{"id":20960,"date":"2008-04-15T11:44:27","date_gmt":"2008-04-15T11:44:27","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=20960"},"modified":"2008-04-15T11:44:27","modified_gmt":"2008-04-15T11:44:27","slug":"a-reinvencao-do-cinema-e-os-jurassicos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=20960","title":{"rendered":"A reinven\u00e7\u00e3o do cinema e os jur\u00e1ssicos"},"content":{"rendered":"<div><em>A digitaliza&ccedil;&atilde;o e a internet podem transformar todo o processo cinematogr&aacute;fico, democratizando a produ&ccedil;&atilde;o e multiplicando as plat&eacute;ias. Mas, agarrada a seu monop&oacute;lio, a ind&uacute;stria do audiovisual quer manter as tecnologias superadas e a id&eacute;ia de que arte &eacute; para quem pode pagar.<\/p>\n<p><\/em>O cinema mudou pouco at&eacute; o advento das tecnologias digitais. O som, a cor, melhoramentos nas pel&iacute;culas, na proje&ccedil;&atilde;o, entre muitos outros, foram aperfei&ccedil;oamentos numa tecnologia b&aacute;sica que se consolidou no finalzinho do s&eacute;culo 19, na famosa sess&atilde;o dos irm&atilde;os Lumi&egrave;re. O modelo b&aacute;sico de produ&ccedil;&atilde;o, de circula&ccedil;&atilde;o e de exibi&ccedil;&atilde;o permaneceu o mesmo. J&aacute; a digitaliza&ccedil;&atilde;o das imagens e sons mudou tudo. Criou um paradigma novo, em que todas as etapas do processo cinematogr&aacute;fico se transformam: a capta&ccedil;&atilde;o, montagem, finaliza&ccedil;&atilde;o; a difus&atilde;o, que j&aacute; nem precisa ser f&iacute;sica; e a exibi&ccedil;&atilde;o, que gera novos formatos, espa&ccedil;os, rela&ccedil;&otilde;es. Essas mudan&ccedil;as implicam tamb&eacute;m, &eacute; obvio, em novas bases e condi&ccedil;&otilde;es econ&ocirc;micas para todas as etapas.<\/p>\n<p>Este per&iacute;odo &ndash; e processo &ndash; de adapta&ccedil;&atilde;o do paradigma de cinema, que estamos vivendo, tem curiosas similitudes com o que aconteceu na &eacute;poca do surgimento do cinema. Durante um tempo, n&atilde;o se sabia muito bem o que fazer com ele. &Eacute; certo que aquilo podia dar dinheiro, mas n&atilde;o havia um modelo de neg&oacute;cio (como se diz hoje) estabelecido. Que formato deveria ter o espet&aacute;culo; como devia ser negociado, distribu&iacute;do, exibido? Os primeiros vintes anos do cinema foram de formata&ccedil;&atilde;o do produto, com o desenvolvimento da linguagem e o estabelecimento de uma narrativa adequada ao consumo. Foi um per&iacute;odo de forma&ccedil;&atilde;o de plat&eacute;ias, que evolu&iacute;ram das feiras e teatros de variedades para as salas fixas prolet&aacute;rias e finalmente para um p&uacute;blico mais &quot;respeit&aacute;vel&quot;. Foram anos de uma verdadeira guerra, para que se estabelecesse um modelo de comercializa&ccedil;&atilde;o entre produtores, distribuidores e exibidores.<\/p>\n<p>Hoje h&aacute; interessantes analogias com aquelas situa&ccedil;&otilde;es. As novas tecnologias criam novas possibilidades, que se tornam formatos, que necessitam de novas formas de distribui&ccedil;&atilde;o e consumo, engendrando novos mercados, que pedem novos modelos de comercializa&ccedil;&atilde;o. E quanto isto estar&aacute; mexendo com a linguagem?<\/p>\n<p>O fato &eacute; que essa etapa de grandes transforma&ccedil;&otilde;es est&aacute; estruturada em um modelo. Um modelo que n&atilde;o &eacute; muito duradouro, que ainda n&atilde;o tem regras est&aacute;veis &ndash; apenas entendimentos comerciais mais ou menos provis&oacute;rios. Uma situa&ccedil;&atilde;o que procura seguran&ccedil;a, t&atilde;o cara aos grandes neg&oacute;cios, mas que de momento trava batalhas complexas e violentas pela reparti&ccedil;&atilde;o dos mercados. Uma realidade que, para a quase totalidade da popula&ccedil;&atilde;o e para os produtores e realizadores audiovisuais, &eacute; elitista, excludente, unilateral e concentradora.<\/p>\n<p>H&aacute; trinta anos, o Brasil tinha pouco mais da metade da popula&ccedil;&atilde;o de hoje e pouco menos de 5 mil salas de cinema. O n&uacute;mero de espectadores, por ano, andava em torno de 300 milh&otilde;es. Nos anos 70 e 80, o modelo foi se transformando, de um cinema barato e popular para o figurino atual. Houve um per&iacute;odo de crise aguda, quando o n&uacute;mero de salas caiu para cerca de 900 e o p&uacute;blico para quase 70 milh&otilde;es anuais. Foi o fim dos cinemas na grande maioria das cidades e o desaparecimento dos cinemas de bairro.<\/p>\n<p>Depois de uma &quot;recupera&ccedil;&atilde;o&quot;, sob o novo modelo de consumo de elite, nos multiplexes de x&oacute;pins, o n&uacute;mero de salas chegou a 2.200. No entanto, essas salas s&atilde;o bem menores que as daquele tempo n&atilde;o t&atilde;o distante (que tinham 500 lugares ou mais) e fica a d&uacute;vida de se houve efetivamente um aumento do n&uacute;mero de assentos oferecidos. Porque o p&uacute;blico cresceu pouco, e tem rondado em torno de 90 milh&otilde;es de espectadores anuais.<\/p>\n<p>O senso comum diagnostica rapidamente: &quot;&eacute; por causa do v&iacute;deo, do DVD, da TV a cabo, da banda larga&quot;. No entanto, nos pa&iacute;ses onde h&aacute; mais acesso a todos esses recursos audiovisuais, o cinema apresenta n&uacute;meros muito mais significativos. Nos EUA, s&atilde;o quase 40 mil salas de cinema. Mesmo no M&eacute;xico, com condi&ccedil;&otilde;es mais parecidas e a metade da nossa popula&ccedil;&atilde;o, o n&uacute;mero de salas de cinema &eacute; 40% maior.<\/p>\n<p>Em outras palavras, segundo dados de uma distribuidora estadunidense, mais ou menos 10% da popula&ccedil;&atilde;o &quot;vai pelo menos uma vez por ano ao cinema&quot;. Ou seja, 90% n&atilde;o v&atilde;o nunca. Mais de 60% dos jovens entre 15 e 29 anos, nunca foram ao cinema. Outro corte: 92% dos munic&iacute;pios brasileiros n&atilde;o t&ecirc;m sala de cinema. Ali&aacute;s, quase a metade dos cinemas (48%) est&aacute; concentrada nos estados de S&atilde;o Paulo e Rio. Sergipe, com 75 munic&iacute;pios, s&oacute; tem cinemas em Aracaju; de fato, 17 estados brasileiros t&ecirc;m 15% das salas de cinema do Pa&iacute;s.<\/p>\n<p>Do lado da produ&ccedil;&atilde;o, o Brasil hoje faz quase 70 filmes de longa metragem por ano. No entanto, pelo menos 30% desses filmes simplesmente n&atilde;o s&atilde;o exibidos. Dos que conseguem chegar aos cinemas, quase todos s&atilde;o exibidos em situa&ccedil;&otilde;es muito prec&aacute;rias &ndash; de salas, datas &ndash; raramente atingindo n&uacute;meros minimamente significativos. Explicando melhor: os filmes brasileiros ocupam cerca de 10% do mercado de exibi&ccedil;&atilde;o, ou seja, atingem em torno de 9 milh&otilde;es de espectadores por ano. Desse p&uacute;blico, uns dois ter&ccedil;os concentra-se em dois ou tr&ecirc;s filmes (geralmente os que t&ecirc;m participa&ccedil;&atilde;o financeira de distribuidoras hollywoodianas, ou est&atilde;o associados a empresas de comunica&ccedil;&atilde;o), conforme o ano. E os outros 30, 40 filmes &quot;partilham&quot; o restante do p&uacute;blico. Resumindo: 10% de um mercado que mal atinge 10% da popula&ccedil;&atilde;o, significa que o cinema nacional se relaciona com menos de 1% dos brasileiros.<\/p>\n<p>Que n&atilde;o se confunda esta constata&ccedil;&atilde;o com uma forma qualquer de xenofobia. O cinema mundial &mdash; quer dizer, europeu, asi&aacute;tico, latino-americano, e mesmo o dos Estados Unidos, quando n&atilde;o &eacute; produto das corpora&ccedil;&otilde;es daquele bairro famoso de Los Angeles &mdash; enfrenta uma situa&ccedil;&atilde;o ainda pior. Na verdade &eacute; o concorrente, por excel&ecirc;ncia, do cinema brasileiro na mesma estreita faixa de 10% do mercado. O cinema plural, mundial, &eacute; geralmente exibido num circuito ainda mais limitado, de menos de uma dezena de cidades brasileiras, que contam com um bom &quot;circuito de arte&quot;. No ano passado, durante v&aacute;rias semanas, dois t&iacute;tulos apenas ocuparam mais de 70% de todas as salas do Pa&iacute;s. Logo em seguida esse n&uacute;mero passou para tr&ecirc;s t&iacute;tulos, em cerca de 80% dos cinemas. Ou seja, mesmo com uma arquitetura multiplex, a exibi&ccedil;&atilde;o &eacute; cada vez mais simplex, concentrada. Hoje entra no Brasil um ter&ccedil;o do n&uacute;mero de filmes que vinha nos anos 80, inclusive norte-americanos. E 85% das bilheterias de cinema no Brasil est&atilde;o concentrados em tr&ecirc;s distribuidoras de Hollywood.<\/p>\n<p>As tecnologias digitais, associadas aos recursos propiciados pela internet, criam condi&ccedil;&otilde;es para uma democratiza&ccedil;&atilde;o muito grande da produ&ccedil;&atilde;o. A distribui&ccedil;&atilde;o elimina as c&oacute;pias em pel&iacute;cula &mdash; que custam milhares de reais cada uma &mdash; e a pr&oacute;pria instala&ccedil;&atilde;o de salas e equipamentos de proje&ccedil;&atilde;o diminuem muito de custo. Tudo aponta para a oportunidade e a necessidade de um modelo de circula&ccedil;&atilde;o dos produtos audiovisuais em bases diferentes das atuais e, principalmente, com ingressos a pre&ccedil;os compat&iacute;veis com o poder aquisitivo da popula&ccedil;&atilde;o. &Eacute; como um novo parto do cinema, na virada de outro s&eacute;culo.<\/p>\n<p>No entanto, na transi&ccedil;&atilde;o de paradigmas, a chamada ind&uacute;stria do audiovisual tem procurado garantir um controle exclusivo do processo, garantindo suas &quot;margens&quot; atrav&eacute;s da manuten&ccedil;&atilde;o de tecnologias superadas, pela restri&ccedil;&atilde;o do acesso e com a preserva&ccedil;&atilde;o de uma situa&ccedil;&atilde;o geral de monop&oacute;lio. Desta forma, o modelo n&atilde;o serve para o p&uacute;blico, n&atilde;o atende &agrave;s necessidades dos realizadores e impede uma verdadeira integra&ccedil;&atilde;o cultural com o mundo.<\/p>\n<p><em>* Felipe Macedo assina a coluna Cineclubismo no Caderno Brasil de Le Monde Diplomatique.<\/em><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A digitaliza&ccedil;&atilde;o e a internet podem transformar todo o processo cinematogr&aacute;fico, democratizando a produ&ccedil;&atilde;o e multiplicando as plat&eacute;ias. Mas, agarrada a seu monop&oacute;lio, a ind&uacute;stria do audiovisual quer manter as tecnologias superadas e a id&eacute;ia de que arte &eacute; para quem pode pagar. O cinema mudou pouco at&eacute; o advento das tecnologias digitais. 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