{"id":21158,"date":"2008-05-13T18:00:03","date_gmt":"2008-05-13T18:00:03","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=21158"},"modified":"2008-05-13T18:00:03","modified_gmt":"2008-05-13T18:00:03","slug":"interesses-opostos-movem-retomada-de-conselho-de-comunicacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=21158","title":{"rendered":"Interesses opostos movem retomada de Conselho de Comunica\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>Esvaziado desde dezembro de 2006, quando realizou sua &uacute;ltima reuni&atilde;o, o Conselho de Comunica&ccedil;&atilde;o Social (CCS) tem sido lembrado ultimamente por conta da grande quantidade de pautas que se acumulam sobre o setor das comunica&ccedil;&otilde;es no Congresso Nacional e que n&atilde;o foram apreciadas pelo &oacute;rg&atilde;o. Converg&ecirc;ncia tecnol&oacute;gica, TV p&uacute;blica, digitaliza&ccedil;&atilde;o da radiodifus&atilde;o, renova&ccedil;&atilde;o de concess&otilde;es de r&aacute;dio e TV, por exemplo, est&atilde;o entre os temas que deveriam ter sido objeto de an&aacute;lise do CCS. <\/p>\n<p>A quest&atilde;o ganhou novos contornos na &uacute;ltima semana com o comprometimento do presidente do Senado, Garibaldi Alves Filho (PMDB-RN), de instalar o &oacute;rg&atilde;o o mais r&aacute;pido poss&iacute;vel. O an&uacute;ncio do senador foi uma rea&ccedil;&atilde;o a um pedido da Associa&ccedil;&atilde;o Brasileira de Emissoras de R&aacute;dio e TV (Abert), que em outros tempos negou, boicotou ou aparelhou o conselho. &ldquo;Refor&ccedil;amos que o Conselho de Comunica&ccedil;&atilde;o &eacute; um forte instrumento dentro do Senado para discutir as quest&otilde;es que envolvem o setor&rdquo;, afirmou Daniel Pimentel Slaviero, presidente da Abert. J&aacute; a justificativa do senador Garibaldi para a retomada do CCS, por sua vez, n&atilde;o poderia ser pior: &ldquo;A imprensa tem sido muito generosa comigo, chegou a hora de agradecer&rdquo;.<\/p>\n<p>Por tr&aacute;s do pleito das emissoras de r&aacute;dio e TV est&aacute; o receio em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s mudan&ccedil;as decorrentes do avan&ccedil;o das empresas de telecomunica&ccedil;&otilde;es em um mercado dominado h&aacute; d&eacute;cadas pelo mesmo oligop&oacute;lio de radiodifusores. Estes novos agentes possuem um f&ocirc;lego de R$ 120 bilh&otilde;es por ano de faturamento, largamente superior ao das emissoras de r&aacute;dio e televis&atilde;o e, em tempos de converg&ecirc;ncia tecnol&oacute;gica, t&ecirc;m provocado grande apreens&atilde;o nos bar&otilde;es da m&iacute;dia tradicional. No meio desta disputa, o CCS pode se tornar um espa&ccedil;o importante para amplificar as posi&ccedil;&otilde;es dos radiodifusores.<\/p>\n<p>A defesa da reativa&ccedil;&atilde;o do Conselho, no entanto, n&atilde;o &eacute; exclusiva dos empres&aacute;rios. Parlamentares e entidades da sociedade civil se manifestaram recentemente a favor da retomada deste espa&ccedil;o. A preocupa&ccedil;&atilde;o n&atilde;o &eacute; s&oacute; com a pr&oacute;xima gest&atilde;o, mas com sua composi&ccedil;&atilde;o e funcionamento. A deputada Luiza Erundina (PSB), por exemplo, convocou uma audi&ecirc;ncia p&uacute;blica para discutir o assunto. O evento, que deveria ter acontecido na &uacute;ltima quinta-feira (8), &eacute; esperado para o pr&oacute;ximo dia 14 e pode, a depender da mobiliza&ccedil;&atilde;o social, marcar um novo momento no debate sobre o controle p&uacute;blico das pol&iacute;ticas de comunica&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>A preocupa&ccedil;&atilde;o destes setores n&atilde;o empresariais &eacute; colocar em discuss&atilde;o a necessidade de retomar a id&eacute;ia de que o CCS se aproximasse gradativamente de um modelo inspirado na Federal Communications Comission norte-americana. Ap&oacute;s um in&iacute;cio em que se constituiu como espa&ccedil;o de debate sobre o tema apesar de suas limita&ccedil;&otilde;es estruturais (como o fato de n&atilde;o ser deliberativo), o Conselho foi sendo progressivamente capturado pelos interesses comerciais representados no Congresso Nacional.<\/p>\n<p>Ricardo Moretzsohn, ex-conselheiro pelo Conselho Federal de Psicologia entre 2002 e 2004, lembra que o desempenho do CCS em sua primeira gest&atilde;o foi razo&aacute;vel, mas mostrou a insufici&ecirc;ncia da natureza do &oacute;rg&atilde;o. &ldquo;Havia uma disposi&ccedil;&atilde;o de negociar e a correla&ccedil;&atilde;o de for&ccedil;as era equilibrada. Focamos principalmente a concentra&ccedil;&atilde;o da propriedade dos meios, regionaliza&ccedil;&atilde;o e j&aacute; desde 2002 a digitaliza&ccedil;&atilde;o&rdquo;.<\/p>\n<p>J&aacute; a segunda gest&atilde;o marcou o retrocesso na inst&acirc;ncia. &ldquo;A primeira gest&atilde;o foi t&atilde;o positiva que assustou os radiodifusores. Eles manipularam a indica&ccedil;&atilde;o seguinte com uma canetada do Sarney [presidente do Senado &agrave; &eacute;poca]. Na gest&atilde;o seguinte, cerca de 12 representavam a radiodifus&atilde;o, com exce&ccedil;&atilde;o da OAB e da CNBB&rdquo;, conta Berenice Mendes, do F&oacute;rum Nacional pela Democratiza&ccedil;&atilde;o da Comunica&ccedil;&atilde;o (FNDC). Berenice, que esteve no &oacute;rg&atilde;o por duas gest&otilde;es, critica ainda a indica&ccedil;&atilde;o do escritor Arnaldo Niskier para a presid&ecirc;ncia da CCS. &ldquo;Niskier tem seus m&eacute;ritos, mas &eacute; de outra &aacute;rea, n&atilde;o tinha legitimidade. A segunda gest&atilde;o foi absolutamente med&iacute;ocre&rdquo;, conclui.<\/p>\n<p>A segunda gest&atilde;o do conselho era t&atilde;o viciada que chegou a aprovar, por sugest&atilde;o de Niskier, ainda mais restri&ccedil;&otilde;es estatut&aacute;rias para sua atua&ccedil;&atilde;o, como a exig&ecirc;ncia de consensos. A deputada Luiza Erundina n&atilde;o acredita que o modelo adotado seja muito relevante. Para a parlamentar paulista, &ldquo;o conselho tem pouca efic&aacute;cia. Quer&iacute;amos um conselho, mas, lamentavelmente, s&oacute; depois de muito tempo &eacute; que o CCS veio a ser institu&iacute;do. Depende da presid&ecirc;ncia do Senado, e mesmo a C&acirc;mara n&atilde;o demonstra interesse&rdquo;. <\/p>\n<p><strong>Futuro<\/strong><\/p>\n<p>Erundina aposta que a audi&ecirc;ncia p&uacute;blica marcada para esta quarta-feira possa ser um marco para o CCS. Sua preocupa&ccedil;&atilde;o, no entanto, &eacute; garantir que ela ocorra antes que o presidente do Senado eleja o novo conselho, pois a&iacute; uma altera&ccedil;&atilde;o em seu car&aacute;ter seria pouco prov&aacute;vel. &ldquo;Propusemos a audi&ecirc;ncia porque queremos rever tudo isso. &Eacute; oportuno e necess&aacute;rio&rdquo;. Para isso, acredita, a mobiliza&ccedil;&atilde;o da sociedade civil &eacute; fundamental diante do ambiente hostil de um Congresso povoado por parlamentares conservadores defendendo interesses privados. <\/p>\n<p>&ldquo;Ter&iacute;amos que rediscutir o car&aacute;ter desse conselho. Ele n&atilde;o pode ser meramente auxiliar, tem que ter autonomia. Temos que pensar outro modelo onde a pr&oacute;pria sociedade pudesse indicar seus representantes&rdquo;, afirma Ricardo Moretzsohn. &ldquo;Sem a efetiva participa&ccedil;&atilde;o social nesse processo, a comunica&ccedil;&atilde;o continua sendo alvo de interesses escusos, j&aacute; que o Congresso se tornou apensas um &lsquo;carimbador&rsquo; de tudo o que vem do Executivo&rdquo;, defende Br&aacute;ulio Ribeiro, coordenador do Intervozes. <\/p>\n<p>Sobre o repentino empenho dos radiodifusores em se retomar o Conselho, Berenice Mendes acredita na tese de que o receio das teles pode lhes exigir a aceita&ccedil;&atilde;o do CCS como um espa&ccedil;o a ser loteado para assegurar seus interesses. Erundina avalia que as recentes movimenta&ccedil;&otilde;es em torno das pautas da comunica&ccedil;&atilde;o e estas novas investidas sobre o modelo do Conselho tem preocupado os empres&aacute;rios. &ldquo;O interesse da Abert existe porque voltamos a mexer nesse assunto, e na pr&oacute;pria forma de indica&ccedil;&atilde;o de seus membros, que deve ser mais transparente e democr&aacute;tica&rdquo;, afirma a parlamentar.<\/p>\n<p><strong>Hist&oacute;rico<\/strong><\/p>\n<p>&ldquo;Esse campo da comunica&ccedil;&atilde;o no Brasil &eacute; onde o filho chora e a m&atilde;e n&atilde;o v&ecirc;. Nada pior do que um filho chorar, quando a m&atilde;e n&atilde;o v&ecirc;. Falta uma m&atilde;e&rdquo;. Essa era a defesa do ent&atilde;o deputado constituinte Artur da T&aacute;vola para a necessidade de implementa&ccedil;&atilde;o de um mecanismo de controle p&uacute;blico para a radiodifus&atilde;o brasileira, e foi com essa perspectiva que o Conselho de Comunica&ccedil;&atilde;o Social foi pensado &agrave; &eacute;poca da Constituinte. Acreditava-se que o CCS seria o meio mais eficaz de se garantir a defesa do interesse p&uacute;blico num setor quase completamente dominado pela iniciativa privada. &Agrave; velha cantilena de que se tentava impor novamente a &ldquo;censura&rdquo; se opunha o argumento de que, por ser a comunica&ccedil;&atilde;o um bem p&uacute;blico, deveria, portanto, estar sob responsabilidade da sociedade.<\/p>\n<p>O fato &eacute; que a id&eacute;ia original do CCS foi completamente deturpada nas idas e vindas no Congresso Nacional. De um conselho deliberativo e aut&ocirc;nomo, que se esperava nos moldes do Federal Communications Comission (FCC) norte-americano, o CCS saiu como fruto de uma proposta que ningu&eacute;m assumiu: um conselho auxiliar e meramente consultivo do Congresso Nacional. Diferentemente do FCC, imperou na legisla&ccedil;&atilde;o brasileira sobre o setor o laissez-faire, a completa falta de regula&ccedil;&atilde;o e a verdadeira liberdade de empresa ao inv&eacute;s do direito &agrave; comunica&ccedil;&atilde;o e &agrave; informa&ccedil;&atilde;o do cidad&atilde;o.<\/p>\n<p>&ldquo;O Conselho de Comunica&ccedil;&atilde;o Social seria o &oacute;rg&atilde;o onde todas as decis&otilde;es relativas &agrave; comunica&ccedil;&atilde;o que passassem pelo Congresso seriam tomadas. Mas o lobby dos radiodifusores transformou o Conselho em &oacute;rg&atilde;o meramente consultivo, deturpando a inten&ccedil;&atilde;o original que era a de um efetivo controle p&uacute;blico sobre a comunica&ccedil;&atilde;o social&rdquo;, diz Br&aacute;ulio Ribeiro, do Intervozes. <\/p>\n<p>Nem o exemplo dos pa&iacute;ses desenvolvidos parece comover o empresariado e os legisladores nativos. Inglaterra, Su&eacute;cia, Holanda, Austr&aacute;lia, Fran&ccedil;a, Alemanha e o j&aacute; citado EUA disp&otilde;em de &oacute;rg&atilde;os p&uacute;blicos respons&aacute;veis por regulamentar a comunica&ccedil;&atilde;o social de seus pa&iacute;ses. &ldquo;Ningu&eacute;m considera o FCC americano um &oacute;rg&atilde;o de censura&rdquo;, afirma Berenice Mendes.<\/p>\n<p><strong>Regulamenta&ccedil;&atilde;o<\/strong><\/p>\n<p>O processo para que o CCS deixasse de ser letra morta na Constitui&ccedil;&atilde;o e passasse a existir na pr&aacute;tica levou ainda mais alguns anos. Apenas em 1991, pressionados depois de uma queda sens&iacute;vel na qualidade das programa&ccedil;&otilde;es, houve a iniciativa de regulamenta&ccedil;&atilde;o do conselho, a partir de proposta do deputado Antonio Britto e sancionada pelo presidente Fernando Collor no mesmo ano.<\/p>\n<p>O formato final do Conselho de Comunica&ccedil;&atilde;o Social foi proposto a partir de uma reuni&atilde;o entre o FNDC e o empresariado, onde se acordou que a composi&ccedil;&atilde;o do conselho teria treze membros, equilibrada entre as entidades profissionais e do empresariado, al&eacute;m da representa&ccedil;&atilde;o da sociedade civil organizada. Portanto, empresas e sindicatos dividiriam igualmente oito vagas, restando cinco para a sociedade civil. <\/p>\n<p>Ricardo Moretzsohn, do Conselho Federal de Psicologia, acredita que o advento do conselho foi positivo, mesmo n&atilde;o assumindo car&aacute;ter deliberativo. &ldquo;Minha expectativa era a de que existisse uma arena da discuss&atilde;o, onde a sociedade estivesse na mesa com os radiodifusores, e que, a partir disso, ganhasse for&ccedil;a pol&iacute;tica e import&acirc;ncia&rdquo;, assume o psic&oacute;logo. O fato &eacute; que, mesmo regulamentado, seu atrelamento ao Poder Legislativo e, mais ainda, ao presidente do Congresso, prorrogou sua instala&ccedil;&atilde;o efetiva por mais de uma d&eacute;cada.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Radiodifusores pedem retomada do CCS para fazer frente ao crescente poder pol\u00edtico das teles; sociedade civil quer discutir novo modelo para garantir representa\u00e7\u00e3o equilibrada e atribui\u00e7\u00f5es efetivas ao \u00f3rg\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[40],"tags":[740],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/21158"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=21158"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/21158\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=21158"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=21158"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=21158"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}