{"id":20961,"date":"2008-04-15T11:52:18","date_gmt":"2008-04-15T11:52:18","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=20961"},"modified":"2008-04-15T11:52:18","modified_gmt":"2008-04-15T11:52:18","slug":"a-ocupacao-da-unb-a-esfera-publica-midiatica-e-a-historia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=20961","title":{"rendered":"A ocupa\u00e7\u00e3o da UnB, a esfera p\u00fablica midi\u00e1tica e a hist\u00f3ria"},"content":{"rendered":"<blockquote>\n<blockquote>\n<blockquote><p><em><span>&ldquo;At&eacute; que os le&otilde;es tenham seus pr&oacute;prios historiadores, as hist&oacute;rias de ca&ccedil;adas continuar&atilde;o glorificando o ca&ccedil;ador&rdquo;.<\/span><span> (Prov&eacute;rbio africano citado por Eduardo Galeano em &ldquo;O livro dos abra&ccedil;os&rdquo;)<\/span><\/em><\/p><\/blockquote>\n<\/blockquote>\n<\/blockquote>\n<p><span>Nos &uacute;ltimos dias, v&aacute;rias pessoas me procuraram em busca de informa&ccedil;&otilde;es a respeito da ocupa&ccedil;&atilde;o da reitoria da Universidade de Bras&iacute;lia (UnB). Sabedoras do meu apoio ao ato &ndash; participando das assembl&eacute;ias e discuss&otilde;es, divulgando not&iacute;cias e contribuindo, pelo Intervozes, com demandas da comunica&ccedil;&atilde;o &ndash;,estas pessoas me indagaram acerca dos objetivos, das causas e das controv&eacute;rsias da mobiliza&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p><\/span><span>Dois elementos em comum a praticamente todos os di&aacute;logos chamaram a minha aten&ccedil;&atilde;o. Por um lado, todos os meus interlocutores demonstraram, expl&iacute;cita ou implicitamente, n&atilde;o confiar na cobertura da grande m&iacute;dia sobre o epis&oacute;dio. Por outro, ouvi de forma quase un&acirc;nime a refer&ecirc;ncia ao &ldquo;ressurgimento&rdquo; do movimento estudantil.<\/p>\n<p><\/span><span>Em rela&ccedil;&atilde;o ao primeiro elemento, a elei&ccedil;&atilde;o presidencial de 2006 comprovou, com sobras, que os auto-proclamados &ldquo;formadores de opini&atilde;o&rdquo; n&atilde;o mais det&ecirc;m o poder de influ&ecirc;ncia que outrora tiveram. Tal perda gerou muitos &oacute;rf&atilde;os do &ldquo;Grande Irm&atilde;o&rdquo; que costumava apontar a luz verdade &ndash; sem muitas vozes contestadoras &ndash; para todas as quest&otilde;es fundamentais. J&aacute; h&aacute; v&aacute;rios anos, cada vez mais vozes se levantam contra a forte hegemonia daquilo que &eacute; chamado de PMB (Partido da M&iacute;dia Brasileira), de PIG (Partido da Imprensa Golpista), de &ldquo;m&iacute;dia gorda&rdquo; ou simplesmente de grande m&iacute;dia. Esta perda de credibilidade, por&eacute;m, deve ser considerada, pelo menos por enquanto, um aspecto conjuntural, ainda que v&aacute;rios indicadores &ndash; como a perda crescente da circula&ccedil;&atilde;o dos jornais tradicionais, a decadente audi&ecirc;ncia da Rede Globo, ao lado da explos&atilde;o da &ldquo;blogosfera&rdquo; e da crescente prolifera&ccedil;&atilde;o de r&aacute;dios livres e comunit&aacute;rias &ndash; apontem uma tend&ecirc;ncia consolidada.<\/p>\n<p><\/span><span>O segundo elemento, o suposto &ldquo;ressurgimento&rdquo; do movimento estudantil, pode estar vinculado a um aspecto mais estrutural da nossa comunica&ccedil;&atilde;o: a capacidade da grande m&iacute;dia de pautar o debate p&uacute;blico, de dizer o que existe e o que n&atilde;o existe no mundo.<\/p>\n<p><\/span><span><em>&ldquo;Trata-se t&atilde;o somente de poder, &eacute; claro. No fim. O poder que a m&iacute;dia tem de estabelecer uma agenda. O poder que ela tem de destruir algu&eacute;m. O poder que tem de influenciar e mudar o processo pol&iacute;tico. O poder de capacitar, animar. O poder de enganar. O poder de mudar o equil&iacute;brio de for&ccedil;as: entre Estado e cidad&atilde;o; entre pa&iacute;s e pa&iacute;s, entre produtor e consumidor. (&#8230;) Trata-se apenas de propriedade e controle: o quem, o qu&ecirc; e o como. E trata-se do gotejar da ideologia, como tamb&eacute;m do choque do evento extraordin&aacute;rio. Trata-se do poder da m&iacute;dia de criar e sustentar significados; de persuadir, endossar, refor&ccedil;ar. O poder de minar e reassegurar. Trata-se de alcance. E de representa&ccedil;&atilde;o: a habilidade de apresentar, revelar, explicar; assim como a habilidade de conceder acesso e participa&ccedil;&atilde;o. Trata-se do poder de escutar e do poder de falar e ser ouvido. Do poder de incitar e guiar reflex&atilde;o e reflexividade. O poder de contar contos e articular lembran&ccedil;as&rdquo;.<\/em><\/span><span><em> (Roger Silverstone, &ldquo;Por que estudar a m&iacute;dia?&rdquo;.)<\/em><\/p>\n<p><\/span><span>Se &agrave; m&iacute;dia hegem&ocirc;nica n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel esconder a ocupa&ccedil;&atilde;o na UnB, &eacute; necess&aacute;rio, ent&atilde;o, enquadrar a cobertura sobre o movimento. Reduzir os seus pleitos &agrave; sa&iacute;da dos dirigentes corruptos, <font face=\"Arial\">desviar o debate sobre o significado das funda&ccedil;&otilde;es para a universidade p&uacute;blica<\/font>, fingir esquecimento quanto &agrave;s demandas estruturais.<\/p>\n<p><\/span><span>A todas as pessoas que saudaram o &ldquo;ressurgimento&rdquo; do movimento estudantil, respondi com uma pergunta simples: mas quando foi mesmo que ele desapareceu? A provoca&ccedil;&atilde;o era necess&aacute;ria. A primeira imagem que nos vem &agrave; cabe&ccedil;a quando escutamos o termo &ldquo;movimento estudantil&rdquo; &eacute; uma passeata, um protesto, uma &ldquo;a&ccedil;&atilde;o direta&rdquo;. Da&iacute; a ignorar a atividade cotidiana &ndash; e, em certo sentido, a pr&oacute;pria exist&ecirc;ncia &ndash; desse ator social, pelo fato de n&atilde;o ocorrerem mobiliza&ccedil;&otilde;es amplas e radicalizadas, &eacute; um equ&iacute;voco imenso.<\/p>\n<p><\/span><span>O mundo n&atilde;o &eacute; feito de fatos fragmentados e desconexos entre si, como apresenta, via de regra, a grande m&iacute;dia. O mundo &eacute; feito de processos pol&iacute;ticos e sociais, que se encadeiam, se sobrep&otilde;em e se acumulam no decurso da hist&oacute;ria. Se a Hist&oacute;ria oficial &eacute; um emaranhado de datas, personagens c&eacute;lebres, her&oacute;is e mitos, o mesmo n&atilde;o se aplica &agrave; hist&oacute;ria real, constru&iacute;da cotidianamente. Esta &eacute; permeada de avan&ccedil;os, retrocessos, contradi&ccedil;&otilde;es, e acertos. Aparece esporadicamente nos registros &ndash; livros, m&iacute;dia e outros &ndash;, mas no sil&ecirc;ncio derruba muros, arranca grades e constr&oacute;i barricadas.<\/p>\n<p><\/span><span>Os estudantes e as estudantes da UnB que despertaram a curiosidade ou a aten&ccedil;&atilde;o da m&iacute;dia e da sociedade brasileira n&atilde;o surgiram por acaso. Possuem hist&oacute;rico de milit&acirc;ncia. Suas lutas &ndash; sim, h&aacute; diferentes lutas unificadas numa frente comum na ocupa&ccedil;&atilde;o da reitoria &ndash; n&atilde;o come&ccedil;aram com este ato, nem terminar&atilde;o com ele. Os centros acad&ecirc;micos, os coletivos aut&ocirc;nomos e os grupos das mais distintas e divergentes inspira&ccedil;&otilde;es e orienta&ccedil;&otilde;es te&oacute;ricas continuar&atilde;o existindo e atuando diuturnamente quando a atual mobiliza&ccedil;&atilde;o for encerrada. Os seus objetivos &ndash; pontuais e estruturais, t&aacute;ticos e estrat&eacute;gicos &ndash; continuar&atilde;o sendo reivindicados, embora n&atilde;o estejam mais t&atilde;o presentes nas manchetes de notici&aacute;rios de imprensa, TV, r&aacute;dio e portais. E os seus protagonistas continuar&atilde;o existindo para al&eacute;m das p&aacute;ginas de jornais e Internet. Estar&atilde;o se comunicando nas ruas, nas pra&ccedil;as, nos corredores, nas reuni&otilde;es, nas salas de aula&#8230; porque a grande m&iacute;dia n&atilde;o &eacute; a &uacute;nica comunica&ccedil;&atilde;o poss&iacute;vel.<br \/><\/span><span><em><br \/>*Rog&eacute;rio Tomaz Jr. &eacute; jornalista, estudante do Mestrado em Comunica&ccedil;&atilde;o da UnB e integrante do Intervozes &ndash; Coletivo Brasil de Comunica&ccedil;&atilde;o Social.<\/em><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&ldquo;At&eacute; que os le&otilde;es tenham seus pr&oacute;prios historiadores, as hist&oacute;rias de ca&ccedil;adas continuar&atilde;o glorificando o ca&ccedil;ador&rdquo;. (Prov&eacute;rbio africano citado por Eduardo Galeano em &ldquo;O livro dos abra&ccedil;os&rdquo;) Nos &uacute;ltimos dias, v&aacute;rias pessoas me procuraram em busca de informa&ccedil;&otilde;es a respeito da ocupa&ccedil;&atilde;o da reitoria da Universidade de Bras&iacute;lia (UnB). 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