{"id":21056,"date":"2008-04-24T16:26:02","date_gmt":"2008-04-24T16:26:02","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=21056"},"modified":"2008-04-24T16:26:02","modified_gmt":"2008-04-24T16:26:02","slug":"a-morte-subita-da-lei-de-imprensa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=21056","title":{"rendered":"A morte s\u00fabita da Lei de Imprensa"},"content":{"rendered":"<p>O Brasil est&aacute; sem Lei de Imprensa. O Supremo, sem esperar pelo Congresso, revogou 20 de seus 27 artigos, entre os quais tr&ecirc;s dos mais importantes &ndash; 20, 21 e 23, que punem crimes de inj&uacute;ria, cal&uacute;nia e difama&ccedil;&atilde;o. Essa foi a principal vit&oacute;ria da poderosa campanha dos donos da m&iacute;dia contra a Lei de Imprensa, apoiados por alguns jornalistas de sua confian&ccedil;a e at&eacute; por entidades que dizem defender a liberdade de imprensa.<\/p>\n<p>A campanha &eacute; t&atilde;o pesada que o senador Expedito Filho (PR-RR) retirou seu projeto de lei que ampliava as penas da Lei de Imprensa para crimes contra a honra praticados pela internet. Sentiu-se intimidado pela acusa&ccedil;&atilde;o de &ldquo;atentar contra&rdquo; a liberdade. Este &eacute; mote da campanha: taxar de &ldquo;atentado contra a liberdade de imprensa&rdquo; qualquer tentativa de enquadrar os abusos da m&iacute;dia. Mesmo abusos contra a honra. &Eacute; a extens&atilde;o das teses neoliberais para a esfera da moral.<\/p>\n<p>Sabemos que uma &uacute;nica manchete acusat&oacute;ria, mesmo falsa, destr&oacute;i a mais s&oacute;lida reputa&ccedil;&atilde;o, de pessoas, de empresas e at&eacute; de marcas. Imaginem isso repetido 10, 20 vezes, um m&ecirc;s inteiro? Chama-se a essa estrat&eacute;gia editorial de &ldquo;jornalismo de campanha&rdquo;. A v&iacute;tima &eacute; esmagada, tenha ou n&atilde;o cometido alguma malfeitoria. &Eacute; condenada sumariamente pelas regras da m&iacute;dia, n&atilde;o pelas regras da Justi&ccedil;a, que pressup&otilde;em a presun&ccedil;&atilde;o da inoc&ecirc;ncia, a prova da verdade, o contradit&oacute;rio e o direito de defesa. Assim foram as campanhas midi&aacute;ticas do Estad&atilde;o contra o Bolsa Fam&iacute;lia, da Veja contra Z&eacute; Dirceu, da Folha contra a For&ccedil;a Sindical. O objetivo &eacute; demolir reputa&ccedil;&otilde;es, n&atilde;o necessariamente informar a verdade e denunciar crime ou irregularidade, fun&ccedil;&otilde;es leg&iacute;timas e insubstitu&iacute;veis da imprensa.<\/p>\n<p>O &ldquo;jornalismo de campanha&rdquo; surgiu h&aacute; mais de 150 anos, quando a introdu&ccedil;&atilde;o das rotativas obrigou os novos &ldquo;bar&otilde;es&rdquo; da m&iacute;dia a vender muito mais jornais para compensar os custos. A famosa rede Hearst de jornais lan&ccedil;ou muitas campanhas, inclusive contra os abusos das ferrovias. Assim tamb&eacute;m legitimou a imprensa como porta-voz dos interesses da sociedade. Nascia ali o &ldquo;poder midi&aacute;tico&rdquo;, a percep&ccedil;&atilde;o dos donos de jornais de que podiam influir no destino de pessoas, partidos, institui&ccedil;&otilde;es e do pr&oacute;prio pa&iacute;s. <\/p>\n<p>Quando a Folha defendeu as Diretas J&aacute;, nos anos 1980, causa nobre e de interesse geral, elevou o status do jornal. Tamb&eacute;m defendem interesses gerais as campanhas do Estad&atilde;o pela recupera&ccedil;&atilde;o do Rio Tiet&ecirc;, pela preserva&ccedil;&atilde;o da Mata Atl&acirc;ntica, assim como a corajosa s&eacute;rie de reportagens de fevereiro contra &ldquo;Os matadores do 18&ordm;&rdquo;. O jornal sacudiu a c&uacute;pula da Pol&iacute;cia Militar amedrontada frente ao poder de uma quadrilha de exterminadores, formada por policiais do 18&ordm; Batalh&atilde;o da Capital, suspeita de executar o coronel da PM Jos&eacute; Herm&iacute;nio Rodrigues, que os estava investigando.<\/p>\n<p>A mais t&iacute;pica campanha dos &uacute;ltimos meses foi a d&rsquo;O Globo, em dezembro, contra o Estatuto da Crian&ccedil;a e do Adolescente. Foram dez grandes reportagens, todas com chamadas na primeira p&aacute;gina, algumas de p&aacute;gina inteira e fotos de seis colunas. O objetivo verdadeiro estava oculto, mas todos os t&iacute;tulos e todo o tratamento eram direcionados para induzir o leitor a apoiar a redu&ccedil;&atilde;o da maioridade penal. Por exemplo: &ldquo;Dos menores infratores, 80% fogem sem cumprir a pena&rdquo;. <\/p>\n<p>O Estad&atilde;o lan&ccedil;ou uma forte campanha em fevereiro contra a devasta&ccedil;&atilde;o da Amaz&ocirc;nia. Foram nove grandes mat&eacute;rias, muitas delas com fotos gritantes e chamadas de seis colunas na primeira p&aacute;gina. Mas o alvo das den&uacute;ncias era mais o poder p&uacute;blico do que os grupos econ&ocirc;micos que enriquecem com a extra&ccedil;&atilde;o ilegal de madeira e as queimadas para plantio de monoculturas, como a soja. H&aacute; muitas campanhas de jornais contra pol&iacute;ticas p&uacute;blicas e contra leis, como essa pela derrubada da Lei de Imprensa, ou denunciando omiss&otilde;es do Estado. Mas poucas contra os abusos do poder econ&ocirc;mico. Imaginem hoje uma campanha do Estad&atilde;o ou da Folha contra as tarifas extorsivas dos ped&aacute;gios em S&atilde;o Paulo? Nem pensar, depois que esses jornais entraram com tudo nas campanhas pela privatiza&ccedil;&atilde;o das rodovias. <\/p>\n<p>H&aacute; tamb&eacute;m campanhas de jornais para chantagear e intimidar. Era assim que Assis Chateaubriand pressionava o conde Matarazzo a dar dinheiro para o Museu de Arte de S&atilde;o Paulo e ao mesmo tempo intimidava os demais empres&aacute;rios. Como o g&acirc;ngster que manda dar uma surra no lojista que se recusa a pagar prote&ccedil;&atilde;o, para intimidar os outros lojistas.<\/p>\n<p>A campanha contra a Lei de Imprensa foi deflagrada depois que a Igreja Universal procurou os tribunais para se defender contra mat&eacute;rias publicadas pela Folha que considerava difamat&oacute;rias e caluniosas. A Folha passou a acusar a Igreja Universal de &ldquo;litig&acirc;ncia de m&aacute;-f&eacute;&rdquo;, por abrir a&ccedil;&otilde;es judiciais simult&acirc;neas em diversas partes do pa&iacute;s. O C&oacute;digo Penal diz que existe litig&acirc;ncia de m&aacute;-f&eacute; quando uma das partes &ldquo;altera a verdade dos fatos&rdquo;, ou &ldquo;procede de modo temer&aacute;rio durante o processo&rdquo;. Isso pode se aplicar quase como uma luva &agrave; pr&oacute;pria Folha, quando a reportagem de Elvira Lobato diz, sem se limitar aos fatos, que &ldquo;uma hip&oacute;tese &eacute; que os d&iacute;zimos dos fi&eacute;is sejam esquentados em para&iacute;sos fiscais&rdquo;. Uma coisa &eacute; suspeitar de uma irregularidade e investig&aacute;-la; outra &eacute; dar a uma suspeita o car&aacute;ter de fato.<\/p>\n<p>Esquentar dinheiro &eacute; crime. Ao lan&ccedil;ar essa ila&ccedil;&atilde;o, sem provas, a Folha pode ter cometido crimes de cal&uacute;nia (acusar indevidamente algu&eacute;m de cometer um crime capitulado em lei) e de difama&ccedil;&atilde;o. Cabe &agrave; Justi&ccedil;a julgar se a Folha cometeu esses crimes. O jornal alega que a Igreja Universal quer intimid&aacute;-lo. Pode at&eacute; ser verdade. Mas o jornal, por sua vez, n&atilde;o est&aacute; intimidando a Justi&ccedil;a ao insistir em tratar em suas p&aacute;ginas de um lit&iacute;gio em que &eacute; parte interessada e ainda est&aacute; sub judice?<\/p>\n<p>Ila&ccedil;&otilde;es pesadas tamb&eacute;m foram lan&ccedil;adas repetidamente contra Paulo Pereira da Silva, o deputado Paulinho (PDT-SP), e a For&ccedil;a Sindical, sempre sem provas de que algum crime foi cometido. Apenas ila&ccedil;&otilde;es. Por que a Folha pode repetir uma ila&ccedil;&atilde;o depois da outra contra a For&ccedil;a Sindical, e a For&ccedil;a Sindical n&atilde;o pode abrir processos, um atr&aacute;s do outro, contra o jornal?<\/p>\n<p>Um dos argumentos falaciosos contra a Lei de Imprensa &eacute; que este &eacute; o pa&iacute;s em que mais se processam jornalistas. Isso acontece porque o Brasil &eacute; o pa&iacute;s em que os jornalistas mais caluniam e difamam. Acusar virou padr&atilde;o do nosso jornalismo de den&uacute;ncia. &Agrave;s vezes, simplesmente xingam, o que se chama crime de inj&uacute;ria. Leiam este par&aacute;grafo t&iacute;pico desse padr&atilde;o de linguagem. Diz o jornalista sobre Paulo Pereira: &ldquo;A central presidida por Paulinho mistura pol&iacute;tica retr&oacute;grada com a nega&ccedil;&atilde;o da pol&iacute;tica&rdquo;. At&eacute; a&iacute; &eacute; um ju&iacute;zo de valor que o jornalista tem o direito de expressar. Mas logo em seguida ele parte para o insulto: &ldquo;Este pequeno Lula paraguaio agora anuncia entre palavr&otilde;es que vai entupir o Judici&aacute;rio de a&ccedil;&otilde;es contra jornalistas da Folha&#8230;.&rdquo; Numa &uacute;nica frase o jornalista insultou Lula, ao us&aacute;-lo como refer&ecirc;ncia negativa, e os paraguaios, que n&atilde;o t&ecirc;m nada a ver com a hist&oacute;ria. E insultou o pr&oacute;prio Paulo Pereira.<\/p>\n<p>S&atilde;o esses os jornalistas que querem imunidade. Alegam que para crimes de inj&uacute;ria, cal&uacute;nia e difama&ccedil;&atilde;o basta o C&oacute;digo Penal. Mas como diz o jurista Miguel Reale, na pr&oacute;pria Folha, &ldquo;o ataque &agrave; honra difundido em ve&iacute;culo de comunica&ccedil;&atilde;o social alcan&ccedil;a n&uacute;mero indeterminado de pessoas, o que n&atilde;o sucede em difama&ccedil;&atilde;o lan&ccedil;ada em uma sala ou por carta&rdquo;. O jurista Walter Ceneviva tamb&eacute;m opina na Folha que o direito comum n&atilde;o se ajusta aos problemas civis e penais da comunica&ccedil;&atilde;o social. <\/p>\n<p>Outro jurista, Victor Gabriel Rodriguez, mostrou tamb&eacute;m na Folha que os jornalistas foram engambelados pelos patr&otilde;es e acabaram dando um tiro no p&eacute;. A Lei de Imprensa d&aacute; mais direitos de defesa ao jornalista &ndash; inclusive defesa pr&eacute;via, que evita o julgamento. &ldquo;No equil&iacute;brio entre direitos individuais e liberdade de informa&ccedil;&atilde;o, o menor dos males &eacute; a Lei de Imprensa,&rdquo; diz. <\/p>\n<p><em>* A Revista do Brasil pode ser acessada no endere&ccedil;o eletr&ocirc;nico <\/em><a href=\"http:\/\/www.revistadobrasil.net\/\"><em>http:\/\/www.revistadobrasil.net\/<\/em><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Brasil est&aacute; sem Lei de Imprensa. 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