{"id":21569,"date":"2008-07-24T14:04:25","date_gmt":"2008-07-24T14:04:25","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=21569"},"modified":"2008-07-24T14:04:25","modified_gmt":"2008-07-24T14:04:25","slug":"democracia-e-pl-29-nada-a-ver","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=21569","title":{"rendered":"Democracia e PL-29, nada a ver"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"padrao\"><\/p>\n<p>Ap&oacute;s o fim do regime tir&acirc;nico de Pis&iacute;strato e de seus dois filhos, Hiparco e H&iacute;pias, por volta de 550 a.C., os regimes aristocr&aacute;tico, mon&aacute;rquico e olig&aacute;rquico em Atenas estavam enfraquecidos. O povo, ent&atilde;o, deu poderes ao novo l&iacute;der, Cl&iacute;stenes, para a elabora&ccedil;&atilde;o de uma nova Constitui&ccedil;&atilde;o que, por sua vez, instituiu algo in&eacute;dito: a democracia, um regime governado diretamente pelo povo.<\/p>\n<p>O termo democracia vem do grego <em>demos<\/em>, povo, e <em>kratein<\/em>, governo. O governo do povo ateniense evoluiu da assembl&eacute;ia (<em>ecl&eacute;sia<\/em>), realizada em pra&ccedil;a p&uacute;blica (<em>&aacute;gora<\/em>) com a presen&ccedil;a dos cidad&atilde;os, &agrave; moderna democracia representativa, onde a popula&ccedil;&atilde;o elege representantes para decidirem os rumos do governo em seu nome. Esta mudan&ccedil;a se deve principalmente pelo desenvolvimento das <em>polis<\/em> e crescimento do n&uacute;mero de eleitores, impulsionado pelo sufr&aacute;gio universal.<\/p>\n<p>Na Constitui&ccedil;&atilde;o da Rep&uacute;blica Federativa do Brasil de 1988, a Assembl&eacute;ia Constituinte se declara, ainda no pre&acirc;mbulo, representante do povo brasileiro com o objetivo de instituir, atrav&eacute;s daquela Constitui&ccedil;&atilde;o, um Estado Democr&aacute;tico. O par&aacute;grafo &uacute;nico do art. 1&ordm; afirma que todo poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou de forma direta.<\/p>\n<p><strong>Proposi&ccedil;&otilde;es de diferentes esp&eacute;cies<\/strong><\/p>\n<p>Dito isso, n&atilde;o resta d&uacute;vida que no Brasil adotamos a Rep&uacute;blica atrav&eacute;s da democracia representativa e nossos representantes, escolhidos atrav&eacute;s de processo eleitoral, t&ecirc;m por fun&ccedil;&atilde;o exercer o poder originado no pr&oacute;prio cidad&atilde;o.<\/p>\n<p>Nos &uacute;ltimos um ano e meio, a C&acirc;mara dos Deputados brasileira discute um projeto de lei, o PL-29\/2007. Este projeto disp&otilde;e, basicamente, sobre a comunica&ccedil;&atilde;o audiovisual de acesso condicionado, mais comumente chamado de TV por assinatura; re&uacute;ne em apenas uma lei todas as formas de TV por assinatura (cabo, MMDS, TVA, sat&eacute;lite e DTH) e cria regras para a produ&ccedil;&atilde;o, programa&ccedil;&atilde;o, empacotamento e distribui&ccedil;&atilde;o do conte&uacute;do no setor.<\/p>\n<p>O deputado Paulo Bornhausen (PFL-SC) apresentou o projeto em plen&aacute;rio no dia 5 de fevereiro de 2007. At&eacute; o dia 9 de julho de 2008, o PL j&aacute; passou por quatro substitutivos, um do deputado Jorge Bittar (PT-RJ) e tr&ecirc;s do deputado Wellington Fagundes (PR-MT); 1<strong>77<\/strong> emendas sobre os substitutivos pela CCTCI (Comiss&atilde;o de Ci&ecirc;ncia e Tecnologia, Comunica&ccedil;&atilde;o e Inform&aacute;tica) e CDEIC (Comiss&atilde;o de Desenvolvimento Econ&ocirc;mico, Ind&uacute;stria e Com&eacute;rcio); 37<strong> <\/strong>emendas feitas pelas CCTCI e CDEIC; e 11 requerimentos (redistribui&ccedil;&atilde;o, apensa&ccedil;&atilde;o, audi&ecirc;ncia, recurso).<\/p>\n<p>De 4 a 11 de setembro de 2007, a C&acirc;mara dos Deputados discutiu o pedido do deputado dr. Ubiali de tramitar o PL 29\/2007 juntamente ao PL 1631\/2007. O pedido foi negado &quot;pois as proposi&ccedil;&otilde;es s&atilde;o de diferentes esp&eacute;cies&quot; (o PL 1631 fala sobre o Fundo Nacional de Desenvolvimento Cient&iacute;fico e Tecnol&oacute;gico, FNDCT, de natureza puramente cont&aacute;bil e com objetivo de financiar a pesquisa e inova&ccedil;&atilde;o &ndash; realmente, bastante importante, mas n&atilde;o combina com uma discuss&atilde;o sobre regula&ccedil;&atilde;o de transmiss&atilde;o televisiva).<\/p>\n<p><strong>A l&oacute;gica capitalista<\/strong><\/p>\n<p>Mais recentemente, o deputado Cezar Silvestri (PPS-PR) solicitou que o projeto fosse apreciado tamb&eacute;m pela Comiss&atilde;o de Defesa do Consumidor. Sendo que este pedido j&aacute; havia sido feito e retirado em abril de 2008.<\/p>\n<p>Toda solicita&ccedil;&atilde;o, seja pedido de redistribui&ccedil;&atilde;o ou an&aacute;lise, leva tempo para ser julgada; por isso, qualquer pedido tem que ser avaliado antes de solicitado oficialmente. Infelizmente, o processo burocr&aacute;tico usado para transparecer o m&eacute;todo democr&aacute;tico de tramita&ccedil;&atilde;o de um projeto de lei na C&acirc;mara &eacute; usado como instrumento protelat&oacute;rio pelos grupos contr&aacute;rios.<\/p>\n<p>E que grupos s&atilde;o esses? Visivelmente, os radiodifusores e as empresas de TV por assinatura (Abert e ABTA). A press&atilde;o com que atuam sobre os deputados &eacute; extremamente forte e eficaz. Seus motivos tamb&eacute;m s&atilde;o claros: defendem um modelo de neg&oacute;cios h&aacute; muito tempo lucrativo e livre de regulamenta&ccedil;&atilde;o. Qualquer insinua&ccedil;&atilde;o de cria&ccedil;&atilde;o de leis que limitem sua liberdade &eacute; combatida ferozmente atrav&eacute;s de press&otilde;es pol&iacute;ticas e da influ&ecirc;ncia sobre as massas, atrav&eacute;s de propagandas incompletas sobre o que est&aacute; acontecendo no governo (aquele comercial da ABTA foi rid&iacute;culo).<\/p>\n<p>No entanto, n&atilde;o podemos crucificar os empres&aacute;rios. Seus motivos contr&aacute;rios &agrave; aprova&ccedil;&atilde;o do projeto de lei est&atilde;o de acordo com a l&oacute;gica capitalista com que sempre dirigiram seus neg&oacute;cios. A defesa do mercado j&aacute; conquistado &eacute; uma rea&ccedil;&atilde;o normal e previs&iacute;vel. Apesar de a transmiss&atilde;o televisiva ser uma concess&atilde;o p&uacute;blica, as emissoras s&atilde;o privadas e, como qualquer empresa, visam ao lucro.<\/p>\n<p><strong>Divulga&ccedil;&atilde;o independente<\/strong><\/p>\n<p>Esta resist&ecirc;ncia &agrave; cria&ccedil;&atilde;o de novos paradigmas que envolvam os radiodifusores n&atilde;o &eacute; exclusividade da PL -29. Toda a discuss&atilde;o sobre a implanta&ccedil;&atilde;o da transmiss&atilde;o digital de televis&atilde;o no Brasil foi guiada por interesses comerciais das emissoras de TV aberta (al&eacute;m das empresas de eletr&ocirc;nicos), que fizeram de tudo para manter o antigo modelo econ&ocirc;mico ao mesmo tempo em que divulgaram para a popula&ccedil;&atilde;o uma revolu&ccedil;&atilde;o no modo de assistir televis&atilde;o. No fim, a televis&atilde;o digital brasileira n&atilde;o passa de anal&oacute;gica com enfeites.<\/p>\n<p>Mesmo assim, os radiodifusores n&atilde;o podem ser exclu&iacute;dos da discuss&atilde;o. Entretanto, n&atilde;o podem ser os &uacute;nicos ouvidos. O conceito de democracia possui princ&iacute;pios como igualdade, participa&ccedil;&atilde;o e liberdade. Todos t&ecirc;m o direito de participar: empres&aacute;rios, agentes sociais, cidad&atilde;os, te&oacute;ricos, especialistas&#8230; E a opini&atilde;o de todos deve ser aceita e igualmente valorizada. A interpreta&ccedil;&atilde;o dos radiodifusores &eacute; voltada para interesses pr&oacute;prios, e n&atilde;o da popula&ccedil;&atilde;o, ent&atilde;o por que seguir estritamente o que dizem? Ideal &eacute; valorizar tamb&eacute;m a vis&atilde;o n&atilde;o-mercadol&oacute;gica, dar espa&ccedil;o para a sociedade civil se manifestar e atribuir o real valor &agrave; sua an&aacute;lise (n&atilde;o adianta nada pedir um relat&oacute;rio e ignor&aacute;-lo).<\/p>\n<p>Chega a ser rid&iacute;cula a situa&ccedil;&atilde;o quando, para dar prosseguimento ao processo, os deputados usam como trunfo o apoio de grandes radiodifusores e sua esfera de influ&ecirc;ncia midi&aacute;tica. A comunica&ccedil;&atilde;o &eacute; parte de um Estado democr&aacute;tico e o acesso &agrave; informa&ccedil;&atilde;o, antes de ser constitucional, &eacute; garantia mundial e explicitamente definida na Declara&ccedil;&atilde;o Universal dos Direitos dos Homens, de 1948. A divulga&ccedil;&atilde;o do projeto deve ser feita independente da aceita&ccedil;&atilde;o da m&iacute;dia. Obviamente, estou sendo inocente neste momento em considerar que isso poderia acontecer&#8230;<\/p>\n<p><strong>Os interesses da maioria<\/strong><\/p>\n<p>Globo, Band, SBT e companhia comparecem em peso &agrave;s comiss&otilde;es e fazem de tudo para convencer os deputados sobre seus interesses. E, pior, conseguem! A for&ccedil;a pol&iacute;tica dos radiodifusores j&aacute; &eacute; conhecida e n&atilde;o surpreende. O que espanta &eacute; a total falta de respeito com o cidad&atilde;o. Um projeto de lei deve ser avaliado sobre os benef&iacute;cios que trar&aacute; &agrave; popula&ccedil;&atilde;o. A vis&atilde;o empresarial ser&aacute; analisada, mas o principal &eacute; montar um projeto que represente os reais interesses do cidad&atilde;o. N&atilde;o estou avaliando aqui o conte&uacute;do da PL, se est&aacute; correto ou n&atilde;o (particularmente, acho que possui pontos positivos e negativos &ndash; o que falta &eacute; conseguir balance&aacute;-los).<\/p>\n<p>Se o assunto precisa ser discutido exaustivamente, ent&atilde;o que os parlamentares fa&ccedil;am direito. Coloquem em consulta p&uacute;blica; pe&ccedil;am relat&oacute;rios para os atores direta e indiretamente envolvidos (radiodifusores, representantes governamentais, sociedade civil); e, mais importante, fa&ccedil;am com que tudo seja divulgado na m&iacute;dia. A consulta p&uacute;blica deve ser divulgada, tanto quanto seu processo e sua conclus&atilde;o; as an&aacute;lises devem ser distribu&iacute;das a todos os interessados e devem se encontrar dispon&iacute;veis para consulta; o processo de discuss&atilde;o da PL precisa ser coberto pela imprensa de forma objetiva (sei que &eacute; uma utopia imaginar esta posi&ccedil;&atilde;o da m&iacute;dia, mas n&atilde;o custa nada tentar).<\/p>\n<p>Eu n&atilde;o quero que o radiodifusor decida o que &eacute; melhor para o pa&iacute;s. Eu n&atilde;o moro no Projac e n&atilde;o votei na Globo para me representar. Quero que meu deputado tenha personalidade, intelig&ecirc;ncia, &eacute;tica e saiba que ele est&aacute; l&aacute; para mim, para a sociedade; ele est&aacute; l&aacute; para representar os interesses da maioria.<\/p>\n<p>Afinal, esta &eacute; a defini&ccedil;&atilde;o de democracia.<\/p>\n<p><em>* Gustavo Audi &eacute; formado em R&aacute;dio e TV pela UFRJ e especialista em M&iacute;dias Digitais pela Unesa<\/em><\/p>\n<p><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ap&oacute;s o fim do regime tir&acirc;nico de Pis&iacute;strato e de seus dois filhos, Hiparco e H&iacute;pias, por volta de 550 a.C., os regimes aristocr&aacute;tico, mon&aacute;rquico e olig&aacute;rquico em Atenas estavam enfraquecidos. 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