{"id":21266,"date":"2008-05-28T13:21:30","date_gmt":"2008-05-28T13:21:30","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=21266"},"modified":"2008-05-28T13:21:30","modified_gmt":"2008-05-28T13:21:30","slug":"globonews-derruba-aviao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=21266","title":{"rendered":"Globonews derruba avi\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><span>Vinte de maio de 2008. Esse dia, certamente, entrar&aacute; para a hist&oacute;ria da imprensa nativa como a data em que a GloboNews produziu a mais &quot;volumosa barriga&quot; do jornalismo brasileiro. Uma barriga pedag&oacute;gica, pois modelada por um &quot;q&quot; de qualidade desprovido de qualquer compromisso com apura&ccedil;&atilde;o do que &eacute; divulgado. Um relato de como se produz o que o telespectador &quot;deve saber&quot;. Um instant&acirc;neo de como a &eacute;tica corporativa trabalha com o conceito de responsabilidade social. <\/p>\n<p><\/span><span>Por volta de 17h, a emissora anunciava que: &ldquo;interrompemos a transmiss&atilde;o da CPI dos Cart&otilde;es Corporativos para mostrarmos imagens ao vivo de S&atilde;o Paulo. Acaba de chegar a informa&ccedil;&atilde;o de que um avi&atilde;o da empresa a&eacute;rea Pantanal caiu em cima de um pr&eacute;dio comercial na Zona Sul de S&atilde;o Paulo&quot;. Ao apontar a Infraero como fonte, foi desmentida de imediato. &Eacute; t&ecirc;nue a fronteira que separa o fasc&iacute;nio espetacular do loda&ccedil;al pat&eacute;tico do testemunho desqualificado.<\/p>\n<p><\/span><span>Um inc&ecirc;ndio em um dep&oacute;sito de colch&otilde;es, em Campo Belo, bairro de classe m&eacute;dia de S&atilde;o Paulo, foi apresentado, durante cinco minutos, como um desastre a&eacute;reo. Mostrando imagens de fuma&ccedil;a, a emissora informava que uma aeronave da empresa Pantanal havia ca&iacute;do pr&oacute;ximo a Congonhas. Foi o suficiente para que dois portais (IG e Terra), al&eacute;m de emissoras de r&aacute;dio, no curso do mimetismo midi&aacute;tico, reproduzissem, sem citar fontes, a falsa not&iacute;cia. <\/p>\n<p><\/span><span>A que atribuir tal a&ccedil;odamento? Ao processo taylorista instalado na din&acirc;mica do campo jornal&iacute;stico? &Eacute; poss&iacute;vel. Isso &eacute; compat&iacute;vel com o modus operandi de uma ind&uacute;stria que concebe a informa&ccedil;&atilde;o como bem simb&oacute;lico mercantil.<\/p>\n<p><\/span><span>Como checar as informa&ccedil;&otilde;es e public&aacute;-las dentro de um padr&atilde;o de bom senso e confiabilidade, quando o crit&eacute;rio de efici&ecirc;ncia &eacute; dado pela velocidade da divulga&ccedil;&atilde;o? Quando o objetivo &eacute; furar o concorrente, dando a not&iacute;cia em primeira m&atilde;o, direto, ao vivo, instantaneamente. Continuar o bombardeio informativo, em tempo cont&iacute;nuo, dispensa at&eacute; mesmo o profissional qualificado: basta uma testemunha que produza o &quot;efeito do real&quot;. Algu&eacute;m que j&aacute; n&atilde;o controle mais o produto final da produ&ccedil;&atilde;o simb&oacute;lica, visto que dela participa como mero legitimador.<\/p>\n<p><\/span><span>Como destaca Ignacio Ramonet &quot;o jornalista est&aacute; literalmente asfixiado, ele desaba sob uma avalanche de dados, de relat&oacute;rios, de dossi&ecirc;s- mais ou menos interessantes- que o mobilizam, o ocupam, saturam seu tempo e, tal como chamarizes, o distraem do essencial. Por c&uacute;mulo, isto incentiva ainda sua pregui&ccedil;a, pois n&atilde;o precisa mais buscar a informa&ccedil;&atilde;o. Ela chega por si mesma a ele.&quot;<\/p>\n<p><\/span><span>Por certo, a barriga dos rep&oacute;rteres e editores da telinha deve tamb&eacute;m ser analisada nas pr&oacute;prias condi&ccedil;&otilde;es materiais de produ&ccedil;&atilde;o da informa&ccedil;&atilde;o em &quot;tempo real&quot;. Mas ser&aacute; que isso nos exime de examinar o car&aacute;ter ideol&oacute;gico e pol&iacute;tico inerente &agrave; atividade jornal&iacute;stica. No caso brasileiro, n&atilde;o cabe falar em um &quot;script&quot; que est&aacute; no substrato das coberturas? <\/p>\n<p><\/span><span>Nossa grande imprensa pode ser considerada um servi&ccedil;o p&uacute;blico que, de forma isenta, faz a media&ccedil;&atilde;o dos &quot;fatos que falam por si&quot;, cabendo ao p&uacute;blico o livre discernimento? Ou prevalece a orienta&ccedil;&atilde;o editorial de que h&aacute; que se preservar a estabilidade democr&aacute;tica salvo o surgimento de &ldquo;fatos novos e comprometedores&quot;? <\/p>\n<p><\/span><span>N&atilde;o estaria a&iacute;, na perfeita sintonia com o pensamento de quem lhes emprega, o descuido que levou uma aeronave a colidir com colch&otilde;es? Interromper uma constru&ccedil;&atilde;o midi&aacute;tica que se mostra sem f&ocirc;lego ( &ldquo;dossi&ecirc;&quot;) para reativar outra (&ldquo;caos a&eacute;reo&quot;) nada mais &eacute; que estabelecer a agenda que interdita o real debate pol&iacute;tico. Algo que cai do c&eacute;u para uma oposi&ccedil;&atilde;o que vive seu vazio program&aacute;tico de forma melanc&oacute;lica.<\/p>\n<p><\/span><span>Ter&aacute; sido por acaso que, alertado por um assessor, o deputado Ant&ocirc;nio Carlos Pannunzio( PSDB-SP), interrompeu a sess&atilde;o da CPI dos Cart&otilde;es para, como destaca Jos&eacute; Dirceu em seu blog, fazer uma &quot;comunica&ccedil;&atilde;o bastante grave e muito triste&quot; aos seus pares e lamentar o &quot;caos no tr&aacute;fego a&eacute;reo&quot;? Ou ser&aacute; que o parlamentar tucano, em boa hora, alugou a barriga global? <\/p>\n<p><\/span><span>Em comunicado sobre o epis&oacute;dio, a Central Globo de Comunica&ccedil;&atilde;o afirmou que: &quot;A respeito do inc&ecirc;ndio ocorrido hoje &agrave; tarde em S&atilde;o Paulo, a Globo News, como um canal de noticias 24 horas, p&ocirc;s no ar imagens do fogo assim que as captou. Como &eacute; normal em canais de not&iacute;cias, apurou as informa&ccedil;&otilde;es simultaneamente &agrave; transmiss&atilde;o das imagens. A primeira informa&ccedil;&atilde;o sobre a causa do inc&ecirc;ndio recebida pela Globo News foi a de que um avi&atilde;o teria se chocado com um pr&eacute;dio na regi&atilde;o do Campo Belo, Zona Sul de S&atilde;o Paulo. <\/p>\n<p><\/span><span>&ldquo;Naquele momento bombeiros e Infraero ainda n&atilde;o tinham informa&ccedil;&atilde;o sobre o ocorrido. As equipes da pr&oacute;pria Globo News constataram que n&atilde;o havia ocorrido queda de avi&atilde;o e desde ent&atilde;o esclareceu que se tratava de um inc&ecirc;ndio em um pr&eacute;dio comercial. Poucos minutos depois o Corpo de Bombeiros confirmou tratar-se de um inc&ecirc;ndio em uma loja de colch&otilde;es&quot;.<\/p>\n<p><\/span><span>O Portal IMPRENSA registra que mesmo ap&oacute;s o Alto Comando das Organiza&ccedil;&otilde;es esclarecer que &quot;embora a Globo News tenha publicado esta primeira informa&ccedil;&atilde;o, a TV Globo n&atilde;o fez qualquer men&ccedil;&atilde;o ao poss&iacute;vel acidente a&eacute;reo&quot;, o engano ainda permanecia em v&iacute;deo no site do canal por assinatura, ainda que a informa&ccedil;&atilde;o j&aacute; estivesse desmentida. Minutos depois, ele foi retirado&rdquo;.<\/p>\n<p><\/span><span>Diante do naufr&aacute;gio, a fam&iacute;lia Marinho fez o que achou mais acertado. Tirou o &quot;q&quot; de qualidade da barriga e seguiu solene para a pr&oacute;xima &ldquo;explora&ccedil;&atilde;o de hip&oacute;tese&quot;. &Eacute; assim que o monop&oacute;lio compreende a democracia. Como uma possibilidade de pequenos arranjos e grandes neg&oacute;cios.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vinte de maio de 2008. Esse dia, certamente, entrar&aacute; para a hist&oacute;ria da imprensa nativa como a data em que a GloboNews produziu a mais &quot;volumosa barriga&quot; do jornalismo brasileiro. Uma barriga pedag&oacute;gica, pois modelada por um &quot;q&quot; de qualidade desprovido de qualquer compromisso com apura&ccedil;&atilde;o do que &eacute; divulgado. 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