o gigantesco conflito pol&iacute;tico que, aos olhos dos autores da novela, soa como um agrad&aacute;vel bate papo para discutir se precisamos ou n&atilde;o de papel.<\/p>\n<p>No Rio Grande do Sul, por exemplo, cinco organiza&ccedil;&otilde;es ambientais se uniram no m&ecirc;s passado em uma a&ccedil;&atilde;o judicial contra a presidente da Funda&ccedil;&atilde;o Estadual de Prote&ccedil;&atilde;o Ambiental (Fepam), Ana Maria Pellini, a quem acusam de praticar ass&eacute;dio moral ao pressionar seus funcion&aacute;rios em processos de interesse do setor papeleiro. A den&uacute;ncia, segundo reportagem da ag&ecirc;ncia internacional de not&iacute;cias IPS [1], se refere a amea&ccedil;as e transfer&ecirc;ncias injustificadas de t&eacute;cnicos que se negaram a modificar crit&eacute;rios de Zoneamento Ambiental da Silvicultura, na licen&ccedil;a para constru&ccedil;&atilde;o de represas e para amplia&ccedil;&atilde;o que quadruplicar&aacute; a f&aacute;brica de celulose Aracruz, maior empresa brasileira do setor, controlada pelos grupos familiares Lorentzen, de origem norueguesa, e Safra, do L&iacute;bano.<\/p>\n<p>As a&ccedil;&otilde;es judiciais neste Estado se encaminham principalmente a irregularidades em licen&ccedil;as ambientais e acordos para que sejam feitos estudos e informes de impacto ambiental. &ldquo;Exigimos mais restri&ccedil;&otilde;es, porque o Zoneamento Ambiental, recentemente aprovado, oferece baixa prote&ccedil;&atilde;o&rdquo;, explicou Annelise Steigleder, fiscal de Meio Ambiente de Porto Alegre.<\/p>\n<p>Em outro Estado o quadro &eacute; parecido, ainda de acordo com o relato da IPS: &ldquo;Na Bahia, a promotoria estadual pediu &agrave; justi&ccedil;a que anule licen&ccedil;as ambientais para plantio de eucalipto, obtidas pela empresa Veracel, criada por uma associa&ccedil;&atilde;o (Joint venture) entre Aracruz e a sueco-finlandesa Stora Enso. A firma &ldquo;usou meios il&iacute;citos, desde corrup&ccedil;&atilde;o de funcion&aacute;rios de &oacute;rg&atilde;os vinculados &agrave;s licen&ccedil;as at&eacute; subornos de prefeitos e vereadores&rdquo;, disse Jo&atilde;o da Silva Neto, coordenador da Promotoria em Eun&aacute;polis, munic&iacute;pio do sul baiano. &ldquo;Tamb&eacute;m foram obtidos de forma irregular certificados de qualidade para garantir exporta&ccedil;&otilde;es&rdquo;, acrescentou.&rdquo;<\/p>\n<p>O que as personagens Donatela e Augusto &ldquo;esqueceram&rdquo; de falar &eacute; que, em junho deste ano, a Justi&ccedil;a Federal brasileira condenou a Veracel (Aracruz e Stora Enso) a restaurar, com vegeta&ccedil;&atilde;o nativa, todas suas &aacute;reas compreendidas nas licen&ccedil;as de plantio de eucalipto que foram liberadas entre 1993 e 1996 neste mesmo munic&iacute;pio [2]. Significa que uma &aacute;rea de 96 mil hectares, coberta por eucaliptais da empresa, dever&aacute; ser reflorestada por &aacute;rvores da mata atl&acirc;ntica, um dos biomas mais diversos do planeta e, ao mesmo tempo, mais amea&ccedil;ados do mundo. A empresa tamb&eacute;m foi condenada a pagar uma multa de R$ 20 milh&otilde;es (US$ 12,5 milh&otilde;es) pelo desmatamento da mata atl&acirc;ntica, com tratores e corrent&atilde;o, ocorrido nos seus primeiros anos de funcionamento (1991-1993).<\/p>\n<p>Este &eacute; o tipo de reflorestamento &ndash; &agrave; for&ccedil;a, via Justi&ccedil;a Federal &ndash; que as empresas de eucalipto promovem. Depois de muita destrui&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>No Esp&iacute;rito Santo, a Aracruz invadiu terras ind&iacute;genas &ndash; reconhecidas legalmente pelo Governo Federal como de posse permanente das comunidades origin&aacute;rias &ndash; e devastou boa parte do Estado.<\/p>\n<p>Em quatro estados (RJ, MG, BA e ES), os problemas s&atilde;o acompanhados de perto pela Rede Alerta contra o Deserto Verde, uma ampla rede da sociedade civil composta por mais de 100 entidades, movimentos, comunidades locais, sindicatos, igrejas e cidad&atilde;os, preocupados com a cont&iacute;nua expans&atilde;o das planta&ccedil;&otilde;es de eucalipto na sua regi&atilde;o, assim como a venda de &ldquo;cr&eacute;ditos de carbono&rdquo;.<\/p>\n<p>Basicamente, a Rede chama aten&ccedil;&atilde;o para o desastre s&oacute;cio-ambiental causado nos &uacute;ltimos 35 anos pela monocultura de eucalipto e pinus, integrado aos complexos sider&uacute;rgico e de celulose, atingindo diversos ecossistemas e popula&ccedil;&otilde;es do territ&oacute;rio brasileiro, empobrecendo nossa diversidade biol&oacute;gica, social e cultural, e causando expropria&ccedil;&atilde;o, desemprego, &ecirc;xodo rural e fome. Mas tamb&eacute;m tenta mostrar a viabilidade de modelos alternativos de desenvolvimento que t&ecirc;m sido implementados localmente por v&aacute;rios movimentos e comunidades que participam da Rede.<\/p>\n<p><strong>Grito abafado<\/strong><\/p>\n<p>Didaticamente: estes 100 movimentos sociais gritam e reivindicam que monoculturas n&atilde;o s&atilde;o florestas. Portanto, n&atilde;o podem ser destru&iacute;das e depois &ldquo;reflorestadas&rdquo;, pelo sem-n&uacute;mero de conseq&uuml;&ecirc;ncias que trazem para o meio ambiente e para as comunidades locais.<\/p>\n<p>De que adianta o clamor da sociedade civil? A justiceira da novela fala para milh&otilde;es, argumentando com um homem delirante que &ldquo;pelo que sei, &eacute; tudo 100% reflorestado&rdquo; e que &ldquo;todo mundo precisa de papel&rdquo;. O homem delirante &eacute; &ldquo;uf&oacute;logo&rdquo; (com todo o respeito &agrave; categoria).<\/p>\n<p>O empres&aacute;rio respons&aacute;vel pela monocultura criminosa &eacute; &ldquo;inteligente, culto e &iacute;ntegro&rdquo; e sugeriu a um negociador, ainda durante a novela de hoje, que dobre o pre&ccedil;o pela terra, &ldquo;que &eacute; muito importante&rdquo;.<\/p>\n<p>Com estas refer&ecirc;ncias &ndash; a julgar pelo conte&uacute;do desta novela da TV Globo, as &uacute;nicas refer&ecirc;ncias que milh&otilde;es de pessoas receber&atilde;o &ndash;, de que &ldquo;lado&rdquo; voc&ecirc; ficaria?<\/p>\n<p>* <em>Gustavo Barreto &eacute; co-editor nos meios independentes Consci&ecirc;ncia.Net e Fazendo Media.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Foi o professor Arlindo Machado, pelo que me lembro, que conceituou de forma brilhante a import&acirc;ncia de analisarmos a televis&atilde;o n&atilde;o como um meio em si &ndash; tal como Adorno ou McLuhan, para se odiar ou venerar a tev&ecirc; &ndash;, mas pelo conte&uacute;do dos seus programas. 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