{"id":21452,"date":"2008-06-27T16:46:17","date_gmt":"2008-06-27T16:46:17","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=21452"},"modified":"2008-06-27T16:46:17","modified_gmt":"2008-06-27T16:46:17","slug":"a-tv-globo-e-o-feitico-da-cidadania","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=21452","title":{"rendered":"A TV Globo e o feiti\u00e7o da cidadania"},"content":{"rendered":"<p class=\"texto\">O jornalismo imita a arte. Tal como no filme &ldquo;O feiti&ccedil;o do tempo&quot;, em que um rep&oacute;rter parte para fazer a cobertura de uma festa e, por algum motivo inexplic&aacute;vel, passa a acordar no mesmo dia, nossa grande m&iacute;dia parece estar condenada a uma eterna repeti&ccedil;&atilde;o. O tempo passou. A na&ccedil;&atilde;o reencontrou o caminho da democracia, mas, para boa parte do campo jornal&iacute;stico, a reconcilia&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica &eacute; algo da ordem do impens&aacute;vel. Perpassada por um caldo de cultura que n&atilde;o admite que a arena do jogo pol&iacute;tico n&atilde;o comporte mais golpes, nega-se a cumprir sua fun&ccedil;&atilde;o fundamental: expressar, com a maior diversidade poss&iacute;vel, a complexidade social. Ao n&atilde;o faz&ecirc;-lo, cerceia o que seria seu fundamento: a liberdade de express&atilde;o assegurada no texto constitucional. Torna-se o seu contr&aacute;rio: um obst&aacute;culo &agrave; efetiva&ccedil;&atilde;o da cidadania.<\/p>\n<p>Quem acompanha a hist&oacute;ria da imprensa brasileira sabe de suas conex&otilde;es com interesses dominantes na sociedade fracionada. Conhece, e bem, como s&atilde;o editados fatos e discursos. Tem no&ccedil;&atilde;o aguda de que a autonomia relativa de uma reda&ccedil;&atilde;o encontra seus limites nos interesses do patronato. Franklin Martins e Helena Chagas est&atilde;o a&iacute; como &ldquo;respaldos de provas robustas&rdquo;, &ldquo;evid&ecirc;ncias emp&iacute;ricas que valem seu sal&rdquo; como demonstrou, de forma brilhante, Bernardo Kucinski em seu &uacute;ltimo artigo para Carta Maior.<\/p>\n<p>&Eacute; de autoria do jornalista Paulo Francis a m&aacute;xima segundo a qual &ldquo;a hist&oacute;ria &eacute; mon&oacute;tona, a cada minuto nasce um leitor idiota&rdquo;. Parece que, pelo que temos visto nos &uacute;ltimos anos, a suposta idiotia de leitores e telespectadores &eacute; algo datado, sem sinaliza&ccedil;&atilde;o concreta nos dias atuais. Ainda assim, conv&eacute;m ficar atento a certas &ldquo;espertezas&quot; que podem custar caro ao campo democr&aacute;tico-popular. Quando isso ocorre, a direita comemora com blocos editorializados no Jornal Nacional. E, claro, a nau dos insensatos ainda chama de bom jornalismo o que n&atilde;o passa de desabrida propaganda ideol&oacute;gica. <\/p>\n<p>Est&aacute; faltando pouco para que as &uacute;ltimas edi&ccedil;&otilde;es do JN tenham fundo musical. Afinal s&atilde;o comemorativas e o regozijo com uma suposta falha do advers&aacute;rio &eacute; conhecido do torcedor brasileiro. Se servir para ocultar novos estudos que comprovam os avan&ccedil;os do atual governo, melhor ainda. Sa&iacute;mos do campo futebol&iacute;stico e adentramos a arena da luta de classes. Com a eleg&acirc;ncia da boa resolu&ccedil;&atilde;o visual e o capricho nas chamadas. <\/p>\n<p>Recentemente, o frenesi com um suposto dossi&ecirc; elaborado na Casa Civil n&atilde;o durou nem duas semanas. Ante as flagrante falhas de roteiro, foi substitu&iacute;do pelo &ldquo;caso VarigLog&quot; que, previsto para ocupar p&aacute;ginas e telas por alguns meses, durou alguma horas de depoimento no Senado.Um resultado inesperado para aqueles que, desde 2006, n&atilde;o se conformam com um fen&ocirc;meno in&eacute;dito: uma desgaste pol&iacute;tico, j&aacute; consolidado no imagin&aacute;rio do eleitorado urbano, n&atilde;o se desdobrou em derrota eleitoral. E pior, &agrave; reelei&ccedil;&atilde;o seguiu-se uma impressionante recomposi&ccedil;&atilde;o simb&oacute;lica do governo.<\/p>\n<p>O enredo agora &eacute; o &ldquo;retorno da infla&ccedil;&atilde;o&quot; e seu impacto sobre o n&uacute;cleo pobre da novela diariamente apresentada por William Bonner e F&aacute;tima Bernardes. Em tom solene, o casal anunciou na edi&ccedil;&atilde;o de ontem que &quot;O IPCA de 15 de junho ficou acima do esperado: 0,9%. O &iacute;ndice mede a infla&ccedil;&atilde;o de quem ganha at&eacute; 40 sal&aacute;rios m&iacute;nimos. Nos &uacute;ltimos 12 meses, a alta foi de 5,89%. J&aacute; o &Iacute;ndice Nacional de Pre&ccedil;os ao Consumidor (INPC), que mede a infla&ccedil;&atilde;o para os mais pobres, foi de 6,64%.&quot; O depoimento de uma empregada dom&eacute;stica serviu como refor&ccedil;o dram&aacute;tico e calculado ingrediente de desinforma&ccedil;&atilde;o funcional: &ldquo;Ivonete Alc&acirc;ntara, que ganha R$ 620 por m&ecirc;s, conhece bem essa realidade&rdquo;. &ldquo;O que a gente comprava no in&iacute;cio do ano, hoje s&oacute; d&aacute; para comprar a metade&rdquo;<\/p>\n<p>Sejamos francos, s&oacute; mesmo sendo muito ing&ecirc;nuo para cair no &ldquo;conto dos dossi&ecirc;s&rdquo;. Qualquer pessoa, com um m&iacute;nimo de bom senso, farejaria de longe a &oacute;bvia &ldquo;trampa&rdquo;. &Eacute; o velho jornalismo que, como poucos, sabe servir &agrave; direita autorit&aacute;ria e suas lideran&ccedil;as renovadas, habituadas ao jogo em que podem tudo perder, menos os interesses e privil&eacute;gios. Personagens que se apresentam como novos, &aacute;vidos por instaurar um &quot; marco zero&quot; assustador.<\/p>\n<p>Uma imprensa que ignora o princ&iacute;pio da publicidade, n&atilde;o permite &agrave; cidadania controlar a informa&ccedil;&atilde;o. Mais que desinformar, avoca para si uma fun&ccedil;&atilde;o que n&atilde;o lhe pertence, pretendendo tomar decis&otilde;es vinculantes para o conjunto da sociedade. Um parlamento midi&aacute;tico, formado por editores tucano- lacerdistas,respaldados por seguidos pronunciamentos de ministros do STF a lhes prometerem sustenta&ccedil;&atilde;o legal em sua aventura.<\/p>\n<p>Ainda mais, e isso &eacute; o muito relevante, desde 2006 h&aacute; v&aacute;rios dossi&ecirc;s sendo escondidos no notici&aacute;rio global. O primeiro veio do Pnad (Pesquisa Nacional de Amostra por Domic&iacute;lio). Para desespero dos expoentes da Teoria da Depend&ecirc;ncia, que agora elegeram a UDN como modelo: o n&iacute;vel de pobreza caiu 19,18% nos tr&ecirc;s primeiros anos do governo Lula, o maior recuo em dez anos. Somemos a isso a retomada do emprego, estagnada h&aacute; uma d&eacute;cada, segundo Marcelo N&eacute;ri, coordenador da pesquisa. <\/p>\n<p>Mas o que mais impressionava no &ldquo;dossi&ecirc;&rdquo; a ser ocultado vinha a seguir: &ldquo;&lsquo;Os pobres e ricos tiveram ganhos expressivos de renda&rsquo;&rdquo;, dizia N&eacute;ri, coordenador da pesquisa. 50% dos mais pobres aumentaram sua renda em 8,5%, enquanto os 10% mais ricos, depois de cinco anos de perdas, tiveram ganhos de cerca 6%. A classe m&eacute;dia teve um crescimento um pouco menor, de 5,5% da renda.&quot;Era esse o governo que privilegiou banqueiros? Com a palavra os editores de economia. Aqueles que deveriam sempre se pautar por evid&ecirc;ncias emp&iacute;ricas que valem o sal de todo m&ecirc;s.<\/p>\n<p>Passados dois anos, outros &quot;dossi&ecirc;s&quot; continuam sendo discretamente ocultados sob a forma de breves registros, a serem apagados, rapidamente, no dia seguinte &agrave; publica&ccedil;&atilde;o: A taxa de desemprego, anunciada pelo IBGE, caiu para 7,9%, o segundo menor percentual j&aacute; registrado pela s&eacute;rie hist&oacute;rica do Instituto, desde 2002. Certamente h&aacute; como neutralizar esse &quot;esc&acirc;ndalo&quot;. O menor n&uacute;mero de desocupados s&oacute; aumenta os riscos de uma infla&ccedil;&atilde;o de demanda. Para tudo, dir&aacute; um bom editor, h&aacute; um ant&iacute;doto farsesco.<\/p>\n<p>Outros &ldquo;dossi&ecirc;s&quot; d&atilde;o conta de que o volume de cr&eacute;dito cresceu 32% em um ano; que a Previd&ecirc;ncia tem maior valor m&eacute;dio de benef&iacute;cios pagos desde 2001; que a desigualdade de renda do trabalho no Brasil, medida pelo &Iacute;ndice de Gini, teve queda de 7%, entre o quarto trimestre de 2002 e o primeiro de 2008.<\/p>\n<p>Mas o direcionamento do notici&aacute;rio dos conglomerados deve repetir &agrave; exaust&atilde;o, o que a bancada do JN anunciou como o &uacute;nico fato relevante: &quot;Os alimentos foram de novo os vil&otilde;es da infla&ccedil;&atilde;o. O arroz subiu 17,09%. Alta tamb&eacute;m no pre&ccedil;o da batata, tomate, macarr&atilde;o, carne e p&atilde;o franc&ecirc;s. &ldquo;O que aumentou &eacute; o que o pobre come&rdquo;, disse uma consumidora&rdquo;.<\/p>\n<p>Pelo visto, a cobertura jornal&iacute;stica continuar&aacute; n&atilde;o se ocupando com as an&aacute;lises de pol&iacute;ticas p&uacute;blicas, mostrando o que &eacute; vi&aacute;vel ou n&atilde;o. A telecracia continuar&aacute; impedindo a discuss&atilde;o pol&iacute;tica que se imp&otilde;e. O importante &eacute;, atrav&eacute;s de clara sonega&ccedil;&atilde;o, informativa continuar trabalhando com velhos e novos fantasmas. Ser&aacute; muito dif&iacute;cil para a imprensa fugir de sua pr&oacute;pria dana&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Em &ldquo;O Feiti&ccedil;o do Tempo&quot;, o personagem s&oacute; pode seguir em frente na vida, se mudar seu car&aacute;ter. Aqui, justi&ccedil;a seja feita &agrave;s evid&ecirc;ncias, a arte n&atilde;o imita o jornalismo.<em><\/p>\n<p>* Gilson Caroni Filho &eacute; professor de Sociologia das Faculdades Integradas H&eacute;lio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, colunista da Carta Maior e colaborador do Observat&oacute;rio da Imprensa.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O jornalismo imita a arte. Tal como no filme &ldquo;O feiti&ccedil;o do tempo&quot;, em que um rep&oacute;rter parte para fazer a cobertura de uma festa e, por algum motivo inexplic&aacute;vel, passa a acordar no mesmo dia, nossa grande m&iacute;dia parece estar condenada a uma eterna repeti&ccedil;&atilde;o. O tempo passou. 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