{"id":20970,"date":"2008-04-15T13:04:27","date_gmt":"2008-04-15T13:04:27","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=20970"},"modified":"2008-04-15T13:04:27","modified_gmt":"2008-04-15T13:04:27","slug":"renuncia-fiscal-por-que-insistir-em-um-modelo-insustentavel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=20970","title":{"rendered":"Ren\u00fancia fiscal: por que insistir em um modelo insustent\u00e1vel?"},"content":{"rendered":"<div class=\"entry\">\n<p>A cultura e as artes movimentam parte cada vez mais significativa da economia planet&aacute;ria. As ind&uacute;strias criativas n&atilde;o param de crescer para alimentar a demanda, que parece inesgot&aacute;vel, por est&eacute;tica, s&iacute;mbolos, lazer e entretenimento. Por&eacute;m, os recursos gerados por este vasto mercado de consumo n&atilde;o suprem a diversidade e complexidade cultural, tornando necess&aacute;rias outras tr&ecirc;s fontes de financiamento, distintas e complementares. S&atilde;o elas:<\/p>\n<p>&#8211; o Estado, que tem a responsabilidade de fomentar a cria&ccedil;&atilde;o art&iacute;stica e intelectual, e a distribui&ccedil;&atilde;o de conhecimento, bases do progresso humano<\/p>\n<p>&#8211; o investimento social privado, evolu&ccedil;&atilde;o hist&oacute;rica do mecenato, meio pelo qual cidad&atilde;os e institui&ccedil;&otilde;es privadas se tornam agentes do desenvolvimento da sociedade<\/p>\n<p>&#8211; o patroc&iacute;nio empresarial, estrat&eacute;gia de constru&ccedil;&atilde;o de marcas e de relacionamento com seus p&uacute;blicos de interesse, feita por associa&ccedil;&atilde;o com a&ccedil;&otilde;es de interesse p&uacute;blico.<\/p>\n<p>No Brasil, o sistema de apoio &agrave; cultura e &agrave;s artes baseado em dedu&ccedil;&atilde;o fiscal emaranhou estas fontes, subvertendo suas l&oacute;gicas, inibindo seus fluxos, retardando suas expans&otilde;es e, de quebra, confundindo a opini&atilde;o p&uacute;blica.<\/p>\n<p>Em mar&ccedil;o, mais uma vez, diferentes setores do teatro foram at&eacute; Bras&iacute;lia para demonstrar sua insatisfa&ccedil;&atilde;o com o funcionamento das leis de incentivo &agrave; cultura. Mais uma vez a quest&atilde;o central, propositadamente, passou ao largo dos holofotes: o modelo de financiamento p&uacute;blico por dedu&ccedil;&atilde;o fiscal &eacute; insustent&aacute;vel econ&ocirc;mica e socialmente.<\/p>\n<p>Vamos imaginar que os m&eacute;dicos tamb&eacute;m reivindiquem lugar &agrave; mesa para investir um naco do imposto na sa&uacute;de p&uacute;blica, a seu crit&eacute;rio; os educadores, para manter abertas escolas p&uacute;blicas; as empresas de transporte, para criar estradas exclusivas; e -por que n&atilde;o? -, cada cidad&atilde;o, para reter outro tanto do imposto para montar o pr&oacute;prio esquema de seguran&ccedil;a? Quem sabe, at&eacute; fazer justi&ccedil;a com as pr&oacute;prias m&atilde;os.<\/p>\n<p>Antes que a mesa estivesse cheia, n&atilde;o haveria mais imposto a recolher. Por conseq&uuml;&ecirc;ncia, poder&iacute;amos suprimir o Estado e dispensar os governos.<\/p>\n<p>Tomar posse de recursos p&uacute;blicos sem contrapartida e destin&aacute;-los por crit&eacute;rios individuais e privados &eacute; um ato anti-republicano. Desinformados e iludidos pela justa perspectiva de injetar recursos no seu campo de atividade, artistas lutam para propagar o c&acirc;ncer do incentivo fiscal, em vez de exigir pol&iacute;ticas e fundos de financiamento direto do Estado, regidos por crit&eacute;rios t&eacute;cnicos e p&uacute;blicos.<\/p>\n<p>Esse modelo do incentivo fiscal, &uacute;nico no mundo, foi criado pela Lei Sarney, em 1986 &#8211; substitu&iacute;da depois pela Lei Rouanet por Collor, em 1991-, ampliado com a Lei do Audiovisual por Itamar, em 1993, e replicado por munic&iacute;pios e Estados via dedu&ccedil;&atilde;o no ISS, IPTU e ICMS. As leis de incentivo mobilizar&atilde;o, neste ano, cerca de R$ 1 bilh&atilde;o. Recursos p&uacute;blicos que financiam somente a parcela da produ&ccedil;&atilde;o cultural que desperta o interesse das empresas.<\/p>\n<p>A dedu&ccedil;&atilde;o fiscal gera produ&ccedil;&atilde;o cultural porque distribui dinheiro, mas n&atilde;o &eacute; l&oacute;gica nem justa. &Eacute; uma forma pr&aacute;tica de obter recursos sem enfrentar disputas no or&ccedil;amento. Nada tem a ver com patroc&iacute;nio ou investimento privado de verdade. Empresas promovem a&ccedil;&otilde;es sociais, ambientais, culturais, esportivas, de entretenimento e comportamento por serem uma estrat&eacute;gia eficaz, saud&aacute;vel e rent&aacute;vel de valorizar marcas e fortalecer relacionamentos. Por isso, em todo mundo, investem os pr&oacute;prios recursos de marketing e comunica&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>No Brasil, a Lei do Audiovisual permite dedu&ccedil;&atilde;o integral no imposto a pagar e, ainda, o abatimento como despesa, reduzindo o imposto acima do valor aplicado. O resultado &eacute; um ganho real de mais de 130% ao &lsquo;investidor&rsquo;, sem risco. Em vez de exigirem a corre&ccedil;&atilde;o das evidentes distor&ccedil;&otilde;es do incentivo fiscal aos filmes, agentes culturais passam a reivindicar equipara&ccedil;&atilde;o de benef&iacute;cios. A Lei do Audiovisual contaminou outras leis de incentivo fiscal, a come&ccedil;ar pela Lei Rouanet, que, desde 1997, permite 100% de dedu&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Importante saber: em outros pa&iacute;ses, incentivo fiscal &eacute; somente lan&ccedil;ar as contribui&ccedil;&otilde;es &agrave; cultura como despesa na declara&ccedil;&atilde;o de renda. Ou seja, &eacute; poder doar dinheiro do pr&oacute;prio bolso sem ter de pagar imposto por isso.<\/p>\n<p>&Eacute; certo que o Estado brasileiro consome 50% do PIB, e pouco do que devolve tem valor reconhecido pela sociedade; &eacute; compreens&iacute;vel que os brasileiros desconfiem que os nossos governos sejam regidos pela corrup&ccedil;&atilde;o. Mas, aten&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o corrigiremos mazelas hist&oacute;ricas subtraindo recursos e responsabilidade p&uacute;blicas para distribu&iacute;-las a interesses privados.<\/p>\n<p>Melhor seria lutar para reduzir a carga tribut&aacute;ria, para benef&iacute;cio da sociedade civil, e ajudar a construir um Estado mais eficaz, com capacidade de formular e implementar pol&iacute;ticas p&uacute;blicas, financiando diretamente as a&ccedil;&otilde;es por princ&iacute;pios republicanos.<\/p>\n<p><em>* Yacoff Sarkovas, especialista em atitudes de marca, &eacute; diretor-geral da Significa e da Articultura<\/em><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A cultura e as artes movimentam parte cada vez mais significativa da economia planet&aacute;ria. As ind&uacute;strias criativas n&atilde;o param de crescer para alimentar a demanda, que parece inesgot&aacute;vel, por est&eacute;tica, s&iacute;mbolos, lazer e entretenimento. 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