{"id":21809,"date":"2008-09-15T18:07:34","date_gmt":"2008-09-15T18:07:34","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=21809"},"modified":"2014-09-07T02:56:31","modified_gmt":"2014-09-07T02:56:31","slug":"decisao-da-justica-questiona-falta-de-licitacao-para-outorgas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=21809","title":{"rendered":"Decis\u00e3o da Justi\u00e7a questiona falta de licita\u00e7\u00e3o para outorgas"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"padrao\">Em recente decis&atilde;o, a Justi&ccedil;a Federal em Goi&aacute;s determinou o cancelamento de quatro licen&ccedil;as para a explora&ccedil;&atilde;o de canais de televis&atilde;o educativos. A senten&ccedil;a foi motivada por a&ccedil;&atilde;o movida pelo Minist&eacute;rio P&uacute;blico Federal contra a Uni&atilde;o que questionava a escolha de uma funda&ccedil;&atilde;o ligada ao grupo religioso Minist&eacute;rio Comunidade Crist&atilde; para operar no canal 5 de Goi&acirc;nia, em detrimento da Universidade Federal de Goi&aacute;s, tamb&eacute;m pretendente ao espa&ccedil;o. <\/p>\n<p>Como a outorga dada por meio do decreto sem n&uacute;mero de 15 de abril de 2002 tamb&eacute;m trazia outras tr&ecirc;s emissoras &#8211; Funda&ccedil;&atilde;o Cultural Agenor Zanon, em Linhares (ES), Funda&ccedil;&atilde;o Educacional Comendador Avelar Pereira de Alencar, na cidade em Sete Lagoas (MG), Funda&ccedil;&atilde;o Veneza de R&aacute;dio e TV, no Rio de Janeiro &#8211; as quatro entidades foram atingidas pela decis&atilde;o. A senten&ccedil;a foi remetida ao Tribunal Regional Federal da 1a Regi&atilde;o (TRF1) e se encontra em grau de recurso.<\/p>\n<p>Embora s&oacute; passe a valer quando transitar em julgado (ou seja, ap&oacute;s serem esgotados todos os prazos e possibilidades de recurso), a decis&atilde;o traz reflex&atilde;o importante ao questionar n&atilde;o somente as quatro outorgas como o fato da Uni&atilde;o conceder licen&ccedil;as para emissoras educativas sem procedimento licitat&oacute;rio. Desde 1995, uma nova reda&ccedil;&atilde;o do Regulamento dos Servi&ccedil;os de Radiodifus&atilde;o (Decreto 52.795) estabelece a necessidade deste tipo de processo seletivo, excluindo desta obriga&ccedil;&atilde;o as outorgas de canais educativos. <\/p>\n<p>Ou seja, quando h&aacute; mais de um interessado em ocupar um canal de televis&atilde;o ou r&aacute;dio com uma concess&atilde;o de emissora educativa, o Minist&eacute;rio das Comunica&ccedil;&otilde;es tem a prerrogativa de escolher quem ir&aacute; explorar o servi&ccedil;o. Este &eacute; o argumento utilizado pelo &oacute;rg&atilde;o para contestar a decis&atilde;o judicial, inclusive na resposta dada ao Minist&eacute;rio P&uacute;blico quando da instala&ccedil;&atilde;o da a&ccedil;&atilde;o civil p&uacute;blica. Esta semana, por meio de sua assessoria, o minist&eacute;rio afirmou ao <strong>Observat&oacute;rio do Direito &agrave; Comunica&ccedil;&atilde;o<\/strong> que ainda n&atilde;o tinha recebido a senten&ccedil;a e que realiza toda outorga de emissoras educativas dentro dos limites da Lei. <\/p>\n<p>No entanto, no caso espec&iacute;fico do canal 5 de Goi&acirc;nia, uma das irregularidades que motivou a decis&atilde;o judicial foi o descumprimento do C&oacute;digo Brasileiro de Telecomunica&ccedil;&otilde;es (Lei 4.117\/62), cujo artigo 34, par&aacute;grafo 2o, afirma que ter&atilde;o prefer&ecirc;ncia na defini&ccedil;&atilde;o dos concession&aacute;rios para a concess&atilde;o &quot;as pessoas jur&iacute;dicas de direito p&uacute;blico interno, inclusive universidades&quot;. Recentemente, o pr&oacute;prio ministro H&eacute;lio Costa defendeu, na inaugura&ccedil;&atilde;o das novas instala&ccedil;&otilde;es da TV ligada &agrave; Universidade Federal de Vi&ccedil;osa, que as licen&ccedil;as de educativas devem ser dadas a institui&ccedil;&otilde;es de ensino.<\/p>\n<p><strong>Cr&iacute;tica ao procedimento<\/strong><\/p>\n<p>Ao se posicionar favoravelmente sobre a a&ccedil;&atilde;o do Minist&eacute;rio P&uacute;blico Federal, a senten&ccedil;a do juiz Jesus Cris&oacute;stomo de Almeida vai al&eacute;m do cancelamento de quatro emissoras e questiona a aus&ecirc;ncia de licita&ccedil;&atilde;o para o licenciamento de canais educativos. A senten&ccedil;a repete argumentos de outra decis&atilde;o favor&aacute;vel, emitida pelo juiz em abril de 2006, a outra a&ccedil;&atilde;o do Minist&eacute;rio P&uacute;blico Federal que cobra a institui&ccedil;&atilde;o de processo licitat&oacute;rio na concess&atilde;o de educativas. A senten&ccedil;a tamb&eacute;m foi remetida ao Tribunal Regional Federal da 1a regi&atilde;o e aguarda julgamento, ainda sem data marcada. <\/p>\n<p>Segundo o juiz, a dispensa de licita&ccedil;&atilde;o nestes casos &eacute; inconstitucional, uma vez que o Artigo 137 da Carta Magna obriga o poder p&uacute;blico a prestar servi&ccedil;os p&uacute;blicos diretamente ou sob regime de concess&atilde;o ou permiss&atilde;o &quot;sempre atrav&eacute;s de licita&ccedil;&atilde;o&quot;. <\/p>\n<p>Al&eacute;m de argumentar em favor desta interpreta&ccedil;&atilde;o jur&iacute;dica, o juiz defende a licita&ccedil;&atilde;o por considerar que tal mecanismo &quot;se configura como m&eacute;todo h&aacute;bil &agrave; preserva&ccedil;&atilde;o dos interesses coletivos, com a sele&ccedil;&atilde;o da proposta mais vantajosa, al&eacute;m de permitir a participa&ccedil;&atilde;o de todos, afastando op&ccedil;&otilde;es contr&aacute;rias ao princ&iacute;pio da impessoalidade&quot;. Este tipo de procedimento administrativo, acrescenta, &eacute; fundamental para garantir princ&iacute;pios da Constitui&ccedil;&atilde;o Federal como a impessoalidade e a isonomia que a situa&ccedil;&atilde;o de oportunidades iguais demanda.<\/p>\n<p>Perguntado pela reportagem do Observat&oacute;rio do Direito &agrave; Comunica&ccedil;&atilde;o sobre o fato do Decreto 52.795 dispensar licita&ccedil;&atilde;o para educativas, Jesus Cris&oacute;stomo rebate argumentando que se a Constitui&ccedil;&atilde;o &eacute; considerada lei fundamental, quando h&aacute; conflito entre um dispositivo seu e outra norma inferior, o primeiro deve ser considerado v&aacute;lido. A opini&atilde;o do juiz vai ao encontro da a&ccedil;&atilde;o do Minist&eacute;rio P&uacute;blico Federal, que defende a licita&ccedil;&atilde;o como recurso necess&aacute;rio para que a Administra&ccedil;&atilde;o P&uacute;blica possa &quot;selecionar a entidade mais capacitada, t&eacute;cnica e financeiramente, e que apresente o melhor projeto educacional&quot;. <\/p>\n<p><strong>Moeda de troca pol&iacute;tica<\/strong><\/p>\n<p>Segundo o documento do MPF, com a manuten&ccedil;&atilde;o do poder discricion&aacute;rio nas m&atilde;os da Uni&atilde;o para definir quem ir&aacute; explorar os servi&ccedil;os de radiodifus&atilde;o educativa &quot;transformar-se-&aacute; a concess&atilde;o de uma TV educativa em infame instrumento de barganha pol&iacute;tica e concess&atilde;o de privil&eacute;gios esp&uacute;rios, com enorme preju&iacute;zo ao nobre interesse p&uacute;blico que inspirou sua previs&atilde;o&quot;. <\/p>\n<p>Tal uso tem sido denunciado por acad&ecirc;micos e &oacute;rg&atilde;os jornal&iacute;sticos. Reportagens da &quot;Folha de S&atilde;o Paulo&quot; evidenciaram a pr&aacute;tica tanto no governo Fernando Henrique Cardoso quanto no governo Luiz In&aacute;cio Lula da Silva. Em 2002, mat&eacute;ria do jornal paulista revelou a destina&ccedil;&atilde;o de 23 das 100 outorgas educativas aprovadas na gest&atilde;o do ministro Pimenta da Veiga (1999-2002) para pol&iacute;ticos. Nova reportagem de junho de 2006 registrou o licenciamento de 34 canais, sendo sete de televis&atilde;o e 27 de r&aacute;dios, para funda&ccedil;&otilde;es ligadas a mandat&aacute;rios de cargos eletivos.<\/p>\n<p>Em artigo neste <strong>Observat&oacute;rio<\/strong> <\/span><span class=\"padrao\">[<a href=\"http:\/\/localhost\/intervozes_direitoacomunicacao\/wordpress\/?p=18510\">veja aqui<\/a> ]<\/span><span class=\"padrao\">, o professor Ven&iacute;cio Lima analisou a evolu&ccedil;&atilde;o do quadro, localizando a g&ecirc;nese do problema na dispensa de licita&ccedil;&atilde;o prevista pelo Decreto 2.106, de 1996. &quot;Estava discretamente &#39;aberta a porta&#39; para a continuidade do uso das concess&otilde;es de r&aacute;dio e televis&atilde;o como moeda de barganha pol&iacute;tica &ndash; s&oacute; que, agora, exclusivamente para as r&aacute;dios e televis&otilde;es educativas.&quot;<\/p>\n<p>Para Jo&atilde;o Brant, do Intervozes &ndash; Coletivo Brasil de Comunica&ccedil;&atilde;o Social, o uso das licen&ccedil;as de educativas com a finalidade de barganha pol&iacute;tica s&oacute; poder&aacute; ser resolvido com a constitui&ccedil;&atilde;o de mecanismos eficientes e participativos de avalia&ccedil;&atilde;o das propostas para emissoras educativas. &quot;&Eacute; urgente a defini&ccedil;&atilde;o n&atilde;o apenas de crit&eacute;rios claros para essas outorgas como da pr&oacute;pria no&ccedil;&atilde;o de TV educativa, j&aacute; que o conceito que hoje consta em lei &eacute; claramente anacr&ocirc;nico&quot;, prop&otilde;e.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Senten\u00e7a da Justi\u00e7a Federal em Goi\u00e1s diz que dispensa de processo licitat\u00f3rio \u00e9 inconstitucional; para Minist\u00e9rio P\u00fablico e especialistas, regra especial para educativas abre brechas para barganha pol\u00edtica<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[40],"tags":[857],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/21809"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=21809"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/21809\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":27898,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/21809\/revisions\/27898"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=21809"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=21809"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=21809"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}