{"id":21141,"date":"2008-05-12T12:35:20","date_gmt":"2008-05-12T12:35:20","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=21141"},"modified":"2008-05-12T12:35:20","modified_gmt":"2008-05-12T12:35:20","slug":"a-imprensa-os-alimentos-e-o-cassino-do-capitalismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=21141","title":{"rendered":"A imprensa, os alimentos e o cassino do capitalismo"},"content":{"rendered":"<p><span>Em 1946 o m&eacute;dico Josu&eacute; de Castro publicava a primeira edi&ccedil;&atilde;o &ldquo;Geografia da Fome&rdquo;. Para ele, a fome que assola o planeta n&atilde;o &eacute; resultado de fatores naturais nem de causas raciais ou biol&oacute;gicas. &Eacute;, na verdade, decorr&ecirc;ncia de a&ccedil;&otilde;es do pr&oacute;prio homem, que governa o mundo de forma a provocar concentra&ccedil;&atilde;o de riqueza e mis&eacute;ria. Para ele a fome &ldquo;&eacute; a manifesta&ccedil;&atilde;o biol&oacute;gica de um problema social&rdquo;.<\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span><em>&ldquo;A fome &eacute;, conforme tantas vezes tenho afirmado, a express&atilde;o biol&oacute;gica de males sociol&oacute;gicos. Est&aacute; intimamente ligada com as distor&ccedil;&otilde;es econ&ocirc;micas, a que dei, antes de ningu&eacute;m, a designa&ccedil;&atilde;o de subdesenvolvimento.A fome &eacute; um fen&ocirc;meno geograficamente universal, a cuja a&ccedil;&atilde;o nefasta nenhum continente escapa. Toda a terra dos homens foi, at&eacute; hoje, a terra da fome. As investiga&ccedil;&otilde;es cient&iacute;ficas, realizadas em todas as partes do mundo, constataram o fato inconceb&iacute;vel de que dois ter&ccedil;os da humanidade sofre, de maneira epid&ecirc;mica ou end&ecirc;mica, os efeitos destruidores da fome. A fome n&atilde;o &eacute; um produto da superpopula&ccedil;&atilde;o: a fome j&aacute; existia em massa antes do fen&ocirc;meno da explos&atilde;o demogr&aacute;fica do ap&oacute;s-guerra. Apenas esta fome que dizimava as popula&ccedil;&otilde;es do Terceiro Mundo era escamoteada, era abafada era escondida. N&atilde;o se falava do assunto que era vergonhoso: a fome era tabu.&rdquo;<\/em><\/span><span><em>&nbsp;<\/p>\n<p><\/em><\/span><span>Passados mais de sessenta anos o assunto vergonhoso insiste em voltar &agrave; tona.&nbsp; Para a ONU, neste momento mais de cem milh&otilde;es de pessoas, que dependem diretamente de seus programas de assist&ecirc;ncia humanit&aacute;ria, est&atilde;o sofrendo o impacto do aumento do pre&ccedil;o dos alimentos.&nbsp; Segundo o professor Miguel A. Altieri [1] &ldquo;H&aacute; 33 pa&iacute;ses hoje &agrave; beira da instabilidade social devido &agrave; falta e ao pre&ccedil;o dos alimentos.&rdquo; Segundo a FAO h&aacute; no mundo mais de 800 milh&otilde;es de pessoas passando fome, dentre elas, 350 milh&otilde;es s&atilde;o crian&ccedil;as com menos de cinco anos. <\/p>\n<p><\/span><span>Na Am&eacute;rica Latina, que produz 30% a mais de comida do que sua popula&ccedil;&atilde;o consome, 52,4 milh&otilde;es de pessoas s&atilde;o subnutridos, das quais, nove milh&otilde;es s&atilde;o crian&ccedil;as menores de cinco anos, segundo Juan Garcia Cebolla, Coordenador do Programa Am&eacute;rica Latina e Caribe Sem Fome[2]. Os n&uacute;meros n&atilde;o s&atilde;o de hoje, nem de ontem, nem s&atilde;o reflexo das recentes altas nos pre&ccedil;os mundiais dos alimentos. S&atilde;o praticamente n&uacute;meros eternos, que perduram h&aacute; s&eacute;culos e que s&oacute; fazem aumentar, praticamente na mesma propor&ccedil;&atilde;o que aumenta o numero de gentes ao redor do globo terrestre. <\/p>\n<p><\/span><span>De novo nesses n&uacute;meros s&oacute; h&aacute; a constata&ccedil;&atilde;o, por autoridades da ONU, de que mais gente est&aacute; entrando para as estat&iacute;sticas mundiais dos &ldquo;subnutridos&rdquo;, ou seja, aqueles que n&atilde;o comem sequer o m&iacute;nimo necess&aacute;rio para sobreviver, devido &agrave;s recentes altas dos pre&ccedil;os dos alimentos no mercado internacional.&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>Esse debate veio a p&uacute;blico trazido pelos meios de comunica&ccedil;&atilde;o de maneira, no m&iacute;nimo,&nbsp; atrapalhada. Em um primeiro momento, os principais jornais do mundo, incluindo os jornal&otilde;es brasileiros, estamparam em suas primeiras p&aacute;ginas as declara&ccedil;&otilde;es de autoridades de organismos internacionais da pr&oacute;pria ONU culpando os biocombust&iacute;veis como os vil&otilde;es da hist&oacute;ria. Seriam eles os principais respons&aacute;veis pelos aumentos de pre&ccedil;os dos alimentos pois estariam ocupando as terras agricult&aacute;veis que antes eram destinadas a produ&ccedil;&atilde;o de cereais vitais para a alimenta&ccedil;&atilde;o humana como: o milho, a soja e o arroz. Isso pode at&eacute; se confirmar como uma tend&ecirc;ncia[3], mas no momento h&aacute; outros vil&otilde;es que passam praticamente desapercebidos pelas p&aacute;ginas da imprensa.&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>Quem chamou a aten&ccedil;&atilde;o para o problema atual da fome foi a diretora do Programa Mundial de Alimentos da Organiza&ccedil;&atilde;o das Na&ccedil;&otilde;es Unidas (WFP), Josette Sheeran. Ela afirmou em uma sess&atilde;o do Parlamento Europeu, realizada em Bruxelas, no dia 6 de mar&ccedil;o, que a infla&ccedil;&atilde;o no pre&ccedil;o dos alimentos est&aacute; gerando mais fome no mundo e que causou um rombo de US$ 500 milh&otilde;es (R$ 835 milh&otilde;es) no or&ccedil;amento do Programa de Assist&ecirc;ncia Humanit&aacute;ria em 2008. <\/p>\n<p><\/span><span>A diretora do WFP atribuiu &agrave;s mudan&ccedil;as clim&aacute;ticas, &agrave; crescente demanda por&nbsp; alimentos na &Iacute;ndia e na China e ao aumento da produ&ccedil;&atilde;o de biocombust&iacute;veis como os principais fatores que contribuem para o aumento do pre&ccedil;o dos alimentos. Em seu pronunciamento Josette Sheeran disse que os governos precisam &quot;olhar de maneira mais cuidadosa para a liga&ccedil;&atilde;o entre a acelera&ccedil;&atilde;o na produ&ccedil;&atilde;o de biocombust&iacute;veis e o suprimento de alimentos&quot;. Por&eacute;m ela n&atilde;o especificou a que tipo de biocombust&iacute;vel se referia e a imprensa n&atilde;o se preocupou em esclarecer. <\/p>\n<p><\/span><span>Quatro dias depois, no dia 10 de mar&ccedil;o, foi a vez do diretor-gerente do Banco Mundial, Graeme Wheeler, se manifestar sobre o assunto. Segundo ele &ldquo;conseq&uuml;&ecirc;ncias devastadoras&rdquo; poderiam advir da alta simult&acirc;nea do petr&oacute;leo e dos pre&ccedil;os dos alimentos no mundo em desenvolvimento.&nbsp; <\/p>\n<p><\/span><span>Wheeler explicou que os aumentos no pre&ccedil;o do petr&oacute;leo encareceram as despesas com fertilizantes e transporte de alimentos, encorajando assim a produ&ccedil;&atilde;o de biocombust&iacute;veis. Mas o diretor-gerente foi mais espec&iacute;fico ao citar que um quarto das colheitas de milho, que representam 10% da produ&ccedil;&atilde;o global, foi destinada &agrave; produ&ccedil;&atilde;o de biocombust&iacute;veis em 2007. Faltou apenas ele dizer que isso ocorreu nos Estados Unidos onde o etanol &eacute; produzido a partir do milho e n&atilde;o da cana de a&ccedil;&uacute;car como no Brasil. &quot;Os maiores pre&ccedil;os da energia, a seca e o aumento da demanda provocaram um aumento de 75% nos pre&ccedil;os dos alimentos b&aacute;sicos desde 2005&quot;, afirmou Wheeler, que mencionou que o pre&ccedil;o do arroz alcan&ccedil;ou o n&iacute;vel mais alto em 20 anos na semana passada. A imprensa por&eacute;m n&atilde;o explicou a rela&ccedil;&atilde;o entre o pre&ccedil;o dos alimentos e o pre&ccedil;o do barril de petr&oacute;leo, que tamb&eacute;m atingiu o recorde na mesma semana, e entre ambos e os ganhos auferidos pelos investidores nas bolsas de mercadorias.<\/p>\n<p><\/span><span>Na quinta-feira, 27 de mar&ccedil;o, a revista Time embarcou na pauta e estampou em sua capa uma espiga de milho despindo-se das folhas transformadas em notas de d&oacute;lar. A manchete de capa era: &ldquo;The Clean Energy Myth&ldquo; (o embuste da energia limpa).&nbsp; <\/p>\n<p><\/span><span>Na mat&eacute;ria, assinada por Michel Grunwald, o cen&aacute;rio descrito por uma das fontes &eacute; a Amaz&ocirc;nia brasileira. O vaqueiro texano John Carter,&nbsp; casado com uma brasileira, herdeira de fazenda na Amaz&ocirc;nia ,&nbsp; sobrevoa a floresta em seu avi&atilde;o Cessna e fala do desmatamento provocado pelas pastagens e pela cultura da soja comparando a sensa&ccedil;&atilde;o que sente &agrave; de &ldquo;testemunhar um estupro&rdquo;. <\/p>\n<p><\/span><span>O autor da reportagem fez por sua pr&oacute;pria iniciativa a liga&ccedil;&atilde;o entre as declara&ccedil;&otilde;es da fonte e a produ&ccedil;&atilde;o de biocombust&iacute;veis, talvez os mesmos biocombust&iacute;veis vil&otilde;es responsabilizados pelas altas dos pre&ccedil;os dos alimentos por Wheeler e Sheeran, adaptados convenientemente ao contexto brasileiro. Diz o jornalista da Time que: &ldquo;Esta invas&atilde;o da floresta est&aacute; sendo acelerada por uma fonte inesperada: os biocombust&iacute;veis. Uma explos&atilde;o na demanda por combust&iacute;veis verdes tem empurrado os pre&ccedil;os globais das lavouras a alturas sem precedentes, que estimulam uma expans&atilde;o dram&aacute;tica da agricultura brasileira, que est&aacute; invadindo a Amaz&ocirc;nia numa velocidade cada vez mais alarmante.&rdquo;<\/p>\n<p><\/span><span>&nbsp;Assim, sem maiores explica&ccedil;&otilde;es, a mat&eacute;ria leva o leitor da espiga de milho da capa, mat&eacute;ria-prima dos biocombust&iacute;veis americanos, envolvida por notas de d&oacute;lares tamb&eacute;m americanos, para os biocombust&iacute;veis brasileiros, respons&aacute;veis pela devasta&ccedil;&atilde;o da Amaz&ocirc;nia, segundo o autor.<\/p>\n<p><\/span><span>De passagem a mat&eacute;ria da revista Time cita que investidores americanos tais como: Richard Branson e George Soros, GE e BP, Ford e Shell, Cargill e o Grupo Carlyle pretendem investir US$ 100 bilh&otilde;es at&eacute; 2010 em biocombust&iacute;veis. O que a mat&eacute;ria n&atilde;o fala &eacute; que parte desse investimento provavelmente seja via bolsa de mercadorias e futuros, ou seja, sem plantar um p&eacute; de milho ou destilar um litro de etanol.&nbsp; Se for verdade que os biocombust&iacute;veis est&atilde;o causando a escassez e a alta do pre&ccedil;o dos alimentos esses investidores provavelmente apostar&atilde;o nas duas pontas, ou seja, ganhar&atilde;o com a venda de biocombust&iacute;veis e com a venda de alimentos, tal como fazem hoje os que apostam no petr&oacute;leo e nos alimentos.<\/p>\n<p><\/span><span>Na seq&uuml;&ecirc;ncia da onda internacional contra os biocombust&iacute;veis, outro que se referiu &agrave; especula&ccedil;&atilde;o financeira com o pre&ccedil;o dos alimentos foi o relator da <a href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha\/dinheiro\/ult91u396353.shtml\">ONU<\/a> (Organiza&ccedil;&atilde;o das Na&ccedil;&otilde;es Unidas) para o Direito &agrave; Alimenta&ccedil;&atilde;o, Jean Ziegler, que qualificou a crise de &quot;verdadeira trag&eacute;dia&quot;. O relator defendeu uma morat&oacute;ria de pelo menos cinco anos na produ&ccedil;&atilde;o de biocombust&iacute;veis e disse que eles s&atilde;o &quot;um crime contra grande parte da humanidade, algo intoler&aacute;vel&quot;. Sobre a especula&ccedil;&atilde;o, disse que &quot;&eacute; respons&aacute;vel por 30% da explos&atilde;o dos pre&ccedil;os&quot;, especialmente a Bolsa de Valores de Chicago, onde os fundos de produtos b&aacute;sicos dominam 40% dos contratos, segundo informou a Ag&ecirc;ncia de not&iacute;cias Efe.<\/p>\n<p><\/span><span>Ziegler n&atilde;o pediu morat&oacute;ria para a especula&ccedil;&atilde;o financeira e tampouco os jornal&otilde;es estamparam em suas manchetes que ela &eacute; respons&aacute;vel por, pelo menos, 30% na eleva&ccedil;&atilde;o dos pre&ccedil;os dos alimentos. Ambos preferiram condenar os biocombust&iacute;veis como principal vil&atilde;o.<\/p>\n<p><\/span><span>Em entrevista&nbsp; concedida &agrave; Folha de S&atilde;o Paulo em <\/span><span>27\/04\/2008, <\/span><span>o advogado Durval de Noronha Goyos Junior, autoridade brasileira em direito do com&eacute;rcio internacional, nomeado &aacute;rbitro do Brasil na OMC (Organiza&ccedil;&atilde;o Mundial do Com&eacute;rcio), declarou que &ldquo;As turbul&ecirc;ncias no mercado imobili&aacute;rio americano e no de capitais fizeram com que os recursos migrassem para o petr&oacute;leo, o ouro e os produtos agr&iacute;colas&rdquo;. Sem mais explica&ccedil;&otilde;es, o assunto terminou a&iacute;. <\/p>\n<p><\/span><span>Mas se a m&iacute;dia do s&eacute;culo XXI tem dificuldade em explicar como a especula&ccedil;&atilde;o financeira contribui para a alta do pre&ccedil;o dos alimentos e para fome dela decorrente, temos que voltar a Josu&eacute; de Castro, que em meados do s&eacute;culo passado, no pref&aacute;cio da s&eacute;tima edi&ccedil;&atilde;o de seu livro &ldquo;Geografia da Fome&rdquo;, dizia:<\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><em><span>&quot;Ao lado dos preconceitos morais, os interesses econ&ocirc;micos das minorias dominantes tamb&eacute;m trabalhavam para escamotear o fen&ocirc;meno da fome do panorama espiritual moderno. &Egrave; que ao imperialismo econ&ocirc;mico e ao com&eacute;rcio internacional a servi&ccedil;o do mesmo interessava que a produ&ccedil;&atilde;o, a distribui&ccedil;&atilde;o e o consumo de produtos alimentares continuassem a se processar indefinidamente como fen&ocirc;menos exclusivamente econ&ocirc;micos&nbsp; &#8211; dirigidos e&nbsp; estimulados dentro dos seus interesses econ&ocirc;micos&nbsp; &#8211; e n&atilde;o como fatos intimamente ligados aos interesses da sa&uacute;de p&uacute;blica. E a dura verdade &eacute; que as mais das vezes esses interesses eram antag&ocirc;nicos. Veja-se o caso da &Iacute;ndia, por exemplo. Segundo nos conta R&eacute;clus, nos &uacute;ltimos trinta anos do s&eacute;culo passado [XIX] morreram de inani&ccedil;&atilde;o naquele pa&iacute;s mais de vinte milh&otilde;es de habitantes; s&oacute; no ano de 1877 pereceram de fome cerca de quatro milh&otilde;es. E, no entanto, de acordo com a sugestiva observa&ccedil;&atilde;o de Richard Temple &ndash; &ldquo;enquanto tantos infelizes morriam de fome, o porto de Calcut&aacute; continuava a exportar para o estrangeiro quantidades consider&aacute;veis de cereais. Os famintos eram demasiado pobres para comprar o trigo que lhes salvaria a vida&rdquo;. &Eacute; l&oacute;gico que os grandes importadores, negociantes de Londres, Roterdam e outras grandes pra&ccedil;as europ&eacute;ias, que tiravam grandes proventos de suas importa&ccedil;&otilde;es da &Iacute;ndia, faziam o poss&iacute;vel para abafar na Europa os rumores long&iacute;nquos desta fome long&iacute;nqua, a qual, se tomada na devida considera&ccedil;&atilde;o, poderia atrapalhar os seus lucrativos neg&oacute;cios.<\/p>\n<p><\/span><span>Tamb&eacute;m os governos nazistas que se haviam apoderado do poder em v&aacute;rios pa&iacute;ses e de cuja pol&iacute;tica fazia parte obrigat&oacute;ria a propaganda intempestiva de prosperidades inexistentes, n&atilde;o, podiam ver com bons olhos quaisquer tentativas que viessem mostrar, &agrave;s claras, aos outros pa&iacute;ses, em que extens&atilde;o a fome participava dos destinos de seus povos. A pr&oacute;pria ci&ecirc;ncia e a t&eacute;cnica ocidentais, envaidecidas por suas brilhantes conquistas materiais, no dom&iacute;nio das for&ccedil;as da natureza, se sentiram humilhadas, confessando abertamente o seu quase absoluto fracasso em melhorar as condi&ccedil;&otilde;es de vida humana no nosso planeta, e com o seu reticente sil&ecirc;ncio sobre o assunto faziam-se, consciente ou inconscientemente, c&uacute;mplices dos interesses pol&iacute;ticos que procuravam ocultar a verdadeira situa&ccedil;&atilde;o&nbsp; de enormes massas humanas envolvidas em car&aacute;ter permanente no c&iacute;rculo de ferro da fome.&rdquo;<\/span><\/em><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>Guardadas as devidas propor&ccedil;&otilde;es, mudamos de s&eacute;culo, mas n&atilde;o mudamos a &eacute;tica do com&eacute;rcio internacional de alimentos que continua tratando os alimentos como &ldquo;<\/span><span>fen&ocirc;menos exclusivamente econ&ocirc;micos&rdquo;<\/span><span>. Transformados em commodities, os alimentos s&atilde;o negociados quase que anonimamente nas bolsas de mercadorias mundo afora. Nesse contexto, os alimentos n&atilde;o est&atilde;o livres de ataques especulativos praticados por investidores tal como fizeram com a&ccedil;&otilde;es&nbsp; de empresas, moedas ou, mais recentemente, com o mercado imobili&aacute;rio. Criam verdadeiras bolhas caracterizadas pela alta artificial do pre&ccedil;o de a&ccedil;&otilde;es, produtos ou servi&ccedil;os, desvinculadas das atividades produtivas e dos fatores de produ&ccedil;&atilde;o. Esses investidores movimentam um dinheiro virtual que deve sua exist&ecirc;ncia &uacute;nica e exclusivamente a f&eacute; dos que dele se beneficiam e aos dogmas da economia professados por especialistas carism&aacute;ticos. Na&ccedil;&otilde;es, empresas e pessoas se subordinam a eles, incluindo a&iacute; a m&iacute;dia em geral, quer seja por omiss&atilde;o, quer seja dando uma m&atilde;ozinha na propaga&ccedil;&atilde;o dessa f&eacute; e desses dogmas, reproduzindo-os incessantemente, sem nunca questiona-los.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>A &Iacute;ndia, onde a fome matou mais de vinte milh&otilde;es de pessoas no final do s&eacute;culo XIX, j&aacute; estuda a possibilidade de proibir as opera&ccedil;&otilde;es de contratos futuros de alimentos. Uma proposta nesse sentido foi feita pelo ministro das Finan&ccedil;as, P. Chidambaram, apesar dos protestos de operadores do mercado financeiro, segundo o jornal Financial Times.<\/p>\n<p><\/span><span>O pr&oacute;prio governo norte-americano parece estar preocupado em colocar um paradeiro nas especula&ccedil;&otilde;es com as cota&ccedil;&otilde;es das commodities ao propor uma a&ccedil;&atilde;o conjunta da Commodity Futures Trading Commission (que fiscaliza os mercados futuros desses produtos) com a Security Exchange Commission (que regulamenta os ativos financeiros), segundo declarou Jos&eacute; Graziano da Silva, representante regional da FAO para a Am&eacute;rica Latina e o Caribe.<\/p>\n<p><\/span><span>No Brasil, a Bolsa de Mercadorias e Futuros comemora um crescimento de 90,2% no numero de contratos agropecu&aacute;rios celebrados no primeiro trimestre de 2008 em rela&ccedil;&atilde;o a igual per&iacute;odo do ano passado. Foram 716,6 mil contratos ante 376,8 mil contratos negociados de janeiro a mar&ccedil;o de 2007. O mercado de milho registrou, nos primeiros tr&ecirc;s meses de 2008, o maior volume trimestral da hist&oacute;ria, superando o recorde anterior, 42,6 mil contratos, em 2006. Segundo o Boletim S&iacute;ntese Agropecu&aacute;ria n.309, publicado em 15 de abril de 2008 &#8211; &ldquo;A grande divulga&ccedil;&atilde;o que a BM&amp;F vem realizando em rela&ccedil;&atilde;o as commodities, a parceria com o Banco do Brasil, o apoio &agrave;s corretoras e a divulga&ccedil;&atilde;o de seus produtos nos estandes em feiras e eventos v&ecirc;m contribuindo para o aumento de volumes nesse mercado&rdquo;, Emanuel Zullo, gerente comercial agr&iacute;cola de uma corretora comenta ainda que a entrada de novos players na BM&amp;F &ndash; &ldquo;independentemente do objetivo desse investidor, se tem ou n&atilde;o v&iacute;nculo com o agroneg&oacute;cio, se buscam fazer hedge [prote&ccedil;&atilde;o do capital] ou simplesmente investir em commodities&rdquo; &ndash; contribuiu tamb&eacute;m para a eleva&ccedil;&atilde;o dos volumes.<\/p>\n<p><\/span><span>Para esses players, que no bom portugu&ecirc;s significa jogadores, as situa&ccedil;&otilde;es de escassez geralmente s&atilde;o as mais lucrativas &#8211;&nbsp; quanto pior melhor. Sempre eles acham uma forma de tirar proveito em benef&iacute;cio pr&oacute;prio. Mesmo que com suas &ldquo;apostas&rdquo;, tecnicamente chamadas de opera&ccedil;&otilde;es financeiras, estejam aumentando a multid&atilde;o de &ldquo;<\/span><span>famintos, demasiado pobres para comprar o trigo que lhes salvaria a vida&rdquo;.<\/p>\n<p><\/span><span>No boletim da BM&amp;F s&atilde;o fornecidas informa&ccedil;&otilde;es para que os jogadores fa&ccedil;am suas apostas &ndash; &ldquo;O primeiro relat&oacute;rio de inten&ccedil;&atilde;o de plantio de gr&atilde;os para a safra 2008\/09, divulgado pelo United States Department of Agriculture (USDA), em 31 de mar&ccedil;o, avaliou que a &aacute;rea plantada de milho atinja 34,8 milh&otilde;es de <\/span><span>hectares nos Estados Unidos, o que representa queda de 8,1% em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; safra passada &#8230; A situa&ccedil;&atilde;o clim&aacute;tica desfavor&aacute;vel para o plantio nas principais regi&otilde;es produtoras de milho no Meio-Oeste americano pode ser outro fator relevante para a escalada dos pre&ccedil;os internacionais, assim como o aumento do consumo do gr&atilde;o, que resultar&aacute; em estoques mais baixos. O relat&oacute;rio mensal de oferta e demanda, publicado em 9 de abril pelo USDA, surpreendeu os agentes de mercado ao divulgar corte de 12,1% nos estoques finais dos EUA, que passaram de 36,52 milh&otilde;es de toneladas, em mar&ccedil;o, para 32,58 milh&otilde;es de toneladas &ldquo;.<\/p>\n<p><\/span><span>Sobre a soja o Boletim comemora: &ldquo;O volume de soja negociado na BM&amp;F vem crescendo nos &uacute;ltimos meses. S&oacute; em mar&ccedil;o, foram totalizados 46 mil contratos, o maior volume registrado num &uacute;nico m&ecirc;s em toda a hist&oacute;ria.&rdquo;<\/p>\n<p><\/span><span>Para Norberto Freund, membro da C&acirc;mara de Soja e Milho da BM&amp;F, o crescimento se justifica por diversos fatores: &ldquo;A alta volatilidade de pre&ccedil;os &eacute; decorrente da eleva&ccedil;&atilde;o da demanda mundial pela soja, com a conseq&uuml;ente procura de prote&ccedil;&atilde;o dos pre&ccedil;os pela cadeia produtiva &ndash; em especial a demanda da China. O constrangimento na oferta mundial de trigo e as idas e vindas da crise entre governo e produtores argentinos resultando na transfer&ecirc;ncia de demanda para o Brasil (Paranagu&aacute;) s&atilde;o fatores que muito <\/span><span>provavelmente potencializaram o movimento da BM&amp;F&rdquo;<\/span><span>.<\/p>\n<p><\/span><span>Em sua an&aacute;lise sobre a corrida dos investidores para os alimentos a BM&amp;F avalia que a entrada dos fundos financeiros nos mercados significa que est&atilde;o&nbsp; procurando alternativas para aplica&ccedil;&otilde;es em outros mercados que n&atilde;o estejam amea&ccedil;ados pela crise financeira, como o mercado imobili&aacute;rio. Para Norberto Freund, membro da C&acirc;mara de Soja e Milho da Bolsa: &ldquo;Se o instrumento da BM&amp;F n&atilde;o fosse adequado para se proteger da alta volatilidade, talvez o volume de contratos n&atilde;o subisse nessa propor&ccedil;&atilde;o. Mas, como na vis&atilde;o do mercado esse instrumento provou-se adequado, pode-se dizer, como no dito popular, que se juntou &agrave; fome com a vontade de comer&rdquo;. Parece que mesmo sem querer esse especialista foi literalmente exato &#8211; &agrave; vontade de comer dos jogadores se junta &agrave; fome que provocam com a especula&ccedil;&atilde;o sobre o pre&ccedil;o dos alimentos. <\/p>\n<p><\/span><span>Quem explica a din&acirc;mica desse jogo &eacute; Eduardo Felipe P. Matias em seu livro &ldquo;A humanidade e suas fronteiras&rdquo;: <\/span><span>&nbsp;<\/span><span>&#8211;&nbsp;<\/span><span>Gra&ccedil;as a irresist&iacute;vel automa&ccedil;&atilde;o do sistema financeiro, seus atores disp&otilde;em de um arsenal de instrumentos sofisticados, ideais para atuar naquilo que foi chamado de a economia de cassino.<\/p>\n<p>De<\/span><span> fato, o poder crescente dos especuladores refor&ccedil;a a impress&atilde;o de que estar&iacute;amos hoje&nbsp; vivenciando um &ldquo;capitalismo de cassino&rdquo;. Segundo Susan Strange[4], formuladora dessa id&eacute;ia, o sistema financeiro ocidental est&aacute; aproximando-se rapidamente de parecer nada mais que um vasto sal&atilde;o de jogos, no qual todos os dias jogadores em frente &agrave;s telas de seus computadores em diversas partes do mundo apostariam somas exorbitantes, &ldquo;tal qual apostadores em cassinos assistindo ao tilintar de uma bola prateada girando em uma roleta e pondo suas fichas no vermelho ou no preto, nos n&uacute;meros pares ou nos n&uacute;meros &iacute;mpares&rdquo;.<\/p>\n<p><\/span><span>Entretanto, diferentemente do que ocorre num cassino comum, onde voc&ecirc; pode entrar ou se manter afastado dependendo de sua vontade, no cassino financeiro global todos estamos involuntariamente engajados no jogo do dia. Nele, &ldquo;uma mudan&ccedil;a cambial pode reduzir &agrave; metade o valor da safra de um fazendeiro antes que ele colha, ou fazer um exportador sair de seu neg&oacute;cio&rdquo;. Assim, o que acontece no cassino situado nos quarteir&otilde;es de escrit&oacute;rios dos grandes centros financeiros tende a ter conseq&uuml;&ecirc;ncias &ldquo;s&uacute;bitas, imprevis&iacute;veis e inevit&aacute;veis&rdquo; na vida das pessoas &ldquo;de rec&eacute;m-formados a aposentados&rdquo;[5].<\/p>\n<p><\/span><span>Parece que para a m&iacute;dia falar do funcionamento e da &eacute;tica do mercado financeiro &eacute; um tabu, tal como definiu Josu&eacute; de Castro com rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s causas da fome. Talvez por isso esse assunto seja tratado como de interesse privativo de especialistas e de jogadores do cassino. Esse cassino movimenta diariamente US$ 8 trilh&otilde;es, segundo estimativas do FMI. Comparado a isso, o valor do faturamento anual de uma empresa de comunica&ccedil;&atilde;o, por exemplo, &eacute; apenas um cafezinho. No Brasil, as principais empresas do ramo t&ecirc;m bancos entre seus principais acionistas. Mas, para explicar a crise mundial de alimentos, o jornalismo precisa aprofundar a apura&ccedil;&atilde;o e desafiar os tabus. Ou ent&atilde;o, simplesmente entrar no jogo sacrificando ainda mais sua credibilidade &ndash; os alimentos s&atilde;o a bola da vez.&nbsp; Fa&ccedil;am suas apostas. <\/p>\n<p><em>* <\/em><\/span><em><span>Paulo Machado &eacute;&nbsp;<\/span><span>jornalista, vencedor do Premio Caixa\/Revista Imprensa 2006 de Jornalismo Social, foi Assessor do Comit&ecirc; de Qualidade Editorial e Ouvidor da Radiobr&aacute;s.<\/span><\/em> <\/p>\n<hr \/>\n<p>[1] <span>Miguel A. Altieri &eacute; professor na Universidade da Calif&oacute;rnia (Berkeley) e membro da Sociedade Cient&iacute;fica Latino-americana de Agroecologia (SOCLA), em seu artigo: &ldquo;A Fal&ecirc;ncia de um Modelo &#8211; Sistema alimentar na era p&oacute;s-petroleira&rdquo; em &#8211; Alai Amlatina &ndash;http:\/\/alainet.org\/index.phtml.pt<\/p>\n<p><\/span>[2]<span> Citado no artigo &ldquo;El debate sobre biocombustibles: entre la seguridad alimentaria y el precio del petr&oacute;leo&rdquo; de Gerardo Honty &ndash; que coordena o Programa de Agrocombustiveis (<a href=\"http:\/\/www.agrocombustibles.org\/\">http:\/\/www.agrocombustibles.org<\/a>) do Centro Latino Americano de Ecolog&iacute;a Social (CLAES). <\/p>\n<p><\/span>[3]<span> <\/span><span>&ldquo;Apontada pelos cr&iacute;ticos dos biocombust&iacute;veis como uma das vil&atilde;s da disparada dos pre&ccedil;os dos alimentos, a cana-de-a&ccedil;&uacute;car tem avan&ccedil;ado sobre &aacute;reas cultivadas com soja, milho, caf&eacute; e laranja na regi&atilde;o centro-sul do pa&iacute;s, revela estudo oficial divulgado na ter&ccedil;a-feira pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Os dados apontam que ao menos 27% da expans&atilde;o da &aacute;rea de cana no ano-safra 2007\/08, segundo declara&ccedil;&atilde;o dos pr&oacute;prios produtores, ocorreu em regi&otilde;es antes ocupadas por esses culturas. O restante da expans&atilde;o foi em &aacute;reas de pastagens.&rdquo; Na mat&eacute;ria Cana avan&ccedil;a em &aacute;reas de alimentos, de Mauro Zanatta. Jornal Valor Econ&ocirc;mico 30\/04\/2008<\/p>\n<p><\/span>[4]<span> Strange, Susan. Casino Capitalism. <\/span>Oxford: Basil Blackwell, 1986.<\/p>\n<p>[5]<span> Matias, Eduardo Felipe P&eacute;rez. 1972 &ndash; A humanidade e suas fronteiras: do Estado soberano &agrave; sociedade global. S&atilde;o Paulo: Paz e Terra, 2005. p. 182.<\/span> <\/p>\n<div>\n<div id=\"ftn5\"><span><font face=\"Times New Roman\" size=\"2\">&nbsp;<\/font><\/span><span><font face=\"Times New Roman\" size=\"2\">&nbsp;<\/font><\/span><\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 1946 o m&eacute;dico Josu&eacute; de Castro publicava a primeira edi&ccedil;&atilde;o &ldquo;Geografia da Fome&rdquo;. Para ele, a fome que assola o planeta n&atilde;o &eacute; resultado de fatores naturais nem de causas raciais ou biol&oacute;gicas. &Eacute;, na verdade, decorr&ecirc;ncia de a&ccedil;&otilde;es do pr&oacute;prio homem, que governa o mundo de forma a provocar concentra&ccedil;&atilde;o de riqueza e &hellip; <a href=\"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=21141\" class=\"more-link\">Continue lendo <span class=\"screen-reader-text\">A imprensa, os alimentos e o cassino do capitalismo<\/span> <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[56],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/21141"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=21141"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/21141\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=21141"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=21141"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=21141"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}