{"id":21863,"date":"2008-09-26T16:16:49","date_gmt":"2008-09-26T16:16:49","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=21863"},"modified":"2008-09-26T16:16:49","modified_gmt":"2008-09-26T16:16:49","slug":"jornalistas-e-sua-formacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=21863","title":{"rendered":"Jornalistas e sua forma\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>   \t \t \t \t \t<!-- \t\t@page { margin: 2cm } \t\tP { margin-bottom: 0.21cm } \t--> \t  <\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\" class=\"western padrao\">Na quarta-feira da semana passada houve um ato p&uacute;blico na Pra&ccedil;a dos Tr&ecirc;s Poderes, em Bras&iacute;lia. Est&aacute; no site do Sindicato dos Jornalistas de S&atilde;o Paulo: &quot;Mais de duzentas pessoas, entre dirigentes sindicais, profissionais, professores e estudantes de jornalismo de todo o Pa&iacute;s, participaram hoje (17\/9), em Bras&iacute;lia, de um ato p&uacute;blico em defesa da forma&ccedil;&atilde;o espec&iacute;fica em jornalismo e da regulamenta&ccedil;&atilde;o profissional da categoria.&quot; Segundo a nota, a inten&ccedil;&atilde;o dos manifestantes foi &quot;sensibilizar os ministros (do Supremo Tribunal Federal) que devem julgar, ainda este ano, o recurso extraordin&aacute;rio (RE\/511961), a&ccedil;&atilde;o que questiona a constitucionalidade da legisla&ccedil;&atilde;o que regulamenta a profiss&atilde;o no Brasil&quot;.<\/p>\n<p>Embora a imprensa fale pouco do tema, &eacute; grande a expectativa em torno do julgamento. Trata-se de saber se a exig&ecirc;ncia do diploma de jornalista para os que trabalham na imprensa imp&otilde;e ou n&atilde;o uma barreira ao direito de livre express&atilde;o, assegurado na Constitui&ccedil;&atilde;o. Por que s&oacute; diplomados em Jornalismo podem ser empregados em jornais? Quanto a isso, o Pa&iacute;s espera a decis&atilde;o do Supremo Tribunal Federal.<\/p>\n<p>Mas o debate n&atilde;o fica s&oacute; a&iacute;. H&aacute; outras frentes em que os destinos da profiss&atilde;o de jornalista est&atilde;o em jogo. Citemos duas. No &acirc;mbito do Minist&eacute;rio do Trabalho, um grupo de trabalho pretende redigir um projeto para a regulamenta&ccedil;&atilde;o da atividade. A segunda frente est&aacute; no Minist&eacute;rio da Educa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Recentemente, o ministro Fernando Haddad lan&ccedil;ou a id&eacute;ia de constituir uma comiss&atilde;o para discutir as diretrizes da forma&ccedil;&atilde;o dos cursos de Jornalismo, identificando e delimitando com maior clareza os conhecimentos pr&aacute;ticos e te&oacute;ricos que precisam ser dominados pelos que concluem a gradua&ccedil;&atilde;o. A partir da&iacute;, o ministro espera abrir uma nova possibilidade para a forma&ccedil;&atilde;o de jornalistas, sem preju&iacute;zo dos cursos que j&aacute; existem: &quot;A comiss&atilde;o far&aacute; uma an&aacute;lise das perspectivas de graduados em outras &aacute;reas, mediante forma&ccedil;&atilde;o complementar, poderem fazer jus ao diploma&quot; (Folha de S.Paulo, 17\/9\/2008).<\/p>\n<p>Desde logo, fica bem claro que essa discuss&atilde;o n&atilde;o se confunde com a outra, sobre exig&ecirc;ncia &#8211; ou n&atilde;o &#8211; de diploma para que algu&eacute;m seja empregado na &aacute;rea, o que &eacute; assunto para o Minist&eacute;rio do Trabalho. Ela cuida especificamente das diretrizes da forma&ccedil;&atilde;o. Sua pauta &eacute; educacional, n&atilde;o trabalhista. Seu objetivo &eacute; estudar a possibilidade de que gente como cientistas sociais ou economistas, por exemplo, possa, por meio de um curso mais breve, algo em torno de dois anos, habilitar-se a ter um emprego regular em ve&iacute;culos de informa&ccedil;&atilde;o. A iniciativa, como se v&ecirc;, n&atilde;o amea&ccedil;a nem refor&ccedil;a a exig&ecirc;ncia do diploma.<\/p>\n<p>Ainda sobre exig&ecirc;ncia do diploma, &eacute; bom que se saiba que, na pr&aacute;tica, ela ajudou a elevar o padr&atilde;o da profiss&atilde;o no Brasil. Pesa contra ela, no entanto, o fato de ter sido imposta pela ditadura militar (o decreto-lei &eacute; de 1969) e, agora, surge com for&ccedil;a essa alega&ccedil;&atilde;o de que ela agride princ&iacute;pios constitucionais, d&uacute;vida que s&oacute; pode ser dirimida pelo Supremo. De todo modo, n&atilde;o &eacute; a&iacute;, nessa formalidade abra&ccedil;ada por interesses corporativos, que se encontra o &acirc;mago do debate. O que deve falar mais alto, nessa mat&eacute;ria, n&atilde;o &eacute; a defesa sindical de uma categoria, mas o direito &agrave; informa&ccedil;&atilde;o, de que todo cidad&atilde;o &eacute; titular. Essa &eacute; a pedra de toque. O que se deve buscar n&atilde;o &eacute; o conforto dos que hoje est&atilde;o empregados, mas o melhor sistema para assegurar qualidade &agrave; media&ccedil;&atilde;o do debate p&uacute;blico.<\/p>\n<p>Por isso &eacute; que se pode afirmar: o ponto dram&aacute;tico repousa sobre a qualidade das faculdades. Onde elas s&atilde;o boas, seus formandos t&ecirc;m lugar no mercado. Mesmo em pa&iacute;ses que n&atilde;o disp&otilde;em de nenhuma obrigatoriedade de diploma, como os Estados Unidos, a Alemanha, a Fran&ccedil;a e outros, nota-se a prefer&ecirc;ncia dos empregadores por jovens que tenham cursado uma boa escola de Jornalismo. A&iacute;, as faculdades adquiriram autoridade n&atilde;o em fun&ccedil;&atilde;o de uma reserva de mercado, mas pela capacita&ccedil;&atilde;o que s&atilde;o capazes de aportar aos estudantes. E no Brasil? O que seria das faculdades se elas n&atilde;o estivessem protegidas pela reserva de mercado? Elas sobreviveriam como est&atilde;o? Ou seriam for&ccedil;adas dramaticamente a se aperfei&ccedil;oar? Se seriam obrigadas a se aperfei&ccedil;oar, por que n&atilde;o cuidar disso desde j&aacute;?<\/p>\n<p>Que ningu&eacute;m se iluda: boas faculdades s&atilde;o fundamentais. Elas n&atilde;o s&atilde;o dispens&aacute;veis, como alguns ainda tentam fazer crer. A presun&ccedil;&atilde;o de que o jornalismo &eacute; um &quot;of&iacute;cio que se aprende na pr&aacute;tica&quot; &eacute; t&atilde;o ing&ecirc;nua quanto despreparada. Contra isso se levantou, desde o final do s&eacute;culo 19, Joseph Pulitzer. De magnata da m&iacute;dia americana, ele se projetou como o principal inspirador do Curso de Jornalismo da Universidade de Col&uacute;mbia, que s&oacute; come&ccedil;aria a funcionar em 1912, um ano ap&oacute;s a sua morte. Contra o comodismo de seus contempor&acirc;neos, que viam na cria&ccedil;&atilde;o da escola uma perda de tempo, Pulitzer afirmava que era necess&aacute;rio transformar aquilo que n&atilde;o passava de um of&iacute;cio numa profiss&atilde;o nobre. E acertou. Seu texto em defesa da escola de Col&uacute;mbia, lan&ccedil;ado em 1904, resiste como um pequeno cl&aacute;ssico (The School of Journalism, Seattle: Inkling Books, 2006). Deveria ser lido pelos adeptos da tese de que &quot;jornalismo se aprende na pr&aacute;tica&quot;.<\/p>\n<p>Qualquer um de n&oacute;s, quando vai ao m&eacute;dico, ao advogado ou ao dentista, procura profissionais com bons curr&iacute;culos acad&ecirc;micos e cient&iacute;ficos. Mas, quando se trata de servir informa&ccedil;&atilde;o ao p&uacute;blico, imaginamos que um pr&aacute;tico, sem forma&ccedil;&atilde;o, pode dar conta do recado. N&atilde;o pode &#8211; ou n&atilde;o pode mais, a n&atilde;o ser excepcionalmente. A porta para o futuro, tamb&eacute;m nesse caso, est&aacute; na qualifica&ccedil;&atilde;o dos profissionais. Com diploma ou sem diploma, &eacute; da qualifica&ccedil;&atilde;o que depender&aacute; a consist&ecirc;ncia e a fecundidade do nosso debate p&uacute;blico. <\/p>\n<p><em>* Eug&ecirc;nio Bucci, jornalista, &eacute; professor da Escola de Comunica&ccedil;&otilde;es e Artes e pesquisador do Instituto de Estudos Avan&ccedil;ados, da USP.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na quarta-feira da semana passada houve um ato p&uacute;blico na Pra&ccedil;a dos Tr&ecirc;s Poderes, em Bras&iacute;lia. 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