{"id":21253,"date":"2008-05-27T15:28:13","date_gmt":"2008-05-27T15:28:13","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=21253"},"modified":"2008-05-27T15:28:13","modified_gmt":"2008-05-27T15:28:13","slug":"a-promiscuidade-no-jornalismo-politico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=21253","title":{"rendered":"A promiscuidade no jornalismo pol\u00edtico"},"content":{"rendered":"<p>Certa vez estive envolvido numa discuss&atilde;o interna do Sindicato de Jornalistas do Rio sobre uma coluna iniciada por Pel&eacute; no Jornal do Brasil. Discordei da id&eacute;ia de impedi-lo de escrever a pretexto de n&atilde;o ser jornalista. Mas o pr&oacute;prio craque, interpelado pelo sindicato, acabaria por recuar: concordou em expor suas an&aacute;lises sempre na forma de entrevistas, cabendo o texto a um jornalista.<\/p>\n<p>Mais tarde ouvi dizer que Tost&atilde;o, formado em Medicina, fez curso de comunica&ccedil;&atilde;o para n&atilde;o ter de enfrentar a ira de jornalistas inconformados com a competi&ccedil;&atilde;o de n&atilde;o diplomados em comunica&ccedil;&atilde;o. A disputa permanece, mas minha opini&atilde;o continua a mesma. N&atilde;o acho certo insistir em restri&ccedil;&otilde;es assim para impedir um Pel&eacute;, um Tost&atilde;o, um Gerson, um S&oacute;crates e tantos outros de escrever sobre o que conhecem t&atilde;o bem.<\/p>\n<p>O jornalismo ganha com eles. Se esse caso e outros semelhantes violam a lei que regulamenta a profiss&atilde;o, os colegas jornalistas e os professores de comunica&ccedil;&atilde;o que me desculpem, &eacute; hora de mudar a lei. Mas h&aacute; certas sutilezas a serem examinadas. Volto &agrave; quest&atilde;o por causa do que acontece nos EUA, onde Karl Rove, marqueteiro tido como &quot;o c&eacute;rebro de Bush&quot;, tornou-se a mais nova estrela do jornalismo pol&iacute;tico americano.<\/p>\n<p><strong>Rove, Russert, Stephanopoulos<\/strong><\/p>\n<p>Nos EUA existem escolas de jornalismo e de comunica&ccedil;&atilde;o, mas n&atilde;o a exig&ecirc;ncia de diploma para o exerc&iacute;cio da profiss&atilde;o. Um dos jornalistas mais bem-sucedidos da TV &ndash; Mike Wallace, do 60 Minutes da CBS &ndash; celebrizou-se primeiro como animador de programas de pr&ecirc;mios. Tim Russert, que faz sucesso no Meet the Press da NBC, come&ccedil;ou como assessor do governador Mario Cuomo e, depois, do senador Daniel Moynihan.<\/p>\n<p>O programa pol&iacute;tico da ABC, que hoje disputa o hor&aacute;rio de domingo com Russert na NBC, &eacute; This Week, de George Stephanopoulos, formado em Ci&ecirc;ncias Pol&iacute;ticas, Direito e Teologia &ndash; mas at&eacute; ent&atilde;o sem nenhuma experi&ecirc;ncia jornal&iacute;stica. Ele s&oacute; se tornou conhecido em 1992, como secret&aacute;rio de imprensa da campanha presidencial de Bill Clinton e, posteriormente, diretor de comunica&ccedil;&otilde;es da Casa Branca.<\/p>\n<p>Na mesma campanha presidencial, destacaram-se ainda James Carville, principal estrategista de Clinton e, do outro lado, Mary Matalin, a servi&ccedil;o da campanha rival de George Bush I, o pai. Carville e Matalin (ela passou a servir, em 2001, ao vice-presidente Dick Cheney) casaram-se depois e ganham a vida desde ent&atilde;o com pol&iacute;tica e jornalismo. Fazem na TV (inclusive na NBC) um n&uacute;mero tipo vaudeville: brigam no palco, expondo as posi&ccedil;&otilde;es democrata e republicana. Pura encena&ccedil;&atilde;o teatral, claro.<\/p>\n<p><strong>Obama, o pr&oacute;ximo alvo dos &quot;527&quot;<\/strong><\/p>\n<p>Desde segunda-feira (12\/5) o New York Times &ndash; que dias antes devassara o esc&acirc;ndalo dos &quot;analistas militares&quot; da TV, generais treinados pelo Pent&aacute;gono para melhor defender na m&iacute;dia as op&ccedil;&otilde;es b&eacute;licas dos EUA &ndash; exp&ocirc;s a situa&ccedil;&atilde;o atual de Karl Rove, transformado em analista pol&iacute;tico da m&iacute;dia ap&oacute;s dirigir com sucesso as duas campanhas de Bush (2000 e 2004) [ver aqui]. Ele fala &agrave;s c&acirc;meras da Fox News e escreve para o Wall Street Journal e a Newsweek (saiba mais AQUI sobre esse novo papel dele).<\/p>\n<p>Convenhamos que enquanto o debate &eacute; sobre Pel&eacute;, Tost&atilde;o, S&oacute;crates, est&aacute; fora de d&uacute;vida que o jornalismo &ndash; como os leitores ou telespectadores &ndash; s&oacute; tende a ganhar. Mas uma rela&ccedil;&atilde;o prom&iacute;scua m&iacute;dia-pol&iacute;tica corre o risco de comprometer a pr&oacute;pria integridade do jornalismo. E Rove, especialista em truques sujos da pol&iacute;tica, traz ainda seu status de celebridade e muitas d&uacute;vidas &eacute;ticas.<\/p>\n<p>Sobre a compet&ecirc;ncia do personagem, nada tenho a opor. Dificilmente algu&eacute;m domine t&atilde;o bem o tema que analisa &ndash; como na certa concordam os que acompanharam sua participa&ccedil;&atilde;o na cobertura das &uacute;ltimas prim&aacute;rias pela Fox News. Mas, entre outras coisas, Rove pode estar envolvido, segundo sugeriu o Times, num projeto para produzir e veicular comerciais difamat&oacute;rios contra Barack Obama.<\/p>\n<p>Esses comerciais viriam do que &eacute; chamado nos EUA &quot;grupos 527&quot;. O n&uacute;mero refere-se a dispositivo de legisla&ccedil;&atilde;o fiscal. Eles s&atilde;o organiza&ccedil;&otilde;es desregulamentadas, livres de impostos e sem liga&ccedil;&atilde;o vis&iacute;vel com a campanha de qualquer candidato. Exemplos expressivos ocorreram nas duas campanhas de Bush II, o filho, ambas dirigidas por Rove. Em 2004 a difama&ccedil;&atilde;o de John Kerry em forma de comerciais inundou o pa&iacute;s, iniciativa do &quot;Swift Boat Veterans for Truth&quot;, um grupo 527 [ver aqui]. <\/p>\n<p><strong>A mesma porta de vaiv&eacute;m<\/strong><\/p>\n<p>Coube ao mestre de Rove, Lee Atwater, fazer a campanha de Bush pai em 1988 e usar um comercial semelhante &ndash; sobre Willie Horton, presidi&aacute;rio negro que, liberado para passar um fim de semana em casa, estuprou e matou uma mulher branca em Massachusetts, estado governado por Mike Dukakis. O an&uacute;ncio foi produzido por um grupo sem v&iacute;nculo com a campanha. Sabe-se hoje que, ante a vantagem (quase 20 pontos percentuais) do democrata Dukakis, Bush autorizou a veicula&ccedil;&atilde;o dos comerciais &ndash; e se elegeu.<\/p>\n<p>Depois de Atwater prever que ao fim da campanha Horton seria c&eacute;lebre em todo o pa&iacute;s, um ex-assessor de m&iacute;dia de Ronald Reagan &ndash; Roger Ailes, hoje presidente da Fox News, que acaba de contratar Rove &ndash; completou: &quot;A &uacute;nica d&uacute;vida &eacute; se vamos mostr&aacute;-lo com a faca na m&atilde;o ou sem ela&quot;. E Larry McCarthy, que produzira o comercial e antes tinha trabalhado para Ailes, encarregou-se de convencer as TVs a aceit&aacute;-lo [ver aqui a carta de um leitor do Washington Post convencido de que em 2008 o ex-pastor de Obama, Jeremiah Wright, ser&aacute; transformado num Willie Horton].<\/p>\n<p>As rela&ccedil;&otilde;es prom&iacute;scuas de gente como Rove com a m&iacute;dia s&atilde;o e ser&atilde;o sempre uma preocupa&ccedil;&atilde;o para quem se preocupa com a &eacute;tica e a integridade jornal&iacute;stica. Rove foi da Casa Branca para a reda&ccedil;&atilde;o &ndash; como Ailes, Stephanopoulos, Carville, Matalin e outros. Mas &agrave;s vezes o fluxo &eacute; inverso na porta de vaiv&eacute;m: Tony Snow, depois de ser &acirc;ncora do principal programa pol&iacute;tico da Fox, tornou-se porta-voz de Bush na Casa Branca.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Certa vez estive envolvido numa discuss&atilde;o interna do Sindicato de Jornalistas do Rio sobre uma coluna iniciada por Pel&eacute; no Jornal do Brasil. Discordei da id&eacute;ia de impedi-lo de escrever a pretexto de n&atilde;o ser jornalista. 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