{"id":21519,"date":"2008-07-14T18:03:42","date_gmt":"2008-07-14T18:03:42","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=21519"},"modified":"2014-09-07T02:56:12","modified_gmt":"2014-09-07T02:56:12","slug":"tv-faz-da-ciencia-sexy-um-padrao-para-programas-cientificos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=21519","title":{"rendered":"TV faz da &#8220;ci\u00eancia sexy&#8221; um padr\u00e3o para programas cient\u00edficos"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"MsoNormal\"><span><strong>[T&iacute;tulo original: A ci&ecirc;ncia sexy da TV ]<\/strong><\/p>\n<p>O conceito de infotainment, palavra do ingl&ecirc;s, uma justaposi&ccedil;&atilde;o de informa&ccedil;&atilde;o e entretenimento, parece descrever as apari&ccedil;&otilde;es da ci&ecirc;ncia na TV. Sim, a maior das m&iacute;dias dedica espa&ccedil;o para a ci&ecirc;ncia, seja nos telejornais dos canais abertos, ou nos canais pagos inteiramente voltados ao tema, como Discovery Channel, National Geographic Channel ou BBC, dentre outros. Mas como a divulga&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica &eacute; feita na m&iacute;dia do espet&aacute;culo? As quest&otilde;es que da&iacute; surgem s&atilde;o relacionadas a alguns dos preceitos b&aacute;sicos do jornalismo, como neutralidade e objetividade: como esse entretenimento mostra a ci&ecirc;ncia, seus conflitos e impactos sociais ou ainda suas quest&otilde;es &eacute;ticas?<\/p>\n<p> O termo &ldquo;ci&ecirc;ncia sexy&rdquo; foi por cunhado por Jon Palfreman em um artigo de 2002. O ex-produtor de programas cient&iacute;ficos da BBC e da PBS, atualmente professor de jornalismo da Universidade de Oregon e dono de uma produtora que faz programas cient&iacute;ficos para a mesma PBS, afirma que a maior parte dos programas atuais deixa a ci&ecirc;ncia moderna de lado e tem como objeto grandes espet&aacute;culos, como expedi&ccedil;&otilde;es arqueol&oacute;gicas, fen&ocirc;menos naturais, engenharia de grande escala e do mundo dos animais, temas que chamou de sexy, por despertarem curiosidade e interesse. &ldquo;Eu acredito que isso acontece basicamente por duas raz&otilde;es: como produzir programas &eacute; muito caro, &eacute; preciso apostar naquilo que j&aacute; se sabe que a audi&ecirc;ncia gosta, j&aacute; que todos os canais fazem pesquisa de mercado. Segundo, porque esses programas podem ser repetidos por muito tempo, j&aacute; que n&atilde;o ficam desatualizados&rdquo;, explicou.<\/p>\n<p> Ao analisar a grade de programa&ccedil;&atilde;o dos canais pagos dedicados &agrave; ci&ecirc;ncia &eacute; poss&iacute;vel comprovar a maci&ccedil;a presen&ccedil;a desses programas &ldquo;sexy&rdquo;. Os grandes destaques do Discovery Channel s&atilde;o voltados &agrave;s maravilhas da engenharia moderna, como Superestruturas, Feras da Engenharia e Mega-Constru&ccedil;&otilde;es. No National Geographic Channel podemos ver programas semelhantes, como Ind&uacute;stria Humana, Obras Incr&iacute;veis e Engenharia do Futuro. Ambos possuem muitos hor&aacute;rios dedicados a programas com animais, como Gigantes da Patag&ocirc;nia e Matar ou Morrer, no primeiro, ou World&#39;s Deadliest Animals e Predadores a Espreita, no segundo. H&aacute; ainda na grade dos dois canais muitos programas com temas hist&oacute;ricos e do estilo &lsquo;como funciona?&#39;, de curiosidades sobre novas tecnologias.<\/p>\n<p> Jon Palfreman afirma que a ci&ecirc;ncia moderna s&oacute; aparece quando pode ser inserida num contexto de controv&eacute;rsia, como recentemente nos temas de alimentos transg&ecirc;nicos ou o aquecimento global, que foram assuntos de programas tanto no Discovery, quanto no National Geographic. O produtor lamenta que as pesquisas atuais deixem de ser divulgadas. Uma outra cr&iacute;tica feita a esses programas cient&iacute;ficos, mais focados em curiosidades, &eacute; que n&atilde;o refletem a complexidade do fazer cient&iacute;fico e raramente apresentam os conflitos entre as diferentes vozes da ci&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> Lacy Barca, jornalista e produtora que atuou em programas como Globo Ci&ecirc;ncia e nos canais Futura e TVE do Rio de Janeiro e hoje &eacute; pesquisadora da nova TV Brasil, tamb&eacute;m entende que a maior parte dos programas n&atilde;o reflete a complexidade da ci&ecirc;ncia. No entanto, ela n&atilde;o v&ecirc; problemas em apresentar a ci&ecirc;ncia como entretenimento. &ldquo;O entretenimento informativo &eacute; somente uma das maneiras poss&iacute;veis de abordar conte&uacute;dos na produ&ccedil;&atilde;o de programas. O grande desafio da boa televis&atilde;o &eacute; tornar atraente qualquer conte&uacute;do para qualquer p&uacute;blico. A ci&ecirc;ncia, nesse caso, &eacute; o espet&aacute;culo. Ser atraente n&atilde;o significa baixar a qualidade ou esquecer o compromisso com o conte&uacute;do. Pode-se fazer divulga&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica em qualquer formato: jornalismo, document&aacute;rio, fic&ccedil;&atilde;o, humor, aventura&#8230; Por que n&atilde;o entreter e informar? Nenhum telespectador tamb&eacute;m ag&uuml;enta uma programa&ccedil;&atilde;o inteira de hard-sciente &rdquo;, defende ela. <\/p>\n<p> A pesquisadora lembra que o programa de divulga&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica melhor avaliado na Europa neste momento &eacute; sobre sexo: How to get more sex, que foi produzido pela ITV Inglesa e explica a atra&ccedil;&atilde;o sexual do ponto de vista da ci&ecirc;ncia. O primeiro programa &eacute; sobre o papel do olfato. Jon Palfreman tamb&eacute;m concorda com a necessidade de tornar atraentes os t&oacute;picos que a primeira vista n&atilde;o sejam alvos de curiosidade. &ldquo;&Eacute; preciso sim falar dos t&oacute;picos importantes e encontrar maneiras de torn&aacute;-los interessantes. Deixar de abord&aacute;-los &eacute; falta de coragem dos produtores&rdquo; sentencia. <\/p>\n<p><strong> Canais p&uacute;blicos<\/strong><\/p>\n<p> O produtor americano concorda que um jornalismo cient&iacute;fico mais apurado &eacute; feito pelos canais p&uacute;blicos, como a BBC brit&acirc;nica ou a PBS americana. &ldquo;Eu tive que achar um lugar no mercado em que eu pudesse ser um jornalista cient&iacute;fico da maneira que eu penso a profiss&atilde;o. Foi um desafio para mim, assim como &eacute; para todos. Acabei quase que restrito aos canais p&uacute;blicos, como a PBS. Eu n&atilde;o me vejo trabalhando em um canal como Discovery, por exemplo&rdquo; afirma. Palfreman atualmente produz para o programa Frontline, do canal.<\/p>\n<p> Os primeiros programas de ci&ecirc;ncia na TV mundial foram feitos pela BBC. Um dos programas mais famosos &eacute; o Horizon, uma s&eacute;rie de document&aacute;rios de uma hora de dura&ccedil;&atilde;o, veiculado semanalmente em hor&aacute;rio nobre, desde 1964. Lacy Barca conta que a Science &amp; Nature Division da BBC &eacute; maior do que muitos canais inteiros de televis&atilde;o no Brasil, como a TV Cultura e a TV Brasil, as quais comp&otilde;em a televis&atilde;o p&uacute;blica brasileira. A divis&atilde;o tamb&eacute;m disp&otilde;e de um or&ccedil;amento bastante volumoso e emprega centenas de pessoas, entre produtores de televis&atilde;o, redatores de programas, criadores de formatos, artistas e t&eacute;cnicos.<\/p>\n<p> Segundo ela, no Brasil, a TV P&uacute;blica ainda n&atilde;o descobriu como produzir programas sobre ci&ecirc;ncia e tecnologia. &ldquo;No Brasil, a divulga&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica nasceu p&uacute;blica, na TVE do Rio de Janeiro, em 1981. Mas n&atilde;o sobreviveu. Foram somente dez programas da s&eacute;rie Nossa Ci&ecirc;ncia&rdquo;, lembra. Diminuiu o espa&ccedil;o da TV para a ci&ecirc;ncia. Hoje, a TV Brasil exibe quatro programas de meia hora por semana, num total de duas horas semanais. Desses programas, dois s&atilde;o de car&aacute;ter ambiental (Expedi&ccedil;&otilde;es e Rep&oacute;rter ECO, da TV Cultura), um &eacute; sobre sa&uacute;de (Sa&uacute;de Brasil) e um &eacute; produzido pela Universidade de Joinville (Universo Pesquisa). O &uacute;nico programa regular &eacute; o Globo Ci&ecirc;ncia, produzido pela Funda&ccedil;&atilde;o Roberto Marinho, desde 1984. E depois surgiu o Globo Ecologia que tamb&eacute;m perdura. Ambos v&atilde;o ao ar aos s&aacute;bados &agrave;s 6 da manh&atilde;. E nos telejornais, quando a ci&ecirc;ncia aparece &eacute; para abordar temas relacionados &agrave; sa&uacute;de. Ou seja, tanto a TV p&uacute;blica brasileira, quanto a TV privada produzem muito pouco sobre ci&ecirc;ncia e tec nologia.<\/p>\n<p><strong> Quest&otilde;es &eacute;ticas da divulga&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica <\/strong><\/span><span><span><strong>em TV<\/strong><\/p>\n<p>  Um<\/span><\/span><span><span> recente estudo da revista Nature mostrou que 9% dos cientistas, em uma amostra de 2212 entrevistas, disseram j&aacute; ter testemunhado algum caso de falsifica&ccedil;&atilde;o de resultados, pl&aacute;gio ou inven&ccedil;&atilde;o de dados. Se o levantamento for uma amostra representativa, dizem os autores, mais de 3.000 casos de desvio &eacute;tico podem estar ocorrendo anualmente nos EUA. Alguns casos de fraude se tornaram c&eacute;lebres como o de Jan Hendrick Sch&ouml;n, pesquisador dos Laborat&oacute;rios Bell e tido at&eacute; como um jovem g&ecirc;nio da f&iacute;sica. Ele havia publicado cerca de 70 artigos cient&iacute;ficos, muitos deles em revistas de renome. No entanto, alguns de seus colegas consideravam seus resultados demasiadamente perfeitos e notaram que alguns gr&aacute;ficos de tr&ecirc;s experimentos diferentes possu&iacute;am partes id&ecirc;nticas. Foi aberto um inqu&eacute;rito e foi constatado que ele havia forjado seus resultados. <\/p>\n<p> Se na ci&ecirc;ncia em si existem problemas &eacute;ticos, na divulga&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica eles se misturam com as quest&otilde;es &eacute;ticas do pr&oacute;prio jornalismo. A influ&ecirc;ncia do patrocinador no conte&uacute;do do programa &eacute; um fantasma na televis&atilde;o. Tanto Palfreman, quanto Barca enfatizam os altos custos de se fazer televis&atilde;o. &ldquo;N&atilde;o d&aacute; para sobreviver sem bons investimentos. Lembram do Rep&oacute;rter Esso? Pois &eacute;. O telejornalismo nasceu patrocinado?&rdquo; lembra a brasileira, que diz n&atilde;o perceber influ&ecirc;ncias de marcas, de produtos ou de um eventual patrocinador no conte&uacute;do dos programas de divulga&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica no Brasil. <\/p>\n<p> A pesquisadora da TV Brasil cita o caso de uma produ&ccedil;&atilde;o atual, como a expedi&ccedil;&atilde;o &ldquo;Across the Amazon&rdquo;, uma parceria do National Geographic Channel e a revista National Geographic com a Toyota, que mostrar&aacute; uma viagem da costa leste ao extremo oeste do continente sul-americano. Projetos como estes s&atilde;o chamados de &ldquo;branded content&rdquo; (conte&uacute;dos de marca), idealizados para viabilizar os custos de produ&ccedil;&atilde;o. Mas Barca pergunta: &ldquo;E se o programa for sobre sa&uacute;de e o patrocinador for um fabricante de medicamentos?&rdquo; <\/p>\n<p> Os altos custos das pesquisas cient&iacute;ficas t&ecirc;m levado a chamada privatiza&ccedil;&atilde;o da pesquisa cient&iacute;fica &ndash; o investimento de capitais industriais nas universidades, institutos e centros de pesquisa e o patroc&iacute;nio a pesquisadores. Isto traz ao jornalismo alguns problemas: as melhores not&iacute;cias t&ecirc;m como fonte a pr&oacute;pria imprensa, j&aacute; que os resultados de muitas pesquisas s&atilde;o segredos industriais que s&oacute; chegar&atilde;o ao conhecimento do p&uacute;blico ap&oacute;s a obten&ccedil;&atilde;o da respectiva patente. Ou ainda, existe o risco de que as informa&ccedil;&otilde;es cedidas para a imprensa atendam aos interesses comerciais das empresas patrocinadoras, prejudicando o conte&uacute;do da divulga&ccedil;&atilde;o. &ldquo;&Eacute; sempre bom lembrar que a ci&ecirc;ncia n&atilde;o est&aacute; acima do bem e do mal. Cientistas t&ecirc;m d&uacute;vidas e cometem erros. E aprendem com eles. Jornalistas e produtores de televis&atilde;o tamb&eacute;m&rdquo;, conclui Barca.<br \/><\/span><\/span><span><a href=\"http:\/\/localhost\/intervozes_direitoacomunicacao\/wordpress\/?p=18305\" target=\"_blank\"><\/a><\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><span>&nbsp;<\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><span>&nbsp;<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[T&iacute;tulo original: A ci&ecirc;ncia sexy da TV ] O conceito de infotainment, palavra do ingl&ecirc;s, uma justaposi&ccedil;&atilde;o de informa&ccedil;&atilde;o e entretenimento, parece descrever as apari&ccedil;&otilde;es da ci&ecirc;ncia na TV. 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