{"id":21343,"date":"2008-06-06T19:33:53","date_gmt":"2008-06-06T19:33:53","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=21343"},"modified":"2008-06-06T19:33:53","modified_gmt":"2008-06-06T19:33:53","slug":"que-papelao-rede-globo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=21343","title":{"rendered":"Que papel\u00e3o, Rede Globo!"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"MsoNormal\"><span>A Rede Globo, que n&atilde;o carece de apresenta&ccedil;&otilde;es, acabou de terminar uma das suas obras ficcionais mais marcadamente ideol&oacute;gica dos &uacute;ltimos anos, a novela &ldquo;Duas Caras&rdquo;, do tamb&eacute;m j&aacute; conhecido roteirista engajado com as causas da emissora, Aguinaldo Silva. A novela, que foi exibida no conhecido hor&aacute;rio nobre oferecido &agrave;s obras ficcionais, trabalhou arduamente contra lutas travadas pelos movimentos sociais, dentre eles o movimento negro e o movimento estudantil. Sem falar das doses di&aacute;rias de discursos contra o setor p&uacute;blico, os partidos e os pol&iacute;ticos.<\/p>\n<p>A novela prestou um verdadeiro desservi&ccedil;o &agrave; afirma&ccedil;&atilde;o da ra&ccedil;a no Brasil, pregando uma avers&atilde;o clara &agrave; discuss&atilde;o de identidade negra e cultivou uma id&eacute;ia de racismo &agrave;s avessas, dos negros em rela&ccedil;&atilde;o aos brancos. Afinal somos todos iguais e bonitos. Se n&atilde;o temos as mesmas oportunidades &eacute; porque, paci&ecirc;ncia, nem todo mundo se esfor&ccedil;a como deveria. Como n&atilde;o poderia deixar de ser, a trama serviu para lan&ccedil;ar e fazer publicidade de outro grande desservi&ccedil;o p&uacute;blico, o livro do diretor-executivo de jornalismo da emissora, Ali Kamel, que tem como t&iacute;tulo (pasmem!): &ldquo;N&atilde;o somos racistas&rdquo;.<\/p>\n<p> O movimento estudantil foi &ldquo;pautado&rdquo; pela novela, que tinha um &ldquo;cunho social apurado&rdquo;. Os estudantes, l&oacute;gico, foram tratados como v&acirc;ndalos sem causa, com direito a desqualifica&ccedil;&atilde;o das universidades p&uacute;blicas, &ldquo;que vivem em greve e n&atilde;o tem dinheiro para manter nem os laborat&oacute;rios&rdquo; e uma apologia &agrave;s universidades privadas.<\/p>\n<p> Sem falar da imagem da favela idealizada pela Globo&#8230;<\/p>\n<p> N&atilde;o satisfeita, ou melhor, muito satisfeita com o resultado que lhe rendeu exorbitantes pontos no Ibope, a Globo resolve &ldquo;prestar favores&rdquo; a outro setor que vem sendo a duras penas desmascarado pelos movimentos sociais: as empresas de papel e celulose. Com a imagem ferida pelas a&ccedil;&otilde;es de movimentos como os de luta pela terra, ambientalistas e ind&iacute;genas que denunciam suas constantes viola&ccedil;&otilde;es, as empresas de celulose &ndash; ARACRUZ CELULOSE, VOTORANTIM E SUZANO &ndash;, segundo informa&ccedil;&otilde;es que circulam pela Internet, seriam as patrocinadoras da nova novela das 8h, que entrou no ar no &uacute;ltimo dia 2\/6, &ldquo;A Favorita&rdquo;.<\/p>\n<p> A trama tem, dentre suas protagonistas, uma menina linda, loira, meiga e militante ambientalista. Esta linda mocinha, preocupada com o desmatamento no Brasil &eacute; nada mais nada menos que a grande herdeira de um imp&eacute;rio de celulose.&nbsp; Os donos da f&aacute;brica de celulose, seus av&oacute;s, que sofrem com a&ccedil;&otilde;es de sindicalistas exaltados, s&atilde;o tamb&eacute;m igualmente bonzinhos e humanos como a loira.<\/p>\n<p> No primeiro cap&iacute;tulo j&aacute; deu para perceber algumas movimenta&ccedil;&otilde;es de que a grande empresa de celulose n&atilde;o ser&aacute; nem de longe a vil&atilde; desta trama. Como n&atilde;o poderiam faltar, frases feitas contra os &ldquo;militantes&rdquo; da fic&ccedil;&atilde;o j&aacute; foram proferidas. Coisas como &ldquo;At&eacute; a minha neta de esquerda se deixa seduzir pelas maravilhas que o dinheiro pode comprar&rdquo;, ditas pelo bom av&ocirc;, que l&oacute;gico, j&aacute; superou a &ldquo;doen&ccedil;a infantil e ultrapassada&rdquo; de ser de esquerda, como o mesmo falou em outra passagem.<\/p>\n<p> A trama tem espa&ccedil;o tamb&eacute;m para um pol&iacute;tico que veio &ldquo;de baixo&rdquo;, um negro, que tem um discurso enf&aacute;tico sobre as suas origens e contra os corruptos, mas que pelo visto est&aacute; muito envolvido com as &ldquo;benesses&rdquo; do poder (se algu&eacute;m vestir a carapu&ccedil;a, paci&ecirc;ncia. &Eacute; o papel do Quarto Poder fazer den&uacute;ncias subliminares). Enfim, este foi s&oacute; o primeiro cap&iacute;tulo de uma novela que ainda vai trabalhar muito no plano ideol&oacute;gico mais declarado e n&atilde;o somente no subliminar, como era mais comum em outras tramas.<\/p>\n<p> Assim como as novelas, as propagandas institucionais da Globo tamb&eacute;m est&atilde;o tomando claramente lado nos debates, como por exemplo a &uacute;ltima campanha institucional &agrave; favor da &ldquo;liberdade de express&atilde;o na publicidade&rdquo;. Na verdade, a rede vem tomando o lado de quem paga a conta. Diante da &ldquo;amea&ccedil;a&rdquo; de uma popula&ccedil;&atilde;o que n&atilde;o respondeu satisfatoriamente &agrave;s campanhas contra Lula e, contrariando a emissora, reelegeu o presidente em 2006, s&atilde;o mesmo necess&aacute;rias a&ccedil;&otilde;es mais diretas e a ado&ccedil;&atilde;o de um perfil mais apelativo das novelas. At&eacute; porque n&atilde;o se pode mais correr o risco de n&atilde;o voltar ao poder, literalmente falando.<\/p>\n<p> Mais uma vez os grandes grupos de m&iacute;dia no Brasil demonstram e reafirmam a&nbsp; fidelidade aos seus co-irm&atilde;os, o grande empresariado. O papel de Partido da Burguesia, Aparelho Privado de Hegemonia, como queiram chamar, segue se aperfei&ccedil;oando, assim como o pr&oacute;prio modelo de explora&ccedil;&atilde;o, assim como o pr&oacute;prio capital.<\/p>\n<p> O uso de uma concess&atilde;o p&uacute;blica para fins meramente privados vai tamb&eacute;m sendo aperfei&ccedil;oado e passando &agrave; margem dos questionamentos p&uacute;blicos. Por que ser&aacute; que o fato de uma concess&atilde;o p&uacute;blica ser usada para fazer campanha de opini&atilde;o n&atilde;o &eacute; tomada como um esc&acirc;ndalo? Com que direito a Globo &#8211; que, quando &eacute; do seu interesse, defende a transpar&ecirc;ncia com o que &eacute; p&uacute;blico &#8211; faz isso com a sua concess&atilde;o que tamb&eacute;m &eacute; p&uacute;blica? Quem lhe deu mandato para dizer o que quer e n&atilde;o estabelecer contraposi&ccedil;&otilde;es no uso desta concess&atilde;o?<\/p>\n<p> Boa parte do poder p&uacute;blico, seja o Executivo, o Legislativo e at&eacute; por vezes o pr&oacute;prio Judici&aacute;rio, tem medo de comprar a briga contra os meios de comunica&ccedil;&atilde;o de massa. Temem o ostracismo midi&aacute;tico e serem tachados de respons&aacute;veis por trazer de volta &agrave; vida o fantasma da censura, amea&ccedil;as seguidamente feitas a quem ousa questionar o poder irrestrito e a total desregula&ccedil;&atilde;o na qual funciona os grandes meios. De forma bem elaborada, os bar&otilde;es da m&iacute;dia e a Globo, em especial, conseguem assumir o posto de guardi&otilde;es da liberdade e jogar a morda&ccedil;a nas m&atilde;os de quem luta pelo fim dos monop&oacute;lios, pela pluralidade.<\/p>\n<p> Provavelmente gritar&atilde;o &ldquo;censura&rdquo; quando se depararem com cr&iacute;ticas como estas, por exemplo. Desde j&aacute; vamos deixar claro que n&atilde;o questionamos aqui a liberdade de cria&ccedil;&atilde;o. Esta deve ser preservada. Contudo, n&atilde;o podemos deixar passar impune o uso do espa&ccedil;o p&uacute;blico para fazer uma campanha de opini&atilde;o em que s&oacute; um lado tem vez e voz: o lado dos patrocinadores, que, por sua vez, precisam &ldquo;limpar&rdquo; suas imagens.<\/p>\n<p> N&atilde;o foram poucos os te&oacute;ricos que previram, acusaram e comprovaram que a m&iacute;dia, principalmente os meios de comunica&ccedil;&atilde;o de massa ligados a grandes grupos econ&ocirc;micos, a conglomerados de m&iacute;dia, t&ecirc;m um papel a cumprir: o de porta-voz das classes dominantes, de legitimador do consumo e das a&ccedil;&otilde;es do capital. Papel que cumprem, diga-se de passagem, muito bem.<\/p>\n<p> Mesmo sem ter uma vis&atilde;o apocal&iacute;ptica dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o, &eacute; imposs&iacute;vel n&atilde;o perceber a for&ccedil;a que estes ve&iacute;culos t&ecirc;m sobre boa parcela da sociedade e a legitimidade que tramas como estas podem trazer para suas causas, j&aacute; que atuar no plano jornal&iacute;stico apenas n&atilde;o d&aacute; mais conta de passar o recado e trazer o retorno esperado.<\/p>\n<p> Ser&aacute; que s&oacute; quando os militantes que combatem as transnacionais patrocinarem a novela &eacute; que eles poder&atilde;o ter suas vis&otilde;es veiculadas sem distor&ccedil;&otilde;es e estere&oacute;tipos?<\/p>\n<p><em>Mariana Martins &eacute; jornalista e integrante do Intervozes &#8211; Coletivo Brasil de Comunica&ccedil;&atilde;o Social<\/em><\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><span>&nbsp;<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Rede Globo, que n&atilde;o carece de apresenta&ccedil;&otilde;es, acabou de terminar uma das suas obras ficcionais mais marcadamente ideol&oacute;gica dos &uacute;ltimos anos, a novela &ldquo;Duas Caras&rdquo;, do tamb&eacute;m j&aacute; conhecido roteirista engajado com as causas da emissora, Aguinaldo Silva. 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