{"id":21624,"date":"2008-08-05T18:54:03","date_gmt":"2008-08-05T18:54:03","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=21624"},"modified":"2014-09-07T02:56:28","modified_gmt":"2014-09-07T02:56:28","slug":"omc-doha-e-a-comunicacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=21624","title":{"rendered":"OMC, Doha e a Comunica\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>Muito se tem escrito sobre o recente fracasso da Rodada de Doha da Organiza&ccedil;&atilde;o Mundial de Com&eacute;rcio (OMC). Quase todas as an&aacute;lises dedicam-se a saber se o Brasil agiu certo ou n&atilde;o ao romper com o G-20 (grupo de pa&iacute;ses ditos &ldquo;em desenvolvimento&rdquo;, integrado por, entre outros, &Iacute;ndia, China, &Aacute;frica do Sul, Egito, Argentina, M&eacute;xico, Turquia, Venezuela e Nig&eacute;ria) e aceitar a t&iacute;mida proposta norte-americana de redu&ccedil;&atilde;o de subs&iacute;dios agr&iacute;colas. Com certeza, a a&ccedil;&atilde;o brasileira foi uma surpresa por contrariar a pol&iacute;tica do governo Lula nos &uacute;ltimos 5 anos e deixar&aacute; seq&uuml;elas entre os antigos aliados. Pior ainda foi ter que sair de m&atilde;os abanando ao ver a rodada fracassar.<\/p>\n<p>Mas o que pouco se discute &eacute; sobre a corre&ccedil;&atilde;o ou n&atilde;o da pauta brasileira na mesa de negocia&ccedil;&otilde;es. Antes de saber se a estrat&eacute;gia adotada foi a mais correta, cabe indagar se o Brasil est&aacute; defendendo os temas corretos.<\/p>\n<p>Se &eacute; verdade que, at&eacute; esta recente negocia&ccedil;&atilde;o, o governo Lula vinha se portando de uma maneira menos subordinada ao interesse das grandes pot&ecirc;ncias do que o governo FHC, tamb&eacute;m &eacute; fato que a pauta brasileira continua marcada por dois tra&ccedil;os que se somam.<\/p>\n<p>Por um lado, trata-se de diminuir as barreiras &agrave;s exporta&ccedil;&otilde;es do agroneg&oacute;cio nacional, cada vez mais controlado pelos investimentos do setor financeiro. Ao fortalecer o agroneg&oacute;cio exportador o governo Lula consegue, de uma s&oacute; vez, prejudicar a agricultura familiar, aumentar o &ecirc;xodo rural e incentivar o desmatamento.<\/p>\n<p>De outro lado, o governo Lula oferece como contrapartida a abertura do mercado interno na ind&uacute;stria e no setor de servi&ccedil;os. Essa pauta atende aos interesses de amplos setores da burguesia nacional, que se organizam como representantes locais de interesses transnacionais. Para estes setores, quanto maior a abertura da economia nacional, maiores as chances de operarem localmente em associa&ccedil;&atilde;o com seus s&oacute;cios estrangeiros.<\/p>\n<p>Esta abertura indiscriminada fica evidente no relat&oacute;rio do chairman da negocia&ccedil;&atilde;o, Fernando de Mateo, citado em nota cr&iacute;tica divulgada por v&aacute;rias entidades brasileiras (<a href=\"http:\/\/localhost\/intervozes_direitoacomunicacao\/wordpress\/?p=19902\">dispon&iacute;vel no site da Rebrip<\/a> ): &ldquo;<em>there shall be no a priori exclusion of any service sector or mode of supply. Respecting the existing structure and principles of the GATS, Members shall, to the maximum extent possible, respond to the bilateral and plurilateral requests by offering deeper and\/or wider commitments<\/em>&rdquo;. (&quot;N&atilde;o haver&aacute; nenhuma exclus&atilde;o a priori de qualquer setor de servi&ccedil;o ou modos de presta&ccedil;&atilde;o de servi&ccedil;os. Em respeito &agrave; atual estrutura e aos princ&iacute;pios do GATS [tratado sobre o com&eacute;rcio de servi&ccedil;os], os pa&iacute;ses-membros devem responder &agrave;s demandas bilaterais ou plurilaterais fazendo, at&eacute; o m&aacute;ximo poss&iacute;vel, ofertas mais profundas e\/ou extensas.&quot; &#8211; em tradu&ccedil;&atilde;o livre)<\/p>\n<p>O mais tr&aacute;gico &eacute; que o governo Lula oferece, em troca das exporta&ccedil;&otilde;es do agroneg&oacute;cio, justamente os setores mais din&acirc;micos e lucrativos da economia contempor&acirc;nea. No campo espec&iacute;fico da comunica&ccedil;&atilde;o, um eventual sucesso da Rodada de Doha poderia ter tr&ecirc;s impactos diretos.<\/p>\n<p><strong>Micro-eletr&ocirc;nica e softwares<\/strong><\/p>\n<p>Com anos de atraso, o governo anuncia que, em 2009, a primeira foundry da Am&eacute;rica Latina, o Ceitec, estar&aacute; pronta. Foundries s&atilde;o as complexas f&aacute;bricas que confeccionam chips.<\/p>\n<p>Mas, de que adianta esse esfor&ccedil;o se a pol&iacute;tica industrial (www.desenvolvimento.gov.br\/pdp) n&atilde;o prev&ecirc; nenhum destaque para a produ&ccedil;&atilde;o nacional de micro-eletr&ocirc;nica? A implanta&ccedil;&atilde;o da TV digital e a prevista compra da Brasil Telecom pela Oi, por exemplo, seriam duas grandes oportunidades para o governo usar a for&ccedil;a do mercado interno como alavancadora da produ&ccedil;&atilde;o de chips.<\/p>\n<p>Para piorar, uma foundry depende dos servi&ccedil;os realizados pelas empresas que fazem o design dos chips. E &eacute; justamante o setor de servi&ccedil;os que o governo oferece em troca do sucesso do agroneg&oacute;cio exportador. Assim, um eventual sucesso da Rodada de Doha teria servido para liquidar as chances de uma pol&iacute;tica de incentivos &agrave; nascente ind&uacute;stria nacional de semi-condutores.<\/p>\n<p>E apenas em 2007, o Brasil pagou a outros pa&iacute;ses R$ 3,4 bilh&otilde;es por conta do seu consumo de chips importados.<\/p>\n<p>Pelo mesmo racioc&iacute;nio, uma libera&ccedil;&atilde;o do setor de servi&ccedil;os deixaria o pa&iacute;s vulner&aacute;vel &agrave; um pedido de abertura de painel na OMC se o governo resolvesse estimular a ind&uacute;stria nacional de softwares, usando, por exemplo, seu pr&oacute;prio poder de compra.<\/p>\n<p><strong>Audiovisual<\/strong><\/p>\n<p>Enquanto perduram os impasses na OMC, principalmente os Estados Unidos t&ecirc;m usado a for&ccedil;a de sua economia para for&ccedil;ar a assinatura de acordos bilaterais. Uma an&aacute;lise mais detalhada destes acordos permite constatar qual a verdadeira pauta norte-americana, que nem sempre aparece t&atilde;o nitidamente em um cen&aacute;rio multilateral.<\/p>\n<p>Em todos os acordos bilaterais um dos itens de maior destaque &eacute; a libera&ccedil;&atilde;o do setor audiovisual. Com isso, o pa&iacute;s em quest&atilde;o perde a possibilidade de impor cotas de tela, investir recursos do Estado ou estimular a ren&uacute;ncia fiscal para a produ&ccedil;&atilde;o, distribui&ccedil;&atilde;o e exibi&ccedil;&atilde;o de conte&uacute;dos nacionais. Ora, sem estes tr&ecirc;s elementos, praticamente nenhum filme brasileiro teria sido feito desde 2003 (o ano da &ldquo;retomada&rdquo;).<\/p>\n<p><strong>Propriedade intelectual<\/strong><\/p>\n<p>Mais uma prova das contradi&ccedil;&otilde;es da pol&iacute;tica externa brasileira &eacute; perceber que o pa&iacute;s &eacute; o mais importante signat&aacute;rio da chamada &ldquo;Agenda para o desenvolvimento&rdquo;, na Organiza&ccedil;&atilde;o Mundial de Propriedade Intelectual (OMPI), e, ao mesmo tempo, permite que a Rodada de Doha da OMC coloque na pauta a revis&atilde;o do TRIPS (Acordo sobre Medidas de Propriedade Intelectual Relacionadas ao Com&eacute;rcio), que pode significar press&otilde;es ainda maiores para a criminaliza&ccedil;&atilde;o do peer-to-peer e para a libera&ccedil;&atilde;o do uso do DRM (duas das principais bandeiras de Hollywood e da ind&uacute;stria fonogr&aacute;fica).<\/p>\n<p>Com a pauta do governo Lula simultaneamente subordinada ao agroneg&oacute;cio exportador e &agrave; ind&uacute;stria de ponta transnacional, o fracasso da Rodada de Doha acabou sendo um bom neg&oacute;cio para a maioria dos brasileiros. Em rela&ccedil;&atilde;o ao direito humano &agrave; comunica&ccedil;&atilde;o, os estragos de um eventual &ldquo;sucesso&rdquo; de Doha seriam consider&aacute;veis.<\/p>\n<p>Portanto, n&atilde;o cabe apenas uma reavalia&ccedil;&atilde;o da estrat&eacute;gia adotada nas negocia&ccedil;&otilde;es, mas, principalmente, uma profunda discuss&atilde;o sobre a pauta brasileira e quem ganha e quem perde com ela.<font class=\"padrao\"><em><\/p>\n<p>* Gustavo Gindre &eacute; integrante do Intervozes &#8211; Coletivo Brasil de Comunica&ccedil;&atilde;o Social, coordenador acad&ecirc;mico do Nupef\/RITS e membro eleito do Comit&ecirc; Gestor da Internet no Brasil (CGIbr).<\/em><\/font><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Muito se tem escrito sobre o recente fracasso da Rodada de Doha da Organiza&ccedil;&atilde;o Mundial de Com&eacute;rcio (OMC). Quase todas as an&aacute;lises dedicam-se a saber se o Brasil agiu certo ou n&atilde;o ao romper com o G-20 (grupo de pa&iacute;ses ditos &ldquo;em desenvolvimento&rdquo;, integrado por, entre outros, &Iacute;ndia, China, &Aacute;frica do Sul, Egito, Argentina, M&eacute;xico, &hellip; <a href=\"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=21624\" class=\"more-link\">Continue lendo <span class=\"screen-reader-text\">OMC, Doha e a Comunica\u00e7\u00e3o<\/span> <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[363],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/21624"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=21624"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/21624\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":27895,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/21624\/revisions\/27895"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=21624"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=21624"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=21624"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}