{"id":21064,"date":"2008-04-25T15:20:20","date_gmt":"2008-04-25T15:20:20","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=21064"},"modified":"2008-04-25T15:20:20","modified_gmt":"2008-04-25T15:20:20","slug":"multidoes-integradas-ao-espetaculo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=21064","title":{"rendered":"Multid\u00f5es integradas ao espet\u00e1culo"},"content":{"rendered":"<p>H&aacute; 14 anos, em artigo para a revista Imagens, ent&atilde;o publicada pela Unicamp, usei pela primeira vez a express&atilde;o &quot;fator Leo Minosa&quot;. Recorri a ela para designar um efeito espec&iacute;fico que as coberturas sensacionalistas podem causar na audi&ecirc;ncia: o de promover a aglomera&ccedil;&atilde;o de multid&otilde;es nos locais onde um crime ou uma trag&eacute;dia aconteceram &ndash; ou onde um assassinato &eacute; apurado, debatido ou julgado. Agora, nesta semana, &quot;folheando&quot; a internet, encontrei outra vez essa mesma express&atilde;o, desta vez invocada por outros que n&atilde;o eu, a prop&oacute;sito da intensa mobiliza&ccedil;&atilde;o popular em torno da morte da menina Isabella Nardoni &ndash; fatalidade sobre a qual o leitor j&aacute; est&aacute; mais do que informado.<\/p>\n<p>Surpreendido pelo reaparecimento do fator Leo Minosa, volto eu tamb&eacute;m a ele. N&atilde;o porque haja algo que me caiba falar sobre o assassinato de uma garotinha de 5 anos de idade, mas pelo que o epis&oacute;dio reitera sobre o estatuto das multid&otilde;es, grandes ou pequenas, em sociedades integradas por meios de comunica&ccedil;&atilde;o de massa, eletr&ocirc;nicos ou n&atilde;o. &Eacute; curioso observar como a internet &ndash; que, ao menos em tese, contribuiria para dissolver a antiga categoria da massa em m&uacute;ltiplos agrupamentos menores, cada qual com sua predile&ccedil;&atilde;o &ndash; n&atilde;o revoga as marcas e as leis naturais mais profundas da comunica&ccedil;&atilde;o&#8230; de massa. A despeito de tantas inova&ccedil;&otilde;es, ainda somos, ao menos em parte, uma sociedade regida por velhos padr&otilde;es de comunica&ccedil;&atilde;o &ndash; e o sensacionalismo &eacute; uma afirma&ccedil;&atilde;o enf&aacute;tica dessa verdade inc&ocirc;moda.<\/p>\n<p>Embora as novas possibilidades tecnol&oacute;gicas da internet tenham acentuado a autonomia individual e propiciado o fracionamento do p&uacute;blico numa gama virtualmente infinita de tem&aacute;ticas e focos de interesse, as massas, as velhas massas, &agrave;s vezes voltam a ganhar a cena p&uacute;blica, exatamente como h&aacute; 15, 30, h&aacute; 60 anos. Como para avisar que n&atilde;o morreram. &Eacute; o que o fator Leo Minosa nos mostra.<\/p>\n<p>A condu&ccedil;&atilde;o do circo<\/p>\n<p>Esse nome, Leo Minosa, vem do personagem de um filme cl&aacute;ssico de Billy Wilder, lan&ccedil;ado nos Estados Unidos em 1951, A Montanha dos Sete Abutres (The Big Carnival). O pr&oacute;prio Wilder assina o roteiro, em parceria com Lesser Samuels e Walter Newman. Kirk Douglas interpreta Charles Tatum, um rep&oacute;rter sem escr&uacute;pulos que, j&aacute; em decl&iacute;nio, consegue um posto de rep&oacute;rter num jornalzinho da pequena cidade de Albuquerque, no Novo M&eacute;xico. Mesmo ali, no seu pequeno fim de mundo, ela espera que surja uma grande hist&oacute;ria para projet&aacute;-lo nacionalmente e elev&aacute;-lo ao estrelato da imprensa. Sua chance de ouro aparece quando, num lugarejo ali perto, um jovem fica preso dentro de uma caverna, com as pernas soterradas por um desmoronamento. O jovem passa bem, mas s&oacute; se conseguir&aacute; safar se algu&eacute;m retirar as pedras que pesam sobre suas pernas.<\/p>\n<p>A caverna fica numa montanha considerada sagrada pelos ind&iacute;genas e j&aacute; h&aacute; os que acreditam que o rapaz ficou preso ali porque os esp&iacute;ritos queriam vingar-se dele. Tatum logo reconhece o imenso potencial sensacionalista da situa&ccedil;&atilde;o. Habilidoso, o jornalista consegue retardar o resgate e, em quest&atilde;o de dois dias, a hist&oacute;ria se converte em como&ccedil;&atilde;o continental. <\/p>\n<p>O xerife local come&ccedil;a a ver vantagens na exposi&ccedil;&atilde;o do caso e se alia a Tatum. Rep&oacute;rteres de todos os cantos do pa&iacute;s chegam &agrave; Montanha dos Sete Abutres. Com eles vem a multid&atilde;o sedenta de sensa&ccedil;&otilde;es, pronta para seguir de perto os lances mais emocionantes. Tatum conduz seu circo de modo calculado, submetendo a seus planos o destino do rapaz aprisionado. O nome do rapaz &eacute; Leo Minosa (vivido por Richard Benedict) e o show est&aacute; apenas come&ccedil;ando.<\/p>\n<p>Fazer acontecer<\/p>\n<p>Voltemos ao Brasil dos nossos dias. As imagens de centenas de manifestantes no meio da rua cantando &quot;Parab&eacute;ns a voc&ecirc;&quot; para Isabella no dia em que ela completaria 6 anos, com bolo de anivers&aacute;rio e tudo, trazem de volta, com exatid&atilde;o, a trama de Billy Wilder. N&atilde;o que exista um c&eacute;rebro maquiav&eacute;lico regendo a seq&uuml;&ecirc;ncia das revela&ccedil;&otilde;es. N&atilde;o que exista algu&eacute;m &agrave; beira da morte, como Leo Minosa. Hoje, o que temos &eacute; a l&oacute;gica autom&aacute;tica do espet&aacute;culo conduzindo o reality show a c&eacute;u aberto. N&atilde;o h&aacute; maestro, mas h&aacute;, sim, uma partitura sendo executada. <\/p>\n<p>De sua parte, a multid&atilde;o n&atilde;o foi atra&iacute;da pelo suspense de saber se uma pobre alma soterrada sobreviver&aacute; ou n&atilde;o, mas, movida pela fome aparentemente sagrada de justi&ccedil;a, grita para apressar o desfecho da novela. Ela reivindica o cl&iacute;max a que julga ter direito. O que agoniza em pra&ccedil;a p&uacute;blica n&atilde;o &eacute; mais a v&iacute;tima da viol&ecirc;ncia, mas a reputa&ccedil;&atilde;o dos suspeitos. As massas querem sangue &ndash; f&iacute;sico ou moral, tanto faz. Elas n&atilde;o amam ningu&eacute;m &ndash; n&atilde;o amam Isabella nem amavam Leo Minosa. Elas amam alucinadamente o &ecirc;xtase das trag&eacute;dias.<\/p>\n<p>Ao lado disso, ou acima disso, amam a sensa&ccedil;&atilde;o de ser aceitas no espet&aacute;culo, um amor infantil. Seguram o bolo para Isabella diante das c&acirc;meras com a mesma convic&ccedil;&atilde;o com que abrem um cartaz onde se l&ecirc; &quot;me filma, Galv&atilde;o&quot; num est&aacute;dio de futebol. Num caso, expressam-se com l&aacute;grimas. No outro, &agrave;s gargalhadas. A finalidade &eacute; a mesma. <\/p>\n<p>Charles Tatum sabia disso muito bem: a presen&ccedil;a da plat&eacute;ia eleva a dramaticidade do sensacionalismo, mas &eacute; preciso ter os elementos certos para invoc&aacute;-la e cham&aacute;-la &agrave; cena. As multid&otilde;es, nesse caso, n&atilde;o conduzem a hist&oacute;ria (com H mai&uacute;sculo ou min&uacute;sculo, tanto faz): entram como figurantes nos roteiros autom&aacute;ticos. Figurantes essenciais, mas figurantes.<\/p>\n<p>H&aacute; algo de perturbador na constata&ccedil;&atilde;o, como se ela retirasse dos comuns do povo a condi&ccedil;&atilde;o de tomar a iniciativa, de fazer acontecer ou, como diz o refr&atilde;o, de &quot;fazer a hora&quot;. N&atilde;o obstante, muitas vezes &eacute; disso mesmo que se trata. Onde muitos v&ecirc;em &quot;protagonismo&quot; das massas, h&aacute; somente isto, o fator Leo Minosa.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H&aacute; 14 anos, em artigo para a revista Imagens, ent&atilde;o publicada pela Unicamp, usei pela primeira vez a express&atilde;o &quot;fator Leo Minosa&quot;. 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