{"id":21222,"date":"2008-05-21T16:57:54","date_gmt":"2008-05-21T16:57:54","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=21222"},"modified":"2008-05-21T16:57:54","modified_gmt":"2008-05-21T16:57:54","slug":"a-velocidade-reproduzida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=21222","title":{"rendered":"A velocidade reproduzida"},"content":{"rendered":"<p class=\"style3\"><em>Maria Rita Kehl &eacute; polivalente. Aos 56 anos, doutora em Psicologia Cl&iacute;nica pela PUC-SP, atende em seu consult&oacute;rio desde 1981. Antes, j&aacute; freq&uuml;entava o mundo da literatura com o livro de poesias Imprevis&atilde;o do Tempo (1979), experi&ecirc;ncia que repetiria com O Amor &eacute; uma Droga Pesada (1983) e Processos Prim&aacute;rios (1996). E, al&eacute;m de se dedicar intensamente ao complexo universo dos indiv&iacute;duos, costuma passear os olhos cl&iacute;nicos pelo mundo e transformar em ensaios quest&otilde;es coletivas da humanidade (leia em www.mariaritakehl.psc.br). H&aacute; cerca de um ano tenta terminar um novo livro, sobre depress&atilde;o. Para tanto, utiliza as poucas horas vagas, e &agrave;s vezes ainda tem de ceder um pedacinho delas para entrevistas como esta, feita em &ldquo;presta&ccedil;&otilde;es&rdquo;. Talvez seja tamb&eacute;m ela uma v&iacute;tima desse tempo, que segundo Antonio Candido, antes de ser apropriado pelo ritmo alucinante do capitalismo, deveria ser tratado como o tecido da vida. Mesmo pressionada pelo rel&oacute;gio, ela conversou com desenvoltura com a Revista do Brasil sobre processos de comunica&ccedil;&atilde;o, pol&iacute;tica, fam&iacute;lia, juventude, amor. Pena que o tempo acabou.<\/em><\/p>\n<p class=\"style3\">* <\/p>\n<p class=\"style3\"><strong><span class=\"intertitulo\">Em casos como o da menina Isabella, &eacute; o interesse do p&uacute;blico por trag&eacute;dias que move a m&iacute;dia ou o exagero na cobertura que move o p&uacute;blico?<\/span><\/strong><br \/>As pessoas se interessam pela trag&eacute;dia h&aacute; 3.000 anos. Esse assassinato, em particular, inquieta e satisfaz as pessoas. Quase todo mundo conhece o sentimento de irrita&ccedil;&atilde;o extrema, de n&atilde;o conseguir lidar com as emo&ccedil;&otilde;es. Ent&atilde;o, a primeira rea&ccedil;&atilde;o &eacute; de prejulgar, &eacute; de f&uacute;ria, &eacute; &ldquo;eu jamais faria isso&rdquo;, &ldquo;eu n&atilde;o conhe&ccedil;o esse sentimento&rdquo;, &ldquo;eu sou completamente diferente&rdquo;&#8230; O que n&atilde;o &eacute; verdade. No inconsciente, a gente reprime sentimentos parecidos. Outra coisa &eacute; a possibilidade de haver um sentimento contra a figura da madrasta. Ser m&atilde;e biol&oacute;gica n&atilde;o &eacute; garantia de bons sentimentos, mas colocamos a m&atilde;e sempre num altar e usamos a madrasta para representar o lado escuro da m&atilde;e, desde os contos de fadas. E tem, ainda, um pouco da id&eacute;ia de que fam&iacute;lia boa &eacute; aquela que tem o pai e a m&atilde;e biol&oacute;gicos e os filhos. Casou de novo, &ldquo;olha a&iacute;, est&aacute; vendo&#8230;&rdquo; E como a gente est&aacute; numa sociedade muito carente de valores p&uacute;blicos, em que pouco se faz em nome do bem comum, a fam&iacute;lia est&aacute; muito idealizada. Um crime dentro de uma fam&iacute;lia, ou a suspeita de, deixa as pessoas indignadas e, como tudo o que nos enfurece, tamb&eacute;m excitadas e curiosas. Mas por que n&atilde;o quiseram influir nos outros casos? Por que contra as outras atrocidades e impunidades o povo n&atilde;o se mobiliza com tanta energia? As pessoas n&atilde;o se mobilizam contra crime que envolve crian&ccedil;a pobre. Antes daquela brutalidade com o menino Jo&atilde;o H&eacute;lio, no Rio (em fevereiro de 2007, que gerou muitos protestos, como&ccedil;&atilde;o social), havia acontecido a chacina em Nova Igua&ccedil;u e Queimados, na Baixada Fluminense (em mar&ccedil;o de 2005), em que policiais abateram 29 pessoas na rua, incluindo crian&ccedil;as e adolescentes. N&atilde;o houve grandes protestos.<\/p>\n<p class=\"style3\"><strong><span class=\"intertitulo\">E a explora&ccedil;&atilde;o pela m&iacute;dia tamb&eacute;m teve dimens&otilde;es diferentes.<\/span><\/strong><br \/>&Eacute; evidente que os temas de grande interesse popular s&atilde;o sempre os mesmos, erotismo ou pornografia, crime, viol&ecirc;ncia, acidentes, porque s&atilde;o os grandes temas do inconsciente. Por que quando h&aacute; um atropelamento a maioria das pessoas p&aacute;ra para olhar? &Eacute; porque a morte nos fascina. A morte, a viol&ecirc;ncia fascinam, como todos os temas ligados &agrave;quilo que &eacute; mais reprimido na gente. Mas n&atilde;o h&aacute; espa&ccedil;o de destaque para o assassinato de crian&ccedil;a negra e pobre. <\/p>\n<p class=\"style3\"><strong><span class=\"intertitulo\">&Eacute; por isso que o p&uacute;blico aceita, por exemplo, que o autor da novela da noite leve o grande vil&atilde;o, um cr&aacute;pula que roubou tudo da m&atilde;e de seu filho, a se redimir, quem sabe at&eacute; ficar com a mo&ccedil;a?<\/span><\/strong><br \/>Isso tem a ver com essa tese de que os valores sentimentais &eacute; que contam. Impressiona muito nas novelas que seja raro o bandido ser punido na forma da lei. No final, ou morre num desastre, ou algu&eacute;m o mata &ndash; &eacute; a vida que castiga. &Eacute; raro uma novela terminar com o bandido preso e julgado. No Brasil, no nosso imagin&aacute;rio, primeiro a gente ouve muito que &ldquo;Deus vai castigar&rdquo;. E h&aacute; essa pressa em perdoar. Basta ver o modo como terminou a ditadura: terminou, terminou, n&atilde;o se fala mais nisso. N&atilde;o houve press&atilde;o para punir os ditadores. Agora acontecem algumas indeniza&ccedil;&otilde;es, mas n&atilde;o houve julgamento. Todo mundo foi perdoado e nem sequer pediu perd&atilde;o. Nem se d&aacute; nome aos respons&aacute;veis. O brasileiro tem horror ao enfrentamento do conflito.<\/p>\n<p class=\"style3\"><strong><span class=\"intertitulo\">Isso &eacute; sintoma de depress&atilde;o? Ou apenas omiss&atilde;o?<\/span> <\/strong><br \/>Isso produz depress&atilde;o. N&oacute;s ficamos, digamos, fatalistas, &ldquo;deixa Deus resolver nossos problemas&rdquo;. &Eacute; um pouco conseq&uuml;&ecirc;ncia daquilo que o Sergio Buarque detectou tamb&eacute;m no que chamou de homem cordial. E tamb&eacute;m n&atilde;o &eacute; omiss&atilde;o, tem a ver com o cora&ccedil;&atilde;o. &Eacute; a id&eacute;ia de que valores da vida privada &eacute; que regem a vida p&uacute;blica, os valores do sentimentalismo ou mesmo a cordialidade que faz com que o povo comum diga &ldquo;ah, vamos perdoar ele, n&atilde;o vamos mais nos ocupar disso, vamos curtir a vida, bola pra frente&rdquo;. Cordialidade &eacute; isso, os valores do cora&ccedil;&atilde;o. Os sentimentos regem a vida p&uacute;blica. O que pode dar em linchamento tamb&eacute;m.<\/p>\n<p class=\"style3\"><strong><span class=\"intertitulo\">Voc&ecirc; acha que a competitividade nas v&aacute;rias circunst&acirc;ncias da vida esteja levando a algo epid&ecirc;mico?<\/span><\/strong><br \/>N&atilde;o seria epid&ecirc;mico, mas trato a depress&atilde;o como um sintoma social, e o principal fator contempor&acirc;neo que produz o aumento da depress&atilde;o &eacute; o aumento da velocidade com que a gente vive nosso tempo. Eu mesma estou aqui contando os minutos (daqui a pouco tenho de atender). &Eacute; como se a gente tivesse uma urg&ecirc;ncia temporal que faz com que a vida perca completamente o valor. O tempo da experi&ecirc;ncia, da reflex&atilde;o, todo o tempo da chamada vida subjetiva est&aacute; sendo atropelado pelo tempo do capitalismo. Esse &eacute; o primeiro fator da depress&atilde;o, essa desvaloriza&ccedil;&atilde;o do tempo como tempo de vida. Como diz o professor Antonio Candido: &ldquo;O capitalismo se considera o senhor do tempo. Essa id&eacute;ia do &lsquo;tempo &eacute; dinheiro&rsquo; que rege a nossa vida &eacute; uma brutalidade. O tempo &eacute; o tecido da nossa vida&rdquo;. Ent&atilde;o, se voc&ecirc; negocia a mat&eacute;ria-prima da sua vida, valendo dinheiro, a vida se desvaloriza. Se a vida se desvaloriza, para que viver? A depress&atilde;o tem um pouco a ver com isso.<\/p>\n<p class=\"style3\"><strong><span class=\"intertitulo\">Para se adequar &agrave;s exig&ecirc;ncias.<\/span><\/strong><br \/>Vivemos numa sociedade do capitalismo avan&ccedil;ado, de consumo, toda voltada para a felicidade, para o gozo, para festas. Ent&atilde;o, por que h&aacute; estat&iacute;sticas s&eacute;rias da Organiza&ccedil;&atilde;o Mundial da Sa&uacute;de dizendo que a depress&atilde;o est&aacute; aumentando e pode vir a ser, daqui a dez anos, a segunda principal causa n&atilde;o de morte diretamente, mas de morbidade?<\/p>\n<p class=\"style3\"><strong><span class=\"intertitulo\">Em tese, existem melhores condi&ccedil;&otilde;es de vida hoje do que antigamente.<\/span><\/strong><br \/>Aparentemente. Mas temos notado uma coisa muito importante. A ind&uacute;stria farmac&ecirc;utica vem sofisticando, desde os anos 70, as pesquisas de antidepressivos. Existe uma oferta grande de medicamentos e ao mesmo tempo uma divulga&ccedil;&atilde;o n&atilde;o do rem&eacute;dio, mas da depress&atilde;o. Voc&ecirc; vai a um consult&oacute;rio, a um posto de sa&uacute;de, e v&ecirc; na sala de espera uns folhetinhos bem-intencionados perguntando &ldquo;voc&ecirc; tem isso, isso, e isso?&rdquo; A&iacute; tem uma lista de sintomas que qualquer um em algum momento dif&iacute;cil da vida j&aacute; sentiu: falta de sono, perda de apetite, des&acirc;nimo, falta de ar, ang&uacute;stia&#8230; <\/p>\n<p class=\"style3\"><strong><span class=\"intertitulo\">Como alguns hor&oacute;scopos: qualquer situa&ccedil;&atilde;o se encaixa em qualquer dia para qualquer signo&#8230;<\/span><\/strong><br \/>Exatamente. Ent&atilde;o, tem uma procura enorme por antidepressivos. Li numa reportagem do Valor Econ&ocirc;mico que a venda de antidepressivos no Brasil cresce algo pr&oacute;ximo a 22% ao ano e movimenta US$ 320 milh&otilde;es. &Eacute; muita grana. As pessoas come&ccedil;am a tomar antidepressivo porque est&atilde;o numa sociedade que n&atilde;o tolera a tristeza, o abatimento, ou que voc&ecirc; n&atilde;o esteja sempre apto a achar que a vida &eacute; maravilhosa. <\/p>\n<p class=\"style3\"><strong><span class=\"intertitulo\">Mas precisam recorrer a m&eacute;dicos para usar?<\/span><\/strong><br \/>Mesmo que seja um picareta, mas sem receita voc&ecirc; n&atilde;o compra. H&aacute; m&eacute;dicos convencidos de que voc&ecirc; tem de tratar aquilo que a gente chama de &ldquo;dor de viver&rdquo; &ndash; que &eacute; vital no ser humano &ndash; com antidepressivo. At&eacute; amigos dizem &ldquo;ah, voc&ecirc; tem de tomar um antidepressivo, voc&ecirc; est&aacute; muito ca&iacute;do&rdquo;. A ideologia &eacute; esta: n&atilde;o tente curar suas dores pela reflex&atilde;o, n&atilde;o d&ecirc; o tempo que o luto precisa, tome um rem&eacute;dio e toque em frente. O trabalho &eacute; cada vez mais competitivo, quanto mais depressa o cara estiver bombando de novo, melhor. E n&atilde;o tem a ver s&oacute; com trabalho, mas com os imperativos do consumo. &Eacute; isso que impede que as pessoas tenham o tempo que precisam para se recuperar das quedas, perdas, crises. Tenho observado e conversado com psicanalistas, e h&aacute; um aumento alarmante de suic&iacute;dios entre adolescentes, pelo menos de classe m&eacute;dia. Alarmante! N&atilde;o sei se isso significa que os adolescentes est&atilde;o passando por crises mais graves do que as crises de adolesc&ecirc;ncia de 20 ou 30 anos atr&aacute;s. A adolesc&ecirc;ncia dos anos 60, 70 tinha um prest&iacute;gio. O adolescente em crise juntava os amigos para falar, tinha uma certa rede de solidariedade e de interesse, a crise significava que voc&ecirc; estava amadurecendo.<\/p>\n<p class=\"style3\">N&atilde;o estou enaltecendo um clube da fossa, como a gente brincava. Mas o adolescente n&atilde;o se sentia um subumano por estar em crise. Hoje n&atilde;o h&aacute; espa&ccedil;o, amigos e adultos n&atilde;o querem saber. Os adultos v&atilde;o correndo levar o filho para o psiquiatra porque n&atilde;o sabem como acompanh&aacute;-lo solidariamente. Os pais se sentem culpados: &ldquo;O que eu fiz de errado? Meu filho n&atilde;o est&aacute; enturmado, n&atilde;o est&aacute; indo trabalhar, n&atilde;o est&aacute; indo para a balada&rdquo;. Quando ele vai para a balada todo s&aacute;bado, os pais se preocupam porque ele corre outros riscos. Mas quando ele se recolhe no quarto os pais acham intoler&aacute;vel. Tenho um colega que &eacute; orientador num col&eacute;gio de classe alta. Ele me contou que de 40 e poucos adolescentes, meninos e meninas, que naquele ano tinham passado por perdas graves na vida, apenas um diz que conversou com um amigo. Os outros diziam: &ldquo;Imagina, ningu&eacute;m quer saber&#8230;&rdquo; O ambiente solid&aacute;rio que permitia contar com os companheiros vai se substituindo por um ambiente de competitividade. Quem fica ou transa mais, quem vai para mais balada, quem &eacute; o mais popular. Ent&atilde;o, o adolescente que passa por uma crise se recolhe. E ao sofrimento com a pr&oacute;pria crise se acrescenta outro &ndash; na adolesc&ecirc;ncia muito grave &ndash; , que &eacute; se sentir por baixo, errado.<\/p>\n<p class=\"style3\"><strong><span class=\"intertitulo\">E medica&ccedil;&atilde;o, nesse caso, n&atilde;o quer dizer rem&eacute;dio.<\/span><\/strong><br \/>A depress&atilde;o &eacute; um sentimento de empobrecimento da vida subjetiva. Eu n&atilde;o estou falando contra medica&ccedil;&atilde;o. Mas medica&ccedil;&atilde;o como panac&eacute;ia, que dispensa o trabalho de terapia, de a pessoa tentar elaborar o que est&aacute; acontecendo, acaba favorecendo esse empobrecimento da vida ps&iacute;quica. O sujeito automatiza alguns comportamentos, consegue estar mais ativo, regular o sono, comer, ir para o trabalho, mas n&atilde;o sabe por que depois de alguns anos continua deprimido. Como diz uma paciente ap&oacute;s muito tempo de medica&ccedil;&atilde;o: &ldquo;Sou um fantasma que anda; fa&ccedil;o tudo, mas n&atilde;o sinto nada. Ent&atilde;o, prefiro me arriscar a sentir a tristeza que sentia antes mas falar dela, a ficar nesse automatismo&rdquo;. &Eacute; importante redescobrir at&eacute; o valor da sua tristeza. A tristeza exige um tempo ps&iacute;quico diferente do tempo do capitalismo. Mesmo o lazer, principalmente entre jovens, est&aacute; muito dominado pela velocidade, por performance. Tempo &eacute; dinheiro, n&atilde;o perca tempo, manda ver. Essa modula&ccedil;&atilde;o de ritmo, que permite que voc&ecirc; tenha em contraposi&ccedil;&atilde;o ao ritmo acelerado do trabalho um tempo do lazer ou do &oacute;cio, vai se perdendo. E o que a gente tem como &oacute;cio hoje em dia? Deitar no sof&aacute; em frente &agrave; TV. As pessoas falam: &ldquo;Ali eu me desligo&rdquo;. Mas uma parte est&aacute; ligada, sen&atilde;o voc&ecirc; n&atilde;o ficaria vendo televis&atilde;o; ficaria ouvindo m&uacute;sica ou em sil&ecirc;ncio, pensando. A televis&atilde;o reproduz essa velocidade.<\/p>\n<p class=\"style3\"><strong><span class=\"intertitulo\">E nesta sociedade acelerada o amor tamb&eacute;m estaria mais veloz? Casais se separam mais rapidamente, aumenta o n&uacute;mero de casamentos. Esse fen&ocirc;meno n&atilde;o leva a um novo perfil da fam&iacute;lia?<\/span><\/strong><br \/>Eu n&atilde;o gostaria de abordar as transforma&ccedil;&otilde;es do amor fazendo uma defesa da antiga fam&iacute;lia patriarcal, monog&acirc;mica, fechada sobre si mesma etc. Freud come&ccedil;a a observar o sofrimento das mulheres hist&eacute;ricas, dos neur&oacute;ticos, dos filhos incestuosos grudados na saia da m&atilde;e no apogeu dessa fam&iacute;lia perfeitinha, desse casamento-para-sempre que &eacute; a fam&iacute;lia moderna burguesa. Isso vem do s&eacute;culo 19 at&eacute; metade do 20. &Eacute; uma fam&iacute;lia constru&iacute;da para manter uma tal estabilidade e uma tal garantia de que os filhos v&atilde;o herdar n&atilde;o s&oacute; o patrim&ocirc;nio, os padr&otilde;es de comportamento. Essa id&eacute;ia dos pais dentro de casa, a m&atilde;e dentro de casa, dedicada aos filhos, &eacute; um celeiro de neuroses.<\/p>\n<p class=\"style3\"><strong><span class=\"intertitulo\">O que vem substituindo essa fam&iacute;lia?<\/span><\/strong><br \/>A&iacute; tem uma contradi&ccedil;&atilde;o interessante. Por um lado, com os valores da vida p&uacute;blica t&atilde;o esfacelados, o amor virou o grande valor da vida individual. A gente o idealiza. Esse casamento burgu&ecirc;s (em termos de conduta, n&atilde;o de classe) antigo n&atilde;o &eacute; necessariamente por amor. Tem a ver n&atilde;o raras vezes com conveni&ecirc;ncia. Claro que podia haver amores e paix&otilde;es, mas o casamento se mantinha muito al&eacute;m da dura&ccedil;&atilde;o do amor, porque era a regra. Mesmo depois do div&oacute;rcio j&aacute; legalizado, a lei moral era manter esse casamento at&eacute; a morte. Hoje essa lei moral n&atilde;o existe e o casamento passa a ser mais baseado no amor e paix&atilde;o. O que por um lado &eacute; muito interessante porque as pessoas buscam os parceiros que realizam suas fantasias amorosas, o seu erotismo, as mulheres t&ecirc;m liberdade sexual, elas podem escolher, &ldquo;com esse n&atilde;o deu, vou com aquele&rdquo;. Tem um lado mais legal principalmente para as mulheres. Acabou a esposa que casa virgem com o &uacute;nico homem da sua vida e passa a vida inteira sem conhecer a felicidade sexual. &Agrave;s vezes o homem achava que estava autorizado a procurar outras, ela n&atilde;o.<\/p>\n<p class=\"style3\">Agora, o amor virou uma esp&eacute;cie de mercadoria tamb&eacute;m. Sexo e amor j&aacute; est&atilde;o t&atilde;o associados ao discurso das mercadorias que viraram uma esp&eacute;cie de valor agregado delas. As pessoas t&ecirc;m uma pressa muito grande de encontrar um grande amor, t&ecirc;m uma pressa muito grande de definir essas rela&ccedil;&otilde;es er&oacute;ticas do come&ccedil;o da vida. H&aacute; uma liberdade sexual muito maior, os jovens j&aacute; podem morar juntos, ou levar a namorada para a casa dos pais, as parcerias sexuais se intensificam muito rapidamente. E ao mesmo tempo somos uma sociedade t&atilde;o voltada para o prazer imediato que o amor resiste pouco &agrave;s suas crises, que s&atilde;o pr&oacute;prias do amor, as decep&ccedil;&otilde;es, a pessoa n&atilde;o estar o tempo todo naquele estado de apaixonamento.<\/p>\n<p class=\"style3\"><strong><span class=\"intertitulo\">As pessoas n&atilde;o t&ecirc;m paci&ecirc;ncia para cuidar?<\/span><\/strong><br \/>Menos paci&ecirc;ncia. Fazer ren&uacute;ncias (a outras formas de prazer) em nome de qu&ecirc;? E tem um apego muito grande. Se a vida p&uacute;blica, social n&atilde;o favorece, se voc&ecirc; pertence s&oacute; &agrave; sua familinha, ao seu parceiro, voc&ecirc; se apega muito rapidamente, espera muito do outro, sobrecarrega o balaio do amor. Todas as situa&ccedil;&otilde;es da vida t&ecirc;m de ser compensadas por uma felicidade amorosa, digamos, para usar uma linguagem banal, seis dias de semana de trabalho cansativo, avassalador, exaustivo, para um s&aacute;bado &agrave; noite no motel. A&iacute; n&atilde;o resiste. Fica pesado para o amor. A&iacute; as pessoas t&ecirc;m a ilus&atilde;o de que se resolver&aacute; trocando de parceiro &ndash; e &agrave;s vezes precisa trocar mesmo, h&aacute; desentendimentos importantes, por isso que n&atilde;o fa&ccedil;o a defesa do antigo casamento. Mas tamb&eacute;m h&aacute; uma certa impaci&ecirc;ncia, principalmente entre os jovens, de &ldquo;ah, n&atilde;o est&aacute; mais rolando&rdquo;. Passou a fulaninha, com sorriso mais legal, ent&atilde;o vai rolar com ela&#8230; (pausa, olha para a parede) Pronto, j&aacute; estou aqui de novo, na frente do meu rel&oacute;gio! <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para a psicanalista, a forma como a sociedade lida hoje com o tempo n\u00e3o permite a reflex\u00e3o<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[43],"tags":[767,766],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/21222"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=21222"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/21222\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=21222"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=21222"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=21222"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}