{"id":21065,"date":"2008-04-25T15:59:05","date_gmt":"2008-04-25T15:59:05","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=21065"},"modified":"2014-09-07T02:55:31","modified_gmt":"2014-09-07T02:55:31","slug":"a-lei-roaunet-e-a-producao-cultural","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=21065","title":{"rendered":"A Lei Roaunet e a produ\u00e7\u00e3o cultural"},"content":{"rendered":"<p style=\"margin: 0cm 0cm 0pt\" class=\"MsoNormal\"><span>Em entrevista ao <a href=\"http:\/\/localhost\/intervozes_direitoacomunicacao\/wordpress\/?p=21692\"><strong><em>Cultura e Mercado<\/em><\/strong><\/a>, o diretor do grupo de teatro Folias, Marco Antonio Rodrigues, avan&ccedil;a na discuss&atilde;o sobre a lei de incentivo &agrave; cultura e adverte: &ldquo;Quem vai faturar em breve essa bolada toda de R$ 1 bi s&atilde;o as produ&ccedil;&otilde;es internacionais&rdquo;.<\/p>\n<p>*<\/p>\n<p><\/span><span><strong>Fale um pouco de seu grupo, o Folias&#8230;<br \/><\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"margin: 0cm 0cm 0pt\" class=\"MsoNormal\">Marco Ant&oacute;nio Rodrigues &ndash; O grupo fez 10 anos em 2007, &eacute; resultado do trabalho de algumas pessoas que trabalhavam eventualmente juntas, eu, o Dagoberto Feliz e Reinaldo Maia. Em 1997 ganhamos um pr&ecirc;mio de est&iacute;mulo do governo do estado pra montar um espet&aacute;culo chamado &ldquo;Folias Felinianas&rdquo;. Eu sempre fui muito avesso a esse neg&oacute;cio de grupo, porque sempre implica em uma promiscuidade familiar, tem um lado muito perverso, mas naquele momento a gente topou. A partir da&iacute;, constitu&iacute;mos o grupo Folias. Nosso espa&ccedil;o atual, chamado Galp&atilde;o do Folias, era uma igreja abandonada, fica pr&oacute;ximo ao metr&ocirc; Santa Cec&iacute;lia. Estamos l&aacute; desde 2000. O Folias &eacute; um grupo que desde o in&iacute;cio se constituiu como um coletivo de artistas, que pensa a arte como um fator de cidadania e interfer&ecirc;ncia na vida do pa&iacute;s. Eu sou um dos diretores art&iacute;sticos e um dos fundadores do grupo, trabalho ainda em v&aacute;rios lugares sou professor do Teatro-escola C&eacute;lia Helena, e funcion&aacute;rio da Funarte, desde 1987, como profissional de artes c&ecirc;nicas.&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Qual sua opini&atilde;o sobre a atua&ccedil;&atilde;o do Celso Frateschi &agrave; frente da Funarte?<br \/><\/strong>MAR &ndash; Sou amigo do Frateschi, &eacute; um cara que respeito muito, que tem uma trajet&oacute;ria digna, foi secret&aacute;rio de Cultura de Santo Andr&eacute;, na mesma &eacute;poca que eu fui secret&aacute;rio de Cultura de Santos. Dialog&aacute;vamos bastante naquela &eacute;poca. Ali&aacute;s, sua gest&atilde;o foi estruturante pra regi&atilde;o. De modo geral, sua atua&ccedil;&atilde;o come&ccedil;ou a instalar e discutir um modelo de arte que o Brasil nunca teve em 500 anos, que v&ecirc; a arte como uma identidade aut&ocirc;noma, e n&atilde;o como agregada a algo. Diferente de outros povos, o teatro aqui &eacute; resultante de uma interven&ccedil;&atilde;o can&ocirc;nica, uma interven&ccedil;&atilde;o basicamente jesu&iacute;tica, ou seja, doutrinadora, moralista determinante de alguma coisa. Acho que pensar nessa autonomia &eacute; fundamental em toda essa discuss&atilde;o sobre a Lei Rouanet. Coisa que eu n&atilde;o vejo acontecer. Discute-se a quest&atilde;o do mercado, da grana, do neg&oacute;cio, mas, a quest&atilde;o da autonomia da arte, n&atilde;o vejo no debate.<\/p>\n<p><strong>Os espet&aacute;culos do grupo Folias utilizam Lei Roaunet? <br \/><\/strong>MAR &ndash; Durante os dez anos do grupo sempre tivemos certificados da Lei Rouanet, e nunca conseguimos nenhum tost&atilde;o.<\/p>\n<p><strong>Como voc&ecirc; interpreta isso? Seria um jogo de cartas marcadas?<br \/><\/strong>MAR &ndash; N&atilde;o acho que seja o caso de cartas marcadas, apesar dos principais favorecidos serem sempre o Ita&uacute; Cultural e a Funda&ccedil;&atilde;o Roberto Marinho. Creio que o problema est&aacute; na estrutura pr&eacute;-iluminista. A quest&atilde;o do mecenato no mundo nasce como? Primeiro, atrav&eacute;s da religi&atilde;o, depois quando a religi&atilde;o deixa de ser estado isso se transfere pro sangue azul que &eacute; a nobreza, que &eacute; quem financia de fato o artista, depois entra numa zona de autonomia quando come&ccedil;a a surgir o capitalismo. E quando o estado passa a ser Republicano ele assume por heran&ccedil;a esse papel do mecenato. <\/p>\n<p><strong>&Eacute; esse o papel iluminista?<br \/><\/strong>MAR &ndash; Sim, &eacute; na verdade o que estamos discutindo. Est&aacute; a&iacute; o atraso. Eu conhe&ccedil;o v&aacute;rios mecanismos no mundo, por exemplo, a lei inglesa, a lei russa a legisla&ccedil;&atilde;o portuguesa, conhe&ccedil;o v&aacute;rias legisla&ccedil;&otilde;es. Mas n&atilde;o conhe&ccedil;o nenhuma, em nenhum pa&iacute;s, que ap&oacute;ie 90% do fomento &agrave;s artes p&uacute;blicas ou &agrave; cultura baseado numa lei de incentivo, isso &eacute; &uacute;nico no mundo, como &eacute; &uacute;nico no mundo o monop&oacute;lio privado de m&iacute;dia eletr&ocirc;nica. <\/p>\n<p><strong>O jornal O Estado de S. Paulo destacou recentemente alguns pontos da Lei Rouanet&#8230; <br \/><\/strong>MAR &ndash; Sim, ali&aacute;s, s&atilde;o dados que servem pra orientar qualquer discuss&atilde;o. Primeiro, questionam quem s&atilde;o os grandes incentivadores, ou seja, Petrobr&aacute;s, Banco do Brasil e Vale do Rio Doce. Em segundo, quem s&atilde;o os grandes captadores, Funda&ccedil;&atilde;o Ita&uacute; Cultural, Funda&ccedil;&atilde;o Roberto Marinho e por a&iacute; vai. S&atilde;o dados importantes pra gente discutir, a quest&atilde;o n&atilde;o &eacute; de quem sou a favor ou de quem sou contra. A quest&atilde;o &eacute; o que queremos do pa&iacute;s. Esses dados s&atilde;o concretos e se repetem durante os 17 anos da exist&ecirc;ncia do incentivo, obra do Collor, essa &eacute; nossa heran&ccedil;a, que atravessou o governo Fernando Henrique e est&aacute; atravessando o governo Lula.<\/p>\n<p><strong>Seria um resultante moralista da Lei Sarney?<br \/><\/strong>MAR &#8211; Claro, a Lei Sarney foi criada quando o Celso Furtado era ministro da cultura, no governo Sarney, e me parece que a id&eacute;ia do Celso na verdade n&atilde;o era fazer com que a empresa privada de fato patrocinasse a cultura, at&eacute; porque o Celso, economista, sabia que h&aacute; por aqui uma alta dose de burguesia, que o capital sempre foi mais remunerado que o trabalho. Ent&atilde;o, o que ele estava tentando na verdade era sensibilizar o pr&oacute;prio estado pra quest&atilde;o da cultura. Ele estava querendo um or&ccedil;amento de fomento direto. Parece que essa seria a estrat&eacute;gia. <\/p>\n<p><strong>E o que houve com esse projeto desenhado por Celso Furtado?<br \/><\/strong>MAR &ndash; Quando o Collor entra em 90, com todo aquele moralismo globalizante &eacute; que come&ccedil;a todo o processo de globaliza&ccedil;&atilde;o que vai dar na discuss&atilde;o atual da Lei Rouanet. Quando ele inicia seu governo, est&aacute; todo mundo se beneficiando de uma forma indevida. No in&iacute;cio da Lei Sarney, a id&eacute;ia era que voc&ecirc; pudesse chegar na padaria, por exemplo, e com aquele pouco de imposto que o propriet&aacute;rio pagasse, pudesse transferir pra voc&ecirc; de alguma forma. A inten&ccedil;&atilde;o era chegar numa coisa mais capilar. <\/p>\n<p><strong>&Eacute; bem diferente do cen&aacute;rio atual&#8230; <br \/><\/strong>MAR &ndash; O que a gente tem hoje em dia &eacute; o exato contr&aacute;rio, a lei &eacute; absolutamente excludente desde o seu princ&iacute;pio. Quem &eacute; que pode abater imposto de renda? Quem pode se beneficiar do incentivo? S&oacute; quem paga imposto pelo lucro real. Est&aacute; eliminado disso o lucro presumido, o lucro arbitrado e qualquer opera&ccedil;&atilde;o de capital. Portanto, se voc&ecirc; vende um terreno, uma f&aacute;brica e quiser aplicar na lei sua parte do imposto de renda devida n&atilde;o pode, s&oacute; pode o lucro real. Quem paga o lucro real? As grandes corpora&ccedil;&otilde;es. Quem tem acesso a elas? <\/p>\n<p><strong>Alguns grupos conseguem&#8230; <br \/><\/strong>MAR &#8211; Eu montei uma pe&ccedil;a chamada &ldquo;O Assassinato do An&atilde;o do Caralho Grande&rdquo;, do dramaturgo Pl&iacute;nio Marcos, por convite da Secretaria de Estado da Cultura de S&atilde;o Paulo. Qual empres&aacute;rio patrocinaria essa pe&ccedil;a, ainda mais com 38 atores em cena?&nbsp;<\/p>\n<p><strong>E qual a sua opini&atilde;o sobre essa gritaria em torno da Lei Roaunet? <br \/><\/strong>MAR &ndash; A grande gritaria hoje &eacute; porque, de repente, pro empres&aacute;rio nacional ficou dif&iacute;cil competir com o empres&aacute;rio internacional. Quem vai faturar essa bolada toda de R$ 1 bi daqui h&aacute; muito pouco tempo s&atilde;o as grandes produ&ccedil;&otilde;es internacionais, porque S&atilde;o Paulo, Rio de Janeiro, enfim, o Brasil &eacute; um mercado interessante. <\/p>\n<p><strong>Pode falar um pouco mais sobre isso? <br \/><\/strong>MAR &ndash; Trata-se de um mercado de 200 milh&otilde;es de habitantes, se tiver 20% com uma boa capacidade de compra j&aacute; s&atilde;o 40 milh&otilde;es de pessoas, &eacute; quase a popula&ccedil;&atilde;o da Fran&ccedil;a. Interessa a qualquer grande evento, como o Cirque de Soleil. E s&atilde;o trazidos pelas empresas daqui, com o dinheiro da Lei Rouanet, como os grandes espet&aacute;culos da Broadway que s&atilde;o tamb&eacute;m produzidos aqui com dinheiro da lei de incentivo.<\/p>\n<p><strong>Essas grandes produtoras dizem que geram emprego&#8230;<br \/><\/strong>MAR &ndash; &Eacute; uma piada, ningu&eacute;m vive de teatro. O que acontece &eacute; que o capital nacional hoje j&aacute; come&ccedil;ou a dan&ccedil;ar na m&atilde;o do capital internacional, e a tend&ecirc;ncia &eacute; continuar assim. Esta lei do jeito que est&aacute; n&atilde;o significa dar tiro no pr&oacute;prio p&eacute;, &eacute; um suic&iacute;dio. Ela n&atilde;o favorece ningu&eacute;m. &Eacute; uma grande bobagem. &Eacute; como algu&eacute;m que vai pescar apenas pra almo&ccedil;ar. N&atilde;o est&aacute; pensando como vai ser daqui um m&ecirc;s, um ano, quanto mais em dez anos, ele est&aacute; pensando no almo&ccedil;o. Se por enquanto consegue pegar um dinheirinho pra montar uma pe&ccedil;a, um show, est&aacute; tudo certo, mas logo nem isso vai conseguir fazer.<\/p>\n<p><strong>Que sa&iacute;da voc&ecirc; v&ecirc;?<br \/><\/strong>MAR &ndash; Por causa dessas excresc&ecirc;ncias, as pessoas come&ccedil;am a ir pro Senado defender, por exemplo, essa Secretaria Nacional de Teatro que &eacute; outro equ&iacute;voco. De que vai adiantar uma secretaria como a Secretaria do Audiovisual? Ali&aacute;s, outra brincadeira. Quantos longas s&atilde;o produzidos por ano no Brasil? Qual a circula&ccedil;&atilde;o dessa produ&ccedil;&atilde;o? Qual a distribui&ccedil;&atilde;o? Praticamente nenhuma. Somente s&atilde;o produzidos porque a primeira imagem que aparece na tela &eacute; a do selo da Lei do Audiovisual, patrocinado por Petrobr&aacute;s, Eletrobr&aacute;s, Banco do Brasil. Cad&ecirc; as empresas nacionais? Esta situa&ccedil;&atilde;o se ap&oacute;ia numa fragilidade do governo Lula. Como pode um diretor de marketing mandar mais que o presidente da Rep&uacute;blica na quest&atilde;o cultural? Mas manda.<\/p>\n<p><strong>Voc&ecirc; acredita no aprimoramento da lei?<br \/><\/strong>MAR &ndash; Devido a tanta posi&ccedil;&atilde;o antag&ocirc;nica, eu creio que precisamos encontrar um ponto comum, mas esse ponto tem que partir de um fundo p&uacute;blico. O fundo n&atilde;o &eacute; s&oacute; para grupos de teatro, como a imprensa e a m&iacute;dia gosta de falar, que estamos defendendo um lado contra outro. Mas tem que ser algo que fomente um desenvolvimento de relev&acirc;ncia cultural, que possua um julgamento de m&eacute;rito, coisa que a Lei Roaunet n&atilde;o tem, por isso entra qualquer coisa. E precisa ampliar e facilitar o acesso. Todo mundo se arrepia quando se fala em contrapartida social, mas deixa passar ingressos a duzentos reais. &Eacute; a mentalidade &ldquo;casa-grande e senzala&rdquo;. Minha sugest&atilde;o &eacute; colocar um ped&aacute;gio na Lei Roaunet. <\/p>\n<p><strong>O teatro precisa da Lei Rouanet?<br \/><\/strong>MAR &ndash; O teatro enquanto arte precisa de um fundo p&uacute;blico, eu pessoalmente defendo que a lei seja transformada nesse fundo p&uacute;blico, com a participa&ccedil;&atilde;o da sociedade e com a possibilidade de atender a todas as produ&ccedil;&otilde;es. Agora o teatro comercial n&atilde;o precisa de incentivo. <\/p>\n<p><strong>Voc&ecirc; acredita que uma Secretaria Nacional de Teatro n&atilde;o &eacute; mesmo necess&aacute;ria?<br \/><\/strong>MAR &ndash; porque, no lugar de novas secretarias burocr&aacute;ticas n&atilde;o propomos programas espec&iacute;ficos para cada segmento cultural? Que capacidade que a Secretaria do Audiovisual teve pra resolver os problemas do cinema? Nenhuma. Vamos fortalecer as estruturas que j&aacute; temos. &Eacute; uma bobagem atrasada do ponto de vista da arte, porque as fronteiras entre elas s&atilde;o cada vez mais t&ecirc;nues. O que precisamos &eacute; de um &oacute;rg&atilde;o que trabalhe pelas artes, e isso n&oacute;s j&aacute; temos, que &eacute; a Funarte.<\/p>\n<p>*Colaborou Paula Nogueira<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8216;A lei \u00e9 excludente desde o seu princ\u00edpio&#8217;, diz diretor de teatro<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[43],"tags":[743,742],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/21065"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=21065"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/21065\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":27837,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/21065\/revisions\/27837"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=21065"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=21065"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=21065"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}