{"id":21625,"date":"2008-08-05T19:01:06","date_gmt":"2008-08-05T19:01:06","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=21625"},"modified":"2008-08-05T19:01:06","modified_gmt":"2008-08-05T19:01:06","slug":"liberdade-de-expressao-comercial-57-bilhoes-contra-a-cidadania","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=21625","title":{"rendered":"&#8220;Liberdade de express\u00e3o comercial&#8221;:  57 bilh\u00f5es contra a cidadania"},"content":{"rendered":"<p>O professor Ven&iacute;cio A. de Lima escreveu neste Observat&oacute;rio um vigoroso e irretoc&aacute;vel artigo sobre a pretens&atilde;o da auto-denominada ind&uacute;stria da comunica&ccedil;&atilde;o de blindar aquilo que chama de &quot;liberdade de express&atilde;o comercial&quot;. Sugiro a releitura dessa mat&eacute;ria [&quot;Sobre a &quot;liberdade de express&atilde;o comercial&quot;] antes de passar ao par&aacute;grafo seguinte.<\/p>\n<p>Uma &quot;ind&uacute;stria de 57 bilh&otilde;es de reais por ano&quot;, em que pontifica o conjunto das grandes ag&ecirc;ncias de propaganda que atuam no Brasil (contam-se nos dedos as que n&atilde;o s&atilde;o multinacionais), defende a liberdade de dizer ao consumidor brasileiro o que deve consumir e que h&aacute;bitos de consumo conv&eacute;m adotar. Quer colocar-se sob o mesmo guarda-chuva da liberdade de express&atilde;o democr&aacute;tica, t&atilde;o cara &agrave; imprensa. E para conseguir isso n&atilde;o hesitar&aacute; em aplicar o poder de convic&ccedil;&atilde;o daqueles bilh&otilde;es de reais\/ano em tentativas de mudar a Constitui&ccedil;&atilde;o ou criar legisla&ccedil;&atilde;o favor&aacute;vel.<\/p>\n<p>Liberdade de express&atilde;o comercial tem a ver com liberdade de com&eacute;rcio e as restri&ccedil;&otilde;es a essa liberdade n&atilde;o t&ecirc;m nada a ver com censura &agrave; liberdade de express&atilde;o. A legisla&ccedil;&atilde;o municipal de S&atilde;o Paulo, por exemplo, que instituiu o programa Cidade Limpa, &eacute; medida civilizadora, de ordena&ccedil;&atilde;o urbana, e nos protestos que gerou entre os empres&aacute;rios de outdoor n&atilde;o percebi alus&otilde;es &agrave; ofensa a essa liberdade de express&atilde;o comercial.<\/p>\n<p><strong>Existem restri&ccedil;&otilde;es<\/strong><\/p>\n<p>Passei boa parte da minha vida profissional criando an&uacute;ncios e nunca senti tolhida a minha liberdade de cri&aacute;-los, nem mesmo durante a ditadura. Ou melhor, o grande cerceamento a essa peculiar liberdade de express&atilde;o vinha do dono do dinheiro, o anunciante, que pagava o espa&ccedil;o em que eu exercia a minha &quot;liberdade&quot;.<\/p>\n<p>Tal como o deviam fazer todos os meus colegas de profiss&atilde;o bem-sucedidos, habituei-me a censurar a mim mesmo, a s&oacute; dizer aquilo que convinha (ao anunciante), aquilo que poderia &quot;motivar&quot; o p&uacute;blico-alvo. E tratava de diz&ecirc;-lo de modo am&aacute;vel, sem chocar ningu&eacute;m, criando pe&ccedil;as pasteurizadas, por&eacute;m atraentes, que tamb&eacute;m fossem palat&aacute;veis ao dono do neg&oacute;cio, &agrave; ag&ecirc;ncia. Deixei de receber aumentos de sal&aacute;rio quando ousei criar campanhas que a ag&ecirc;ncia nem ousou apresentar ao anunciante.<\/p>\n<p>Eu tinha toda a liberdade de fazer an&uacute;ncio de qualquer produto &ndash; bebida, chiclete, sab&atilde;o, pneu, dentifr&iacute;cio, liquidificador e fortificante. Era s&oacute; o patr&atilde;o mandar e eu fazia. Pedro Mour&atilde;o, ent&atilde;o meu chefe, recusou-se a fazer um an&uacute;ncio para r&aacute;dios Telespark, alegando, por pregui&ccedil;a ou convic&ccedil;&atilde;o, que r&aacute;dio n&atilde;o era mais um produto anunci&aacute;vel. Foi despedido e eu fiz o an&uacute;ncio.<\/p>\n<p>Se ent&atilde;o me fosse confiada a tarefa de criar uma campanha para difundir o consumo de, digamos, uma marca de maconha, devidamente legalizada, tenho a certeza de que a cabe&ccedil;a de publicit&aacute;rio que ent&atilde;o pairava sobre meus ombros conceberia uma campanha brilhante, candidata aos &quot;le&otilde;es&quot; de Cannes. E se o cliente aplicasse na m&iacute;dia uma verba suficiente, nem de longe parecida com os atuais 57 bilh&otilde;es de reais da ind&uacute;stria, a maioria dos brasileiros seria convertida em felizes viciados. Hoje isso j&aacute; n&atilde;o seria poss&iacute;vel, pois existem, sim, restri&ccedil;&otilde;es &agrave; liberdade de express&atilde;o comercial.<\/p>\n<p><strong>Medida &quot;severa e excessiva&quot;<\/strong><\/p>\n<p>Ao reivindicar liberdade de express&atilde;o comercial, a ind&uacute;stria da comunica&ccedil;&atilde;o n&atilde;o pretende conservar ou ampliar a liberdade a que me referi, a liberdade de cria&ccedil;&atilde;o das ag&ecirc;ncias. Ela busca, na verdade, garantir liberdade de a&ccedil;&atilde;o aos interesses dos que gastam 57 bilh&otilde;es reais para consolidar, multiplicar e se &quot;posicionar&quot; nos mercados. O inimigo a abater &eacute;, ent&atilde;o, o poder p&uacute;blico que, em suas v&aacute;rias inst&acirc;ncias, pretende proteger o cidad&atilde;o que existe dentro desses mercados e &eacute; &agrave;s vezes v&iacute;tima das investidas publicit&aacute;rias contra sua sa&uacute;de, bolso, cultura ou integridade.<\/p>\n<p>A ind&uacute;stria instituiu o Conselho de Auto-Regulamenta&ccedil;&atilde;o Publicit&aacute;ria (Conar) para coibir abusos, praticando a auto-regulamenta&ccedil;&atilde;o, e o considera bastante. Em seu artigo,. Ven&iacute;cio Lima d&aacute; um expressivo exemplo de defici&ecirc;ncia dessa auto-regulamenta&ccedil;&atilde;o e de descumprimento da lei.<\/p>\n<p>A resist&ecirc;ncia a normas e regulamentos que restringem a express&atilde;o publicit&aacute;ria n&atilde;o &eacute; monop&oacute;lio nacional. Veja s&oacute; o que acontece na civilizada Europa. A Comiss&atilde;o Europ&eacute;ia pretende obrigar a ind&uacute;stria automobil&iacute;stica a reservar 20% do espa&ccedil;o de cada an&uacute;ncio de carro para que o poss&iacute;vel comprador seja informado sobre a quantidade de di&oacute;xido de carbono que aquele modelo despeja na atmosfera. Trata-se de mais uma etapa de uma ofensiva continental para diminuir as emiss&otilde;es de CO2.<\/p>\n<p>Segundo o El Pa&iacute;s (23\/7), os autom&oacute;veis respondem na Europa por 12% dessas emiss&otilde;es. Entretanto, a ind&uacute;stria automobil&iacute;stica se op&otilde;e &agrave; medida. Para Fernando Acebr&oacute;n, diretor da Associa&ccedil;&atilde;o Espanhola de Fabricantes de Autom&oacute;veis, a imposi&ccedil;&atilde;o &eacute; &quot;muito severa e excessiva&quot;. Disse textualmente: &quot;Limita a capacidade criativa e a liberdade do an&uacute;ncio, que n&atilde;o deve estar centrado em informar, e sim em ser atraente&quot;.<\/p>\n<p><strong>Ofensiva ecol&oacute;gica<\/strong><\/p>\n<p>De acordo com o jornal, a ind&uacute;stria que mais gasta em propaganda na Espanha &eacute; a automobil&iacute;stica: 913 milh&otilde;es de euros em 2007. Por isso, os anunciantes tamb&eacute;m est&atilde;o inquietos com as inten&ccedil;&otilde;es do governo europeu. &quot;Regulamentar a publicidade n&atilde;o ir&aacute; solucionar o problema&quot;, afirma Carlos Lema, assessor jur&iacute;dico da Associa&ccedil;&atilde;o Espanhola de Anunciantes. &quot;S&oacute; vai tornar os an&uacute;ncios mais caros.&quot; E acrescenta: &quot;At&eacute; agora, a ind&uacute;stria demonstrou um comportamento respons&aacute;vel, obedecendo a uma f&eacute;rrea auto-regulamenta&ccedil;&atilde;o&quot;.<\/p>\n<p>Mais c&acirc;ndida no rep&uacute;dio &agrave; obriga&ccedil;&atilde;o de informar nos an&uacute;ncios a quantidade de CO2 emitida pelos carros, outra corpora&ccedil;&atilde;o, a Associa&ccedil;&atilde;o dos Construtores Espanh&oacute;is de Autom&oacute;veis, declara que &quot;corre-se o risco de desmotivar os compradores de ve&iacute;culos. Al&eacute;m disso, a publicidade &eacute; uma importante fonte de receita para a m&iacute;dia e um dos pilares da liberdade de imprensa&quot;.<\/p>\n<p>O consumidor espanhol, que n&atilde;o &eacute; bobo, n&atilde;o esperou os an&uacute;ncios com a &quot;atraente&quot; informa&ccedil;&atilde;o sobre a quantidade de CO2 emitida pelos carros. Desde janeiro, os &uacute;nicos carros que registraram aumento de vendas (32%!) s&atilde;o aqueles que emitem menos de 120 g\/km.Todos os demais tiveram queda de vendas. Os carr&otilde;es e os 4&#215;4 venderam 44% menos. A raz&atilde;o foi menos o amor &agrave; natureza e mais o amor ao bolso: tamb&eacute;m desde janeiro os carros menos poluidores gozam de isen&ccedil;&atilde;o do Impuesto de Imatriculaci&oacute;n, equivalente ao nosso IPVA.<\/p>\n<p>N&atilde;o sei se Ven&iacute;cio Lima e eu estamos gastando demasiada tinta com este assunto. A ind&uacute;stria da comunica&ccedil;&atilde;o n&atilde;o ser&aacute; t&atilde;o retr&oacute;grada, t&atilde;o reacion&aacute;ria, diante dos ainda t&iacute;midos avan&ccedil;os civilizat&oacute;rios que v&ecirc;m acontecendo no nosso pa&iacute;s. E, a prop&oacute;sito de gastar tinta, tenho conhecimento de que o pr&oacute;ximo lance da Uni&atilde;o Europ&eacute;ia na sua ofensiva ecol&oacute;gica ser&aacute; compelir todos os produtos de consumo a estamparem nos seus r&oacute;tulos a quantidade de poluentes liberados no seu ciclo de produ&ccedil;&atilde;o. Cosm&eacute;ticos, refrigerantes, alimentos industrializados e tudo mais, inclusive os cartuchos de tinta, dever&atilde;o informar ao consumidor qual &eacute; o lixo criado por eles desde a mat&eacute;ria-prima at&eacute; o descarte dos res&iacute;duos finais. E as ind&uacute;strias parecem estar de acordo.<\/p>\n<p><em>* <span class=\"art_autor\">Carlos H. Knapp &eacute; comunic&oacute;logo. <\/span><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O professor Ven&iacute;cio A. de Lima escreveu neste Observat&oacute;rio um vigoroso e irretoc&aacute;vel artigo sobre a pretens&atilde;o da auto-denominada ind&uacute;stria da comunica&ccedil;&atilde;o de blindar aquilo que chama de &quot;liberdade de express&atilde;o comercial&quot;. Sugiro a releitura dessa mat&eacute;ria [&quot;Sobre a &quot;liberdade de express&atilde;o comercial&quot;] antes de passar ao par&aacute;grafo seguinte. 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