{"id":21077,"date":"2008-04-29T12:25:34","date_gmt":"2008-04-29T12:25:34","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=21077"},"modified":"2008-04-29T12:25:34","modified_gmt":"2008-04-29T12:25:34","slug":"o-fuso-horario-e-os-mapas-dos-novos-tempos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=21077","title":{"rendered":"O fuso hor\u00e1rio e os mapas dos novos tempos"},"content":{"rendered":"<p>Engana-se quem pensa que os mapas apontam o lugar das coisas no espa&ccedil;o. A muralha da China passa exatamente por aqui, diz a professora, confiante em sua certeza de pedras. Aquela plataforma de petr&oacute;leo se situa na latitude tal com a longitude tal, no meio do mar. A fronteira do Brasil com o Paraguai passa bem ali, no meio do rio, no meio das instala&ccedil;&otilde;es de Itaipu. No computador, o GoogleMaps revela a posi&ccedil;&atilde;o exata da casa da sogra de qualquer um. L&aacute;, acol&aacute;, do lado de l&aacute;. Quase sempre, pensamos em mapas como uma disposi&ccedil;&atilde;o das dimens&otilde;es do espa&ccedil;o, ou, mais exatamente, de um espa&ccedil;o meramente bidimensional, plano, ainda que acidentado.<\/p>\n<p>A verdade, a despeito das apar&ecirc;ncias, &eacute; que os mapas nos situam no tempo. Eles s&atilde;o bichos vivos quando observados na dimens&atilde;o do tempo. As linhas mudam de lugar e os lugares mudam de cor. Pa&iacute;ses se estreitam, outros engordam, sem falar nas fronteiras que se esfuma&ccedil;am e somem. H&aacute; ainda as unidades que se subdividem, como numa meiose geogr&aacute;fica, dando cria a novas unidadezinhas. <\/p>\n<p>Mapas, na linha do tempo, comportam-se como um filme, como um desenho animado sem roteiro certo. Atlas hist&oacute;ricos deveriam ser vendidos como desenhos animados. Na tela do tempo, os mapas m&oacute;veis mostram a aus&ecirc;ncia de raz&atilde;o e de prop&oacute;sito, mostram a desvincula&ccedil;&atilde;o entre causas e efeitos na trama da aventura humana sobre a face da Terra. Mapas s&atilde;o tolos quando congelados &ndash; e destrambelhados quando vistos em movimento. H&aacute; mais previsibilidade nos abalos s&iacute;smicos das placas tect&ocirc;nicas do que nas nuances din&acirc;micas da geografia pol&iacute;tica. O que n&atilde;o faz a m&iacute;nima diferen&ccedil;a.<\/p>\n<p><strong>Fuso com fuso<\/p>\n<p><\/strong>N&atilde;o &eacute; preciso recuar ou avan&ccedil;ar nos s&eacute;culos para experimentar a natureza temporal dos mapas. A cada instante, a cada fra&ccedil;&atilde;o de segundo, os mapas nos situam no tempo, mais que no espa&ccedil;o. Pense o leitor, por exemplo, nos fusos hor&aacute;rios. Pense nos mapas de fusos hor&aacute;rios. S&atilde;o eles que estabelecem a que horas a vida de cada um de n&oacute;s acontece. &Eacute; um tanto pacificador imaginar que ainda somos regidos por institutos como o &quot;rel&oacute;gio natural&quot;, o nascer do Sol, a roda das esta&ccedil;&otilde;es do ano, mas, al&eacute;m de pacificador, &eacute; mentira. O tempo &eacute; uma conven&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica &ndash; bem de acordo com o que vem escrito no mapa astral, ou melhor, dos fusos hor&aacute;rios de cada um. E isso &eacute; uma coisa t&atilde;o recente na linha do tempo&#8230;<\/p>\n<p>Os acordos para a unifica&ccedil;&atilde;o dos hor&aacute;rios mundiais com refer&ecirc;ncia ao meridiano de Greenwich foram conclu&iacute;dos em 1912, em Paris. H&aacute; menos de um s&eacute;culo. Foi outro dia. Foi ontem. Mesmo o rel&oacute;gio, embora n&atilde;o seja uma inven&ccedil;&atilde;o assim t&atilde;o nova, ganhou centralidade na cena pol&iacute;tica praticamente &agrave;s v&eacute;speras da Revolu&ccedil;&atilde;o Industrial. A m&aacute;quina de medir tempo de trabalho, indispens&aacute;vel diante das novas rela&ccedil;&otilde;es de produ&ccedil;&atilde;o, vai parar nas portas das f&aacute;bricas, medindo a quantidade de for&ccedil;a extra&iacute;da de cada trabalhador.<\/p>\n<p>Para o ordenamento do Estado, a unifica&ccedil;&atilde;o do hor&aacute;rio se tornou requisito essencial. O rel&oacute;gio assume tamb&eacute;m um posto de destaque no espa&ccedil;o p&uacute;blico. Instala-se nos campan&aacute;rios, centralizando o tempo comum. O centro do poder passa a ditar tamb&eacute;m a medida do tempo. As unifica&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas impuseram a unifica&ccedil;&atilde;o dos hor&aacute;rios &ndash; o tempo virou uma quest&atilde;o de poder, os senhores da pol&iacute;tica se al&ccedil;aram &agrave; condi&ccedil;&atilde;o de senhores do tempo.<\/p>\n<p>Em tempo, bom tempo, lembremos que o tempo nunca foi um dado da natureza, como os vulc&otilde;es, os mares, as frutas no quintal e o mosquito da dengue. Ao contr&aacute;rio, nasceu e vive como inven&ccedil;&atilde;o ling&uuml;&iacute;stica &ndash; embora subsistam l&iacute;nguas que n&atilde;o t&ecirc;m formas verbais no passado e no futuro. O tempo surge na cultura como abstra&ccedil;&atilde;o e, a partir da&iacute;, adquire o estatuto de um v&iacute;nculo de poder. Habitar um pa&iacute;s significa submeter-se a seu hor&aacute;rio legal. N&oacute;s existimos, portanto, em tempos postos por outros. Pertencemos ao tempo do outro.<\/p>\n<p>Isso &eacute; o que nos informam os mapas dos fusos. &Eacute; o que nos ordenam os fusos.<\/p>\n<p><strong>Acre na velocidade da luz<\/p>\n<p><\/strong>Mapas s&atilde;o imagens fixas &ndash; que, no entanto, se movem.<\/p>\n<p>Ali&aacute;s, acabam de mover-se no Brasil. Leio no Estado de S.Paulo e na Folha de sexta-feira (25\/4), num v&ocirc;o de S&atilde;o Paulo para Bras&iacute;lia e depois de Bras&iacute;lia para Jo&atilde;o Pessoa, que o presidente da Rep&uacute;blica sancionou a lei segundo a qual o fuso hor&aacute;rio do Par&aacute; e o fuso hor&aacute;rio do Acre ficam de hoje em diante em outro lugar &ndash; outro lugar no tempo, eu quero dizer. Revogam-se as disposi&ccedil;&otilde;es em contr&aacute;rio. Olho para o estado do Acre, no mapinha que a Folha publicou [ver a imagem]. Acho que os infografistas erraram no caso do Par&aacute;, que continua exatamente igual no mapa do &quot;antes&quot; e no mapa do &quot;depois&quot;. O texto diz que o Par&aacute;, inteirinho, adotar&aacute; um fuso s&oacute; a partir de agora. Mas o mapa contradiz o texto. Tudo bem.<\/p>\n<p>O que mais me comove &eacute; o ef&ecirc;mero estado do Acre. Pobre estado do Acre. O Acre n&atilde;o est&aacute; mais onde costumava estar, quero dizer, no hor&aacute;rio em que costumava existir. &Agrave;quele hor&aacute;rio, o Acre j&aacute; n&atilde;o pertence. O Acre sumiu dali, isto &eacute;, aquele fuso sumiu de cima do estado do Acre. Cad&ecirc; o Acre?<\/p>\n<p>Eis ent&atilde;o que ele reaparece em outro hor&aacute;rio. Por for&ccedil;a da san&ccedil;&atilde;o do presidente da Rep&uacute;blica, o Acre empreendeu uma viagem no tempo. O poder pol&iacute;tico suprimiu-lhe uma hora, aquela famosa hora-a-mais. Sua hora foi-se. Virou p&oacute;. Alguns acreanos talvez se indagem: o que eu poderia ter vivido naquela hora, justamente da hora que n&atilde;o houve? A hora que jamais terei? S&atilde;o perguntas v&atilde;s, quase tolas, posto que aquela ora apenas mudou de lugar, digo, de tempo. No entanto, s&atilde;o interroga&ccedil;&otilde;es mortais. Como o tempo n&atilde;o &eacute; um dado natural, mas ling&uuml;&iacute;stico e pol&iacute;tico, &eacute; apavorante que possam nos arrancar um minuto que seja por decreto. E podem. <\/p>\n<p>Quando a Igreja ajustou o calend&aacute;rio, em 1582, foi bem pior. Suprimiram dez dias inteiros. Quem foi dormir no dia 4 de outubro de 1582 acordou no dia 15 de outubro. Mesmo hoje em dia, quando nos suprimem um minuto que seja, ainda &eacute; inc&ocirc;modo. Est&atilde;o nos suprimindo o ch&atilde;o. Num lapso, passamos a pisar o vazio. Em seguida esse ch&atilde;o temporal ser&aacute; refeito, &eacute; fato, mas por um &aacute;timo ficamos no vazio. Despencando, soltos, n&atilde;o no espa&ccedil;o, mas no tempo. <\/p>\n<p>Olho o mapa da Folha e penso outra vez que a imagem fixa se move. L&aacute; est&aacute; o Acre, que desapareceu de onde estava e ingressou onde n&atilde;o existia. Quero dizer: o Acre agora &eacute; onde antes n&atilde;o estava. Mas est&aacute;. E ainda &eacute;.<\/p>\n<p><strong>O tempo da TV<\/p>\n<p><\/strong>A reportagem de do Estad&atilde;o sobre a incr&iacute;vel viagem no tempo do estado do Acre informa que as raz&otilde;es da mudan&ccedil;a do fuso se devem ao lobby das emissoras de TV: <\/p>\n<p>&quot;<em>A press&atilde;o pela aprova&ccedil;&atilde;o do projeto aumentou, por parte das emissoras de televis&atilde;o, depois que o governo determinou a exibi&ccedil;&atilde;o dos programas em hor&aacute;rios de acordo com a classifica&ccedil;&atilde;o indicativa por faixa et&aacute;ria. Essa decis&atilde;o dificultou o funcionamento das emissoras em rede nacional<\/em> [<a href=\"http:\/\/www.estadao.com.br\/cidades\/not_cid162438,0.htm\">ver &iacute;ntegra aqui<\/a>].&quot;<\/p>\n<p>A explica&ccedil;&atilde;o, ainda absolutamente cr&iacute;vel, &eacute; espantosa. Tanto mais espantosa por ser cr&iacute;vel. Com dificuldades operacionais para se adequar aos fusos hor&aacute;rios de cada lugar e, assim, cumprir o que estabelece a classifica&ccedil;&atilde;o indicativa do minist&eacute;rio da Justi&ccedil;a, as emissoras encontraram um jeito de eliminar a causa do problema. O tempo do Acre passa a ser id&ecirc;ntico ao tempo do Amazonas e a opera&ccedil;&atilde;o de transmiss&atilde;o em rede ser&aacute; mais f&aacute;cil. Em vez de se adaptar ao rel&oacute;gio do telespectador do Acre, as redes de TV, que funcionam em rede nacional durante quase todo o dia, adaptaram o telespectador do Acre ao seu rel&oacute;gio. <\/p>\n<p>Rel&oacute;gio? Falei em rel&oacute;gio? N&atilde;o deveria ter usado essa palavra. O termo rel&oacute;gio &eacute; um tanto anacr&ocirc;nico. Falar em rel&oacute;gio agora &eacute; como falar em vitrola, em casco de cerveja, em creme rinse. Na era do espet&aacute;culo, j&aacute; n&atilde;o se trata mais de medir o tempo linear em unidades adequadas para quantificar a for&ccedil;a de trabalho extra&iacute;da do corpo humano. A quest&atilde;o, agora, &eacute; alargar ao m&aacute;ximo os hor&aacute;rios comuns para alargar ao m&aacute;ximo a extens&atilde;o da plat&eacute;ia ligada nas atra&ccedil;&otilde;es ao vivo. A tend&ecirc;ncia j&aacute; n&atilde;o &eacute; a unifica&ccedil;&atilde;o dos espa&ccedil;os nacionais, mas a unifica&ccedil;&atilde;o das audi&ecirc;ncias, a despeito da posi&ccedil;&atilde;o do sol, de ser dia ou de ser noite: todas as plat&eacute;ias, ao vivo, no mesmo espet&aacute;culo.<\/p>\n<p><span>Como o dinheiro, que viaja na velocidade da luz de uma bolsa de valores para outra, as atra&ccedil;&otilde;es da TV tamb&eacute;m voam. Mais ainda: elas s&atilde;o ub&iacute;quas e precisam de escala, mais escala, mais escala. Quando poss&iacute;vel, atropela os fusos hor&aacute;rios, essa coisa t&atilde;o nova, n&atilde;o tem nem cem anos, e t&atilde;o antiquada. <\/span>O nosso pa&iacute;s-continente agora s&oacute; tem dois fusos hor&aacute;rios &ndash; sem contar Fernando de Noronha. Ficou mais confort&aacute;vel para as redes de TV.<\/p>\n<p><strong>Imagem mutante<\/p>\n<p><\/strong>N&atilde;o por acaso, foram princ&iacute;pios an&aacute;logos que definiram as mudan&ccedil;as de hor&aacute;rios nos jogos de futebol. Os atletas come&ccedil;am a jogar &agrave;s dez da noite n&atilde;o porque rendam mais &agrave; medida que os ponteiros se aproximam da meia-noite, mas porque o entretenimento assim imp&ocirc;s. A cada dia mais, o tempo da civiliza&ccedil;&atilde;o se afasta dos ciclos da natureza &ndash; da natureza do corpo humano, inclusive &ndash; para se referenciar no tempo do espet&aacute;culo.<\/p>\n<p>Voltando ao Acre, as emissoras de televis&atilde;o, a rigor, j&aacute; ignoravam o fuso que vigorava por ali. Transmitiam a programa&ccedil;&atilde;o para os lares acreanos como se eles seguissem o mesmo hor&aacute;rio de Bras&iacute;lia &ndash; e um pouco seguiam, j&aacute; que a programa&ccedil;&atilde;o da TV faz as vezes do rel&oacute;gio da nova era. De repente, quando algu&eacute;m, timidamente, levantou a m&atilde;o para dizer que o rel&oacute;gio da floresta era outro, o tempo da televis&atilde;o respondeu sem hesitar: pior para o rel&oacute;gio da floresta; ele que se ajuste ao nosso.<\/p>\n<p>N&atilde;o que nada disso seja ruim. Tampouco &eacute; bom. Isso &eacute; apenas o que &eacute;. N&atilde;o h&aacute; muito o que fazer. Escapo o olhar para a vidra&ccedil;a do escrit&oacute;rio e vejo que o sol se p&otilde;e para l&aacute; do rio Pinheiros. Est&aacute; uma luz bonita l&aacute; fora. E tamb&eacute;m muito brega. A natureza &eacute; brega. Volto os olhos para a tela do computador. Daqui a pouco vou ligar a TV. O meu tempo, senhores, &eacute; o vosso. A vossa imagem, mutante, &eacute; meu espelho.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Engana-se quem pensa que os mapas apontam o lugar das coisas no espa&ccedil;o. 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