{"id":21471,"date":"2008-07-02T19:02:35","date_gmt":"2008-07-02T19:02:35","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=21471"},"modified":"2008-07-02T19:02:35","modified_gmt":"2008-07-02T19:02:35","slug":"cobertura-adversaria-no-congresso-nacional","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=21471","title":{"rendered":"&#8216;Cobertura advers\u00e1ria&#8217; no Congresso Nacional"},"content":{"rendered":"<p>   \t \t \t \t \t \t \t<!-- \t\t@page { margin: 2cm } \t\tP { margin-bottom: 0.21cm } \t--> \t                <\/p>\n<p class=\"western\">N&atilde;o h&aacute; d&uacute;vida de que existem problemas graves com alguns de nossos representantes eleitos para o Congresso Nacional. N&uacute;mero significativo de deputados e senadores tem estado freq&uuml;entemente envolvido em atividades il&iacute;citas e\/ou eticamente conden&aacute;veis. A m&iacute;dia tem sido instrumento importante na revela&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica de muitos desses casos. Procedimentos de investiga&ccedil;&atilde;o ou processos legais contra parlamentares tramitam tanto nas comiss&otilde;es de &eacute;tica do pr&oacute;prio Congresso como nas inst&acirc;ncias competentes do judici&aacute;rio.<\/p>\n<p>Uma das quest&otilde;es n&atilde;o resolvidas que envolvem eticamente (ou legalmente?) os parlamentares tem a ver com a auto-outorga de concess&otilde;es do servi&ccedil;o p&uacute;blico de radiodifus&atilde;o a si mesmos, pr&aacute;tica que eterniza o chamado &quot;coronelismo eletr&ocirc;nico&quot;. Este tema tem sido objeto de pesquisa e den&uacute;ncia de nossa parte h&aacute; v&aacute;rios anos [ver &quot;<a href=\"http:\/\/observatorio.ultimosegundo.ig.com.br\/download\/Coronelismo_eletronico_de_novo_tipo.pdf\" onclick=\"NovaJanela(this.href);return false;\">R&aacute;dios comunit&aacute;rias: coronelismo eletr&ocirc;nico de novo tipo (1999-2004)<\/a>&quot; e &quot;<a href=\"http:\/\/observatorio.ultimosegundo.ig.com.br\/download\/352ipb001.pdf\" onclick=\"NovaJanela(this.href);return false;\">Concession&aacute;rios de radiodifus&atilde;o no Congresso Nacional: ilegalidade e impedimento<\/a>&quot;]<\/p>\n<p>&Eacute;, no entanto, for&ccedil;oso reconhecer que a cobertura pol&iacute;tica que &eacute; feita diariamente das atividades no Congresso Nacional se caracteriza por salientar quase que exclusivamente aspectos negativos do Poder Legislativo e de seus integrantes. E, algumas vezes, de forma preconceituosa ou revelando profundo desconhecimento da import&acirc;ncia e da riqueza das culturas regionais brasileiras.<strong><\/p>\n<p>S&atilde;o Jo&atilde;o<\/strong><\/p>\n<p>Qualquer brasileiro com razo&aacute;vel n&iacute;vel de informa&ccedil;&atilde;o sabe que as festas juninas de S&atilde;o Jo&atilde;o &ndash; dia 24 de junho &ndash; est&atilde;o para a cultura e a tradi&ccedil;&atilde;o do Nordeste como o Natal est&aacute; para o resto do pa&iacute;s ou, por exemplo, o &quot;Thanksgiving&quot; est&aacute; para os Estados Unidos. Alguns estados nordestinos literalmente param neste per&iacute;odo. Este ano, como o S&atilde;o Jo&atilde;o caiu numa ter&ccedil;a feira (24), desde a sexta feira anterior (dia 20) havia um clima de alegria no ar e, nas cidades coloridas e ornamentadas, s&oacute; se falava em ir para Caruaru (PE) ou Campina Grande (PB) onde acontecem as principais festas populares. As estradas estavam lotadas e vivia-se um &quot;clima&quot; de Copa do Mundo.<\/p>\n<p>Neste tipo de circunst&acirc;ncia, qual seria o comportamento a se esperar de um deputado ou senador nordestino? Que ele permanecesse em Bras&iacute;lia ou que ele estivesse junto &agrave; sua base eleitoral participando da principal festa popular da regi&atilde;o? Em circunst&acirc;ncia semelhante, o que esperar de qualquer parlamentar em qualquer outro pa&iacute;s de democracia representativa?<\/p>\n<p>A cobertura pol&iacute;tica que, em boa parte, se faz do Congresso Nacional reduz o trabalho de representa&ccedil;&atilde;o popular de senadores e deputados &agrave; sua presen&ccedil;a nas sess&otilde;es de vota&ccedil;&atilde;o em plen&aacute;rio. Mesmo as importantes atividades nas comiss&otilde;es &ndash; &agrave; exce&ccedil;&atilde;o das CPIs &ndash; s&atilde;o, geralmente, desconsideradas como trabalho. As viagens de parlamentares aos seus estados s&atilde;o normalmente tratadas como &quot;falta&quot; indevida ao trabalho.<strong><\/p>\n<p>Discurso advers&aacute;rio<\/strong><\/p>\n<p>Tudo isso vem a prop&oacute;sito de mat&eacute;ria opinativa veiculada no <em>Jornal da Band<\/em> na ter&ccedil;a-feira (24\/6), dia de S&atilde;o Jo&atilde;o. Os parlamentares (sobretudo os nordestinos) que viajaram para os seus estados foram acusados de receber o sal&aacute;rio sem trabalhar; de participarem das festividades de S&atilde;o Jo&atilde;o por motivos &quot;eleitoreiros&quot; e de impedirem as vota&ccedil;&otilde;es de temas relevantes no Congresso. E mais: foi feita uma proje&ccedil;&atilde;o de &quot;esvaziamento&quot; do Congresso e, portanto, de &quot;afastamento do trabalho&quot;, com as desculpas das campanhas eleitorais e das festas juninas.<\/p>\n<p>As imagens que fizeram &quot;fundo&quot; para a mat&eacute;ria foram os corredores do Congresso decorados de bandeirinhas, os plen&aacute;rios da C&acirc;mara e do Senado vazios e as dan&ccedil;as das festas juninas.<\/p>\n<p>Transcrevo abaixo a &iacute;ntegra da mat&eacute;ria opinativa:<\/p>\n<blockquote><p>&quot;Apresentadora: O Congresso se enfeitou \t\tpara a noite de S&atilde;o Jo&atilde;o, mas deputados e senadores \t\tparticipam de festas juninas longe de Bras&iacute;lia. E mesmo sem \t\ttrabalhar, os parlamentares v&atilde;o receber o sal&aacute;rio \t\tnormalmente.<\/p>\n<p>Rep&oacute;rter: Congresso todo enfeitado no \t\tmelhor estilo junino, mas nem sinal dos pares para o arrasta-p&eacute;. \t\tDeputados e senadores, principalmente os nordestinos, preferiram \t\tfestejar o S&atilde;o Jo&atilde;o do jeito eleitoreiro, que d&aacute; \t\tmais votos e prest&iacute;gio pol&iacute;tico, junto &agrave;s \t\tbases.<br \/>Na C&acirc;mara, o presidente da Casa bem que \t\ttentou. Mandou telegramas convocando os deputados, em v&atilde;o, quase ningu&eacute;m veio.<\/p>\n<p>Presidente da C&acirc;mara\/Arlindo Chinaglia: Eu \t\trespeito &agrave;s tradi&ccedil;&otilde;es, mas evidentemente que \t\taqui n&oacute;s vamos tratar de assuntos, todos eles relevantes \t\tpara o pa&iacute;s.<\/p>\n<p>Rep&oacute;rter: E nessa quem dan&ccedil;ou foi \t\tfalta de vota&ccedil;&atilde;o. Com o recesso branco projetos \t\timportantes ficam mais tempo parados. Aqui no Senado, por exemplo, \t\to projeto que reduz a maioridade penal est&aacute; pronto para ser \t\tvotado h&aacute; mais de um ano.<br \/>E agora, at&eacute; o fim das elei&ccedil;&otilde;es \t\tmunicipais, o Congresso deve permanecer vazio. As festas juninas, o \t\trecesso parlamentar e as campanhas eleitorais s&atilde;o as \t\tdesculpas para o afastamento do trabalho. O presidente do Senado, \t\tnordestino, nem veio a Bras&iacute;lia, j&aacute; est&aacute; em \t\tNatal para os festejos e liberou todos os senadores para fazer o \t\tmesmo.<\/p>\n<p>Senador Her&aacute;clito Fortes (DEM-PI): N&oacute;s \t\tn&atilde;o precisamos sair de Bras&iacute;lia para procurar \t\tquadrilha, pular fogueira e nem pisar em brasas. Aqui tem tudo.&quot;<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Volto a recorrer aqui a texto cl&aacute;ssico da professora Maria do Carmo Campello de Souza, j&aacute; falecida, publicado h&aacute; 20 anos (&quot;A Nova Rep&uacute;blica brasileira: sob a espada de D&acirc;mocles&quot;, in <em>Democratizando o Brasil<\/em>, organizado por Alfred Stepan, Paz e Terra, 1988). O texto est&aacute; mais atual do que nunca e vale a longa cita&ccedil;&atilde;o:  <\/p>\n<blockquote><p>&quot;A interven&ccedil;&atilde;o da imprensa, \t\tr&aacute;dio e televis&atilde;o no processo pol&iacute;tico \t\tbrasileiro requer um estudo ling&uuml;&iacute;stico sistem&aacute;tico \t\tsobre o `discurso advers&aacute;rio&acute; em rela&ccedil;&atilde;o \t\t&agrave; democracia expresso pelos meios de comunica&ccedil;&atilde;o. \t\t(&#8230;) os meios de comunica&ccedil;&atilde;o tem tido uma \t\tparticipa&ccedil;&atilde;o extremamente acentuada na extens&atilde;o \t\tdo processo de <em>system blame<\/em> (culpar o sistema ou fazer uma \t\tavalia&ccedil;&atilde;o negativa do sistema democr&aacute;tico ou \t\tda democracia). Deve-se assinalar o papel exercido pelos meios de \t\tcomunica&ccedil;&atilde;o na forma&ccedil;&atilde;o da imagem \t\tp&uacute;blica do regime, sobretudo no que se refere &agrave; \t\tacentua&ccedil;&atilde;o de um aspecto sempre presente na cultura \t\tpol&iacute;tica do pa&iacute;s &ndash; a desconfian&ccedil;a arraigada \t\tem rela&ccedil;&atilde;o &agrave; pol&iacute;tica e aos pol&iacute;ticos \t\t&ndash; que pode refor&ccedil;ar a descren&ccedil;a sobre a pr&oacute;pria \t\testrutura de representa&ccedil;&atilde;o partid&aacute;ria-parlamentar \t\t(pp. 586-7). (&#8230;)<\/p>\n<p>O teor exclusivamente denunciat&oacute;rio de \t\tgrande parte das informa&ccedil;&otilde;es acaba por estabelecer \t\tjunto &agrave; sociedade (&#8230;) uma liga&ccedil;&atilde;o direta e \t\textremamente nefasta entre a desmoraliza&ccedil;&atilde;o da atual \t\tconjuntura e a subst&acirc;ncia mesma dos regimes democr&aacute;ticos. \t\t(&#8230;) A despeito da evidente responsabilidade que cabe &agrave; \t\timensa maioria da classe pol&iacute;tica pelo desenrolar sombrio do \t\tprocesso pol&iacute;tico brasileiro, os meios de comunica&ccedil;&atilde;o \t\ta apresentam de modo homogeneizado e, em compara&ccedil;&atilde;o \t\tcom os dardos de sua cr&iacute;tica, poupam outros setores (&#8230;). \t\tTem-se muitas vezes a impress&atilde;o de que corrup&ccedil;&atilde;o, \t\tcinismo e desmandos s&atilde;o monop&oacute;lio dos pol&iacute;ticos, \t\tdos partidos ou do Congresso (&#8230;).&quot; (pp.588-9, passim).<\/p><\/blockquote>\n<p class=\"western\">J&aacute; n&atilde;o seria hora de a grande m&iacute;dia rever seus crit&eacute;rios de cobertura pol&iacute;tica opinativa, sobretudo em rela&ccedil;&atilde;o ao Congresso Nacional, e tentar evitar que tenhamos &quot;uma liga&ccedil;&atilde;o direta e extremamente nefasta entre a desmoraliza&ccedil;&atilde;o da atual conjuntura e a subst&acirc;ncia mesma dos regimes democr&aacute;ticos&quot;?<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\" class=\"western\"><em>* Ven&iacute;cio A. de Lima &eacute; pesquisador s&ecirc;nior do N&uacute;cleo de Estudos sobre M&iacute;dia e Pol&iacute;tica (NEMP) da Universidade de Bras&iacute;lia e autor\/organizador, entre outros, de <\/em><em>A m&iacute;dia nas elei&ccedil;&otilde;es de 2006 (Editora Funda&ccedil;&atilde;o Perseu Abramo, 2007)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N&atilde;o h&aacute; d&uacute;vida de que existem problemas graves com alguns de nossos representantes eleitos para o Congresso Nacional. 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