{"id":21092,"date":"2008-04-30T16:08:52","date_gmt":"2008-04-30T16:08:52","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=21092"},"modified":"2008-04-30T16:08:52","modified_gmt":"2008-04-30T16:08:52","slug":"quem-critica-a-minoria-branca-e-ignorado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=21092","title":{"rendered":"&#8216;Quem critica a minoria branca \u00e9 ignorado&#8217;"},"content":{"rendered":"<p><em>Enquanto alguns o acusam de ser chapa-branca, Mino Carta puxa sem d&oacute; as orelhas do presidente Lula, que diz ser um sintoma de que alguma coisa come&ccedil;ou a mudar no Brasil, mas de quem guarda uma sincera decep&ccedil;&atilde;o pela falta de ousadia. &ldquo;Para que agradar tanto aos banqueiros?&rdquo;, reclama. Nesta entrevista, Carta fala do preconceito do mercado publicit&aacute;rio contra quem critica o pensamento &uacute;nico. Fala das origens da passividade do povo, da selvageria do capitalismo, de cinema, gastronomia e de amor. Conservador nas miudezas e an&aacute;rquico no atacado, ele n&atilde;o tenta se explicar, mas ser&aacute; facilmente entendido.<\/em><\/p>\n<p>*&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Aqui &eacute; o lugar onde voc&ecirc; mais gosta de trabalhar de todos os que j&aacute; passou?<\/strong><br \/>Talvez seja onde a margem de cria&ccedil;&atilde;o &eacute; maior. Mas cada coisa se encaixa no seu tempo e &agrave; moldura das possibilidades oferecidas. Eu lancei o Jornal da Tarde, foi uma empreitada valios&iacute;ssima, mas estava trabalhando no Estad&atilde;o. A autonomia que tive foi muito grande em termos de cria&ccedil;&atilde;o, pagina&ccedil;&atilde;o, texto, o jornal foi at&eacute; bastante revolucion&aacute;rio, mas politicamente a margem de manobra era m&iacute;nima. Voc&ecirc; tinha de se adaptar aos pensamentos da casa. Na Veja eu contava com patr&otilde;es idiotas, e isso ajuda um bocado. Os Civita n&atilde;o sabiam onde estavam, e foi f&aacute;cil fazer uma revista que mereceu censura, que foi perseguida violentamente.<\/p>\n<p><strong>Voc&ecirc; j&aacute; contou v&aacute;rias vezes a hist&oacute;ria da sua sa&iacute;da da Veja, em 1976. Isso &eacute; algo que o marcou, n&atilde;o?<\/strong><br \/>Certamente, e positivamente. &Eacute; problema voc&ecirc; no Brasil lidar com a m&iacute;dia, ela n&atilde;o quer saber de quem nada contra a corrente. A m&iacute;dia est&aacute; toda compactada nos patr&otilde;es, em seus sabujos da reda&ccedil;&atilde;o, que giram em torno de uma id&eacute;ia &uacute;nica. A id&eacute;ia &eacute; reagir a qualquer tipo de amea&ccedil;a, porque n&atilde;o se aceita a possibilidade de que o sistema possa ser interrompido, posto em risco, em xeque. Espanta o comportamento dos jornalistas brasileiros; n&atilde;o t&ecirc;m no&ccedil;&atilde;o do que &eacute; ser jornalista. O jornalismo decaiu muito.<\/p>\n<p><strong>Por que o jornalismo hoje n&atilde;o se compara com o que se fazia na d&eacute;cada de 60, 70&#8230;<\/strong><br \/>Ou mesmo antes. Rubem Braga e Joel Silveira cobriram a campanha dos pracinhas na It&aacute;lia, na Segunda Guerra Mundial, de forma impec&aacute;vel, com textos dignos do melhor jornalismo contempor&acirc;neo do mundo. Se voc&ecirc; pensa que o jornalismo brasileiro j&aacute; teve esse tipo de her&oacute;i, voc&ecirc; p&otilde;e as m&atilde;os nos cabelos! Cl&aacute;udio Abramo&#8230;<\/p>\n<p><strong>Perseu Abramo&#8230;<\/strong><br \/>Perseu era mais not&aacute;vel n&atilde;o como jornalista, mas como pol&iacute;tico, como intelectual, que transmitia integridade, sem d&uacute;vida. Era sobrinho do Cl&aacute;udio, embora a diferen&ccedil;a de idade n&atilde;o fosse assim t&atilde;o grande (seis anos), e filho do Athos, o segundo da estirpe (L&iacute;vio, Athos, F&uacute;lvio, L&eacute;lia, Beatriz, M&aacute;rio e Cl&aacute;udio). O primeiro era o L&iacute;vio, grande gravurista, artista extraordin&aacute;rio. Entre o L&iacute;vio e o Cl&aacute;udio tinha 20 anos de diferen&ccedil;a. O Athos era o segundo. Com a L&eacute;lia eu trabalhei. Meu pai arranjou um emprego para ela. &Oacute;tima atriz, muito talentosa. Quando voltou da It&aacute;lia, j&aacute; era quarentona, trabalhou numa companhia amadora de teatro. Fez de tudo, teatro, cinema, e era engajad&iacute;ssima.<\/p>\n<p><strong>Dessa gera&ccedil;&atilde;o que voc&ecirc; viu, com a qual trabalhou, conviveu esses anos todos, quem voc&ecirc; destacaria?<\/strong><br \/>Ah, tem muitos. Eu n&atilde;o gostaria de cometer injusti&ccedil;as. Quando eu voltei da It&aacute;lia, em 1960, fui lan&ccedil;ar a Quatro Rodas &ndash; sem saber dirigir, at&eacute; hoje n&atilde;o sei, e n&atilde;o distingo um Volkswagen de um Mercedes. Tive ali rep&oacute;rteres extraordin&aacute;rios. Trabalhei com Z&eacute; Hamilton Ribeiro e Paulo Patarra, depois veio o S&eacute;rgio de Souza. O Hamilton Almeida, que foi um excelente rep&oacute;rter, T&atilde;o Gomes Pinto. Estive em contato com gente de alt&iacute;ssima qualidade, jornalistas como hoje n&atilde;o se fazem mais.<\/p>\n<p><strong>E o Reali Jr.<\/strong><br \/>O Reali &eacute; &oacute;timo, &eacute; um grande sujeito. Eu acho que ele vai escrever coisa para a Carta Capital agora, de Paris. J&aacute; estamos engatilhando algo para que o Reali escreva pra gente. Meu pai era amigo do pai dele, &eacute; uma coisa muito, muito antiga.<\/p>\n<p><strong>Recentemente houve dois importantes &ldquo;n&atilde;o-acontecimentos&rdquo;: a batalha de Luis Nassif com a Veja e a sa&iacute;da de Paulo Henrique Amorim do IG. Como v&ecirc; esses dois epis&oacute;dios?<\/strong><br \/>Isso se encaixa exatamente na l&oacute;gica do que eu disse. No Brasil voc&ecirc; tem uma situa&ccedil;&atilde;o muito peculiar, que n&atilde;o existe em outros lugares que j&aacute; sa&iacute;ram da Idade M&eacute;dia. Uma m&iacute;dia compactamente unida apenas em torno da defesa dos interesses piores, aqueles da minoria branca, para usar a express&atilde;o do Cl&aacute;udio Lembo. &Eacute; muito simples: quem de alguma forma p&otilde;e em xeque, critica a minoria branca e identifica esses interesses, que s&atilde;o os dela apenas, e n&atilde;o os do pa&iacute;s, da sociedade brasileira, do povo brasileiro, quem faz isso &eacute; ignorado. E a t&eacute;cnica &eacute; a de sempre, antiq&uuml;&iacute;ssima, usada inescapavelmente em todas as situa&ccedil;&otilde;es: &ldquo;Ignore, porque a&iacute; n&atilde;o acontece, ningu&eacute;m vai saber&rdquo;. A estrat&eacute;gia, do ponto de vista deles, &eacute; extremamente eficaz. Saiu nesses dias um estudo em que voc&ecirc; verifica que 58% da popula&ccedil;&atilde;o brasileira n&atilde;o l&ecirc; jornal, n&atilde;o l&ecirc; livro, n&atilde;o vai ao cinema, n&atilde;o vai ao teatro. Alimenta-se s&oacute; de TV, quem se alimenta. H&aacute; um distanciamento brutal em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s not&iacute;cias, &agrave; exist&ecirc;ncia de fatos. Isso &eacute; muito claro no Brasil. E eles se aproveitam disso.<\/p>\n<p><strong>O que nasceu primeiro: a indiferen&ccedil;a do povo ou a p&eacute;ssima qualidade da m&iacute;dia?<\/strong><br \/>Nada acontece por acaso e certas situa&ccedil;&otilde;es s&atilde;o inescap&aacute;veis. O povo brasileiro &eacute; um povo que traz no lombo a heran&ccedil;a do chicote e da escravid&atilde;o. Que seja um povo paciente, resignado, &eacute; indiscut&iacute;vel. &Eacute; um povo que vive no limbo, isso n&atilde;o &eacute; nem o inferno, nem o purgat&oacute;rio. O Brasil sofreu desgra&ccedil;as terr&iacute;veis. Foi uma terra predada como col&ocirc;nia, antes pelos portugueses, depois pelos ingleses, depois submetida ao superpoder americano. Essa foi a primeira desgra&ccedil;a. A segunda foi a escravid&atilde;o, pela qual pagamos at&eacute; hoje. E a terceira o golpe de 1964, o golpe da minoria branca. Hoje me surpreende a m&iacute;dia falar em ditadura; antes falavam em revolu&ccedil;&atilde;o. Agora falam em ditadura, mas acrescentam &ldquo;militar&rdquo;. Isso me deixa num estado de profunda irrita&ccedil;&atilde;o: os militares foram os gendarmes que executaram o servi&ccedil;o sujo dos seus patr&otilde;es brancos. Quem fez esse golpe sen&atilde;o a mesma m&iacute;dia que agora decidiu mudar o nome de &ldquo;revolu&ccedil;&atilde;o&rdquo; para &ldquo;ditadura militar&rdquo;? Neste pa&iacute;s, onde &eacute; muito f&aacute;cil manipular a opini&atilde;o p&uacute;blica, a chamada classe m&eacute;dia estava convencida de que o golpe era absolutamente indispens&aacute;vel porque havia a &ldquo;marcha da subvers&atilde;o&rdquo; que batia &agrave;s portas. Voc&ecirc;s viram a marcha da subvers&atilde;o? Eu espero at&eacute; hoje&#8230; O golpe deu-se em uma hora, sem que fosse derramada uma &uacute;nica e escassa gota de sangue nas cal&ccedil;adas. Que golpe &eacute; esse? Era assim: amanh&atilde; tem o golpe. Vamos programar para amanh&atilde; porque &eacute; um dia bom, parece que vai ter sol.<\/p>\n<p><strong>Que arma a sociedade tem para enfrentar uma elite golpista?<\/strong><br \/>Eu n&atilde;o tenho muitas esperan&ccedil;as em rela&ccedil;&atilde;o ao Brasil, infelizmente. E voc&ecirc;s vejam: pa&iacute;s extraordin&aacute;rio, recursos absolutamente fant&aacute;sticos, mais f&eacute;rtil do mundo, muito mais que a China. Onde voc&ecirc; plantar, dizia o Pero Vaz de Caminha e &eacute; verdade, a coisa d&aacute;. N&atilde;o tem cataclismo, o subsolo &eacute; rico em min&eacute;rios, metade do ferro do mundo est&aacute; aqui, agora descobrimos tamb&eacute;m petr&oacute;leo onde n&atilde;o imagin&aacute;vamos que houvesse. E temos a pior elite do mundo! A elite (desculpe a refer&ecirc;ncia chula e mesquinha, talvez) da Daslu, de exibicionistas, cafajestes, cheios de si pr&oacute;prios, se acham notabil&iacute;ssimos, inteligentes, elegantes, brilhantes. &Eacute; um bando! &Eacute; o pa&iacute;s onde se fala mais palavr&otilde;es na rua, desbocado, vulgar. Eu n&atilde;o tendo a enxergar o pecado no povo, o povo &eacute; o que pode ser. Os que mandam s&atilde;o os que n&atilde;o fizeram esfor&ccedil;o algum para ser diferentes, para pensar em todo mundo, em vez de pensar somente neles pr&oacute;prios.<\/p>\n<p><strong>Mas o povo n&atilde;o tem uma responsabilidade por n&atilde;o reagir a isso?<\/strong><br \/>A&iacute; &eacute; que est&aacute;. O golpe de 1964 &eacute; uma desgra&ccedil;a porque interrompe um processo, que n&atilde;o se realizaria no dia seguinte. Ia se realizar no espa&ccedil;o de 10 ou 15 anos, paulatinamente. Surgiria inevitavelmente aquilo que foi bucha de canh&atilde;o dos grandes partidos de esquerda europeus: um operariado mais consciente. Os oper&aacute;rios que n&atilde;o queriam ser oper&aacute;rios, queriam ser burgueses. Hoje efetivamente a quest&atilde;o esquerda e direita tem de ser dimensionada de forma diferente, mas n&atilde;o no Brasil, ao contr&aacute;rio do que sup&otilde;e o senhor Gabeira. Eu nasci na It&aacute;lia, ela n&atilde;o vive um momento excelente &ndash; eu diria muito ao contr&aacute;rio &ndash;, mas apesar disso a It&aacute;lia que saiu da guerra em escombros, muito atrasada, conseguiu superar-se gra&ccedil;as ao Partido Comunista Italiano, que foi um grande partido, gra&ccedil;as &agrave; presen&ccedil;a de um proletariado que come&ccedil;ou a ter consci&ecirc;ncia de sua for&ccedil;a, e cuja for&ccedil;a era de pretender ser burgueses. Eles eram prolet&aacute;rios, mas queriam ser burgueses. Esse sonho todo de uma certa esquerda de que o oper&aacute;rio adora ser oper&aacute;rio &eacute; uma bobagem inomin&aacute;vel. Isso encanta porque normalmente &eacute; uma esquerda mais ou menos intelectual, que gosta da companhia do oper&aacute;rio porque depois diz: &ldquo;Olha a&iacute; como eu sou generoso&rdquo;. N&atilde;o tem nada disso: o oper&aacute;rio &eacute; &oacute;tima bucha de canh&atilde;o. Eles querem ser burgueses. Na It&aacute;lia, sindicatos fortes faziam greves gerais de um dia para o outro, paravam tudo. A elite brasileira que viajava para a Europa ficava desesperada, descia do avi&atilde;o e n&atilde;o tinha carregador para as malas; desciam dos trens e cad&ecirc; os carregadores? Se queixavam muito. A greve parava mesmo, n&atilde;o tinha trem, voc&ecirc; ficava preso em um lugar, tinha programado uma visita no dia seguinte e n&atilde;o podia viajar. Era muito triste.<\/p>\n<p><strong>E a imprensa noticiava isso?<\/strong><br \/>A imprensa n&atilde;o funcionava se a greve envolvesse a categoria dos jornalistas, n&atilde;o funcionava e havia uma parte consp&iacute;cua da imprensa que apoiava os trabalhadores. O jornal de maior tiragem na Europa era o L&rsquo;Unit&agrave;, do partido comunista. Estou falando dos anos 50. Havia tr&ecirc;s edi&ccedil;&otilde;es do L&rsquo;Unit&agrave;, em Roma, em Mil&atilde;o e em Turim, cada uma com sua reda&ccedil;&atilde;o. Hoje seria poss&iacute;vel fazer um jornal s&oacute; e mandar para qualquer lugar, mas nesse tempo n&atilde;o. Eram tr&ecirc;s reda&ccedil;&otilde;es distintas que tiravam 1,5 milh&atilde;o exemplares por dia juntas. Portanto, era uma outra coisa.<\/p>\n<p><strong>O capitalismo brasileiro, depois dos estragos da passividade colonial, da escravid&atilde;o e do autoritarismo na forma&ccedil;&atilde;o do pa&iacute;s, n&atilde;o aprendeu com esses erros? N&atilde;o amadureceu a ponto de querer construir um pa&iacute;s menos concentrador?<\/strong><br \/>Acho que eles est&atilde;o pensando como sempre. Embora possa haver alguns sintomas de mudan&ccedil;as em cantos afastados das metr&oacute;poles. Rondon&oacute;polis (MT), me dizem que &eacute; um exemplo de lugar muito &aacute;lacre e muito bem-sucedido, que avan&ccedil;a &agrave; revelia dos padr&otilde;es do Brasil que aparece mais. Eu acredito que possa acontecer uma esp&eacute;cie de revolu&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o pol&iacute;tica, mas de h&aacute;bitos relacionados inclusive com a produ&ccedil;&atilde;o na periferia do Brasil. Isso &eacute; poss&iacute;vel e seria bom.<\/p>\n<p><strong>Mas os grandes centros ainda determinam os rumos do pa&iacute;s, n&atilde;o?<\/strong><br \/>N&atilde;o sei. Sou bastante decepcionado com o governo Lula de v&aacute;rios pontos de vista, mas a elei&ccedil;&atilde;o do Lula &ndash; e, muito mais que ela, a reelei&ccedil;&atilde;o &ndash; mostra que uma mudan&ccedil;a se d&aacute;. Talvez sem clara percep&ccedil;&atilde;o por parte da maioria, mas os senhores do poder sabem perfeitamente da gravidade dessa mudan&ccedil;a para eles. Tanto que malham o Lula automaticamente &ndash; n&atilde;o que ele n&atilde;o mere&ccedil;a, at&eacute; porque ele faz tudo para agrad&aacute;-los, sem conseguir, ali&aacute;s. Mas eles sabem o significado da elei&ccedil;&atilde;o de algu&eacute;m que &eacute; igual ao povo brasileiro. Essa &eacute; a grande novidade. O povo brasileiro, que achava que o presidente da Rep&uacute;blica tinha de ser bacharel e dormir de gravata, de s&uacute;bito decide eleger um igual a ele, um oper&aacute;rio, um tosco, despreparado, como diz a minoria branca. O Lula, a meu ver, n&atilde;o entendeu. Se tivesse entendido, teria ido bem mais longe do que foi. Por que agradar tanto aos banqueiros?<\/p>\n<p><strong>O que lhe desagrada mais?<\/strong><br \/>Tem duas coisas que para mim t&ecirc;m import&acirc;ncia e s&atilde;o positivas. Uma, muito claramente, &eacute; a pol&iacute;tica exterior. A segunda, a verificar os efeitos em longo prazo, &eacute; a expans&atilde;o do cr&eacute;dito, que a meu ver &eacute; mais importante que o Bolsa Fam&iacute;lia, que &eacute; melanc&oacute;lico. N&atilde;o porque eu ache que &eacute; uma medida assistencial, uma esp&eacute;cie de esmola. N&atilde;o. &Eacute; porque &eacute; triste. Um povo que se contenta com 50 paus a mais &eacute; porque realmente estamos mal. Agora, continuamos a ser exportadores de commodities.<\/p>\n<p><strong>H&aacute; quem diga que se Lula n&atilde;o tivesse cumprido os compromissos assumidos na Carta aos Brasileiros teria ca&iacute;do.<\/strong><br \/>Eu duvido. Quem d&aacute; o golpe se o povo elegeu e reelegeu esse cara da forma como o elegeu e, sobretudo, como o reelegeu? A m&iacute;dia compactamente contra ele, todo dia soltando informa&ccedil;&otilde;es sobre corrup&ccedil;&atilde;o, envolvimentos terr&iacute;veis com o que h&aacute; de pior etc. etc., e assim mesmo ele foi reeleito. Quer dizer, a estrat&eacute;gia da minoria branca, que normalmente d&aacute; certo, desta vez falhou. N&atilde;o acho que havia condi&ccedil;&otilde;es para nenhum tipo de golpe. Os grandes estadistas t&ecirc;m coragem. Claro, se ele me ouvisse dizer essas coisas, diria: &ldquo;Ah, o Mino &eacute; um iludido, um an&aacute;rquico&rdquo;. Conhe&ccedil;o o Lula h&aacute; 30 anos, sei o que ele pensa. Em in&uacute;meras vezes percebi que ele me achava inc&ocirc;modo. Sou amigo dele e gosto muito dele, o acho um sujeito extremamente dotado, al&eacute;m de tudo tem um QI muito bom. Mas falta peito, falta coragem.<\/p>\n<p><strong>N&atilde;o acha que agora, no segundo mandato, ele est&aacute; participando mais da pol&iacute;tica e sendo um pouco mais claro nas quest&otilde;es ideol&oacute;gicas?<\/strong><br \/>Acho que o segundo mandato est&aacute; pior que o primeiro. Fiz uma longu&iacute;ssima entrevista com ele &ndash; 13 p&aacute;ginas &ndash; em novembro de 2005 e ele me disse: &ldquo;Voc&ecirc; sabe, Mino, que eu nunca fui de esquerda&#8230;&rdquo; &Eacute; um erro grotesco dos pa&iacute;ses de hoje, contempor&acirc;neos, dizer que a esquerda e a direta n&atilde;o existem mais. Como, se num pa&iacute;s onde 5% vivem entre razoavelmente e bem demais e 95% vivem mal ou tragicamente? Como &eacute; poss&iacute;vel dizer &ldquo;aqui n&atilde;o existe esquerda e direita&rdquo;? Tem uma met&aacute;fora magn&iacute;fica que &eacute; a do metr&ocirc; paulistano: se S&atilde;o Paulo tivesse um metr&ocirc; digno de uma grande capital, como Londres, Paris, voc&ecirc; teria muito menos carros na rua. O metr&ocirc; &eacute; um transporte fant&aacute;stico. N&atilde;o! Eles cuidaram de construir t&uacute;neis. Agora tem a ponte Espraiada e uma prefeita do PT chamou aquilo de Conjunto Vi&aacute;rio Roberto Marinho, um salteador que infelicitou o Brasil, uma vergonha mundial, &ldquo;jornalista&rdquo;&#8230; Este &eacute; o &uacute;nico pa&iacute;s que eu conhe&ccedil;o onde jornalista chama o patr&atilde;o de colega e o patr&atilde;o consegue com o sindicato uma carteirinha de jornalista. Isso &eacute; Idade M&eacute;dia. Uma vergonha! Aqui temos diretores de reda&ccedil;&atilde;o por direito divino.<\/p>\n<p><strong>E como o pa&iacute;s caminha para 2010?<\/strong><br \/>Mal. Acho que se o Lula n&atilde;o se convencer de que n&atilde;o consegue fazer seu candidato, que n&atilde;o tem chance, que ele n&atilde;o transfere seu prest&iacute;gio pessoal &ndash; e o A&eacute;cio j&aacute; est&aacute; dizendo isso &ndash;, ele vai optar por essa solu&ccedil;&atilde;o (mostra capa da Carta Capital de 2\/4\/2008, com reportagem abordando a possibilidade de A&eacute;cio Neves sair para presidente com Ciro Gomes de vice). E essa dupla (A&eacute;cio e Ciro) vai fazer as mesmas coisas que est&atilde;o sendo feitas agora. N&atilde;o imagine mudan&ccedil;as.<\/p>\n<p><strong>Como voc&ecirc; v&ecirc; o PT nessa hist&oacute;ria?<\/strong><br \/>H&aacute; no horizonte claramente esbo&ccedil;ada uma crise do PSDB, mas h&aacute; tamb&eacute;m uma crise do PT, que no fundo j&aacute; est&aacute; em andamento. J&aacute; houve uma primeira fratura e haver&aacute; inevitavelmente outra. Eu sei que o Luiz Dulci (ministro da Secretaria-Geral da Presid&ecirc;ncia e lideran&ccedil;a do PT de MG) n&atilde;o concorda com essa alian&ccedil;a mineira (do PT e do PSDB em torno do candidato do PSB &agrave; Prefeitura de BH). O Lula est&aacute; feliz da vida com essa pax mineira. H&aacute; dentro do PT quem perceba que o partido est&aacute; sendo de alguma forma diminu&iacute;do, est&aacute; perdendo peso, prest&iacute;gio e import&acirc;ncia.<\/p>\n<p><strong>Mas voc&ecirc; v&ecirc; um futuro com o Lula rompido com o PT?<\/strong><br \/>N&atilde;o posso crer. Acho que os partidos brasileiros n&atilde;o existem, s&atilde;o clubes recreativos para a minoria branca. Mas eu cheguei a achar que o PT tinha algo diferente. Nunca fui ligado a partido, mas apoiei muito o PT no seu nascimento, dentro das minhas modest&iacute;ssimas possibilidades, porque sempre entendi que um partido forte de esquerda no Brasil, com coragem e determina&ccedil;&atilde;o, poderia ter um papel muito importante. Mas o PT, em &uacute;ltima an&aacute;lise, no poder, mostrou-se igual aos outros. &Eacute; claro, o Brasil est&aacute; crescendo no momento, mas est&aacute; crescendo em cima de commodities, vamos ser claros! Isso &eacute; um futuro maravilhoso? Eu diria que n&atilde;o.<\/p>\n<p><strong>O que o governo deveria fazer para mudar isso?<\/strong><br \/>&Eacute; uma quest&atilde;o mundial. O deus-mercado &eacute; o pior dos deuses que o homem j&aacute; conseguiu inventar. &Eacute; uma desgra&ccedil;a. As bolsas do mundo &ndash; ali&aacute;s, o Brasil cogita criar a terceira maior &ndash; s&atilde;o cassinos. Privilegiou-se a produ&ccedil;&atilde;o de dinheiro, em lugar da produ&ccedil;&atilde;o de bens. E eu me pergunto: isso leva a qu&ecirc;? O Brasil est&aacute; nessa.<\/p>\n<p><strong>Tem algu&eacute;m no mundo que n&atilde;o esteja?<\/strong><br \/>N&atilde;o, acho que o mundo est&aacute; submetido a essa id&eacute;ia. E estamos vendo que o mundo piora a cada dia. Temos por exemplo a &ldquo;arte moderna&rdquo;, uma prova da imbecilidade do mundo.<\/p>\n<p><strong>O Caio T&uacute;lio o procurou quando voc&ecirc; deixou o IG em solidariedade a Paulo Henrique Amorim?<\/strong><br \/>No pr&oacute;prio dia em que o Paulo Henrique caiu fora ele (Caio T&uacute;lio Costa, diretor do IG) ligou um monte de vezes, e eu acabei falando com ele &agrave; noite. Ele queria coloc&aacute;-lo dentro de um fato consumado, deu as raz&otilde;es dele (por tirar Amorim do IG sem pr&eacute;vio aviso, meses antes de terminar o contrato). &ldquo;Eu n&atilde;o quero perder voc&ecirc;, pelo amor de Deus&rdquo;. A&iacute; a quest&atilde;o &eacute; de princ&iacute;pios. Eu n&atilde;o tenho d&uacute;vidas que o Caio T&uacute;lio agiu porque foi autorizado a tanto.<\/p>\n<p><strong>Voc&ecirc; costuma navegar pelos blogs ou n&atilde;o se rendeu ao computador?<\/strong><br \/>N&atilde;o, tenho medo de computador. Computador me engole, ele tem uma bocarra que esconde os dentes, &eacute; coisa pior que tubar&atilde;o. Se chegar muito perto, ele me engole. J&aacute; engoliu um monte de gente, principalmente a garotada, que vai pagar caro por isso.<\/p>\n<p><strong>Mas como voc&ecirc; faz para responder aos seus leitores?<\/strong><br \/>Tem a&iacute; uns escravos (risos, apontando para a reda&ccedil;&atilde;o).<\/p>\n<p><strong>Voc&ecirc; compartilha da opini&atilde;o de Paulo Henrique de que a internet como meio de comunica&ccedil;&atilde;o &eacute; o &ldquo;must&rdquo;?<\/strong><br \/>Eu diria que o instrumento &eacute; uma coisa e o homem que usa &eacute; outra. &Eacute; como a televis&atilde;o. N&atilde;o &eacute; um instrumento fant&aacute;stico? Voc&ecirc; pode us&aacute;-la com os piores prop&oacute;sitos ou com os melhores. Idem a internet.<\/p>\n<p>Paulo Henrique define a internet como o &uacute;ltimo reduto do jornalismo independente, pois o meio impresso, o r&aacute;dio e a TV j&aacute; est&atilde;o dominados.<br \/>Isso no Brasil, nas nossas circunst&acirc;ncias. Certamente n&atilde;o &eacute; na Europa. No Brasil &eacute; inevit&aacute;vel que ela tamb&eacute;m seja controlada, est&aacute; sendo, o Brasil &eacute; medieval. A Europa n&atilde;o me parece que seja assim. N&atilde;o que a internet n&atilde;o tenha uma raz&atilde;o de ser tamb&eacute;m l&aacute;. Mas se voc&ecirc; pensar na m&iacute;dia europ&eacute;ia, por mais que existam l&aacute; os murdoch e os berlusconi, h&aacute; uma diversidade muito grande. De alguma maneira, todas as tend&ecirc;ncias poss&iacute;veis est&atilde;o representadas na m&iacute;dia. Na It&aacute;lia tem um jornal extraordin&aacute;rio, o Il Manifesto, com pagina&ccedil;&atilde;o brilhant&iacute;ssima, e de esquerda razoavelmente radical, n&atilde;o brinca em servi&ccedil;o.<\/p>\n<p><strong>De que jornais voc&ecirc; gosta?<\/strong><br \/>Il Manifesto &eacute; excelente. N&atilde;o gosto muito do El Pa&iacute;s, aos espanh&oacute;is falta senso de humor, eles levam tudo muito a s&eacute;rio. A m&iacute;dia americana j&aacute; foi excelente, hoje est&aacute; muito mal, como os Estados Unidos. La Rep&uacute;blica &eacute; um jornal muito bom, muito melhor que o El Pa&iacute;s. Guardian, Independent s&atilde;o excelentes, de centro-esquerda, n&atilde;o de esquerda, mas muito bons. O Le Monde acabou, hoje &eacute; um jornal claramente comprometido. J&aacute; foi importante, at&eacute; pela tentativa de criar ali uma cooperativa de jornalistas, de passar por cima e eliminar a figura do patr&atilde;o. Infelizmente, e isso &eacute; cada vez mais claro, qualquer empreendimento editorial tem de ser encarado como neg&oacute;cio. Precisa ter retorno, sen&atilde;o voc&ecirc; fecha.<\/p>\n<p><strong>Esse seu posicionamento em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; elite branca gera algum problema comercial, de capta&ccedil;&atilde;o de publicidade para sua revista?<\/strong><br \/>Gera. Tem muito publicit&aacute;rio que se submete &agrave; manipula&ccedil;&atilde;o da Globo, da Veja, que repete as frases feitas da moda. &Eacute; uma categoria muito alcan&ccedil;ada por esse tipo de estrat&eacute;gia da minoria branca. Ela pr&oacute;pria pertence &agrave; minoria branca. Ali tem um monte de gente que descobriu o vinho faz alguns meses e toma vinho nos restaurantes, e o ficam girando no copo e olhando e tal, e tem gravatas amarelas dessa largura, que s&atilde;o um s&iacute;mbolo dessa gente que est&aacute; por dentro.<\/p>\n<p><strong>Voc&ecirc; n&atilde;o tem gravata amarela?<\/strong><br \/>Em princ&iacute;pio, n&atilde;o tenho nada contra, depende de como voc&ecirc; a usa. Num tom n&atilde;o muito agressivo, usada com um palet&oacute; de tweed irland&ecirc;s, por exemplo, eu diria at&eacute; uma gravata de l&atilde;, &eacute; aceit&aacute;vel. Mas eles usam com terno azul marinho! (risos)<\/p>\n<p><strong>O que o anima? Cozinhar?<\/strong><br \/>Sim, claro, cozinhar, comer.<\/p>\n<p><strong>Voc&ecirc; come aqui no seu vizinho, o Massimo?<\/strong><br \/>Nas noite de quinta, mas vai mal o Massimo. Houve uma briga entre os dois irm&atilde;os. Morreu a m&atilde;e, que era o tecido conectivo, e desandou. O Massimo propriamente dito j&aacute; saiu, est&aacute; a&iacute; o irm&atilde;o. Mas n&atilde;o est&aacute; indo bem.<\/p>\n<p><strong>Onde se come bem em S&atilde;o Paulo?<\/strong><br \/>Dizem que &eacute; uma capital gastron&ocirc;mica do mundo&#8230; Mas come-se muito mal. &Eacute; poss&iacute;vel que aqui se possa comer comida japonesa muito bem &ndash; acho uma comida muito bonita, bem apresentada, uma arte, mas a comida em si, confesso, n&atilde;o me diz nada. Comida &aacute;rabe eu acho muito saborosa, eu acho um quibe cru &oacute;timo, uma abobrinha recheada &oacute;tima, &eacute; uma comida agrad&aacute;vel, mas acredito que aqui a comida &aacute;rabe no sentido completo da palavra n&atilde;o existe, porque sei de &aacute;rabes que comem de uma forma bem mais criativa e com um card&aacute;pio muito mais amplo. A comida italiana em S&atilde;o Paulo &eacute; uma piada, d&aacute; para rolar de dar risada. A francesa tamb&eacute;m. Eu gosto de comer no Rufino porque tem um peixe muito fresco que eles fazem no vapor, temperam com azeite lim&atilde;o e sal, e est&aacute; perfeito. Tem um restaurante engra&ccedil;ado, o La Frontera, do lado leste do cemit&eacute;rio da Consola&ccedil;&atilde;o. De l&aacute;, eu olho para o canto onde est&aacute; o Cl&aacute;udio Abramo e isso facilita a minha digest&atilde;o. &Eacute; um restaurante engra&ccedil;ado, espirituoso, ambiente legal.<\/p>\n<p><strong>Voc&ecirc; deu uma boa receita de bacalhau no blog.<\/strong><br \/>Aquele bacalhau &eacute; um bacalhau &agrave; siciliana, n&atilde;o &eacute; &uacute;nico. Eu entendo que h&aacute; tr&ecirc;s pratos de bacalhau que s&atilde;o imbat&iacute;veis. &Agrave; portuguesa cl&aacute;ssico, com legumes cozidos na &aacute;gua com bastante azeite, e o pr&oacute;prio bacalhau cozido na &aacute;gua com azeite, no fogo lento, por oito minutos mais ou menos, com dentes de alho que depois voc&ecirc; retira, ovo duro, azeitona preta. Voc&ecirc; sente o bacalhau, n&atilde;o &eacute; encoberto por molho ou coisa assim. Depois tem o bacalhau &agrave; espanhola, aquele em camadas: batatas, cebolas, piment&atilde;o, tomate, bacalhau. &Eacute; excelente. E o outro &eacute; esse &agrave; siciliana, que fa&ccedil;o com molho de tomate.<\/p>\n<p><strong>Voc&ecirc; vai ao cinema, teatro?<\/strong><br \/>Ao cinema eu n&atilde;o vou muit&iacute;ssimo, mas vou. Infelizmente, S&atilde;o Paulo n&atilde;o recebe todos os filmes que eu gostaria de ver, mas recebe alguns, como esse filme dos irm&atilde;os Cohen (Onde os Fracos N&atilde;o T&ecirc;m Vez), extraordin&aacute;rio. Gostei desse Oscar. O Sangue Negro, eu gostei menos, est&aacute; clara a met&aacute;fora do capitalismo e eu acho que essa id&eacute;ia est&aacute; perfeita, mas a realiza&ccedil;&atilde;o e a interpreta&ccedil;&atilde;o do ator, que &eacute; endeusado, esse Daniel Day-Lewis, eu n&atilde;o gostei. E a culpa nem &eacute; dele, &eacute; do roteiro, voc&ecirc; n&atilde;o entende direito o que &eacute; aquele cara. A&iacute; voc&ecirc; diz &ldquo;&eacute; um louco&rdquo;, e no que um louco representa o capitalismo? O capitalismo &eacute; outra coisa, tem de ser um cara muito esperto, muito ego&iacute;sta, muito violento.<\/p>\n<p><strong>Voc&ecirc; viu Jogos do Poder, em que Tom Hanks faz o papel de um deputado republicano que abasteceu a guerra do Afeganist&atilde;o?<\/strong><br \/>Um grande filme com o Tom Hanks &eacute; o Forrest Gump, que &eacute; uma met&aacute;fora dos Estados Unidos muito boa. (Sobre os Estados Unidos na guerra) assisti no &uacute;ltimo fim de semana em CVD, CDV&#8230;<\/p>\n<p><strong>DVD!<\/strong><br \/>(Risos) V&ecirc; como eu sou tecnol&oacute;gico? Ali&aacute;s, algu&eacute;m tem de colocar o disco para mim, porque at&eacute; agora eu n&atilde;o entendi como vai&#8230; Assisti ao No Vale das Sombras, com uma interpreta&ccedil;&atilde;o magistral de um ator chamado Tommy Lee Jones, que est&aacute; no filme dos irm&atilde;os Cohen. &Eacute; hist&oacute;ria de um marine cujo filho &eacute; chamado para a guerra no Iraque. &Eacute; um bom filme, um pouco lento para o meu gosto tamb&eacute;m, mas a figura &eacute; perfeita, ao contr&aacute;rio do Sangue Negro, que n&atilde;o me entusiasmou. Gostei muito dos dois filmes do Clint Eastwood. Mas os dois s&atilde;o um pouco compridos. No que descreve o lado japon&ecirc;s (Cartas de Iwo Jima), &agrave; certa altura eu come&ccedil;o a sentir os gl&uacute;teos em estado de letargia. A&iacute; &eacute; ruim. O do lado americano (A Conquista da Honra) eu achei mais f&aacute;cil de ver, e o outro, mais bonito. Mas o mais bonito nem sempre &eacute; o que voc&ecirc; prefere, porque acontece que os gl&uacute;teos se manifestam.<\/p>\n<p><strong>Falando em gl&uacute;teos que se manifestam, voc&ecirc; pensa em se aposentar?<\/strong><br \/>N&atilde;o, n&atilde;o tenho idade.<\/p>\n<p><strong>Depois de Quatro Rodas, Jornal da Tarde, Veja, Isto&Eacute;, Jornal da Rep&uacute;blica, Carta Capital, qual &eacute; a pr&oacute;xima cartada?<\/strong><br \/>N&atilde;o, n&atilde;o tem pr&oacute;xima. Eu estou pensando em escrever um livro, o terceiro, que seria &ldquo;O Brasil&rdquo;, falando do Brasil, o que &eacute; o Brasil para mim. Mas n&atilde;o escrevi nada ainda.<\/p>\n<p><strong>Quem vai passar para o computador?<\/strong><br \/>A Mara.<\/p>\n<p><strong>A Mara &eacute; sua escrava?<\/strong><br \/>&Eacute; uma das.<\/p>\n<p><strong>E quem conserta a m&aacute;quina?<\/strong><br \/>A Mara chama o t&eacute;cnico. &Agrave;s vezes encavala a fita.<\/p>\n<p><strong>Ainda se faz fita para m&aacute;quina de escrever?<\/strong><br \/>Faz, acho que est&atilde;o pensando em mim. &Eacute; uma regalia. Eu tenho uma Olivetti Lettera 32 em casa e esta (Linea 88) aqui no escrit&oacute;rio. N&atilde;o me largam.<\/p>\n<p><strong>N&oacute;s ainda pegamos essa fase da m&aacute;quina de escrever, pegamos a transi&ccedil;&atilde;o.<\/strong><br \/>Voc&ecirc; &eacute; muito novo.<\/p>\n<p><strong>Tenho 43.<\/strong><br \/>&Eacute; surpreendente. O meu filho (Gianni) tem 44.<\/p>\n<p><strong>Voc&ecirc; tem mais filhos.<\/strong><br \/>Tenho tamb&eacute;m uma filha (Manuela) e um enteado. Casei duas vezes. O primeiro casamento foi um epis&oacute;dio discut&iacute;vel, mas produziu dois filhos, e tem uma grande liga&ccedil;&atilde;o entre n&oacute;s. Depois tive um segundo casamento, muito bem-sucedido, muito feliz. Foram 29 anos de vida em comum. Infelizmente ela (Ang&eacute;lica) morreu, faz 11 anos, de c&acirc;ncer. Foi um baque. Era um casamento muito bom, mesmo. Eu tive, de certa forma, essa sorte e tamb&eacute;m padeci dessa desgra&ccedil;a. A sorte confrontada com esse momento &eacute; um golpe. At&eacute; hoje tomo todo dia rem&eacute;dio para estabilizar os humores. Eu sempre tive uma sa&uacute;de de ferro. Nunca tinha tomado nem rem&eacute;dio para dormir, e durmo pouqu&iacute;ssimo. A&iacute; eu comecei a querer me atirar pela janela. Faz 11 anos que eu tomo esse rem&eacute;dio.<\/p>\n<p><strong>Voc&ecirc; chegou a parar de trabalhar?<\/strong><br \/>Ela, durante anos, sempre venceu as paradas muito bem. Voc&ecirc; olhava para ela e dizia &ldquo;ela est&aacute; &oacute;tima, n&atilde;o tem doen&ccedil;a alguma&rdquo;. Mas a partir de setembro de 1996 a coisa come&ccedil;ou a ficar muito feia e eu me dediquei muito a ela (muito emocionado). Ela foi a melhor pessoa que eu conheci na vida. Al&eacute;m de ser a mulher que me despertava, era certamente a pessoa mais importante.<\/p>\n<p><strong>Seus filhos s&atilde;o casados?<\/strong><br \/>Minha filha &eacute; divorciada, meu filho &eacute; muito bem casado, mas ele &eacute; um rapaz esperto, casou-se com 36 anos. Os dois s&atilde;o jornalistas. O meu enteado &eacute; casado e o filho dele do primeiro casamento, que est&aacute; completando 16 anos, vive comigo. Era muito ligado &agrave; av&oacute;. A casa dele, para ele, &eacute; a nossa casa. Meu filho mora fora do Brasil desde os 15 anos. A minha filha &eacute; publisher disso aqui, &eacute; a &uacute;nica da fam&iacute;lia que lida com dinheiro. Eu me mantenho o mais poss&iacute;vel longe, porque posso causar estragos absolutamente inimagin&aacute;veis.<\/p>\n<p><strong>Onde voc&ecirc; economiza?<\/strong><br \/>Economizo na id&eacute;ia de que &eacute; melhor voc&ecirc; ter uma equipe pequena e bem paga &ndash; isso &eacute; muito claro para mim desde que sa&iacute; da Veja, porque a partir da&iacute; tive de inventar outros empregos. Isso, al&eacute;m de tudo, cria uma afina&ccedil;&atilde;o entre as pessoas, um entendimento, uma harmonia e um ambiente muito produtivo.<\/p>\n<p><strong>Voc&ecirc; poderia posar para umas fotos?<\/strong><br \/>Mas como? Eu sou um velho rid&iacute;culo&#8230; Onde voc&ecirc; quer?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para diretor da Carta Capital, m\u00eddia est\u00e1 unida pelos interesses da elite.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[43],"tags":[739,749],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/21092"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=21092"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/21092\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=21092"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=21092"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=21092"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}