{"id":21571,"date":"2008-07-25T12:25:24","date_gmt":"2008-07-25T12:25:24","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=21571"},"modified":"2008-07-25T12:25:24","modified_gmt":"2008-07-25T12:25:24","slug":"brt-oi-entre-o-discurso-e-a-realidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=21571","title":{"rendered":"BrT-Oi: entre o discurso e a realidade"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"padrao\" align=\"justify\"><span class=\"padrao\">Muito se tem falado  sobre os benef&iacute;cios advindos da compra da Brasil Telecom pela Oi. Mas,  a verdade &eacute; que at&eacute; agora n&atilde;o foi apresentado nenhum estudo s&eacute;rio  que comprove tais benef&iacute;cios. Estamos ainda no campo da pura opini&atilde;o.  Em parte, esta falta de dados concretos se explica pelo comportamento  do pr&oacute;prio &oacute;rg&atilde;o regulador, que at&eacute; hoje mant&eacute;m o pa&iacute;s numa escassez  quase absoluta de informa&ccedil;&otilde;es. Por exemplo, n&atilde;o existe um modelo  que consiga identificar exatamente qual o custo real das operadoras.  Como &eacute; poss&iacute;vel regular um mercado se n&atilde;o se conhece seus custos?<\/span><span class=\"padrao\"> <\/p>\n<p>Qualquer defesa s&eacute;ria  da compra da BrT pela Oi teria que necessariamente partir de uma cr&iacute;tica  ao processo de privatiza&ccedil;&atilde;o do Sistema Telebr&aacute;s e &agrave; consequente  aprova&ccedil;&atilde;o da Lei Geral de Telecomunica&ccedil;&otilde;es (LGT). Naquele momento,  circulou no pa&iacute;s uma proposta que aceitava a privatiza&ccedil;&atilde;o da Telebr&aacute;s,  mas pedia que n&atilde;o houvesse seu desmembramento e que o capital nacional  fosse mantido no controle da operadora. O governo FHC, por&eacute;m, preferiu  fatiar a Telebr&aacute;s e escancarou o mercado brasileiro para a chegada  de gigantes estrangeiros.<\/span><span class=\"padrao\"> <\/p>\n<p>Portanto, quando hoje  se fala na cria&ccedil;&atilde;o de uma supertele nacional, ela deveria vir precedida  da revis&atilde;o do marco regulat&oacute;rio p&oacute;s-privatiza&ccedil;&atilde;o porque foi justamente  este processo que impediu, ainda em 1997, o surgimento desta supertele.  E aqui come&ccedil;am os problemas. O Minist&eacute;rio das Comunica&ccedil;&otilde;es (Minicom)  solicitou &agrave; Ag&ecirc;ncia Nacional de Telecomunica&ccedil;&otilde;es (Anatel) apenas  a mudan&ccedil;a do Plano Geral de Outorgas (PGO) para permitir a compra da  BrT pela Oi. Tratava-se claramente de uma mudan&ccedil;a de ocasi&atilde;o. Constrangida,  a Anatel resolveu adendar uma s&eacute;rie de propostas que visam aperfei&ccedil;oar  o atual modelo regulat&oacute;rio. Mas, ao inv&eacute;s de vir antes do PGO, tais  mudan&ccedil;as vir&atilde;o depois, quando a concentra&ccedil;&atilde;o j&aacute; ser&aacute; fato consumado.<\/span><span class=\"padrao\"> <\/p>\n<p>Com essa supertele,  seus defensores dizem que o poderemos ter impactos positivos no desenvolvimento  industrial. Ora, no m&ecirc;s de maio de 2008, depois do Minicom j&aacute; ter  solicitado &agrave; Anatel a mudan&ccedil;a do PGO, o governo federal divulgou a  Pol&iacute;tica de Desenvolvimento Produtivo <span class=\"padrao\">(PDP &#8211; <a href=\"http:\/\/www.mdic.gov.br\/pdp\">www.mdic.gov.br\/pdp<\/a> ) <\/span><\/span><span class=\"padrao\">que define os objetivos, as metas e as estrat&eacute;gias  da pol&iacute;tica industrial brasileira e em nenhum momento se discute o  impacto que esse supertele poderia representar. N&atilde;o h&aacute; uma &uacute;nica  palavra sobre como seu poder de compra poderia alavancar a ind&uacute;stria  brasileira, especialmente nos setores de software e micro-eletr&ocirc;nica,  que s&atilde;o setores transversais a quase toda a economia contempor&acirc;nea.  Tamb&eacute;m n&atilde;o se prev&ecirc; a articula&ccedil;&atilde;o que existia nos tempos do Sistema  Telebr&aacute;s entre universidades, centros de pesquisa e empresas brasileiras.  Tampouco o governo mencionou que a compra da BrT pela Oi ter&aacute; algum  tipo de exig&ecirc;ncia de compras nacionais. Sem estas garantias, a tend&ecirc;ncia  &eacute; que a supertele continue comprando tecnologia dos grandes fornecedores  internacionais, como Nokia, Siemens, Motorola, Nortel, NEC, etc.<\/span><span class=\"padrao\"> <\/p>\n<p>A privatiza&ccedil;&atilde;o do  Sistema Telebr&aacute;s representou uma dr&aacute;stica mudan&ccedil;a na composi&ccedil;&atilde;o  da m&atilde;o-de-obra das operadoras de telecomunica&ccedil;&otilde;es. Antes detentoras  de um corpo funcional altamente especializado, hoje s&atilde;o formadas, em  sua maioria, por atentedentes de telemarketing e profissionais tercerizados.  A compra da BrT pela Oi n&atilde;o prev&ecirc; a mudan&ccedil;a desse cen&aacute;rio e, pelo  contr&aacute;rio, as prov&aacute;veis sinergias tendem a indicar um cen&aacute;rio de  demiss&otilde;es, como se verifica facilmente em outras fus&otilde;es deste porte.<\/span><span class=\"padrao\"> <\/p>\n<p>Um dos argumentos a  favor da compra &eacute; a possibilidade desta supertele expandir suas opera&ccedil;&otilde;es  para outros pa&iacute;ses, especialmente na Am&eacute;rica Latina e &Aacute;frica. Mas,  o mercado latino-americano vive hoje o final de um processo de consolida&ccedil;&atilde;o  que praticamente o colocou sob um duop&oacute;lio privado, formado por Telefonica  de Espa&ntilde;a e Telmex. H&aacute; pouco espa&ccedil;o para crescer por aquisi&ccedil;&otilde;es  e come&ccedil;ar do zero &eacute; uma op&ccedil;&atilde;o muito mais lenta e custosa. E quais  estudos existem sobre a possibilidade desta tele no mercado africano?  At&eacute; agora n&atilde;o se viu nenhum&#8230;<\/span><span class=\"padrao\"> <\/p>\n<p>A compra n&atilde;o prev&ecirc;  que os novos s&oacute;cios majorit&aacute;rios ter&atilde;o qualquer impedimento para,  no futuro, vender a empresa para estrangeiros. A construtora Andrade  Gutierrez e o dono de shopping centers Carlos Jereissati podem, em alguns  anos, decidir que seu investimento j&aacute; sofreu a valoriza&ccedil;&atilde;o esperada  e que &eacute; hora de encontrar um bom comprador estrangeiro. No modelo atual  da compra da Br pela Oi, n&atilde;o haveria nada que o governo pudesse fazer  para evitar a venda e o discurso da empresa nacional escorreria pelo  ralo.<\/span><span class=\"padrao\"> <\/p>\n<p>No Brasil de hoje,  apenas 17% dos domic&iacute;lios, segundo dados do Comit&ecirc; Gestor da Internet  (CGIbr), possuem acesso &agrave; Internet. O telefone fixo convive com taxas  decrescentes de uso. E o aparente sucesso da telefonica celular esconde  o fato de que 81% da base de assinantes &eacute; composta por planos pr&eacute;-pagos  e que o consumo mensal per capita s&oacute; tem ca&iacute;do. Em um pa&iacute;s com os  n&iacute;veis de desigualdade do Brasil, fica claro que o mercado jamais conseguir&aacute;  dar conta de universalizar qualquer tipo de servi&ccedil;o, inclusive as telecomunica&ccedil;&otilde;es.  Entretanto, a compra da BrT pela Oi n&atilde;o vir&aacute; acompanhada de nenhuma  pol&iacute;tica que coloque a empresa a servi&ccedil;o da inclus&atilde;o digital. O resultado  esperado deve ser justamente o contr&aacute;rio.<\/span><span class=\"padrao\"> <\/p>\n<p>Primeiro, porque a  redu&ccedil;&atilde;o da participa&ccedil;&atilde;o acion&aacute;ria do Estado (atrav&eacute;s do Banco  do Brasil, dos fundos de pens&atilde;o de estatais e do BNDES) tende a diminuir  a capacidade do governo de influenciar a condu&ccedil;&atilde;o desta supertele.  Segundo, porque n&atilde;o se fala em nenhum tipo de contrapartida contratual  perante a fus&atilde;o.<\/span><span class=\"padrao\"> <\/p>\n<p>Terceiro, porque a  empresa resultante da compra da BrT pela Oi ter&aacute; o monop&oacute;lio da infra-estrutura  de backhaul em 26 estados, bem como controlar&aacute; a &uacute;ltima milha da telefonia  fixa (e do acesso DSL &agrave; Internet) em 4.852 dos 5.561 munic&iacute;pios brasileiros.  Sem um modelo de custos por parte do &oacute;rg&atilde;o regulador e sem nenhuma  salvaguarda legal e\/ou contratual, este monop&oacute;lio privado ter&aacute; o poder  de ditar os pre&ccedil;os da telefonia fixa e do acesso &agrave; Internet em quase  todo o territ&oacute;rio brasileiro.<\/span><span class=\"padrao\"> <\/span><\/p>\n<p>Em princ&iacute;pio, como  j&aacute; se afirmava em 1997, a cria&ccedil;&atilde;o de uma supertele nacional poderia  ser interessante para o pa&iacute;s. Da forma como vem sendo conduzida, entretanto,  beneficia apenas seus poucos s&oacute;cios privados.<\/p>\n<p><font class=\"padrao\"><em>* Gustavo Gindre &eacute; integrante do Intervozes &#8211; Coletivo Brasil de Comunica&ccedil;&atilde;o Social, coordenador acad&ecirc;mico do Nupef\/RITS e membro eleito do Comit&ecirc; Gestor da Internet no Brasil (CGIbr).<\/em><\/font><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Muito se tem falado sobre os benef&iacute;cios advindos da compra da Brasil Telecom pela Oi. Mas, a verdade &eacute; que at&eacute; agora n&atilde;o foi apresentado nenhum estudo s&eacute;rio que comprove tais benef&iacute;cios. Estamos ainda no campo da pura opini&atilde;o. 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