{"id":20987,"date":"2008-04-17T11:02:35","date_gmt":"2008-04-17T11:02:35","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=20987"},"modified":"2008-04-17T11:02:35","modified_gmt":"2008-04-17T11:02:35","slug":"a-lei-rouanet-e-o-negocio-da-cultura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=20987","title":{"rendered":"A Lei Rouanet e o neg\u00f3cio da cultura"},"content":{"rendered":"<p>O&nbsp;debate sobre a extin&ccedil;&atilde;o da Lei Rouanet tem mobilizado setores importantes da sociedade brasileira. Parte da classe art&iacute;stica, secret&aacute;rios de governo e jornalistas t&ecirc;m assumido o ponto de vista &quot;reformar, sim, acabar, nunca!&quot;. <\/p>\n<p>De fato, a Lei Rouanet tem se mostrado uma for&ccedil;a miraculosa em seus 17 anos de vida. Basta dizer que mudou a paisagem da avenida Paulista, em S&atilde;o Paulo, ao fazer surgir uma dezena de centros culturais. Curiosamente, institui&ccedil;&otilde;es com nomes de bancos, que elogiam o esp&iacute;rito abnegado da institui&ccedil;&atilde;o financeira. Seu nascimento est&aacute; ligado &agrave; caneta do presidente Collor de Mello, em 1991. Tinha, ent&atilde;o, um nobre objetivo pr&eacute;-iluminista: incentivar o mecenato. S&oacute; que a aristocracia do passado contratava divers&atilde;o com recursos do pr&oacute;prio bolso. J&aacute; a Lei Rouanet est&aacute; mais afinada com a cartilha liberal-conservadora de sua &eacute;poca: &quot;O Estado deve intervir o m&iacute;nimo, a sociedade deve se autogerir, mas, para isso, &eacute; preciso uma ajudazinha&quot;. <\/p>\n<p>Todo o poder miraculoso da lei tem a ver com seu mecanismo simples: ela autoriza que empresas direcionem valores que seriam pagos como impostos para a produ&ccedil;&atilde;o cultural. <\/p>\n<p>A id&eacute;ia parece boa, mas cont&eacute;m um movimento nefasto: verbas p&uacute;blicas passam a ser regidas pela vontade privada das corpora&ccedil;&otilde;es, aquelas com lucro suficiente para se valer da ren&uacute;ncia fiscal e investir na &aacute;rea. <\/p>\n<p>Assim, os diretores de marketing dos conglomerados adquirem mais poder de interferir na paisagem cultural do que o pr&oacute;prio ministro da Cultura. E exercem tal poder segundo os crit&eacute;rios do marketing empresarial. O est&iacute;mulo aos agentes privados resulta em privatismo. <\/p>\n<p>Diante da grandeza do fundo social mobilizado desde 1991 (da ordem de R$ 1 bilh&atilde;o s&oacute; no ano de 2007), &eacute; poss&iacute;vel compreender a gritaria das &uacute;ltimas semanas. Por tr&aacute;s da defesa da Lei Rouanet, h&aacute; maci&ccedil;os interesses. N&atilde;o s&oacute; os das institui&ccedil;&otilde;es patrocinadoras, que aprenderam a produzir seus eventos culturais, mas os da arte de &iacute;ndole comercial (feita para o agrado f&aacute;cil), que ganha duas vezes -na produ&ccedil;&atilde;o e na circula&ccedil;&atilde;o-, na medida em que os ingressos seguem car&iacute;ssimos. <\/p>\n<p>Os maiores lucros, contudo, ficam com os intermedi&aacute;rios. De um lado, as empresas de comunica&ccedil;&atilde;o, cujos an&uacute;ncios pagos constituem gigantesca fonte de renda, em m&eacute;dia 30% dos or&ccedil;amentos. De outro, a casta dos &quot;captadores de recursos&quot;, gente que embolsou de 10% a 20% do bilh&atilde;o do ano passado apenas por ter acesso ao cafezinho das diretorias de empresas. <\/p>\n<p>Como n&atilde;o h&aacute; julgamento da relev&acirc;ncia cultural na atribui&ccedil;&atilde;o dos certificados que habilitam o patroc&iacute;nio, a lei miraculosa abriu as portas dos nossos teatros &agrave;s megaprodu&ccedil;&otilde;es internacionais, que ganham mais aqui do que em seus pa&iacute;ses de origem. <\/p>\n<p>O caso do Cirque du Soleil, com seus R$ 9 milh&otilde;es de dinheiro p&uacute;blico e ingressos a R$ 200, est&aacute; longe de ser exce&ccedil;&atilde;o. Ao contr&aacute;rio, &eacute; a norma de um sistema em que o Estado se exime de julgar a qualidade em nome do ideal liberal de tratar os agentes desiguais como iguais e &quot;conter o aparelhamento pol&iacute;tico da cultura&quot;. <\/p>\n<p>O pressuposto filos&oacute;fico do debate foi revelado pelo secret&aacute;rio da Cultura de S&atilde;o Paulo, Jo&atilde;o Sayad: &quot;Antigamente, numa era religiosa, o natural era a coisa criada por Deus. Hoje, o natural &eacute; o que d&aacute; lucro&quot;. <\/p>\n<p>Ao defender o subs&iacute;dio contra o mercado excludente, assume a impot&ecirc;ncia do Estado e endossa a id&eacute;ia de naturalidade (portanto, imutabilidade) do imp&eacute;rio do capital sobre qualquer coisa que j&aacute; se chamou &quot;vida&quot;.&nbsp; Uma reforma da Lei Rouanet incapaz de impedir o controle privado de recursos p&uacute;blicos n&atilde;o faz sentido. <\/p>\n<p>O Estado pode estimular a generosidade humanista dos empres&aacute;rios com ren&uacute;ncia fiscal, mas n&atilde;o pode deixar de regular a distribui&ccedil;&atilde;o do fundo social com regras claras de concorr&ecirc;ncia p&uacute;blica. N&atilde;o parece &oacute;bvio? Ent&atilde;o, por que n&atilde;o enfrentar o debate sobre valores culturais?<\/p>\n<p>Por que contribuir para a universaliza&ccedil;&atilde;o da l&oacute;gica mercantil? O &quot;aparelhamento pol&iacute;tico da cultura&quot; pode ser questionado em p&uacute;blico. O desejo unilateral de um gerente de marketing, n&atilde;o. <\/p>\n<p>Num passado recente, o governo Lula sacrificou seus membros para n&atilde;o enfrentar a tropa de elite da m&iacute;dia eletr&ocirc;nica. Estava em quest&atilde;o a exig&ecirc;ncia de &quot;contrapartida social&quot; no patroc&iacute;nio das estatais. <\/p>\n<p>Sua disposi&ccedil;&atilde;o conciliat&oacute;ria pode, de novo, impedir uma transforma&ccedil;&atilde;o maior, rumo a uma cultura livre, pensada como direito de todos. Mas qualquer mudan&ccedil;a exige, no m&iacute;nimo, considerar a hip&oacute;tese de que a realidade e o mercado n&atilde;o s&atilde;o uma coisa s&oacute;. <\/p>\n<p><em>* S&eacute;rgio de Carvalho &eacute; diretor da Companhia do Lat&atilde;o e professor de dramaturgia da USP. <br \/>** Marco Antonio Rodrigues &eacute; diretor e um dos fundadores do Folias, companhia teatral. <br \/><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O&nbsp;debate sobre a extin&ccedil;&atilde;o da Lei Rouanet tem mobilizado setores importantes da sociedade brasileira. Parte da classe art&iacute;stica, secret&aacute;rios de governo e jornalistas t&ecirc;m assumido o ponto de vista &quot;reformar, sim, acabar, nunca!&quot;. De fato, a Lei Rouanet tem se mostrado uma for&ccedil;a miraculosa em seus 17 anos de vida. 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