{"id":21636,"date":"2008-08-08T16:02:21","date_gmt":"2008-08-08T16:02:21","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=21636"},"modified":"2008-08-08T16:02:21","modified_gmt":"2008-08-08T16:02:21","slug":"eleicoes-e-internet-obama-la-e-nos-aqui","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=21636","title":{"rendered":"Elei\u00e7\u00f5es e Internet: Obama l\u00e1 e n\u00f3s aqui"},"content":{"rendered":"\n<p>H&aacute; um ano, Barack Obama era apenas um senador em primeiro mandato, negro e jovem, que aspirava concorrer &agrave; vaga de candidato a presidente da maior pot&ecirc;ncia do planeta pelo partido democrata. Seus advers&aacute;rios, muito mais poderosos, como o senador John Edwards e a senadora Hillary Clinton, n&atilde;o o colocariam como principal advers&aacute;rio. Para compensar essa diferen&ccedil;a, Obama investiu em um discurso enf&aacute;tico de mudan&ccedil;a, baseado no bord&atilde;o &quot;Sim! N&oacute;s Podemos!&quot; (<em>Yes, We can!<\/em>) e na rede mundial de computadores. Por isso, venceu as pr&eacute;vias, e agora enfrenta o republicando John McCain para chegar &agrave; Casa Branca.<\/p>\n<p>Obama j&aacute; &eacute; o exemplo mais bem-sucedido de uso da internet para fins pol&iacute;tico-eleitorais. Em &quot;A Conex&atilde;o Obama&quot;, artigo publicado no The New York Times de 26 de maio, o analista Roger Cohen explica esse fen&ocirc;meno: &quot;&Eacute; a rede, est&uacute;pido!&quot;. A frase &eacute; uma adapta&ccedil;&atilde;o livre da cita&ccedil;&atilde;o de James Carville, papa do marketing pol&iacute;tico que trabalhou na campanha de Bill Clinton e cunhou a express&atilde;o &quot;&Eacute; a economia, est&uacute;pido!&quot;, norteadora da estrat&eacute;gia bem-sucedida que resultou na vit&oacute;ria de Clinton sobre Bush pai. Obama &eacute; sedutor, um grande orador, um sujeito com uma trajet&oacute;ria irrepreens&iacute;vel. N&atilde;o fosse a internet, por&eacute;m, ele nada seria.<\/p>\n<p>Para sustentar a tese, Cohen reproduz dados citados por Joshua Green, na The Atlantic. Obama teve 1.276.000 doadores em sua campanha, 750.000 volunt&aacute;rios ativos e 8.000 grupos de afinidade. &quot;Em fevereiro, quando a campanha arrecadou 55 milh&otilde;es de d&oacute;lares (45 milh&otilde;es via Internet), 94% das doa&ccedil;&otilde;es apresentaram valores menores que 200 d&oacute;lares&quot;. S&atilde;o n&uacute;meros sem precedentes na hist&oacute;ria humana. Para efeito de compara&ccedil;&atilde;o, a planilha de doa&ccedil;&otilde;es do presidente Lula na &uacute;ltima elei&ccedil;&atilde;o, incluindo pessoas f&iacute;sicas, jur&iacute;dicas, comit&ecirc;s regionais, entre outros itens, tem 1.599 itens. No processo, o Partido dos Trabalhadores (PT) arrecadou R$ 81 milh&otilde;es.<\/p>\n<p>Como um v&iacute;rus, o candidato foi se espalhando pelo ciberespa&ccedil;o, que se transformou no ponto de encontro de uma gera&ccedil;&atilde;o inteira, insatisfeita e envergonhada com os descaminhos promovidos por Bush Filho. E essa gera&ccedil;&atilde;o resolveu disputar com seus pais e av&oacute;s o futuro da na&ccedil;&atilde;o, usando a seu favor o arsenal democr&aacute;tico de comunica&ccedil;&atilde;o surgido nos anos 90.<\/p>\n<p>O site de Obama, por exemplo, &eacute; uma grande rede social, onde os eleitores trocam informa&ccedil;&otilde;es entre si. O candidato acompanha e usa isso em seu benef&iacute;cio. Nada de not&iacute;cias ou informa&ccedil;&otilde;es de cima para baixo. O segredo &eacute; a intera&ccedil;&atilde;o permanente.<\/p>\n<p>Seus assessores e apoiadores usam o You Tube (para v&iacute;deos), Twitter (para mensagens instant&acirc;neas), mant&eacute;m comunidades em sites de relacionamento como Orkut, Facebook e MySpace, conversam diretamente com eleitores por mensageiros instant&acirc;neos, como Mesenger ou Google Talk. Tudo de legal que est&aacute; dispon&iacute;vel na rede n&atilde;o lhes &eacute; estranho.<strong><\/p>\n<p>Enquanto isso, em Pindorama&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Essa hist&oacute;ria, no entanto, n&atilde;o seria poss&iacute;vel no Brasil, por causa do Tribunal Superior Eleitoral, &oacute;rg&atilde;o que disciplina o processo eleitoral no pa&iacute;s. Em mar&ccedil;o, o TSE editou uma resolu&ccedil;&atilde;o, de n&uacute;mero 22.718, assinada pelo ministro Ari Pargendler, para tratar de elei&ccedil;&otilde;es e internet. Com ela, criou uma baita confus&atilde;o. A norma tem v&aacute;rios pontos critic&aacute;veis. O principal deles &eacute; enquadrar a internet como m&iacute;dia eletr&ocirc;nica de massa. Ou seja, como r&aacute;dio ou televis&atilde;o, coisa que ela n&atilde;o &eacute; nem nunca foi (para ficar s&oacute; num aspecto, r&aacute;dio e TV s&atilde;o concess&otilde;es do Estado, site n&atilde;o).<\/p>\n<p>Outro aspecto incompreens&iacute;vel da lei &eacute; o artigo que imp&otilde;e a cada candidato a prefeito ou vereador o limite de ter um &uacute;nico site &quot;de propaganda&quot; na rede. A id&eacute;ia dos magistrados seria garantir o &quot;equil&iacute;brio&quot; na disputa eleitoral. Objetivo nobre, que corresponde ao que se espera dessa institui&ccedil;&atilde;o da democracia brasileira. No entanto, com isso, conseguiram fazer justamente o contr&aacute;rio.<\/p>\n<p>&quot;O que a Justi&ccedil;a deveria garantir era a isonomia de espa&ccedil;o e o controle do poder econ&ocirc;mico e estatal. Para tanto &eacute; necess&aacute;rio disciplinar o uso da TV, das r&aacute;dios e da imprensa. Mas, esta isonomia de espa&ccedil;o existe na Internet. Os candidatos utilizando ferramentas gratuitas est&atilde;o em maior equil&iacute;brio&quot;, avalia o soci&oacute;logo S&eacute;rgio Amadeu da Silveira, autor de v&aacute;rios livros sobre internet e cidadania e uma das primeiras vozes da rede a se levantar contra a legisla&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>L&aacute; atr&aacute;s, quando a resolu&ccedil;&atilde;o foi publicada, alguns setores da sociedade protestaram. Outros, incr&eacute;dulos, achavam que seria mais uma dessas &quot;leis que n&atilde;o pegam&quot;. Mas ela pegou.<\/p>\n<p>A primeira v&iacute;tima do processo foi o candidato &agrave; prefeitura do Rio de Janeiro Fernando Gabeira (onde uma contra-resolu&ccedil;&atilde;o do Tribunal Regional Eleitoral tentou amenizar a decis&atilde;o dos togados de Bras&iacute;lia e permitiu o uso do Orkut e do You Tube, por exemplo).<\/p>\n<p>O ex-guerrilheiro, atual candidato pelo Partido Verde, entrou na disputa depois de um processo de mobiliza&ccedil;&atilde;o inspirado pela &quot;Conex&atilde;o Obama&quot;. Futuros eleitores come&ccedil;aram a se organizar na internet e a criar comunidades, em sites de relacionamento e blogs. Um dos idealizadores dessa mobiliza&ccedil;&atilde;o foi o blogueiro Pedro D&oacute;ria, vencedor do Bob Awards como o melhor do Brasil em 2005.<\/p>\n<p>No final de maio, o candidato Gabeira foi notificado pela justi&ccedil;a. Ou tirava do ar todas as &quot;propagandas&quot; indevidas ou corria o risco de ter sua candidatura cassada. Ele correu atr&aacute;s de D&oacute;ria, que retirou o banner que estava publicado em seu blog (www.pedrodoria.com.br) e colocou no lugar uma tarja: &quot;censurado&quot;. Um processo de varredura teve in&iacute;cio.<\/p>\n<p>&quot;Nenhum pol&iacute;tico paga por este banner. &Eacute; uma declara&ccedil;&atilde;o de voto pessoal de minha parte. O banner leva a um argumento pela sua candidatura. &Eacute; o meu direito como cidad&atilde;o de manifestar o que penso, qual o caminho que desejo para minha cidade. Ningu&eacute;m deve ser punido porque exerci meu direito de cidad&atilde;o em uma democracia de manifestar minha opini&atilde;o&quot;, escreveu D&oacute;ria no post em que informava sobre a a&ccedil;&atilde;o da justi&ccedil;a.<strong><\/p>\n<p>Segue a disputa<\/strong><\/p>\n<p>Esse foi o estopim. A lista de casos, desde ent&atilde;o, s&oacute; fez se multiplicar e tende a aumentar ainda mais com o avan&ccedil;o do processo eleitoral.<\/p>\n<p>No fim de julho, outros dois candidatos a prefeito de grandes cidades foram cerceados. De coloridos pol&iacute;ticos completamente distintos, o tucano Geraldo Alckmin e a comunista Manuela D&#39;&aacute;vila s&atilde;o dois bons exemplos do que a lei em vigor &eacute; capaz de promover.<\/p>\n<p>No caso de Alckmin, o juiz Marco Antonio Martin Vargas, da 1&ordm; Zona Eleitoral de S&atilde;o Paulo, determinou que fossem retirados do ar v&iacute;deos publicados no You Tube que estavam referenciados em seu site.<\/p>\n<p>Para se ter uma id&eacute;ia do absurdo em compara&ccedil;&atilde;o ao que ocorre atualmente nos Estados Unidos, foi justamente por meio do You Tube que muitos eleitores tomaram parte do processo de mobiliza&ccedil;&atilde;o em torno da figura de Obama. Em especial, de um v&iacute;deo produzido pelo m&uacute;sico do Black Eyed Peas, Will.I.Am, com participa&ccedil;&atilde;o da atriz Scarlet Johanson, no qual eles transformam um &quot;discurso&quot; de Obama em uma &quot;can&ccedil;&atilde;o&quot;. Esse v&iacute;deo, em suas diferentes entradas no site de v&iacute;deos do Google, tem mais de 20 milh&otilde;es de visualiza&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>&Eacute; certo que Alckmin e o senador americano n&atilde;o t&ecirc;m nada em comum. Mas os direitos dos eleitores de ambos os candidatos deveriam ser os mesmos.<\/p>\n<p>Outra v&iacute;tima dessa legisla&ccedil;&atilde;o anacr&ocirc;nica foi a jovem candidata Manuela D&#39;&aacute;vila, jornalista de forma&ccedil;&atilde;o, que surgiu para a pol&iacute;tica justamente usando formas n&atilde;o convencionais de comunica&ccedil;&atilde;o. Sua elei&ccedil;&atilde;o para vereadora, quatro anos atr&aacute;s, mobilizando jovens, a transformou num fen&ocirc;meno eleitoral ga&uacute;cho.<\/p>\n<p>Agora, ela &eacute; candidata do PCdoB &agrave; prefeitura de Porto Alegre e foi obrigada por liminar judicial a retirar do ar uma comunidade do Orkut e um v&iacute;deo do You Tube. A decis&atilde;o foi tomada com base em uma representa&ccedil;&atilde;o feita pelo Minist&eacute;rio P&uacute;blico Eleitoral. A justi&ccedil;a, no entanto, dias depois, voltou atr&aacute;s na decis&atilde;o, embolando ainda mais o meio de campo desse processo.<\/p>\n<p>Na avalia&ccedil;&atilde;o de Amadeu, essa legisla&ccedil;&atilde;o brasileira foi elaborada para evitar que elementos sem chance no mundo dominado pelas empresas de comunica&ccedil;&atilde;o passem a participar do jogo pelo poder. Ou seja, para evitar que uma hist&oacute;ria como a de Barack Obama ocorra por aqui.<\/p>\n<p>&quot;Repare que nenhum partido at&eacute; agora fez um vigoroso protesto contra a Resolu&ccedil;&atilde;o do TSE. Por que? Porque o uso pleno da rede, da interatividade, do twitter, do youtube interessa somente se for para disseminar mensagens e n&atilde;o para interagir, para compartilhar. Pouca gente nas c&uacute;pulas partid&aacute;rias brasileiras v&ecirc;em com bons olhos a comunica&ccedil;&atilde;o sem controle e o debate aberto&quot;, afirma. <\/p>\n<p><em>* Rodrigo Savazoni &eacute; jornalista.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H&aacute; um ano, Barack Obama era apenas um senador em primeiro mandato, negro e jovem, que aspirava concorrer &agrave; vaga de candidato a presidente da maior pot&ecirc;ncia do planeta pelo partido democrata. 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