{"id":21522,"date":"2008-07-14T19:04:20","date_gmt":"2008-07-14T19:04:20","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=21522"},"modified":"2008-07-14T19:04:20","modified_gmt":"2008-07-14T19:04:20","slug":"novela-ajudou-a-modificar-perfil-da-familia-brasileira-nos-ultimos-40-anos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=21522","title":{"rendered":"Novela ajudou a modificar perfil da fam\u00edlia brasileira nos \u00faltimos 40 anos"},"content":{"rendered":"<p>A presen&ccedil;a di&aacute;ria das novelas ajudou a moldar o perfil da fam&iacute;lia brasileira, influenciando suas escolhas e comportamento ao longo dos &uacute;ltimos 40 anos. Temas pol&ecirc;micos e de apelo social abordados no hor&aacute;rio nobre viraram assunto nas rodinhas de conversa. Personagens vividos na tela inspiraram nome de crian&ccedil;as. Enredos que traziam fam&iacute;lias pequenas, urbanas e de classe m&eacute;dia acabaram influenciando a taxa de natalidade do Pa&iacute;s.<\/p>\n<p>&Eacute; o que mostra o estudo Novelas e Fertilidade: Evid&ecirc;ncias do Brasil (Soap Operas and Fertility: Evidence from Brazil), com base na an&aacute;lise de novelas exibidas entre 1965 e 1999. Engana-se, no entanto, quem pensa que a pesquisa aponta uma diminui&ccedil;&atilde;o da atividade sexual dos casais provocada pelo v&iacute;cio de assistir &agrave; TV. Ao retratar um modelo familiar pequeno, urbano e de classe m&eacute;dia, o trabalho aponta que as novelas teriam estimulado as mulheres a buscar a contracep&ccedil;&atilde;o e a assumir um novo papel na sociedade.<\/p>\n<p>A investiga&ccedil;&atilde;o come&ccedil;ou h&aacute; dois anos para o Centro de Pesquisa e An&aacute;lise Econ&ocirc;mica para o Desenvolvimento e tem como autores os economistas Alberto Chong e Suzanne Duryea, do Banco Interamericano de Desenvolvimento, al&eacute;m de Eliana La Ferrara, da Universidade Bocconi (It&aacute;lia). &quot;Conhec&iacute;amos estudos de soci&oacute;logos brasileiros que apontavam um elo entre novelas e comportamento feminino e achamos que esse poderia ser um bom come&ccedil;o&quot;, conta o peruano Chong. Foram analisadas 115 novelas transmitidas pela Rede Globo no per&iacute;odo e comparados dados da chegada do sinal da emissora em v&aacute;rias partes do Pa&iacute;s com informa&ccedil;&otilde;es dos Censos Demogr&aacute;ficos de 1970 a 1991.<\/p>\n<p>Os autores descobriram que 62,2% das personagens femininas n&atilde;o tinham filhos, 20,7% tinham apenas um filho e 9%, dois. Verificaram ainda que as mulheres que viviam em &aacute;reas cobertas pelo sinal da emissora apresentavam taxa de fecundidade muito menor. &quot;Fam&iacute;lias de televis&atilde;o s&atilde;o pequenas, ricas e felizes&quot;, diz um trecho do artigo. &quot;Os pobres, quando retratados, t&ecirc;m mais filhos e suas faces revelam infelicidade&quot;, completa.<\/p>\n<p>A exposi&ccedil;&atilde;o a esse padr&atilde;o teria feito as pessoas optarem por menos filhos. &quot;Percebemos que o efeito &eacute; maior em mulheres de classe econ&ocirc;mica mais baixa e que se encontravam no meio ou no fim do per&iacute;odo f&eacute;rtil, pois, para essas pessoas, a TV &eacute; a principal fonte de informa&ccedil;&atilde;o&quot;, diz Chong. &quot;Chamou-nos a aten&ccedil;&atilde;o o fato de que o &uacute;nico pa&iacute;s em desenvolvimento, de tamanho compar&aacute;vel ao do Brasil, que vivenciou decl&iacute;nio t&atilde;o grande na natalidade foi a China, onde h&aacute; pol&iacute;tica rigorosa de planejamento familiar&quot;, explica. &quot;J&aacute; no Brasil, principalmente no regime militar, o governo estimulava o crescimento populacional e alertou sobre perigos da p&iacute;lula anticoncepcional.&quot;<\/p>\n<p><strong>Efeito demonstra&ccedil;&atilde;o<\/p>\n<p><\/strong>Dados do IBGE mostram que a taxa brasileira era de 6,3 filhos por mulher em 1960. Esse n&uacute;mero passou para 5,8 em 1970 e 2,3 em 2000. Especialistas ouvidos pelo Estado s&atilde;o un&acirc;nimes ao apontar a r&aacute;pida urbaniza&ccedil;&atilde;o do Pa&iacute;s, a inser&ccedil;&atilde;o da mulher no mercado de trabalho e o acesso a m&eacute;todos contraceptivos como fatores determinantes para a redu&ccedil;&atilde;o. Todos concordam, no entanto, que as novelas podem ter ajudado a acelerar o processo. &quot;&Eacute; o que chamamos de efeito demonstra&ccedil;&atilde;o&quot;, explica a coordenadora do N&uacute;cleo de Pesquisa de Telenovela da USP, Maria Immacolata Vassallo de Lopes. &quot;A novela tem uma presen&ccedil;a di&aacute;ria na vida do brasileiro. Quando um comportamento &eacute; repetidamente exposto, as pessoas tendem a imit&aacute;-lo&quot;, afirma.<\/p>\n<p>A professora, no entanto, ressalta que &quot;a novela n&atilde;o inventa, ela capta algo que existe e devolve para a sociedade, &agrave;s vezes de forma mais avan&ccedil;ada&quot;. Esse modelo familiar conjugal, diz Maria Immacolata, &eacute; t&iacute;pico da &aacute;rea urbana, mais retratada na fic&ccedil;&atilde;o televisiva. &quot;O urbano sempre exerceu forte atra&ccedil;&atilde;o pelo n&atilde;o urbano, tanto que as migra&ccedil;&otilde;es aconteceram do campo para a cidade. As novelas podem ter levado as mulheres que viviam longe dos grandes centros a pensar sobre o que seria uma forma moderna de viver.&quot;<\/p>\n<p>De acordo com a dem&oacute;grafa Elisabeth Ferraz, coordenadora do departamento de pesquisas da ONG Bem-Estar Familiar no Brasil (Bemfam), j&aacute; havia um movimento de queda da fecundidade mesmo antes da penetra&ccedil;&atilde;o massiva das novelas no Pa&iacute;s. O perfil da popula&ccedil;&atilde;o come&ccedil;ou a mudar de rural para urbana na d&eacute;cada de 50. Hoje, mais de 80% dos brasileiros vivem em cidades. &quot;Enquanto no campo &eacute; vantajosa uma prole numerosa, pois significa mais m&atilde;o-de-obra, na &aacute;rea urbana &eacute; muito caro mant&ecirc;-la&quot;, diz. <\/p>\n<p>O fato de a mulher deixar o &acirc;mbito dom&eacute;stico para se inserir no mercado teve grande influ&ecirc;ncia na fecundidade, conta Elisabeth. &quot;Aliado a isso, surgiu uma sociedade que queria ter acesso a bens de consumo&quot;, diz. &quot;Uma s&eacute;rie de propagandas passou a retratar como fam&iacute;lia-padr&atilde;o aquela composta pelo pai, a m&atilde;e e um casal de filhos. Voc&ecirc; v&ecirc; isso em comerciais de im&oacute;veis, de margarina, e n&atilde;o apenas na TV, mas em todas as m&iacute;dias.&quot; <\/p>\n<p>Na avalia&ccedil;&atilde;o de Elisabeth, o que diferencia o caso brasileiro dos demais pa&iacute;ses em desenvolvimento foi a ado&ccedil;&atilde;o de m&eacute;todos contraceptivos altamente eficazes. &quot;A esteriliza&ccedil;&atilde;o feminina, ou laqueadura tub&aacute;ria, teve papel importante na redu&ccedil;&atilde;o dos &iacute;ndices brasileiros e, embora hoje esteja em decl&iacute;nio, continua sendo o meio mais usado para evitar a gravidez no Pa&iacute;s. A p&iacute;lula vem em segundo lugar.&quot;<span><\/p>\n<p>Para que o tamanho de uma popula&ccedil;&atilde;o fique est&aacute;vel, a taxa de fecundidade deve ser de dois filhos por mulher &#8211; o chamado n&iacute;vel de reposi&ccedil;&atilde;o. Acima disso, h&aacute; crescimento demogr&aacute;fico; abaixo, decl&iacute;nio. O &iacute;ndice brasileiro est&aacute; em torno de 1,9. &quot;E a tend&ecirc;ncia &eacute; que continue a cair&quot;, diz Juarez de Castro Oliveira, da Coordena&ccedil;&atilde;o de Popula&ccedil;&atilde;o e Indicadores Sociais do IBGE.&quot;A previs&atilde;o &eacute; que se estabilize por volta de 1,5 filho por mulher, equivalente a &iacute;ndices europeus.&quot; As conseq&uuml;&ecirc;ncias s&atilde;o imprevis&iacute;veis, diz. &quot;O lado positivo &eacute; que as crian&ccedil;as representam hoje um peso muito menor para a popula&ccedil;&atilde;o economicamente ativa. A Previd&ecirc;ncia, por outro lado, pesar&aacute; cada vez mais. &quot; <\/span>  <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A presen&ccedil;a di&aacute;ria das novelas ajudou a moldar o perfil da fam&iacute;lia brasileira, influenciando suas escolhas e comportamento ao longo dos &uacute;ltimos 40 anos. 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