{"id":21293,"date":"2008-05-30T16:01:12","date_gmt":"2008-05-30T16:01:12","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=21293"},"modified":"2008-05-30T16:01:12","modified_gmt":"2008-05-30T16:01:12","slug":"imagens-sem-poesia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=21293","title":{"rendered":"Imagens sem poesia"},"content":{"rendered":"<p><em>Um dos mais importantes artistas gr&aacute;ficos brasileiros, Elifas Andreato &eacute; um autodidata. Alfabetizou-se na adolesc&ecirc;ncia, trabalhou como oper&aacute;rio, aos vinte e poucos anos iniciou uma carreira vertiginosa na Editora Abril, foi militante pol&iacute;tico durante a ditadura. Tornou-se refer&ecirc;ncia no meio art&iacute;stico e intelectual e foi professor da Universidade de S&atilde;o Paulo. Amante da m&uacute;sica brasileira, fez c&eacute;lebres capas de vinis para artistas consagrados, de Pixinguinha a Zeca Pagodinho, passando por Toquinho, Chico Buarque, Paulinho da Viola e muitos outros. Hoje, dirige a Andreato Comunica&ccedil;&atilde;o. O que poucos sabem &eacute; que realizou v&aacute;rios trabalhos para a televis&atilde;o. Nesta entrevista, Elifas Andreato fala de est&eacute;tica visual e linguagem art&iacute;stica na TV a partir de sua trajet&oacute;ria.<\/em><\/p>\n<p>* <\/p>\n<p><strong>Voc&ecirc; se tornou um dos maiores nomes das artes nacionais sem nunca ter tido uma rela&ccedil;&atilde;o formal com os estudos, ou mesmo com as artes pl&aacute;sticas. Como foi esse processo?<\/strong><br \/>Venho da &aacute;rea rural do Paran&aacute;. Quando meu pai ficou doente, no final da d&eacute;cada de 1950, viemos para S&atilde;o Paulo; &eacute;ramos seis irm&atilde;os. Ele praticamente abandonou a fam&iacute;lia e eu, mais velho, com 12 para 13 anos, trabalhava para ajudar minha m&atilde;e. Mor&aacute;vamos na Vila Anast&aacute;cia, bairro industrial, onde trabalhava como oper&aacute;rio &ndash; e tamb&eacute;m desenhava no jornal da f&aacute;brica. Um dia, transformaram o refeit&oacute;rio em sal&atilde;o de festas e um gerente me pediu para decorar os bailes. Eu esticava papel Kraft numa moldura e cada semana fazia um desenho diferente. Com esse trabalho, fiquei conhecido em toda a Lapa, fui at&eacute; para a televis&atilde;o como &ldquo;menino prod&iacute;gio&rdquo;. Aquela fama n&atilde;o parecia real para mim e continuei trabalhando ali. Mais ou menos nessa &eacute;poca, com 15 para 16 anos, aprendi a ler num curso de alfabetiza&ccedil;&atilde;o para adultos. Pouco depois, uns ingleses vieram visitar a f&aacute;brica e ficaram encantados com o cen&aacute;rio que eu havia feito.&nbsp; Quando descobriram que eu era apenas um menino, me deram uma indeniza&ccedil;&atilde;o para estudar artes. E assim deixei a vida de oper&aacute;rio. Mas n&atilde;o fui estudar e meu pai bebeu todo o dinheiro. A&iacute; fui trabalhar no que podia. Foi nessa &eacute;poca o meu primeiro trabalho na TV, como assistente de cenografia do programa Eu Show Lu&iacute;s Vieira, na Record. A TV n&atilde;o me pagava, fui ent&atilde;o para uma ag&ecirc;ncia de publicidade e pouco depois fui parar na Abril. Descobri um mundo, desenhava sem parar: tinha tinta, pincel, pap&eacute;is e a generosidade de uma por&ccedil;&atilde;o de grandes jornalistas. Foi minha grande escola. Me adotaram, mas eu tinha s&oacute; 26 anos! Era um moleque e n&atilde;o queria ser capataz. Se eu tivesse ficado l&aacute;, teria ficado rico e virado um dos grandes diretores. Eles estavam me preparando para isso, mas eu n&atilde;o queria aquela vida. Dois anos depois que sa&iacute; de l&aacute;, explodi: fiz capas de discos, livro, teatro&#8230; E por a&iacute; foi.<\/p>\n<p><strong>Seu trabalho art&iacute;stico &eacute; reconhecido em diversas &aacute;reas culturais, mas voc&ecirc; chegou tamb&eacute;m a realizar algumas coisas para a televis&atilde;o. Quais foram esses trabalhos?<\/strong><br \/>O come&ccedil;o disso est&aacute; l&aacute; atr&aacute;s, no Eu Show Lu&iacute;s Vieira, como falei. Nessa &eacute;poca tamb&eacute;m cheguei a fazer os slides do canal 3, que era a TV Cultura do Chateaubriand. Eu desenhava esses slides, que eram a propaganda do momento, uns cart&otilde;es focados pelas c&acirc;meras. Depois me afastei completamente e s&oacute; em 1979, ano internacional da crian&ccedil;a, escrevi uma hist&oacute;ria para a Declara&ccedil;&atilde;o dos Direitos da Crian&ccedil;a e fiz a Arca de No&eacute;, com o Toquinho. Nessa &eacute;poca fiz tamb&eacute;m a cenografia da &Oacute;pera do Malandro, na TV Tupi. Em 1987, convenci a Globo a transformar num especial de TV o que inicialmente eu tinha concebido como uma pe&ccedil;a de teatro para escolas p&uacute;blicas, que acabou virando o programa Can&ccedil;&atilde;o de Todas as Crian&ccedil;as. J&aacute; tinha sido cen&oacute;grafo e assessor do programa Som Brasil. Criei e organizei, junto com a TV Globo, a Primeira Semana Elis Regina e a Semana de Arte Paulista. Coisas desse tipo.<\/p>\n<p><strong>Como foi realizar esses trabalhos, no sentido de adaptar sua arte &agrave; linguagem televisiva?<\/strong><br \/>Foi bastante dram&aacute;tico, principalmente no que se refere ao especial Can&ccedil;&atilde;o de Todas as Crian&ccedil;as. Com muita insist&ecirc;ncia, consegui convencer a emissora a exibir isso. Fui sacaneado do come&ccedil;o ao fim e fiz literalmente tudo &ndash; cen&aacute;rio, produ&ccedil;&atilde;o, maquete, abertura, at&eacute; a locu&ccedil;&atilde;o final. Tive dificuldade em emplacar o roteiro, que eles queriam mudar a qualquer custo, achavam que os atores convidados n&atilde;o participariam &ndash; e todos participaram, nomes como Lima Duarte, Chico An&iacute;sio, Marieta Severo. Enfim, tudo foi feito com muito sacrif&iacute;cio. Depois, o Silvio Santos me chamou para transformar aquele especial em programa infantil, com os meus personagens, no SBT. E foi um desastre total. Isso era em 1988, 1989 e eu fui l&aacute; discutir meio ambiente, ecologia, direitos da crian&ccedil;a. Acabei me tornando um E.T., a come&ccedil;ar pelo fato de que eu proibia merchandising nocivo aos pequenos. Isso significava aus&ecirc;ncia de jab&aacute; e, conseq&uuml;entemente, descontentamento da equipe. Bom, eu tinha um personagem extraordin&aacute;rio: um m&iacute;mico, em homenagem ao Chaplin, chamado Charlito. Ele fazia o papel de ensinar higiene pessoal, meio ambiente, e n&atilde;o usava uma palavra, apenas gestos e poesia. Era um personagem art&iacute;stico, delicado. E as crian&ccedil;as o adoravam. Mas percebi que nada daquilo daria certo porque um dia me chamaram e disseram assim: &ldquo;o mudinho tem que sair&rdquo;. Eu disse: &ldquo;o qu&ecirc;?&rdquo;. E eles: &ldquo;olha, TV &eacute; para ouvir, o mudinho precisa sair&rdquo;. Quer dizer, n&atilde;o tinha lugar para o encantado, para outra forma de imagem, mais sutil, mais po&eacute;tica. E acho isso exemplar porque reflete exatamente aquilo que a TV deixa de lado hoje.<\/p>\n<p><strong>Como voc&ecirc; v&ecirc; essa quest&atilde;o da est&eacute;tica visual na TV atualmente? Existe espa&ccedil;o para experimenta&ccedil;&atilde;o art&iacute;stica?<\/strong><br \/>A TV &eacute; essencialmente redund&acirc;ncia, repeti&ccedil;&atilde;o. Vemos programas de televis&atilde;o que eu via quando vim morar em S&atilde;o Paulo. Mudaram um pouco, a tecnologia evoluiu, mas s&atilde;o essencialmente os mesmos. Mas, para falar de est&eacute;tica e televis&atilde;o, precisamos tamb&eacute;m separar claramente o que &eacute; TV comercial e o que n&atilde;o &eacute;. Porque nas emissoras abertas, a busca pela audi&ecirc;ncia &eacute; uma luta encarni&ccedil;ada que n&atilde;o deixa espa&ccedil;o para mais nada. H&aacute; exce&ccedil;&otilde;es, claro, mas o grosso da produ&ccedil;&atilde;o a que a maioria da popula&ccedil;&atilde;o tem acesso &eacute; lixo puro. A est&eacute;tica &eacute; medonha, porque mostra um certo hiper-realismo, representa&ccedil;&otilde;es que tornam tudo aquilo muito expl&iacute;cito, nivelado por baixo. E isso se d&aacute; em fun&ccedil;&atilde;o de uma busca desenfreada pela hegemonia da audi&ecirc;ncia. A l&oacute;gica comercial dessa busca n&atilde;o permite experimenta&ccedil;&otilde;es, novidades ou sutilezas no que se refere &agrave; est&eacute;tica. Se hoje temos TV de alta defini&ccedil;&atilde;o, &eacute; para mostrar esse lixo com mais nitidez. Al&eacute;m disso, arte para mim &eacute; aquilo que alguns seres humanos s&atilde;o capazes de produzir e que toca as outras pessoas, &eacute; uma deliberada inten&ccedil;&atilde;o de melhorar o mundo. E n&atilde;o parece n&atilde;o haver muito espa&ccedil;o para isso na televis&atilde;o aberta.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artista gr\u00e1fico fala de est\u00e9tica visual e linguagem na televis\u00e3o<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[43],"tags":[637],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/21293"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=21293"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/21293\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=21293"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=21293"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=21293"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}