{"id":21313,"date":"2008-06-03T15:20:38","date_gmt":"2008-06-03T15:20:38","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=21313"},"modified":"2008-06-03T15:20:38","modified_gmt":"2008-06-03T15:20:38","slug":"beijo-gay-nao-devia-incomodar-ninguem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=21313","title":{"rendered":"Beijo gay n\u00e3o devia incomodar ningu\u00e9m"},"content":{"rendered":"<p>   \t \t \t \t \t \t \t<!-- \t\t@page { margin: 2cm } \t\tP { margin-bottom: 0.21cm } \t-->Na quarta-feira (28\/5) a atriz Lilia Cabral declarou em entrevista &agrave; Folha Online que o dilema de ter ou n&atilde;o ter um beijo gay no &uacute;ltimo cap&iacute;tulo da novela <em>Duas Caras<\/em> j&aacute; lhe &quot;encheu o saco&quot;. Completou dizendo que &quot;essa hist&oacute;ria (do beijo) torna tudo muito pequeno. O beijo &eacute; na intimidade. Acho que o que vale &eacute; a capacidade de se encontrar em outra pessoa e ser feliz. Isso tem muito mais valor humano do que simplesmente essa hist&oacute;ria de ter ou n&atilde;o beijo gay&quot;.<\/p>\n<p>Se, por um lado, Lilia Cabral elege a intimidade como o lugar do beijo, por outro ela ignora o valor s&oacute;cio-cultural da sua representa&ccedil;&atilde;o. A alcova pode ser um dos lugares que escolhemos para demonstrar nosso amor e nosso afeto, mas &eacute; o olhar do outro que confere a esse afeto valores positivos &ndash; que nos motiva a continuar a express&aacute;-los &ndash; ou negativos &ndash; que nos causam acanhamento, interdi&ccedil;&atilde;o e dor.<\/p>\n<p>A alteridade diz que &quot;todo o homem social interage e interdepende de outros indiv&iacute;duos. Assim, a exist&ecirc;ncia do `eu-individual&acute; s&oacute; &eacute; permitida mediante um contato com o <em>outro<\/em> (que em uma vis&atilde;o expandida se torna o Outro &ndash; a pr&oacute;pria sociedade diferente do indiv&iacute;duo). Dessa forma, eu apenas existo a partir do outro, da vis&atilde;o do outro, o que me permite tamb&eacute;m compreender o mundo a partir de um olhar diferenciado, partindo tanto do diferente quanto de mim mesmo&quot;.<\/p>\n<p><strong>&quot;Princ&iacute;pios de qualidade&quot;<\/p>\n<p><\/strong>Quando Ayrton Senna flamulava a bandeira do Brasil ap&oacute;s suas vit&oacute;rias, nos emocion&aacute;vamos porque nos reconhec&iacute;amos nele, elevados a um lugar que almej&aacute;vamos na vis&atilde;o do outro, nesse caso, o mundo inteiro. Agimos assim quando um atleta ol&iacute;mpico nos leva ao p&oacute;dio, ou quando &quot;somos reconhecidos&quot; &ndash; em um caminho ps&iacute;quico inverso &ndash; nos romances, filmes e novelas. Nenhum deles nos faria sentido se n&atilde;o pud&eacute;ssemos encontrar ali uma identifica&ccedil;&atilde;o poss&iacute;vel. Perderiam sua emo&ccedil;&atilde;o, seu encanto, sua audi&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>Desta forma, todos desejam se reconhecer na TV, no cinema, na arte; todos querem ser acolhidos no espelho p&uacute;blico do simb&oacute;lico, no grande olhar do outro, seja na representa&ccedil;&atilde;o da sua paix&atilde;o, do seu sofrimento, dos seus sonhos e conquistas.<\/p>\n<p>No entanto, a proibi&ccedil;&atilde;o pela emissora na quest&atilde;o da exibi&ccedil;&atilde;o de um beijo entre pessoas que representam outros milh&otilde;es verdadeiros nas suas leg&iacute;timas aspira&ccedil;&otilde;es, al&eacute;m da declara&ccedil;&atilde;o de uma de suas representantes condenando esse tipo de afeto a uma obscura &quot;intimidade&quot;, confronta a id&eacute;ia de uma sociedade baseada na alteridade onde, como diz Frei Betto, &quot;s&oacute; existe generosidade na medida em que percebo o outro como outro e a diferen&ccedil;a do outro em rela&ccedil;&atilde;o a mim. Ent&atilde;o, sou capaz de entrar em rela&ccedil;&atilde;o com ele pela &uacute;nica via poss&iacute;vel porque, se tirar essa via, caio no colonialismo, vou querer ser como ele ou que ele seja como sou &ndash; a via do amor, se quisermos usar uma express&atilde;o evang&eacute;lica; a via do respeito, se quisermos usar uma express&atilde;o &eacute;tica; a via do reconhecimento dos seus direitos, se quisermos usar uma express&atilde;o jur&iacute;dica; a via do resgate do realce da sua dignidade como ser humano, se quisermos usar uma express&atilde;o moral&quot;.<\/p>\n<p>A emissora justifica sua censura declarando temer &quot;preju&iacute;zos institucionais e comerciais&quot; &ndash; como reportado por Daniel de Castro na <em>Folha<\/em> (11\/05\/2008) &ndash; e que a exibi&ccedil;&atilde;o da cena fere &quot;princ&iacute;pios de qualidade&quot; da emissora. Diz ainda que pode &quot;chocar&quot; a audi&ecirc;ncia.<\/p>\n<p><strong>Proposta da alteridade<\/p>\n<p><\/strong>Chocante &eacute; constatar a fraqueza &eacute;tica de pessoas e institui&ccedil;&otilde;es que se dizem chocadas com uma manifesta&ccedil;&atilde;o de afeto que elas mesmas legitimam somente para uma parte da popula&ccedil;&atilde;o. Contudo, permitem a si mesmas distrair com cenas de viol&ecirc;ncia descarada, exposi&ccedil;&atilde;o e grafismo sexuais apelativos, consumismo, esc&aacute;rnio do pr&oacute;ximo e comportamentos vis. Uma fraqueza t&atilde;o parcial pode ser alegada para justificar tal obje&ccedil;&atilde;o? Um v&eacute;u que esconde o temor de algo t&atilde;o aut&ecirc;ntico, veross&iacute;mil e digno que sua simples admiss&atilde;o pode abrir definitivamente as comportas de uma grande represa criada por s&eacute;culos de nega&ccedil;&atilde;o?<\/p>\n<p>O filme de Ang Lee <em>O segredo de Brokeback Mountain<\/em> n&atilde;o fez concess&atilde;o alguma ao que a sociedade supostamente estava ou n&atilde;o preparada para ver. O diretor usou sensibilidade e talento para mostrar uma hist&oacute;ria de amor universal que contempla todos, revelando que &quot;a experi&ecirc;ncia da alteridade (e a elabora&ccedil;&atilde;o dessa experi&ecirc;ncia) leva-nos a ver aquilo que nem ter&iacute;amos conseguido imaginar&quot; e que &quot;devemos especialmente reconhecer que somos uma cultura poss&iacute;vel entre tantas outras, mas n&atilde;o a &uacute;nica&quot;.<\/p>\n<p>Assim, relacionar-se com o outro reconhecendo a legitimidade da sua express&atilde;o &eacute; a base de uma co-presen&ccedil;a &eacute;tica. Jos&eacute; Roberto Goldim diz que a proposta da alteridade &quot;rompe com a perspectiva autonomista e individual para remet&ecirc;-la a uma vis&atilde;o de rede social. Deixa de ter sentido a m&aacute;xima `a minha liberdade termina quando come&ccedil;a a dos outros&acute;, sendo substitu&iacute;da pela proposta de que a minha liberdade &eacute; garantida pela liberdade dos outros&quot;.<\/p>\n<p><strong>Mesquinhez e fraqueza &eacute;tica<\/p>\n<p><\/strong>Por outro lado, quando uma emissora comercial representa em uma obra de fic&ccedil;&atilde;o a exist&ecirc;ncia de certas entidades como, por exemplo, o relacionamento entre pessoas do mesmo sexo, n&atilde;o o faz de forma gratuita. A recusa em faz&ecirc;-lo soaria como um indesej&aacute;vel atestado de atraso, falta de vis&atilde;o e esterilidade criativa. Ent&atilde;o, em contraponto, deve haver uma responsabilidade maior que se sobreponha a interesses econ&ocirc;micos, por exemplo. Uma responsabilidade que se sobreponha ao simples argumento da toler&acirc;ncia, sobre a qual diz Saramago:<\/p>\n<blockquote><p>&quot;Tolerar a exist&ecirc;ncia do outro e \t\tpermitir que ele seja diferente ainda &eacute; muito pouco. Quando \t\tse tolera, apenas se concede, e essa n&atilde;o &eacute; uma \t\trela&ccedil;&atilde;o de igualdade, mas de superioridade de um \t\tsobre o outro. Dever&iacute;amos criar uma rela&ccedil;&atilde;o \t\tentre as pessoas, da qual estivessem exclu&iacute;das a toler&acirc;ncia \t\te a intoler&acirc;ncia.&quot;<\/p><\/blockquote>\n<p>&Eacute; por isso que o beijo gay, ou a sua discuss&atilde;o, n&atilde;o devia encher o saco de ningu&eacute;m. N&atilde;o basta toler&aacute;-lo na alcova escura destinada ao medo e &agrave; fei&uacute;ra. &Eacute; necess&aacute;rio perceber a sua beleza, sob o sol e &agrave; luz porque &eacute; a beleza poss&iacute;vel do outro, que n&atilde;o se recusa a celebrar a nossa.<\/p>\n<p>A lenda grega diz que Narciso causou muita dor aos seus admiradores porque reservava somente para si pr&oacute;prio o amor e a beleza. Acabou sucumbindo &agrave; morte triste e solit&aacute;ria em um lago de desespero. Mas se queremos ser belos, merecedores de justi&ccedil;a e amor, devemos desvendar nossa beleza despindo-a de seu ego&iacute;smo narcisista, onde s&oacute; o nosso beijo &eacute; leg&iacute;timo e belo, e assimilar a beleza do outro, para que n&atilde;o sucumbamos a um po&ccedil;o profundo de mesquinhez e indefens&aacute;vel fraqueza &eacute;tica.<\/p>\n<p><em>L&uacute;cio Antunes &eacute; empres&aacute;rio de Belo Horizonte.<\/em> <\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\" class=\"western\"> <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na quarta-feira (28\/5) a atriz Lilia Cabral declarou em entrevista &agrave; Folha Online que o dilema de ter ou n&atilde;o ter um beijo gay no &uacute;ltimo cap&iacute;tulo da novela Duas Caras j&aacute; lhe &quot;encheu o saco&quot;. Completou dizendo que &quot;essa hist&oacute;ria (do beijo) torna tudo muito pequeno. O beijo &eacute; na intimidade. 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