{"id":21459,"date":"2008-06-30T19:04:06","date_gmt":"2008-06-30T19:04:06","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=21459"},"modified":"2008-06-30T19:04:06","modified_gmt":"2008-06-30T19:04:06","slug":"projeto-de-lei-sobre-crimes-eletronicos-ameaca-liberdade-na-rede","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=21459","title":{"rendered":"Projeto de lei sobre crimes eletr\u00f4nicos amea\u00e7a liberdade na rede"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"MsoNormal\"><span class=\"padrao\">Tramita em regime de urg&ecirc;ncia no Senado Federal o Projeto de Lei 89\/2003, de autoria do senador Eduardo Azeredo, batizada Lei dos Crimes Eletr&ocirc;nicos. Amparado pelo discurso do combate ao cibercrime e, especialmente, &agrave; pedofilia, o projeto passou praticamente sem causar pol&ecirc;mica pelas comiss&otilde;es de Assuntos Econ&ocirc;micos e de Constitui&ccedil;&atilde;o e Justi&ccedil;a, onde ganhou, no &uacute;ltimo dia 18, o selo de urgente. Do lado de fora do Congresso, por&eacute;m, a simples men&ccedil;&atilde;o ao 89\/03 causa indigna&ccedil;&atilde;o entre militantes e especialistas, que se organizam para reverter a tend&ecirc;ncia de naturaliza&ccedil;&atilde;o da aprova&ccedil;&atilde;o do projeto, considerado por eles um empecilho ao desenvolvimento e ao uso democr&aacute;tico das redes.<\/p>\n<p>As cr&iacute;ticas s&atilde;o bastante duras. Ronaldo Lemos, coordenador do Centro de Tecnologia e Sociedade da Escola de Direito da FGV-Rio, compara o processo de discuss&atilde;o do PL 89\/03 com a aprova&ccedil;&atilde;o do Patriot Act pelo governo Bush. &quot;Utilizar este assunto [a pedofilia] para regulamentar de forma apressada assuntos mais abrangentes, afetando toda a Internet, &eacute; uma estrat&eacute;gia antidemocr&aacute;tica, que lembra a&ccedil;&otilde;es tomadas pelo governo Bush, que em nome do terrorismo regulamentou do petr&oacute;leo &agrave;s telecomunica&ccedil;&otilde;es&quot;, afirmou.<\/p>\n<p>Lemos considera que o principal resultado da aprova&ccedil;&atilde;o do PL ser&aacute; a cria&ccedil;&atilde;o de uma &quot;rede de vigil&acirc;ncia privada&quot; no Brasil. &quot;O projeto coloca os provedores de acesso &agrave; Internet como respons&aacute;veis pela vigil&acirc;ncia dos dados trafegados pelos usu&aacute;rios. N&atilde;o s&oacute;: obriga os provedores a encaminharem &#39;sigilosamente&#39; den&uacute;ncias que tenham recebido de crimes. Com isso, d&aacute;-se in&iacute;cio a uma dupla cultura, da vigil&acirc;ncia privada e do denuncismo, ambas amparadas por lei&quot;, comentou.<\/p>\n<p>&quot;O PLC incentiva o temor, o vigilantismo e a quebra da privacidade. Prejudica a liberdade de fluxos e a criatividade. Imp&otilde;e o medo de expandir as redes&quot;, resumiu em seu blog S&eacute;rgio Amadeu, soci&oacute;logo, autor de diversos livros sobre pol&iacute;ticas para a Internet e militante do movimento Software Livre.<\/p>\n<p><strong>Criminaliza&ccedil;&atilde;o do acesso<\/strong><\/p>\n<p>A an&aacute;lise dos especialistas ouvidos pelo Observat&oacute;rio do Direito &agrave; Comunica&ccedil;&atilde;o mostra que o PL torna crime o simples uso de uma s&eacute;rie de recursos que, hoje, democratizam o acesso &agrave; Internet e a circula&ccedil;&atilde;o de conte&uacute;do. Para Ronaldo Lemos, a aprova&ccedil;&atilde;o do projeto resultar&aacute; na criminaliza&ccedil;&atilde;o em massa dos usu&aacute;rios da Internet, uma vez que torna crime o mero acesso &agrave; rede. &quot;O senador criou um projeto de lei que possui dezenas de artigos que criminalizam atividades cotidianas na rede&quot;, afirmou.<\/p>\n<p>Jo&atilde;o Cassino, militante do movimento Software Livre, chama a aten&ccedil;&atilde;o para o fato de que, ao exigir que todo usu&aacute;rio que acessar uma rede de computadores seja identificado e tenha seus dados armazenados pelo operador da rede, o projeto inviabiliza as redes abertas de uso gratuito. &quot;Se essa lei for aprovada, eu teria que me identificar no provedor. E as cidades com wireless aberto? At&eacute; a orla de Copacabana vai ter sinal aberto&#8230; como cobrar que um turista se registre para utiliz&aacute;-la?&quot;, questiona Cassino. &quot;Vai tornar a coisa t&atilde;o burocr&aacute;tica que vai dificultar o acesso a informa&ccedil;&atilde;o.&quot;<\/p>\n<p>S&eacute;rgio Amadeu aponta os efeitos do projeto sobre o uso de mecanismos do tipo peer to peer (P2P), que foram criados para acelerar a transfer&ecirc;ncia de arquivos &quot;transformando&quot; cada m&aacute;quina ligada &agrave; rede e que tenha este tipo de dispositivo instalado em um potencial servidor de onde se pode baixar o conte&uacute;do, diminuindo as dist&acirc;ncias a serem percorridas pelos pacotes de informa&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>O P2P se tornaria invi&aacute;vel por duas previs&otilde;es do projeto de lei. O PL caracteriza como crime o acesso a rede ou dispositivo sem pr&eacute;via autoriza&ccedil;&atilde;o. Como para baixar um arquivo usando um dispositivo P2P utiliza-se o computador de outras pessoas como &quot;caminho&quot; para a transfer&ecirc;ncia, o usu&aacute;rio estaria incorrendo em uma pr&aacute;tica criminal.<\/p>\n<p>A segunda previs&atilde;o do PL 89\/03 que inviabiliza o uso do P2P &ndash; e de outros mecanismos de compartilhamento de conte&uacute;dos &ndash; &eacute; a obriga&ccedil;&atilde;o dos provedores informarem &agrave; pol&iacute;cia sobre o tr&aacute;fego de conte&uacute;dos suspeitos. Como os diferentes conte&uacute;dos circulam pela rede em &quot;pacotes de informa&ccedil;&atilde;o&quot; fechados, os provedores apenas podem identificar conte&uacute;dos suspeitos &quot;quebrando&quot; estes pacotes. &quot;&Eacute; prov&aacute;vel que se escolha entre dois caminhos: invadir a privacidade e olhar os pacotes baixados ou simplesmente proibir o uso do Torrent para evitar um processo posterior. Um terceiro caminho (mais absurdo ainda!) &eacute; inundar a pol&iacute;cia com listas semanais de usu&aacute;rios do provedor que acessaram redes P2P&quot;, escreve Amadeu.<br \/><strong><br \/>CDs, celulares e MP3 players<\/strong><\/p>\n<p>O projeto do senador Azeredo teria ainda outro efeito que atingiria um n&uacute;mero incont&aacute;vel de cidad&atilde;os que utilizam MP3 players, celulares que comportam arquivos de m&iacute;dia ou qualquer outro tipo de aparelho de comunica&ccedil;&atilde;o similar. Segundo o PLC 89\/03, &ldquo;obter dado ou informa&ccedil;&atilde;o dispon&iacute;vel em rede de computadores, dispositivo de comunica&ccedil;&atilde;o ou sistema informatizado, sem autoriza&ccedil;&atilde;o do leg&iacute;timo titular, quando exigida&rdquo; se configuraria em crime, pass&iacute;vel de dois a quatro anos de deten&ccedil;&atilde;o. Avan&ccedil;ando, &ldquo;nas mesmas penas incorre quem mant&eacute;m consigo, transporta ou fornece dado ou informa&ccedil;&atilde;o obtida nas mesmas circunst&acirc;ncias&rdquo;. Ou seja, o PLC tem ainda a pretens&atilde;o de impedir o transporte e armazenamento de arquivos MP3, por exemplo.<\/p>\n<p>Al&eacute;m disso, o projeto tem em vista tornar crime &ldquo;acessar rede de computador, sistema informatizado ou dispositivo digital sem a autoriza&ccedil;&atilde;o do leg&iacute;timo titular&rdquo;, o que implicaria em inutilizar os IPjosdireitoaco ou outros dispositivos que tenham acesso a rede. &ldquo;O projeto &eacute; t&atilde;o abrangente, que vale n&atilde;o s&oacute; para sites da internet, mas tamb&eacute;m para aparelhos celulares, IPjosdireitoaco, tocadores de DVD, conversores de tv digital e assim por diante&rdquo;, comenta Ronaldo Lemos.<br \/><strong><br \/>Lei inaplic&aacute;vel<\/strong><\/p>\n<p>Jo&atilde;o Cassino acredita, no entanto, que se aprovado o PLC 89\/03, a lei j&aacute; nascer&aacute; obsoleta e de dif&iacute;cil execu&ccedil;&atilde;o. Nesse caso, a lei seria utilizada para encontrar exemplos para a opini&atilde;o p&uacute;blica. &ldquo;&Eacute; como a lei da pirataria. As pessoas v&atilde;o continuar baixando m&uacute;sica, mas de vez em quando eles usar&atilde;o algu&eacute;m para servir de exemplo&rdquo;. Lemos concorda afirmando que mais um efeito mal&eacute;fico da lei seria a gera&ccedil;&atilde;o de &ldquo;bodes expiat&oacute;rios&rdquo;. &ldquo;Com uma lei em que praticamente todos s&atilde;o criminosos, abre-se a possibilidade de que a puni&ccedil;&atilde;o seja aplicada por crit&eacute;rios pol&iacute;ticos&rdquo;, afirma, prevendo conseq&uuml;&ecirc;ncias ainda mais preocupantes. &ldquo;Com isso, caem por terra princ&iacute;pios b&aacute;sicos do Estado democr&aacute;tico de direito.&rdquo;<\/p>\n<p><strong>Necessidade da regulamenta&ccedil;&atilde;o<\/strong><\/p>\n<p>Marcos Dantas, professor da PUC-RJ e especialista em pol&iacute;ticas de comunica&ccedil;&atilde;o, acredita que a Internet pode ser considerada hoje um espa&ccedil;o p&uacute;blico e que, portanto, devem existir leis que a regulem, assim como acontece no mundo real. Ele lembra que v&aacute;rios crimes s&atilde;o cometidos na rede, inclusive atentados &agrave; seguran&ccedil;a nacional e ao Estado democr&aacute;tico. Acredita, contudo, que<\/span> \t<!-- \t\t@page { margin: 2cm } \t\tP { margin-bottom: 0.21cm } \t-->   \t \t \t \t \t \tse pode adotar solu&ccedil;&otilde;es mais dr&aacute;sticas, anti-democr&aacute;ticas, ou solu&ccedil;&otilde;es democr&aacute;ticas e socialmente equilibradas, mas que n&atilde;o se pode subestimar a constante viola&ccedil;&atilde;o &agrave; privacidade que j&aacute; acontece, inclusive e principalmente pelas grandes corpora&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>&ldquo;Talvez seja mesmo necess&aacute;ria uma legisla&ccedil;&atilde;o que me proteja dos interesses corporativos, dos spans, que puna a pornografia e a discrimina&ccedil;&atilde;o, que impe&ccedil;a o uso da rede para a pr&aacute;tica de crimes e, mesmo, atentados ao Estado democr&aacute;tico&rdquo;, afirma. Dantas cita, ainda, mensagens do tipo &ldquo;este programa precisa ser atualizado&rdquo;, comumente enviadas por grandes empresas de software e que n&atilde;o deixam de configurar uma invas&atilde;o aos computadores.<\/p>\n<p>&ldquo;Acho que a inten&ccedil;&atilde;o dos parlamentares &eacute; ter um arcabou&ccedil;o legal contra crimes contra bancos, previd&ecirc;ncia. Mas o projeto &eacute; muito herm&eacute;tico, n&atilde;o tem abrang&ecirc;ncia, n&atilde;o permite trabalho compartilhado&rdquo;, comenta Cassino, revelando que existe um consenso na necessidade de regulamenta&ccedil;&atilde;o, com a qual tamb&eacute;m concorda Lemos. &ldquo;O que o Brasil precisa nesse momento &eacute; que a Internet seja regulamentada do ponto de vista civil&rdquo;, diz o especialista da FGV.<\/p>\n<p>Lemos detalha quais seriam os passos necess&aacute;rios para que se defina do ponto de vista legal a privacidade, o com&eacute;rcio eletr&ocirc;nico e a responsabilidade dos provedores da internet. &ldquo;Ap&oacute;s essa experi&ecirc;ncia legislativa ser posta em pr&aacute;tica, &eacute; preciso avaliar dentro de alguns anos o que deu certo ou n&atilde;o e a&iacute; sim, como &uacute;ltima inst&acirc;ncia regulat&oacute;ria, tratar da quest&atilde;o nos casos excepcionais atrav&eacute;s do direito penal.&rdquo;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Projeto de Lei 89\/2003 instituiria uma &#8220;rede privada de vigil\u00e2ncia&#8221; sobre todo tipo de conte\u00fado que circula na Internet; amparada no discurso do combate \u00e0 pedofilia, proposta tramita em regime de urg\u00eancia no Senado<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[40],"tags":[150],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/21459"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=21459"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/21459\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=21459"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=21459"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=21459"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}