{"id":21521,"date":"2008-07-14T18:58:23","date_gmt":"2008-07-14T18:58:23","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=21521"},"modified":"2008-07-14T18:58:23","modified_gmt":"2008-07-14T18:58:23","slug":"justica-tardia-o-caso-do-grupo-isaias-no-equador","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=21521","title":{"rendered":"Justi\u00e7a tardia: o caso do grupo Isa\u00edas no Equador"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"MsoNormal\"><strong><span>[Tradu&ccedil;&atilde;o: Marco Aur&eacute;lio Weissheimer]<\/span><\/strong><u><strong><span><\/p>\n<p><\/span><\/strong><\/u><span>Em 1998, o Equador mergulhou em uma das piores crises econ&ocirc;micas de sua hist&oacute;ria. O PIB caiu, a pobreza e a desigualdade aumentaram dramaticamente. Uma migra&ccedil;&atilde;o sem precedentes levou cerca de 1,3 milh&otilde;es de equatorianos para a Espanha e, em menor medida, aos Estados Unidos, em um tempo relativamente curto. Alguns fatores contribu&iacute;ram para essa situa&ccedil;&atilde;o: uma queda dram&aacute;tica dos pre&ccedil;os do petr&oacute;leo, o fen&ocirc;meno do El Ni&ntilde;o que inundou e destruiu grandes extens&otilde;es de cultivos destinados &agrave; exporta&ccedil;&atilde;o e ao mercado interno, o super-endividamento do pa&iacute;s que fez com que os compromissos de pagamento da d&iacute;vida absorvessem uma parte importante dos limitados recursos fiscais dispon&iacute;veis.<\/p>\n<p> A estes fatores externos somou-se a derrocada do sistema financeiro. N&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel deixar de relacionar essa derrocada com dois tipos de decis&otilde;es: por um lado, com o conjunto de reformas iniciadas em meados dos anos 1990 com uma agressiva flexibiliza&ccedil;&atilde;o das normas que regulavam o funcionamento do sistema financeiro e que permitiu que os bancos e seus acionistas pudessem intervir em outros neg&oacute;cios para al&eacute;m da banca financeira; por outro, o enfraquecimento da capacidade do Estado de regular, controlar e intervir naquelas institui&ccedil;&otilde;es financeiras que apresentaram problemas ou que descumpriram as leis do pa&iacute;s. Um ambiente permissivo permitiu que os grupos econ&ocirc;micos que controlavam a banca financeira usassem os recursos dos correntistas e poupadores tanto em opera&ccedil;&otilde;es especulativas de alto risco, sem as devidas garantias, assim como em empr&eacute;stimos a membros do grupo e a empresas vinculadas. A isso se somou a grande inger&ecirc;ncia pol&iacute;tica dos grupos financeiros nos governos desde 1992.<\/p>\n<p> Os problemas macroecon&ocirc;micos, as dificuldades no setor externo e o manejo irrespons&aacute;vel e especulativo da banca privada levaram ao colapso do sistema financeiro. A defesa das reformas que flexibilizaram o sistema financeiro e que limitaram o papel do Estado foi a base das pol&iacute;ticas neoliberais que dominaram as pol&iacute;ticas p&uacute;blicas nos anos 1990.<\/p>\n<p> O paradoxal &eacute; que os setores que defenderam a redu&ccedil;&atilde;o das fun&ccedil;&otilde;es estatais de regula&ccedil;&atilde;o e controle no &acirc;mbito financeiro, n&atilde;o hesitaram um instante em pedir socorro ao Estado para manter a sobreviv&ecirc;ncia do sistema financeiro. Foi implementado, ent&atilde;o, um conjunto de opera&ccedil;&otilde;es de socorro ao setor banc&aacute;rio que, em 1999, ano em que os efeitos da crise afetaram a maioria da popula&ccedil;&atilde;o, representaram 30% do PIB equatoriano. Somente um banco, Filanbanco, propriedade do grupo econ&ocirc;mico Isa&iacute;as, recebeu mais de US$ 1,2 bilh&otilde;es de d&oacute;lares, o que representou &ldquo;mais do dobro do que o Estado destinou para a sa&uacute;de p&uacute;blica entre 1998 e 2001&rdquo; (1).<\/p>\n<p> O grupo Isa&iacute;as, propriet&aacute;rio do Filanbanco, a partir de seus neg&oacute;cios no setor financeiro, expandiu suas opera&ccedil;&otilde;es a quase todos os setores da economia. Quando o banco faliu e foi passado para as m&atilde;os do Estado &ndash; e apesar de ter sido um grupo particularmente favorecido pela opera&ccedil;&atilde;o de socorro banc&aacute;rio &ndash; o grupo teve a oportunidade de reestruturar, em condi&ccedil;&otilde;es vantajosas, boa parte dos cr&eacute;ditos que tinha junto &agrave;s empresas vinculadas e inclusive exigiu do Estado a devolu&ccedil;&atilde;o de garantias outorgadas pelos recursos entregues para salvar o banco.<\/p>\n<p> Convertido em um dos grupos econ&ocirc;micos mais poderosos do pa&iacute;s, os chefes do grupo Isa&iacute;as protegeram-se da a&ccedil;&atilde;o da Justi&ccedil;a refugiando-se nos Estados Unidos. Seu poder paralisou qualquer tentativa do Estado equatoriano, atrav&eacute;s da Ag&ecirc;ncia de Garantia de Dep&oacute;sitos (AGD), para ressarcir os preju&iacute;zos econ&ocirc;micos causados aos depositantes e ao pr&oacute;prio Estado.<\/p>\n<p> Tem raz&atilde;o o governo do presidente Rafael Correa ao afirmar que a decis&atilde;o de bloquear os bens dos principais acionistas do Filanbanco devia ter sido tomada h&aacute; dez anos. A longa espera para que se fa&ccedil;a justi&ccedil;a permitiu que os irm&atilde;os Isa&iacute;as continuassem e ampliassem seus neg&oacute;cios no Equador (incluindo a&iacute; a propriedade de dois canais de televis&atilde;o aberta e um de tv a cabo) e aumentassem seu poder de influ&ecirc;ncia, amparados por uma justi&ccedil;a lenta e ineficiente, um Estado que se recusou a enfrent&aacute;-los e a falta de vontade pol&iacute;tica dos governos que se sucederam desde 1998 at&eacute; hoje para cumprir a lei.<\/p>\n<p> A decis&atilde;o hist&oacute;rica &eacute;, sem d&uacute;vida, a mais importante das j&aacute; adotadas por um governo para enfrentar um grupo de poder que se transformou na maior express&atilde;o da impunidade, da prepot&ecirc;ncia e de um poder ilimitado frente &agrave; lei e as institui&ccedil;&otilde;es jur&iacute;dicas e pol&iacute;ticas. Que a falta de mem&oacute;ria n&atilde;o sirva de pretexto para esquecer os amargos dias do latroc&iacute;nio que significou o &ldquo;socorro&rdquo; banc&aacute;rio e lan&ccedil;ar terra sobre o custo que teve para o Equador e as fam&iacute;lias equatorianas.<\/p>\n<p> Os cr&iacute;ticos da decis&atilde;o da AGD, tomada no estrito respeito &agrave;s leis vigentes, esgrimem dois argumentos: por um lado, que se trata de uma decis&atilde;o pol&iacute;tica e eleitoral: por outro, que &eacute; uma a&ccedil;&atilde;o que tem como objetivo atacar a liberdade de express&atilde;o. Os dois s&atilde;o argumentos d&eacute;beis. &Eacute; evidente que a decis&atilde;o, por sua natureza e os interesses em jogo, independentemente do momento em que tivesse sido tomada, tem natureza pol&iacute;tica. Tanto &eacute; assim que nenhum governo teve a coragem de tom&aacute;-la at&eacute; ent&atilde;o. Deveria se esperar mais dez anos? Por outro lado, est&aacute; dentro das atribui&ccedil;&otilde;es de um governo fixar a agenda para tomar as medidas que considere oportunas de acordo com o contexto pol&iacute;tico. Em um ambiente de inevit&aacute;vel desgaste devido ao complexo debate constitucional que vive o Equador, a decis&atilde;o &eacute; uma reafirma&ccedil;&atilde;o da vontade de mudan&ccedil;a que o governo Correa assumiu. &Eacute; uma jogada no tabuleiro pol&iacute;tico que d&aacute; ao governo novamente a iniciativa para defender sua agenda pol&iacute;tica e comunicacional.<\/p>\n<p> Por outro lado, o caso do grupo Isa&iacute;as demonstra o acerto da proposta, atualmente em debate constitucional, que aponta para a necessidade da independ&ecirc;ncia dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o frente ao controle por parte de imp&eacute;rios econ&ocirc;micos como o deste grupo. Outro tema que deve ser amplamente debatido &eacute; o futuro desses meios e a forma de convert&ecirc;-los em verdadeiros espa&ccedil;os plurais de opini&atilde;o.<\/p>\n<p><em>* Carlos Arcos Cabrera &eacute; soci&oacute;logo (Equador)<\/em><\/span><\/p>\n<hr \/>\n<p><span>(1) Acosta Alberto, Recordando los entretelones del salvataje bancario, 8 de julho de 2008.<\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><span>&nbsp;<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[Tradu&ccedil;&atilde;o: Marco Aur&eacute;lio Weissheimer] Em 1998, o Equador mergulhou em uma das piores crises econ&ocirc;micas de sua hist&oacute;ria. O PIB caiu, a pobreza e a desigualdade aumentaram dramaticamente. Uma migra&ccedil;&atilde;o sem precedentes levou cerca de 1,3 milh&otilde;es de equatorianos para a Espanha e, em menor medida, aos Estados Unidos, em um tempo relativamente curto. 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