{"id":21754,"date":"2008-09-02T19:31:05","date_gmt":"2008-09-02T19:31:05","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=21754"},"modified":"2008-09-02T19:31:05","modified_gmt":"2008-09-02T19:31:05","slug":"grafite-na-universidade-a-ufrgs-e-a-superficialidade-da-cobertura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=21754","title":{"rendered":"Grafite na universidade: A Ufrgs e a superficialidade da cobertura"},"content":{"rendered":"<p>   \t \t \t \t \t<!-- \t\t@page { margin: 2cm } \t\tP { margin-bottom: 0.21cm } \t--> \t   <\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\" class=\"western padrao\">A Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) tem se caracterizado, por sua hist&oacute;ria, como um espa&ccedil;o de debates e de permanente indaga&ccedil;&atilde;o relacionados aos rumos da sociedade contempor&acirc;nea. Foi assim com a cria&ccedil;&atilde;o do Campus do Vale, pr&oacute;ximo &agrave; cidade de Viam&atilde;o, quando os militares que dirigiam o pa&iacute;s &ndash; conforme contam alguns professores &ndash; destinaram para esta localidade de dist&acirc;ncia extremada naquele momento alguns dos cursos que mais arg&uuml;iam contra a ditadura. Est&aacute; sendo assim, nestes &uacute;ltimos anos, no que concerne &agrave;s elei&ccedil;&otilde;es para o Diret&oacute;rio Central dos Estudantes, &agrave;s a&ccedil;&otilde;es afirmativas, ao Reuni etc.<\/p>\n<p>Pois &eacute; nesse contexto que uma parede (sim, uma parede) toma conta das pol&ecirc;micas que circundam, de tempos em tempos, nossa universidade. Ao entrar no Campus do Vale, aquele mesmo, pr&oacute;ximo a Viam&atilde;o, no qual est&atilde;o alocados diversos departamentos de ensino e pesquisa, damos de cara com o pr&eacute;dio que abriga as salas de aula do curso de Letras. A parede frontal do edif&iacute;cio das Letras (recinto que outrora era dividido com o Instituto de Filosofia e Ci&ecirc;ncias Humanas) encontrava-se pichada, com algumas cita&ccedil;&otilde;es, descascada, al&eacute;m de servir de mural para cartazes, pol&iacute;ticos ou n&atilde;o. De fato, n&atilde;o se tratava de uma vis&atilde;o esteticamente bonita. N&atilde;o era, todavia, desagrad&aacute;vel para os olhos alheios; tratava-se apenas de uma parede.<\/p>\n<p><strong>Atentado &agrave; autonomia<\/strong><\/p>\n<p>H&aacute; cerca de tr&ecirc;s ou quatro meses, um grupo de alunos ligado ao Diret&oacute;rio Central dos Estudantes tomou uma iniciativa pr&oacute;pria, sem autoriza&ccedil;&atilde;o pr&eacute;via da dire&ccedil;&atilde;o universit&aacute;ria, e reformulou a mencionada parede que d&aacute; acesso ao Campus do Vale. No lugar da tinta descascada, das frases soltas e perdidas, dos cartazes e do fundo &quot;branco&quot;, os estudantes pintaram um grande painel, no estilo graffiti, ostentando os seguintes dizeres: &ldquo;Para que(m) serve o teu conhecimento?&rdquo;. Estaria por vir a mais nova pol&ecirc;mica.<\/p>\n<p>Outro grupo de estudantes tratou de acionar a Secretaria de Assuntos Estudantis (SAE) para reclamar o fato de a pintura n&atilde;o ter sido autorizada e, portanto, constituir crime de depreda&ccedil;&atilde;o do patrim&ocirc;nio p&uacute;blico. De imediato, a SAE arquivou o processo, justificando que aquele espa&ccedil;o estava historicamente ligado &agrave;s reivindica&ccedil;&otilde;es e proposi&ccedil;&otilde;es filos&oacute;ficas dos graduandos, o que de certa forma representa a realidade.<\/p>\n<p>Olhando de fora, sem muita profundidade, parece que estamos diante de um crime e de uma falta de respeito &agrave;s autoridades, um atentado &agrave; autonomia da universidade p&uacute;blica. Sob os aspectos legais, sem d&uacute;vida, trata-se de uma atitude pouco aconselh&aacute;vel, na medida em que poderia gerar (e acabou gerando) repres&aacute;lias por parte de quem se sentisse agredido (?) pelo acontecimento. Mas a hist&oacute;ria n&atilde;o &eacute; t&atilde;o simples assim, tampouco somente de aspectos legais pulsa a vida acad&ecirc;mica na Ufrgs, muito pelo contr&aacute;rio.<\/p>\n<p><strong>Discuss&otilde;es e interpreta&ccedil;&otilde;es distintas<\/strong><\/p>\n<p>O papel do conhecimento cient&iacute;fico est&aacute; na berlinda, digamos assim, h&aacute; bastante tempo. In&uacute;meros pensadores fixaram suas aten&ccedil;&otilde;es naquilo que poder&iacute;amos chamar de &quot;conhecimento do conhecimento&quot;, ou epistemologia. A professora Eva Machado Barbosa, do Departamento de Sociologia da UFRGS, conta um pouco dessa trajet&oacute;ria:<\/p>\n<blockquote><p>&ldquo;A quest&atilde;o do conhecimento de segunda ordem, ou do conhecimento do conhecimento, na express&atilde;o de Morin (1987), se fez presente no ocidente, de maneira expl&iacute;cita, pelo menos a partir da l&oacute;gica aristot&eacute;lica [&#8230;]. Com o surgimento da ci&ecirc;ncia na Idade Moderna, ou melhor, com a diferencia&ccedil;&atilde;o do conhecimento cient&iacute;fico a partir da matriz filos&oacute;fica original, a quest&atilde;o do conhecimento de segunda ordem, como l&oacute;gica, gnoseologia, teoria do conhecimento, filosofia da ci&ecirc;ncia, epistemologia &ndash; ou que outro nome ainda se queira dar a esse dom&iacute;nio &ndash; tornou-se cada vez mais central, alcan&ccedil;ando momentos de auge em obras de pensadores como Descartes, Locke, Hume, Kant e Hegel&rdquo; [BARBOSA, Eva Machado. &quot;Conhecendo o conhecimento: quest&otilde;es l&oacute;gicas e te&oacute;ricas na cr&iacute;tica da ci&ecirc;ncia e da raz&atilde;o&quot;. In: Cadernos de Sociologia, Porto Alegre, vol. 10 (Teoria Social: Desafios de uma Nova Era), p. 11].<\/p><\/blockquote>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\" class=\"western padrao\">Podemos observar, nesse sentido, que n&atilde;o &eacute; de hoje que os sujeitos humanos se debru&ccedil;am sobre as quest&otilde;es que envolvem o conhecimento. Desde Karl Popper e os crit&eacute;rios de refuta&ccedil;&atilde;o e\/ou testabilidade; passando por Gaston Bachelard e sua tentativa de psicanalisar o conhecimento; at&eacute; chegar em Pierre Bourdieu e a necessidade da chamada vigil&acirc;ncia epistemol&oacute;gica, perdura um caminho tortuoso, de rupturas e continuidades, de muitas discuss&otilde;es e interpreta&ccedil;&otilde;es distintas.<\/p>\n<p><strong>&ldquo;Legalismo patri&oacute;tico&quot;<\/strong><\/p>\n<p>No epis&oacute;dio que polariza a universidade, o que est&aacute; por tr&aacute;s de toda a discuss&atilde;o acerca da pintura da parede s&atilde;o diferentes posi&ccedil;&otilde;es ideol&oacute;gicas, posturas pol&iacute;ticas frente ao papel do conhecimento cient&iacute;fico constru&iacute;do nas suas entranhas. Para que ou para quem ele deve servir? Para nada, para alguns, para todos, para ningu&eacute;m? Devemos nos questionar sobre isso?<\/p>\n<p>Mesmo que alguns te&oacute;ricos p&oacute;s-modernos tenham decretado o fim das ideologias, do trabalho e da verdade enquanto conceito, na pr&aacute;tica a disputa pol&iacute;tica e ideol&oacute;gica est&aacute; presente na rotina di&aacute;ria, vis&iacute;vel ou disfar&ccedil;ada, mas presente. Os autores do painel que originou a pol&ecirc;mica defendem sem ru&iacute;dos um projeto de ensino superior mais popular, voltado para a aproxima&ccedil;&atilde;o com a comunidade e que n&atilde;o apenas privilegie o mercado e o empreendedorismo, mas tamb&eacute;m procure democratizar o acesso ao saber e &agrave; cr&iacute;tica social, fatos ainda muito distantes no que tange &agrave; nossa institui&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Por outro lado, seria bastante ingenuidade, amigos leitores, pensarmos que a motiva&ccedil;&atilde;o da pessoa que moveu o processo para a retirada do graffiti em voga esteja vinculada apenas a uma esp&eacute;cie de &quot;legalismo patri&oacute;tico&quot;, ainda mais se atentarmos para o fato de que tal indiv&iacute;duo &eacute; membro de um movimento espec&iacute;fico de atua&ccedil;&atilde;o contr&aacute;ria &agrave;s cotas raciais, via de exemplo. N&atilde;o esque&ccedil;amos, por&eacute;m, que nada impede que optemos pela ingenuidade, desde que possamos identific&aacute;-la&#8230;<\/p>\n<p><strong>Os movimentos pol&iacute;ticos<\/strong><\/p>\n<p>Tudo o que foi relatado at&eacute; agora ganhou destaque no maior ve&iacute;culo de comunica&ccedil;&atilde;o impresso do Rio Grande do Sul. Fa&ccedil;amos uma pergunta clara: qual seria o papel deste jornal, para que pudesse cumprir uma fun&ccedil;&atilde;o informativa de qualidade?<\/p>\n<p>Independente da poss&iacute;vel resposta, <em>Zero Hora <\/em>trabalhou sua cobertura at&eacute; o momento em que escrevemos (s&aacute;bado, 30\/8) enfatizando a quest&atilde;o legal dos acontecimentos. Para nosso ju&iacute;zo, &eacute; imperativo que tal cobertura abordasse esse vi&eacute;s, na medida em que n&atilde;o devemos esquecer, num piscar de olhos, a exist&ecirc;ncia das legisla&ccedil;&otilde;es vigentes. Neste primeiro coment&aacute;rio, ponto para <em>Zero Hora <\/em>e seus jornalistas.<\/p>\n<p>No entanto, com o intuito de situar seus consumidores de maneira mais inteligente, <em>Zero Hora <\/em>investigaria profundamente o pano de fundo citado acima, isto &eacute;, o debate ideol&oacute;gico que a pr&oacute;pria inscri&ccedil;&atilde;o pol&ecirc;mica levanta. Ao contr&aacute;rio disso, at&eacute; agora o impresso mant&eacute;m uma postura &quot;legalista&quot;, sem explicar o teor dos movimentos pol&iacute;ticos que disputam a supremacia nesse conflito, seus projetos e perspectivas.<\/p>\n<p><strong>&ldquo;Aparelhos privados de hegemonia&rdquo;<\/strong><\/p>\n<p>Ao saber da pintura, o estudante de Ci&ecirc;ncias Cont&aacute;beis Anderson Gon&ccedil;alves, 35 anos, integrante do Movimento Estudantil Liberdade (MEL), abriu processo administrativo junto &agrave; universidade para saber se a parede havia sido cedida aos alunos. No documento, ele classificou o ato como vandalismo, identificou um dos respons&aacute;veis e pediu a puni&ccedil;&atilde;o do grupo [Zero Hora, 26 de agosto de 2008, p. 44].<\/p>\n<p>Nesse caso, para que a m&iacute;dia pudesse ser minimamente isenta, comprometida com a sociedade, <em>Zero Hora <\/em>arcaria com sua responsabilidade e esbo&ccedil;aria uma tentativa (pelo menos) de contextualizar a &ldquo;quest&atilde;o quente&rdquo; movimentada por detr&aacute;s de uma pend&ecirc;ncia est&eacute;ril. Para fugir dos grilh&otilde;es de um assunto vago, qual seja, a legalidade ou n&atilde;o da pintura, a retomada sint&eacute;tica das concep&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas daqueles que pintaram o painel e daqueles que se opuseram a ele, mas tamb&eacute;m os respectivos significados que ambos os grupos atribuem ao conhecimento cient&iacute;fico e suas &ldquo;utilidades&rdquo; promoveriam um n&iacute;vel de qualidade superior ao tradicional peri&oacute;dico.<\/p>\n<p>Numa &eacute;poca em que o jornalismo consiste, ao fim e ao cabo, em um tipo de ind&uacute;stria que fabrica a desinforma&ccedil;&atilde;o, a busca pela profundidade poderia ajudar a salv&aacute;-lo do pior. Entretanto, talvez seja mais f&aacute;cil vender informa&ccedil;&otilde;es superficiais, ao passo em que a profundidade aqui requisitada poderia desestabilizar alguns pilares edificantes na atualidade daquilo que Gramsci [Cf. GRAMSCI, Antonio. Cadernos do C&aacute;rcere: Os intelectuais. O princ&iacute;pio educativo. Jornalismo. Volume 2, 3&ordf; ed. Rio de Janeiro: Civiliza&ccedil;&atilde;o Brasileira, 2004] alcunhou &ldquo;aparelhos privados de hegemonia&rdquo;.<\/p>\n<p>***  <\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\" class=\"western padrao\">Eis os endere&ccedil;os para visitar as mat&eacute;rias de <em>Zero Hora <\/em>realizadas at&eacute; o dia 30\/08\/08 (dispon&iacute;veis durante 30 dias na internet):<br \/>** 26 de agosto de 2008, &quot;<a href=\"http:\/\/zerohora.clicrbs.com.br\/zerohora\/jsp\/default2.jsp?uf=1&amp;local=1&amp;source=a2141022.xml&amp;template=3898.dwt&amp;edition=10554&amp;section=1003\">Parede pintada gera processo na Ufrgs<\/a> &quot; <br \/>** 27 de agosto de 2008, &quot;<a href=\"http:\/\/zerohora.clicrbs.com.br\/zerohora\/jsp\/default2.jsp?uf=1&amp;local=1&amp;source=a2143267.xml&amp;template=3898.dwt&amp;edition=10563&amp;section=1003\">Diretor critica decis&atilde;o da Ufrgs que liberou grafite<\/a> &quot; <br \/>** 27 de agosto de 2008, &quot;&rsquo;<a href=\"http:\/\/zerohora.clicrbs.com.br\/zerohora\/jsp\/default2.jsp?uf=1&amp;local=1&amp;source=a2143268.xml&amp;template=3898.dwt&amp;edition=10563&amp;section=1003\">Fui muito ing&ecirc;nua&rsquo;, diz autora<\/a> &quot; <br \/>** 28 de agosto de 2008, &quot;<a href=\"http:\/\/zerohora.clicrbs.com.br\/zerohora\/jsp\/default2.jsp?uf=1&amp;local=1&amp;source=a2145226.xml&amp;template=3898.dwt&amp;edition=10570&amp;section=1003\">Mais tinta na parede da controv&eacute;rsia<\/a> &quot; <\/p>\n<p><em>* <\/em><em>Bernardo Caprara &eacute; jornalista diplomado pela P<\/em><em>UC-RS, graduando em Licenciatura no curso de Ci&ecirc;ncias Sociais, pela Ufrgs e pesquisador-bolsista do Departamento de Ci&ecirc;ncia Pol&iacute;tica da Ufrgs.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) tem se caracterizado, por sua hist&oacute;ria, como um espa&ccedil;o de debates e de permanente indaga&ccedil;&atilde;o relacionados aos rumos da sociedade contempor&acirc;nea. 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