{"id":21016,"date":"2008-04-22T10:45:47","date_gmt":"2008-04-22T10:45:47","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=21016"},"modified":"2008-04-22T10:45:47","modified_gmt":"2008-04-22T10:45:47","slug":"mudanca-no-fuso-horario-o-retrato-de-um-poder-sem-limites","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=21016","title":{"rendered":"Mudan\u00e7a no fuso hor\u00e1rio: o retrato de um poder sem limites"},"content":{"rendered":"<p>At&eacute; mesmo aqueles que conhecem a hist&oacute;ria da radiodifus&atilde;o privada e sabem que na sua regula&ccedil;&atilde;o &ndash; apesar de ser um servi&ccedil;o p&uacute;blico concedido pelo Estado &ndash; sempre tem prevalecido o interesse dos radiodifusores, n&atilde;o deixaram de se surpreender.<\/p>\n<p>O Congresso Nacional aprovou, na noite da sexta feira (11\/4), projeto de lei que reduz de quatro para tr&ecirc;s os fusos hor&aacute;rios no pa&iacute;s e altera os efeitos da portaria da Classifica&ccedil;&atilde;o Indicativa no Acre e demais estados do Norte. <\/p>\n<p>Como no Brasil os grandes grupos de comunica&ccedil;&otilde;es s&atilde;o multim&iacute;dia, isto &eacute;, abarcam empresas de radiodifus&atilde;o (r&aacute;dio e televis&atilde;o), jornais e revistas, o lobby do setor se torna aqui mais robusto do que em outros pa&iacute;ses. E a cada nova vit&oacute;ria, naturalmente, esse lobby aumenta seu cacife para fazer press&atilde;o tanto junto ao Executivo quanto ao Legislativo.<\/p>\n<p><strong>Um pouco de hist&oacute;ria<\/p>\n<p><\/strong>O exemplo mais conhecido do poder dos radiodifusores talvez seja a derrubada, pelo Congresso Nacional, de todos os 52 vetos que o ent&atilde;o presidente Jo&atilde;o Goulart imp&ocirc;s ao projeto de lei que viria a se transformar no CBT &ndash; C&oacute;digo Brasileiro de Telecomunica&ccedil;&otilde;es (Lei 4.117\/1962). A ampla articula&ccedil;&atilde;o de empres&aacute;rios de radiodifus&atilde;o e parlamentares que permitiu tamanha fa&ccedil;anha foi liderada pelo ent&atilde;o diretor-geral dos Di&aacute;rios e Emissoras Associados, Jo&atilde;o Calmon (j&aacute; falecido), e dela resultou a cria&ccedil;&atilde;o da Abert &ndash; Associa&ccedil;&atilde;o Brasileira de Emissoras de R&aacute;dio e Televis&atilde;o, da qual ele se tornou o primeiro presidente.<\/p>\n<p>Decorridos mais de 45 anos, o CBT (exclu&iacute;da a regula&ccedil;&atilde;o da Lei Geral de Telecomunica&ccedil;&otilde;es &ndash; Lei 9.472\/1997) continua sendo a norma b&aacute;sica que rege a radiodifus&atilde;o no Brasil e alguns dos seus vetos derrubados e omiss&otilde;es tornam a radiodifus&atilde;o brasileira singular em todo o mundo: a dura&ccedil;&atilde;o das concess&otilde;es de 15 anos para emissoras de TV e 10 anos para emissoras de r&aacute;dio; a renova&ccedil;&atilde;o autom&aacute;tica das concess&otilde;es e a aus&ecirc;ncia de qualquer norma que pro&iacute;ba a propriedade cruzada dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Desde a promulga&ccedil;&atilde;o do CBT em 1962, no entanto, s&atilde;o in&uacute;meras as ocasi&otilde;es em que o poder dos radiodifusores prevaleceu.<\/p>\n<p>Na Constituinte de 1987-88, por exemplo, a &quot;bancada da comunica&ccedil;&atilde;o&quot; conseguiu incluir normas que diferenciam a radiodifus&atilde;o de outras concess&otilde;es de servi&ccedil;o p&uacute;blico: as concess&otilde;es e suas renova&ccedil;&otilde;es t&ecirc;m que ser aprovadas pelo Congresso Nacional, onde os grupos de m&iacute;dia t&ecirc;m expressiva representa&ccedil;&atilde;o; o cancelamento das concess&otilde;es s&oacute; pode ser feito por decis&atilde;o judicial e a n&atilde;o-renova&ccedil;&atilde;o exige vota&ccedil;&atilde;o nominal de, no m&iacute;nimo, dois quintos dos deputados e senadores. O Conselho de Comunica&ccedil;&atilde;o Social, que deveria ser um &oacute;rg&atilde;o regulador, tendo como refer&ecirc;ncia a Comiss&atilde;o Federal de Comunica&ccedil;&otilde;es americana (FCC), se transformou num mero auxiliar do Congresso Nacional que, ali&aacute;s, h&aacute; quase dois anos sequer se re&uacute;ne.<\/p>\n<p>Por outro lado, nunca lograram ser regulamentados &ndash; e, portanto, n&atilde;o s&atilde;o cumpridos &ndash; os dispositivos da Constitui&ccedil;&atilde;o de 1988 que rezam n&atilde;o poder os meios de comunica&ccedil;&atilde;o, direta ou indiretamente, ser objeto de monop&oacute;lio ou oligop&oacute;lio; e que determinam a regionaliza&ccedil;&atilde;o da produ&ccedil;&atilde;o cultural, art&iacute;stica e jornal&iacute;stica, a promo&ccedil;&atilde;o da produ&ccedil;&atilde;o independente e a complementaridade entre os sistemas privado, p&uacute;blico e estatal.<\/p>\n<p>A lista das &quot;vit&oacute;rias&quot; dos radiodifusores &eacute; longa. Lembro outras: a implanta&ccedil;&atilde;o das TVs pagas via sat&eacute;lite (DTH) e MMDS antes da exist&ecirc;ncia de qualquer regula&ccedil;&atilde;o; a norma restritiva e excludente das r&aacute;dios comunit&aacute;rias (Lei 9.612\/1998); a interrup&ccedil;&atilde;o do processo de transforma&ccedil;&atilde;o da Ancine em Ancinav; a escolha do padr&atilde;o japon&ecirc;s para a TV digital que frustrou o potencial de democratiza&ccedil;&atilde;o das concess&otilde;es; na Lei 11.652\/2008, que criou a Empresa Brasileira de Comunica&ccedil;&atilde;o, o veto do presidente da Rep&uacute;blica ao artigo que obrigava as emissoras de TV comerciais a entregar &agrave; TV p&uacute;blica os sinais de jogos de sele&ccedil;&otilde;es nacionais contratados com exclusividade e n&atilde;o transmitidos em seus canais; e as recentes modifica&ccedil;&otilde;es do relator no substitutivo do PL 29\/2007 em tramita&ccedil;&atilde;o na C&acirc;mara dos Deputados, em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s cotas de programa&ccedil;&atilde;o do conte&uacute;do nacional na TV paga.<\/p>\n<p>&Eacute; ainda o interesse dos radiodifusores que tem impedido a materializa&ccedil;&atilde;o de um projeto de Lei Geral da Comunica&ccedil;&atilde;o Eletr&ocirc;nica de Massa para regular o setor de forma integrada e coerente, contemplando a revolu&ccedil;&atilde;o digital e a conseq&uuml;ente converg&ecirc;ncia tecnol&oacute;gica entre telecomunica&ccedil;&otilde;es, comunica&ccedil;&atilde;o de massa e inform&aacute;tica.<\/p>\n<p><strong>A mudan&ccedil;a nos fusos hor&aacute;rios<\/p>\n<p><\/strong>N&atilde;o creio, todavia, que o poder dos radiodifusores jamais tenha se manifestado de forma mais contundente e acintosa do que na recente aprova&ccedil;&atilde;o do projeto do senador Ti&atilde;o Viana (PT-AC), apenas quatro dias ap&oacute;s a entrada em vigor da Portaria 1.220\/07 determinando que as emissoras de TV adaptem suas transmiss&otilde;es aos diferentes fusos hor&aacute;rios do pa&iacute;s em fun&ccedil;&atilde;o da Classifica&ccedil;&atilde;o Indicativa. Note-se que, por press&atilde;o dos radiodifusores, houve cinco adiamentos da data para a entrada em vigor da portaria no per&iacute;odo de 9 meses.<\/p>\n<p>Quando se convenceram que n&atilde;o seria mais poss&iacute;vel alterar a pr&oacute;pria portaria, os radiodifusores passaram a trabalhar pela aprova&ccedil;&atilde;o do projeto que muda os fusos hor&aacute;rios.<\/p>\n<p>O projeto de lei, apresentado em 2006, foi aprovado no Senado no in&iacute;cio de 2007 e encaminhado &agrave; C&acirc;mara dos Deputados. Durante a tramita&ccedil;&atilde;o na C&acirc;mara houve forte press&atilde;o da Abert, expressa pela deputada Rebecca Garcia (PP-AM), vinculada &agrave; TV Rio Negro Ltda. (afiliada da Rede Bandeirantes), que defendia a exist&ecirc;ncia de um &uacute;nico fuso hor&aacute;rio em todo o pa&iacute;s. Foi da deputada Elcione Barbalho (PMDB-PA) &ndash; esposa do deputado Jader Barbalho (PMDB-PA), ambos vinculados &agrave; Rede Brasil Amaz&ocirc;nia de Televis&atilde;o Ltda. (RBA, afiliada da Rede Bandeirantes) &ndash; a altera&ccedil;&atilde;o determinando que o estado do Par&aacute; tenha somente um fuso hor&aacute;rio (hoje tem dois). Com essa modifica&ccedil;&atilde;o o projeto voltou para o Senado, onde foi novamente aprovado.<\/p>\n<p>A jornalista Laura Mattos, em mat&eacute;ria publicada na Folha de S.Paulo (&quot;Lobby das TVs est&aacute; por tr&aacute;s da mudan&ccedil;a&quot;, 15\/4) relata que &quot;o lobby [das emissoras de TV] era t&atilde;o claro que, na segunda passada [7\/4], quando a obrigatoriedade de respeito aos fusos entrou em vigor, a Record, questionada pela Folha sobre quais altera&ccedil;&otilde;es faria, disse aguardar `a tramita&ccedil;&atilde;o do projeto de lei que iguala o fuso hor&aacute;rio do Acre ao do Amazonas&acute;&quot;.<\/p>\n<p>Vale ainda registrar que um dos argumentos que t&ecirc;m sido usado pelos defensores da mudan&ccedil;a do fuso hor&aacute;rio no Congresso &ndash; e, de forma velada, pelos pr&oacute;prios radiodifusores &ndash; &eacute; que a Portaria 1.220\/07 impediria a popula&ccedil;&atilde;o do Norte de assistir ao vivo os jogos de futebol realizados no Sul do pa&iacute;s. Obviamente esse argumento &eacute; falso porque a classifica&ccedil;&atilde;o indicativa do futebol &eacute; livre e n&atilde;o impede, portanto, sua transmiss&atilde;o ao vivo.<\/p>\n<p><strong>Interesse privado vs. interesse p&uacute;blico<\/p>\n<p><\/strong>O projeto de lei que altera os fusos hor&aacute;rios ainda ter&aacute; que ser sancionado pelo presidente da Rep&uacute;blica, o que o l&iacute;der do governo no Senado garante acontecer&aacute; nos pr&oacute;ximos dias.<\/p>\n<p>Ser&aacute; que o interesse dos radiodifusores privados sempre coincide com o interesse p&uacute;blico e, portanto, n&atilde;o h&aacute; qualquer problema que prevale&ccedil;a? <\/p>\n<p>Ser&aacute; que &eacute; assim mesmo que funciona nas democracias: os grupos que re&uacute;nem mais for&ccedil;a pol&iacute;tica devem sempre decidir o rumo das pol&iacute;ticas p&uacute;blicas?<\/p>\n<p>Ou ser&aacute; que a anedota &quot;no Brasil, a televis&atilde;o n&atilde;o &eacute; uma concess&atilde;o do Estado, o Estado que &eacute; uma concess&atilde;o da televis&atilde;o&quot; tem um fundo de verdade?<\/p>\n<p>Ou ser&aacute; que o interesse p&uacute;blico, mais uma vez, deixar&aacute; de ser atendido para que prevale&ccedil;am os interesses privados dos radiodifusores, concession&aacute;rios do servi&ccedil;o p&uacute;blico de r&aacute;dio e televis&atilde;o?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>At&eacute; mesmo aqueles que conhecem a hist&oacute;ria da radiodifus&atilde;o privada e sabem que na sua regula&ccedil;&atilde;o &ndash; apesar de ser um servi&ccedil;o p&uacute;blico concedido pelo Estado &ndash; sempre tem prevalecido o interesse dos radiodifusores, n&atilde;o deixaram de se surpreender. 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