{"id":21375,"date":"2008-06-13T19:26:53","date_gmt":"2008-06-13T19:26:53","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=21375"},"modified":"2008-06-13T19:26:53","modified_gmt":"2008-06-13T19:26:53","slug":"os-desafios-do-forum-de-midia-livre","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=21375","title":{"rendered":"Os desafios do F\u00f3rum de M\u00eddia Livre"},"content":{"rendered":"<p class=\"texto\"><em>A luta pela recupera&ccedil;&atilde;o da palavra cr&iacute;tica &eacute; latino-americana e internacional. Em janeiro de 2009, Bel&eacute;m do Par&aacute; estar&aacute; sediando mais uma edi&ccedil;&atilde;o do F&oacute;rum Social Mundial. Podemos, de agora at&eacute; o final do ano, trabalhar pelo fortalecimento dessa articula&ccedil;&atilde;o e pela constru&ccedil;&atilde;o de uma agenda de debates que aponte para propostas concretas para a democratiza&ccedil;&atilde;o da comunica&ccedil;&atilde;o e da informa&ccedil;&atilde;o.<\/em><\/p>\n<p>No dia 14 de maio deste ano, um grupo de mais de 750 intelectuais argentinos lan&ccedil;ou uma carta aberta &agrave; sociedade alertando para o crescimento de um clima golpista no pa&iacute;s, com participa&ccedil;&atilde;o ativa dos grandes meios de comunica&ccedil;&atilde;o. Al&eacute;m disso, o documento advertiu os governos latino-americanos para uma batalha simb&oacute;lica que n&atilde;o est&aacute; sendo enfrentada. A manifesta&ccedil;&atilde;o dos intelectuais argentinos identifica bem um problema estrat&eacute;gico relacionado &agrave; atua&ccedil;&atilde;o da m&iacute;dia em toda a Am&eacute;rica Latina. O contexto pol&iacute;tico argentino fornece a moldura dessa advert&ecirc;ncia. Uma advert&ecirc;ncia que &eacute; pertinente &agrave; realidade pol&iacute;tica de toda a Am&eacute;rica Latina e que merece toda a nossa aten&ccedil;&atilde;o. Os signat&aacute;rios do documento divulgado em Buenos Aires definiram do seguinte modo o contexto da crise pol&iacute;tica na Argentina, explicitada a partir da mobiliza&ccedil;&atilde;o do setor ruralista contra o governo de Cristina Kirchner:<\/p>\n<p>&ldquo;Como em outras circunst&acirc;ncias de nossa cr&ocirc;nica contempor&acirc;nea, hoje assistimos em nosso pa&iacute;s a uma dura confronta&ccedil;&atilde;o entre setores econ&ocirc;micos, pol&iacute;ticos e ideol&oacute;gicos historicamente dominantes e um governo democr&aacute;tico que tenta implementar determinadas reformas na distribui&ccedil;&atilde;o de renda e adotar estrat&eacute;gias de interven&ccedil;&atilde;o na economia. A oposi&ccedil;&atilde;o &agrave;s reten&ccedil;&otilde;es &ndash; compreens&iacute;vel objeto de lit&iacute;gio &ndash; deu lugar a alian&ccedil;as que chegaram a lan&ccedil;ar a amea&ccedil;a da fome para o resto da sociedade e lan&ccedil;aram questionamentos sobre o direito e o poder pol&iacute;tico constitucional do governo de Cristina Fern&aacute;ndez para efetivar seus programas de a&ccedil;&atilde;o, a quatro meses de sua elei&ccedil;&atilde;o pela maioria da sociedade&rdquo;.<\/p>\n<p>O que essa realidade tem a ver conosco?<\/p>\n<p>Tem a ver na medida que se refere a processos que nos s&atilde;o bastante familiares aqui no Brasil. Sen&atilde;o, vejamos as palavras seguintes do manifesto dos intelectuais argentinos sobre a natureza da a&ccedil;&atilde;o da oposi&ccedil;&atilde;o ao governo de Cristina Kirchner:<\/p>\n<p>&ldquo;Instalou-se um clima de desconstitui&ccedil;&atilde;o que tem sido considerado com a categoria do golpismo. N&atilde;o, talvez, no sentido mais cl&aacute;ssico de incentivar alguma forma mais ou menos violenta de interrup&ccedil;&atilde;o da ordem institucional. Mas n&atilde;o h&aacute; d&uacute;vida de que muitos dos argumentos que se ouviram nestas semanas t&ecirc;m paralelos ostensivos com os que, no passado, justificaram esse tipo de interven&ccedil;&otilde;es e, sobretudo, um muito reconhec&iacute;vel desprezo pela legitimidade governamental&rdquo;.<\/p>\n<p>Essas palavras soam familiares. Elas falam da &ldquo;barb&aacute;rie pol&iacute;tica di&aacute;ria da m&iacute;dia&rdquo; e de uma &ldquo;atmosfera pol&iacute;tica perigosa&rdquo; alimentada pelos grandes meios de comunica&ccedil;&atilde;o:<\/p>\n<p>&ldquo;Na atual confronta&ccedil;&atilde;o em torno da pol&iacute;tica de reten&ccedil;&otilde;es (impostos sobre produtos de exporta&ccedil;&atilde;o) desempenharam e desempenham um papel fundamental os meios massivos de comunica&ccedil;&atilde;o mais concentrados, tanto audiovisuais como gr&aacute;ficos, de alt&iacute;ssimos n&iacute;veis de audi&ecirc;ncia, que estruturam diariamente a realidade dos fatos, que geram &lsquo;o sentido&rsquo; e as interpreta&ccedil;&otilde;es e definem &lsquo;a verdade&rsquo; sobre atores sociais e pol&iacute;ticos a partir de vari&aacute;veis interessadas que excedem a busca de audi&ecirc;ncia. Meios que gestam a distor&ccedil;&atilde;o do que ocorre, que difundem o preconceito e o racismo mais espont&acirc;neos, sem a responsabilidade por explicar, por informar adequadamente nem por refletir com pondera&ccedil;&atilde;o as mesmas circunst&acirc;ncias conflitivas e cr&iacute;ticas sobre as quais operam&rdquo;.<\/p>\n<p>O documento prossegue:<\/p>\n<p>&ldquo;Esta pr&aacute;tica de aut&ecirc;ntica barb&aacute;rie pol&iacute;tica di&aacute;ria, de desinforma&ccedil;&atilde;o e discrimina&ccedil;&atilde;o, consiste na gesta&ccedil;&atilde;o permanente de mensagens formadoras de uma consci&ecirc;ncia coletiva reacion&aacute;ria. Privatizam as consci&ecirc;ncias com um sentido comum cego, iletrado, impressionista, imediatista, parcial. Alimentam uma opini&atilde;o p&uacute;blica de perfil anti-pol&iacute;tico, que desacredita a exist&ecirc;ncia de um Estado democraticamente interventor na luta de interesses sociais. A rea&ccedil;&atilde;o dos grandes meios diante do Observat&oacute;rio da discrimina&ccedil;&atilde;o na r&aacute;dio e na televis&atilde;o mostra claramente um desprezo fundamental pelo debate p&uacute;blico e pela efetiva liberdade de informa&ccedil;&atilde;o&rdquo;.<\/p>\n<p>Diante dessa pr&aacute;tica de &ldquo;barb&aacute;rie pol&iacute;tica di&aacute;ria de desinforma&ccedil;&atilde;o e discrimina&ccedil;&atilde;o&rdquo;, os intelectuais argentinos colocam como desafio para toda a Am&eacute;rica Latina, ou seja, para todos n&oacute;s, &ldquo;a recupera&ccedil;&atilde;o da palavra cr&iacute;tica em todos os planos das pr&aacute;ticas e no interior de uma cena social dominada pela ret&oacute;rica dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o e pela direita ideol&oacute;gica de mercado&rdquo;. A recupera&ccedil;&atilde;o de uma palavra cr&iacute;tica que &ldquo;compreenda a dimens&atilde;o dos conflitos nacionais e latino-americanos, que assinale as contradi&ccedil;&otilde;es centrais que est&atilde;o em jogo, mas sobretudo que acredite ser imprescind&iacute;vel voltar a articular uma rela&ccedil;&atilde;o entre mundos intelectuais e sociais com a realidade pol&iacute;tica&rdquo;.<\/p>\n<p>Esse &eacute; um dos principais desafios que est&aacute; colocado diante de n&oacute;s que estamos construindo esse movimento de M&iacute;dia Livre no Brasil. N&atilde;o se trata de uma luta que se encerra nas fronteiras nacionais. N&atilde;o se trata tamb&eacute;m de um debate que se limita &agrave; reivindica&ccedil;&atilde;o por crit&eacute;rios democr&aacute;ticos na distribui&ccedil;&atilde;o de verbas p&uacute;blicas para o setor de comunica&ccedil;&atilde;o. H&aacute; uma dimens&atilde;o pol&iacute;tica nesta disputa que envolve um enfrentamento com fortes estruturas de poder pol&iacute;tico e econ&ocirc;mico ligadas ao grande capital financeiro. &Eacute; disso que se trata.<\/p>\n<p>A luta pela recupera&ccedil;&atilde;o da palavra cr&iacute;tica &eacute; uma luta latino-americana e internacional. &Eacute; importante ter isso em mente no momento em que realizamos o primeiro F&oacute;rum de M&iacute;dia Livre no Brasil. Nossos problemas n&atilde;o s&atilde;o exclusividade nossa. Fazem parte de uma realidade internacional onde a chamada grande m&iacute;dia n&atilde;o &eacute; um feudo dissociado de outras estruturas de poder. Como j&aacute; disse Bernard Cassen, os propriet&aacute;rios dos grandes sistemas midi&aacute;ticos s&atilde;o empres&aacute;rios transnacionais que, na imensa maioria dos casos, t&ecirc;m neg&oacute;cios diversificados em outros setores para al&eacute;m da m&iacute;dia. Ou seja, eles est&atilde;o conectados ao mercado global e s&atilde;o atores centrais do processo de globaliza&ccedil;&atilde;o. Enquanto tal, conclui Cassen, esse sistema &eacute; um vetor ideol&oacute;gico estrat&eacute;gico da globaliza&ccedil;&atilde;o do capital.<\/p>\n<p>Cabe a n&oacute;s, portanto, trabalhar pela constru&ccedil;&atilde;o de uma articula&ccedil;&atilde;o latino-americana e internacional em torno da proposta de uma m&iacute;dia livre. Temos uma grande oportunidade hist&oacute;rica para fazer essa luta avan&ccedil;ar. Em janeiro de 2009, Bel&eacute;m do Par&aacute; estar&aacute; sediando mais uma edi&ccedil;&atilde;o do F&oacute;rum Social Mundial. A agenda da m&iacute;dia e da comunica&ccedil;&atilde;o mais uma vez estar&aacute; presente nos debates do FSM. Podemos, de agora at&eacute; o final do ano, trabalhar pelo fortalecimento dessa articula&ccedil;&atilde;o e pela constru&ccedil;&atilde;o de uma agenda de debates que aponte para propostas concretas para a democratiza&ccedil;&atilde;o da comunica&ccedil;&atilde;o e da informa&ccedil;&atilde;o. Esse &eacute; um dos principais desafios que est&aacute; em nossas m&atilde;os.<em><\/p>\n<p>*  Joaquim Ernesto Palhares &eacute; diretor da Ag&ecirc;ncia Carta Maior<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A luta pela recupera&ccedil;&atilde;o da palavra cr&iacute;tica &eacute; latino-americana e internacional. Em janeiro de 2009, Bel&eacute;m do Par&aacute; estar&aacute; sediando mais uma edi&ccedil;&atilde;o do F&oacute;rum Social Mundial. 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