{"id":20952,"date":"2008-04-14T15:17:38","date_gmt":"2008-04-14T15:17:38","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=20952"},"modified":"2008-04-14T15:17:38","modified_gmt":"2008-04-14T15:17:38","slug":"a-voz-dos-consumidores","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=20952","title":{"rendered":"A voz dos consumidores"},"content":{"rendered":"<p><em>Advogada e fundadora da Pro Teste, entidade que defende os direitos dos consumidores, Fl&aacute;via Lef&eacute;vre Guimar&atilde;es representa os usu&aacute;rios no Conselho Consultivo da Anatel desde 2006. Coordenadora jur&iacute;dica do Idec &ndash; Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor at&eacute; 1998, Lef&eacute;vre tem sido voz ativa nos debates sobre a mudan&ccedil;a das metas de universaliza&ccedil;&atilde;o das concession&aacute;rias de telefonia fixa, altera&ccedil;&atilde;o que considera ilegal. Com exclusividade, a advogada falou ao Observat&oacute;rio do Direito &agrave; Comunica&ccedil;&atilde;o sobre estes e outros temas ligados aos direitos dos consumidores nas telecomunica&ccedil;&otilde;es.<\/em><\/p>\n<p>*<\/p>\n<p><strong>Na &uacute;ltima reuni&atilde;o do Conselho Consultivo da Anatel, seu parecer sobre o Plano Geral de Metas de Universaliza&ccedil;&atilde;o (PGMU) foi rejeitado, e em uma entrevista recente sua, voc&ecirc; considera ilegal alguns itens do plano. Por que seu parecer foi contr&aacute;rio &agrave; mudan&ccedil;a no PGMU?<br \/><\/strong>Primeiro, &eacute; importante deixar claro que n&atilde;o ca&iacute; na armadilha que me foi colocada, o discurso de que estar&iacute;amos votando a inclus&atilde;o digital e a universaliza&ccedil;&atilde;o da banda larga. O que estava sendo votado era o decreto do ministro H&eacute;lio Costa. Eu nunca seria contra a inclus&atilde;o digital e a universaliza&ccedil;&atilde;o da banda larga. Inclusive, um dos conselheiros, que &eacute; consultor das concession&aacute;rias e ocupa uma das vagas do Senado, o Conselheiro Amadeu de Paula Castro Neto, chegou a dizer que rejeitava meu parecer porque eu era contra um &ldquo;bem&rdquo; para a sociedade. Entretanto, quando propus como emenda ao decreto a desagrega&ccedil;&atilde;o da rede &ndash; medida fundamental para que se estabele&ccedil;a competi&ccedil;&atilde;o no setor e redu&ccedil;&atilde;o de pre&ccedil;o &ndash; ele foi veementemente contra. Ent&atilde;o diz que eu sou contra um bem para a sociedade?<\/p>\n<p>Enfim, sou contra o decreto porque ele trata de impor, de forma gritantemente ilegal, novas obriga&ccedil;&otilde;es de universaliza&ccedil;&atilde;o que v&atilde;o impedir a redu&ccedil;&atilde;o do pre&ccedil;o da telefonia fixa. Eu j&aacute; questionava antes o fato de os Postos de Servi&ccedil;o de Telecomunica&ccedil;&otilde;es constarem como metas de universaliza&ccedil;&atilde;o. Apesar disso, acredito que ele tinha sim um cunho social e de interesse p&uacute;blico, mas realmente seria dif&iacute;cil encontrar empresas que estivessem dispostas a fazer o investimento nos PSTs, porque o retorno pelo investimento seria reduzido. A LGT (Lei Geral de Telecomunica&ccedil;&otilde;es) estabelece uma classifica&ccedil;&atilde;o dos servi&ccedil;os, de acordo com a qual apenas a modalidade do servi&ccedil;o de telefonia fixa comutada &eacute; pautado pelo regime p&uacute;blico e os demais se submetem a o regime privado. A lei diz ainda que aos servi&ccedil;os prestados no regime p&uacute;blico &eacute; que ser&atilde;o impostas metas de universaliza&ccedil;&atilde;o; a lei diz tamb&eacute;m que para cada modalidade de servi&ccedil;o deve haver um contrato de concess&atilde;o espec&iacute;fico e, mais, que n&atilde;o pode haver subs&iacute;dio entre modalidades distintas de servi&ccedil;o. Ou seja, o dinheiro do STFC (Servi&ccedil;o Telef&ocirc;nico Fixo Comutado) n&atilde;o pode subsidiar, por exemplo, o servi&ccedil;o de banda larga ou de qualquer outro tipo de servi&ccedil;o privado que a empresa venha a oferecer. Portanto, o decreto representa n&atilde;o s&oacute; uma afronta &agrave; LGT, mas tamb&eacute;m &agrave; Constitui&ccedil;&atilde;o Federal, que imp&otilde;e ao Poder P&uacute;blico a obriga&ccedil;&atilde;o de licitar servi&ccedil;os, sempre que for contratar. De fato, o que ocorreu &eacute; que o Minist&eacute;rio das Comunica&ccedil;&otilde;es, sem respeitar os princ&iacute;pios da isonomia e impessoalidade, introduziu nos contratos de concess&atilde;o nova modalidade de servi&ccedil;o, no valor de R$ 1bilh&atilde;o, sem licita&ccedil;&atilde;o. <\/p>\n<p><strong>A rede que ser&aacute; instalada n&atilde;o se classifica como STFC? n&atilde;o &eacute; o mesmo servi&ccedil;o, nos termos das leis e regulamentos que orientam o setor das telecomunica&ccedil;&otilde;es?<\/strong><br \/>No campo da energia el&eacute;trica a legisla&ccedil;&atilde;o permite subs&iacute;dio para garantir justi&ccedil;a social; temos a tarifa social baixa renda. Mas a LGT n&atilde;o oferece essa ferramenta. Tanto &eacute; assim que o Ministro H&eacute;lio Costa enfrentou grandes dificuldades em 2006 que o impediram de implementar sua id&eacute;ia de telefone social. Se o STFC &eacute; o servi&ccedil;o p&uacute;blico essencial e, portanto, tem que observar os princ&iacute;pios da modicidade tarif&aacute;ria, n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel pretender que se utilize da receita originada deste servi&ccedil;o para subsidiar a implementa&ccedil;&atilde;o da rede de infra-estrutura para banda larga, que n&atilde;o &eacute; servi&ccedil;o prestado em regime p&uacute;blico. A LGT estabelece expressamente que a receita para o cumprimento das metas de universaliza&ccedil;&atilde;o &eacute; a proveniente da explora&ccedil;&atilde;o eficiente do servi&ccedil;o: qual servi&ccedil;o? Aquele que &eacute; objeto do contrato de concess&atilde;o: o STFC. E diz tamb&eacute;m que, quando essa receita n&atilde;o for suficiente para propiciar o cumprimento das metas, os recursos do Fundo de Universaliza&ccedil;&atilde;o do Servi&ccedil;o de Telecomunica&ccedil;&otilde;es &#8211; FUST poder&atilde;o ser utilizados. Ou seja, o decreto permite a absurda situa&ccedil;&atilde;o do dinheiro do FUST subsidiar um investimento que acirrar&aacute; a posi&ccedil;&atilde;o de domin&acirc;ncia no mercado de banda larga das concession&aacute;rias, a manuten&ccedil;&atilde;o de um dos pre&ccedil;os mais caros do mundo; um alto neg&oacute;cio para as concession&aacute;rias. Se o governo pretende usar o dinheiro do FUST para a banda larga, deve antes alterar a LGT e atribuir a este servi&ccedil;o o regime p&uacute;blico. Depois disso, deve instaurar licita&ccedil;&atilde;o para que todas as empresas interessadas possam participar, o que incentivaria as concession&aacute;rias a reduzir seus pre&ccedil;os. A&iacute; sim poderemos andar dentro da lei. <\/p>\n<p>Tudo isso &eacute; muito injusto: nos cinco primeiros anos do contrato de concess&atilde;o, quando se imp&ocirc;s as primeiras metas de universaliza&ccedil;&atilde;o &ndash; instala&ccedil;&atilde;o de milhares de orelh&otilde;es e milh&otilde;es de acessos individuais &ndash; a expectativa divulgada publicamente pelo Renato Guerreiro &ndash; ent&atilde;o presidente da ANATEL &ndash; &eacute; de que at&eacute; 2008 haveria 58 milh&otilde;es de acessos em uso. Como em 1998 t&iacute;nhamos 20 milh&otilde;es de acessos instalados, seriam necess&aacute;rios grandes investimentos para ampliar a rede de infra-estrutura para o STFC, o que de fato ocorreu. E quem pagou por isso? De onde veio a receita? A l&oacute;gica do setor orientou no sentido de abaixar-se o pre&ccedil;o da habilita&ccedil;&atilde;o, para garantir ganho de escala para as concession&aacute;rias, e aumentar o pre&ccedil;o da assinatura, para garantir receita suficiente para a implementa&ccedil;&atilde;o da universaliza&ccedil;&atilde;o. Ent&atilde;o a sociedade se sacrificou pagando a assinatura b&aacute;sica, que ao longo desses primeiros cinco anos sofreu aumento real superior a 100%. O resultado disso foi que as classes C,D e E, que foram seduzidas inicialmente pelo baixo pre&ccedil;o da habilita&ccedil;&atilde;o, perderam suas linhas, tornaram-se inadimplentes, tiveram os nomes inscritos no SERASA, e passaram a ficar sujeitas ao pr&eacute;-pago da telefonia m&oacute;vel &ndash; ao &ldquo;pai de santo&rdquo;. Isso n&atilde;o &eacute; uma cogita&ccedil;&atilde;o: existem mais de 12 milh&otilde;es de linhas nas prateleiras das concession&aacute;rias; s&atilde;o acessos instalados e n&atilde;o contratados, porque o consumidor n&atilde;o tem como pagar. Ou seja, as concession&aacute;rias, com a receita proveniente da assinatura, constru&iacute;ram as redes de infra-estrutura e o consumidor, apesar de ter o servi&ccedil;o &agrave; sua disposi&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o consegue pagar. E justamente o mais pobre, que fica sujeito ao telefone m&oacute;vel, com a quarta tarifa mais cara do mundo. Hoje temos menos de 36 milh&otilde;es de linhas em uso, sendo que mais de 20% delas est&atilde;o nas m&atilde;os de pessoas jur&iacute;dicas. &Eacute; esse contexto que levou ao clamor da sociedade nesses &uacute;ltimos anos contra a assinatura b&aacute;sica. As pessoas dormiam em filas dos juizados de pequenas causas para se verem livres dessa cobran&ccedil;a. O Congresso Nacional tem projetos para extinguir a assinatura.&nbsp;H&aacute; milhares de a&ccedil;&otilde;es judiciais contra essa estrutura tarif&aacute;ria.<\/p>\n<p><strong>Apesar de&nbsp;ilegal, voc&ecirc; n&atilde;o considera a altera&ccedil;&atilde;o ben&eacute;fica?<\/strong><br \/>Do modo como foi feita, sem garantias de pre&ccedil;o e competi&ccedil;&atilde;o e condi&ccedil;&otilde;es t&eacute;cnicas insignificantes, considero mal&eacute;fica. Primeiro, o decreto n&atilde;o traz nenhuma garantia de pre&ccedil;o justo nem qualquer dispositivo que especifique como os competidores utilizar&atilde;o essa rede; al&eacute;m disso, os 8 mbits para serem divididos por 20 mil habitantes por munic&iacute;pio, como est&aacute; previsto no decreto, pelo alt&iacute;ssimo pre&ccedil;o que se paga hoje no Brasil pelo servi&ccedil;o de banda larga, &eacute; escorchante. Tenho certeza que se houvesse licita&ccedil;&atilde;o, outras empresas apresentariam propostas melhores. A Telcomp fez estudos e levantou os pre&ccedil;os da Telef&ocirc;nica, NET, Brasil Telecom e Oi, em diferentes capitais.&nbsp; Em S&atilde;o Paulo, a NET cobra R$ 39,95 por 1 Mbps, sendo que a Telef&ocirc;nica oferta a mesma velocidade por R$ 159,80; em Bras&iacute;lia, a Brasil Telecom oferece 1Mbps por R$ 239,90. Na Fran&ccedil;a, a empresa Orange cobra R$ 5,02 a mesma velocidade.<\/p>\n<p>Mas o pior &eacute; o fato de se impor novas obriga&ccedil;&otilde;es de universaliza&ccedil;&atilde;o para os contratos de concess&atilde;o da telefonia fixa, de modo a inviabilizar a possibilidade real e concreta de os consumidores poderem, neste momento da primeira revis&atilde;o q&uuml;inq&uuml;enal, brigar pela altera&ccedil;&atilde;o da estrutura tarif&aacute;ria para garantir a redu&ccedil;&atilde;o do pre&ccedil;o da assinatura b&aacute;sica e ampliar a teledensidade da telefonia fixa no Brasil. <\/p>\n<p>A Anatel sempre disse, ao defender a assinatura b&aacute;sica frente a forte rea&ccedil;&atilde;o da sociedade contra ela, que a cl&aacute;usula de reajuste do contrato de concess&atilde;o, que permite um aumento real ano ap&oacute;s ano, al&eacute;m da corre&ccedil;&atilde;o monet&aacute;ria, justifica-se, pois &eacute; a tarifa do STFC que contribui para promover a universaliza&ccedil;&atilde;o. Tudo bem, isto &eacute; correto. Mas a universaliza&ccedil;&atilde;o foi feita &ndash; existem 50 milh&otilde;es de acessos instalados e &agrave; disposi&ccedil;&atilde;o do cidad&atilde;o brasileiro, que n&atilde;o consegue usufruir do sacrif&iacute;cio feito por toda a sociedade, pois a assinatura vale 10% do sal&aacute;rio m&iacute;nimo. Agora era hora de reduzir o pre&ccedil;o do STFC, para garantir a finalidade da universaliza&ccedil;&atilde;o deste servi&ccedil;o.<\/p>\n<p>A&iacute; o governo vem com a conversa de que n&atilde;o h&aacute; mais interesse no telefone fixo e que o STFC &eacute; coisa do passado. Ent&atilde;o por que foram renovados os contratos de concess&atilde;o por mais 20 anos, cujo objeto &eacute; o STFC? Nos EUA e na Europa &eacute; poss&iacute;vel que haja mais demanda por telefones m&oacute;veis. Mas a teledensidade de fixo n&atilde;o se compara com a brasileira, que &eacute; inferior &agrave; da Argentina. Na Europa e EUA todos t&ecirc;m telefone fixo e quem optar pelo telefone m&oacute;vel vai pagar uma tarifa 400% mais barata do que pagam os mais pobres brasileiros. &Eacute; R$ 1,36 o minuto do pr&eacute;-pago e R$ 0,07 o minuto do fixo. A distor&ccedil;&atilde;o que os equ&iacute;vocos do modelo e a inefici&ecirc;ncia da Anatel causou &eacute; clara.<\/p>\n<p>A forma como altera&ccedil;&atilde;o do PGMU foi arquitetada tamb&eacute;m &eacute; question&aacute;vel. As empresas assinaram os contratos de concess&atilde;o em 22 de dezembro de 2005 j&aacute; sabendo das metas dos PSTs desde 2003. Ficaram quietas para garantir a confort&aacute;vel situa&ccedil;&atilde;o de concession&aacute;rias detentoras do uso privilegiado das redes e dominantes do mercado por mais 20 anos, o que lhes tem possibilitado enfrentar em situa&ccedil;&atilde;o de vantagem ilegal os mercados n&atilde;o s&oacute; de telefonia fixa, mas de banda larga e, agora, de tv por assinatura. Todavia, j&aacute; no come&ccedil;o de 2006, come&ccedil;aram o lobby por meio da Abrafix junto ao Ministro H&eacute;lio Costa, para mudar as metas. A id&eacute;ia passou a ser &ldquo;fazer backhaul Internet em banda larga&rdquo;. Acontece que backhaul n&atilde;o &eacute; STFC, como os pr&oacute;prios representantes do MiniCom repetiram &agrave; exaust&atilde;o na &uacute;ltima reuni&atilde;o do Conselho Consultivo. Se n&atilde;o &eacute; STFC, como pode constar do contrato de concess&atilde;o do STFC e do plano de universaliza&ccedil;&atilde;o correspondente? <\/p>\n<p>A resposta do assessor jur&iacute;dico do ministro das Comunica&ccedil;&otilde;es, foi que a proposta &eacute; &ldquo;consensual&rdquo; entre as empresas e que elas aceitaram. &Eacute; claro que aceitaram: trata-se de um presente de m&atilde;e para filho. Mas o fato de terem aceitado n&atilde;o impede que a lei esteja sendo desrespeitada. E mais, ningu&eacute;m nos perguntou se queremos pagar essa conta. Estar no plano de universaliza&ccedil;&atilde;o significa que a receita para implementar o servi&ccedil;o de instala&ccedil;&atilde;o das redes de banda larga ser&aacute; originada pela tarifa que n&oacute;s pagamos pela utiliza&ccedil;&atilde;o do telefone fixo.<\/p>\n<p>O Minist&eacute;rio das Comunica&ccedil;&otilde;es n&atilde;o discutiu com a sociedade; a Casa Civil n&atilde;o nomeou o outro representante dos consumidores e o da sociedade, esvaziando junto com a ANATEL o Conselho Consultivo, impedindo que debat&ecirc;ssemos devidamente esse importante tema; a Consulta P&uacute;blica 842\/07, relativa &agrave; minuta do decreto, deu prazo de 10 dias para contribui&ccedil;&otilde;es, sendo que 4 deles eram feriados e, pior, n&atilde;o se disponibilizou um &uacute;nico documento para possibilitar que a sociedade pudesse participar de forma consistente. A mudan&ccedil;a tem car&aacute;ter eleitoreiro e &eacute; anti-democr&aacute;tica. A Pro Teste, o IDEC, a AET, o Indec Telecom, o Movimento Defenda S&atilde;o Paulo, a ABUSAR, entre outras entidades questionam tudo isso.<\/p>\n<p><strong>O que essa proposta significa, na pr&aacute;tica?<\/strong><br \/>Significa que as concession&aacute;rias ir&atilde;o construir, ao inv&eacute;s dos Postos de Servi&ccedil;o de Telecomunica&ccedil;&otilde;es, uma infra-estrutura de rede IP para transmiss&atilde;o de dados, que vai chegar a central telef&ocirc;nica dos munic&iacute;pios que n&atilde;o t&ecirc;m banda larga. &Eacute; s&oacute; isso que o decreto garante. As empresas cobrar&atilde;o o que quiserem dos competidores pelo uso dessa infra-estrutura, o que lhes garantir&aacute; amortiza&ccedil;&atilde;o r&aacute;pida dos investimentos, n&atilde;o s&oacute; por meio da cobran&ccedil;a da injusta tarifa do telefone fixo, mas tamb&eacute;m pelos escorchantes pre&ccedil;os pela presta&ccedil;&atilde;o do Servi&ccedil;o de Comunica&ccedil;&atilde;o Multim&iacute;dia e pelo aluguel da rede aos competidores.<\/p>\n<p>Al&eacute;m disso, sou contra pelo seguinte: o decreto, antes da altera&ccedil;&atilde;o das metas, dizia que a concession&aacute;ria deveria instalar Postos de Servi&ccedil;os de Telecomunica&ccedil;&otilde;es em todos os munic&iacute;pios. Agora, com a altera&ccedil;&atilde;o, as concession&aacute;rias dever&atilde;o levar a banda larga para todas as cidades que n&atilde;o t&ecirc;m rede para banda larga, at&eacute; 2010. S&atilde;o Paulo, que tem a Telef&ocirc;nica como concession&aacute;ria, tem por volta de 660 munic&iacute;pios, o que significaria a instala&ccedil;&atilde;o de PSTs em mais de 600 munic&iacute;pios. Quanto custariam a instala&ccedil;&atilde;o e manuten&ccedil;&atilde;o dos PSTs em 600 munic&iacute;pios, incluindo compra, constru&ccedil;&atilde;o ou aluguel de pr&eacute;dio, quatro telefones p&uacute;blicos, quatro computadores, um aparelho de fax e um atendente pessoal, com 12 horas de atendimento? Agora, com a altera&ccedil;&atilde;o, a Telef&ocirc;nica ter&aacute; de puxar os cabos por pequenas dist&acirc;ncias para apenas 258 munic&iacute;pios. E, ainda assim, querem me convencer que existe equival&ecirc;ncia econ&ocirc;mica nessa troca? O Decreto 6424\/08 n&atilde;o inclui a infra-estrutura que dever&aacute; ligar o ponto da central telef&ocirc;nica &agrave; casa dos consumidores &ndash; o que se chama de &uacute;ltima milha. E quem vai fazer isso? As concession&aacute;rias, que j&aacute; contrataram autoriza&ccedil;&atilde;o para operar o Servi&ccedil;o de Comunica&ccedil;&atilde;o Multim&iacute;dia &ndash; SCM e ir&atilde;o cobrar das pequenas empresas que tamb&eacute;m t&ecirc;m autoriza&ccedil;&otilde;es para operar o SCM e ter&atilde;o de comer na m&atilde;o das concession&aacute;rias. Ou seja, n&atilde;o temos garantia de competi&ccedil;&atilde;o e, conseq&uuml;entemente, de qualidade e de pre&ccedil;o justo.<\/p>\n<p><strong>Existe uma liga&ccedil;&atilde;o entre essas mudan&ccedil;as no PGMU e o Plano Nacional de Banda Larga? O que parece ser um favor das operadoras na verdade j&aacute; foi feito pelo PGMU, ent&atilde;o?<\/strong><br \/>Exatamente. Mas isso n&atilde;o quer dizer que a estrutura ficar&aacute; ociosa, pois as pr&oacute;prias concession&aacute;rias se beneficiar&atilde;o disso, porque, como disse antes, todas elas j&aacute; t&ecirc;m autoriza&ccedil;&atilde;o para operar o servi&ccedil;o de comunica&ccedil;&atilde;o multim&iacute;dia. Ou seja, elas usariam o dinheiro do consumidor que paga a assinatura b&aacute;sica ou, pior, n&atilde;o consegue contratar o telefone fixo, e, muito possivelmente, tamb&eacute;m usar&atilde;o o dinheiro do FUST, que &eacute; p&uacute;blico, para estender uma rede que as beneficiar&aacute; amplamente, pois ter&atilde;o implementado a rede para presta&ccedil;&atilde;o de servi&ccedil;o privado valendo-se das regras do servi&ccedil;o prestado no regime p&uacute;blico, prejudicar&atilde;o os concorrentes e vender&atilde;o os servi&ccedil;os que quiserem ao pre&ccedil;o que quiserem, como j&aacute; fazem hoje com a telefonia fixa e com a pr&oacute;pria banda larga.<\/p>\n<p>Sendo assim, por que n&atilde;o se estabelecer licita&ccedil;&atilde;o, no regime das Parcerias P&uacute;blico Privadas por exemplo, ou utilizar financiamentos do BNDES, para construir essa rede pelas m&atilde;os de outras empresas, que ir&atilde;o competir com as concession&aacute;rias, respeitando-se os princ&iacute;pios da isonomia e impessoalidade? Por que o governo escolheu o caminho mais fr&aacute;gil, pelo aspecto jur&iacute;dico, e mais penoso para os consumidores? Enfiar nos contratos de concess&atilde;o do STFC o servi&ccedil;o de instala&ccedil;&atilde;o de rede para banda larga , desrespeitando a LGT e a Lei de Licita&ccedil;&otilde;es, &eacute; uma aberra&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p><strong>Mas n&atilde;o h&aacute; nenhum benef&iacute;cio nessa hist&oacute;ria?<\/strong><br \/>Teria um benef&iacute;cio, que &eacute; significativo: quando as concess&otilde;es vencerem, em 2025, essa rede reverter&aacute; para o patrim&ocirc;nio da Uni&atilde;o. S&oacute; que daqui a muito menos de 18 anos, o WiMax e outras tecnologias sem fio e mais baratas ser&atilde;o comuns. Ou seja, a utilidade dessa rede n&atilde;o ser&aacute; mais a mesma e seu grande potencial ter&aacute; sido explorado amplamente por empresas privadas ao longo do tempo de vig&ecirc;ncia dos contratos de concess&atilde;o. Ou seja, a contrapartida anunciada pelo governo, de oferecimento do SCM pelas concession&aacute;rias de forma gratuita para 55 mil escolas p&uacute;blicas at&eacute; o final do contrato de concess&atilde;o &eacute; muito pequena, se a comparamos ao enorme benef&iacute;cio concedido &agrave;s concession&aacute;rias e &agrave; les&atilde;o que sofrer&atilde;o os potenciais competidores. Estamos falando de contrata&ccedil;&atilde;o sem licita&ccedil;&atilde;o, subs&iacute;dio proibido por lei, utiliza&ccedil;&atilde;o indevida de dinheiro p&uacute;blico, e utiliza&ccedil;&atilde;o exclusiva da rede. Nesse contexto, entendo que a sociedade poderia ganhar mais: as concession&aacute;rias tinham de prestar o servi&ccedil;o gratuito n&atilde;o s&oacute; para as escolas (que no mais das vezes nem tem condi&ccedil;&otilde;es materiais e professores para usufruir do servi&ccedil;o), mas tamb&eacute;m para a pol&iacute;cia, hospitais, prefeitura etc &#8230;<\/p>\n<p>N&atilde;o devemos esquecer que o BNDES, no ano passado, j&aacute; concedeu empr&eacute;stimos de R$ 2 bilh&otilde;es para cada uma das concession&aacute;rias. Mas ningu&eacute;m esclareceu para o que &eacute; esse dinheiro.<\/p>\n<p><strong>Como voc&ecirc; v&ecirc; a utiliza&ccedil;&atilde;o do FUST? Qual seria a melhor forma?<\/strong><br \/>N&atilde;o quero fazer profecia, mas a LGT traz dispositivo que garante &agrave;s concession&aacute;rias a possibilidade de usarem o dinheiro do FUST para implementar as obriga&ccedil;&otilde;es de universaliza&ccedil;&atilde;o, nos casos em que a explora&ccedil;&atilde;o eficiente do servi&ccedil;o objeto da concess&atilde;o n&atilde;o for suficiente. Ora, no caso da OI, que ter&aacute; de estender a rede por extensas regi&otilde;es, muito possivelmente a receita do STFC n&atilde;o ser&aacute; suficiente, ent&atilde;o, v&atilde;o poder se valer do recurso do FUST. H&aacute; tamb&eacute;m um projeto de lei do senador Aloizio Mercadante que abre as portas para que o SCM utilize recursos do Fust para universaliza&ccedil;&atilde;o de banda larga. OS recursos do Fust n&atilde;o poderiam ser usados para isso porque, pela lei, a universaliza&ccedil;&atilde;o no regime privado deve ser promovida com receita da pr&oacute;pria empresa; ou seja, o FUST deve ser usado apenas para os servi&ccedil;os prestados no regime p&uacute;blico. Ent&atilde;o, temos duas alternativas: transformar a banda larga em servi&ccedil;o p&uacute;blico ou, ainda, ampliar o rol de servi&ccedil;os que podem receber investimento do Fust. A&iacute; sim eu poderia concordar com tudo isso.<\/p>\n<p><strong>Sobre a fus&atilde;o entre Oi\/BrT, quais s&atilde;o as vantagens e quais s&atilde;o as desvantagens?<\/strong><br \/>N&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel fazer uma an&aacute;lise dessa situa&ccedil;&atilde;o porque, assim como no caso da altera&ccedil;&atilde;o do PGMU, n&atilde;o sabemos na totalidade quais s&atilde;o os projetos, a estrat&eacute;gia e a l&oacute;gica da mudan&ccedil;a anunciada. Assim como a altera&ccedil;&atilde;o do PGMU foi uma negocia&ccedil;&atilde;o envolvendo exclusivamente governo e concession&aacute;rias, o mesmo est&aacute; acontecendo em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; altera&ccedil;&atilde;o do Plano Geral de Outorgas (PGO). Essas coisas s&atilde;o discutidas l&aacute; nos gabinetes. S&oacute; digo uma coisa: se v&atilde;o concentrar o mercado em apenas duas concession&aacute;rias, devem haver duas condi&ccedil;&otilde;es essenciais. Primeiro, a desagrega&ccedil;&atilde;o da rede para permitir que outras empresas possam prestar servi&ccedil;o utilizando as redes sem ter de pagar para as concession&aacute;rias, pois essa rede &eacute; um bem p&uacute;blico que j&aacute; est&aacute; h&aacute; dez anos no regime de uso exclusivo das concession&aacute;rias, com enormes preju&iacute;zos para a sociedade.<\/p>\n<p>A segunda condi&ccedil;&atilde;o seria a implementa&ccedil;&atilde;o do modelo de custo &ndash; que, ali&aacute;s, j&aacute; deveria estar implementado e em vigor desde o primeiro ano de vig&ecirc;ncia dos contratos de concess&atilde;o renovados e, at&eacute; agora, a ANATEL sequer instaurou licita&ccedil;&atilde;o para contratar a empresa para desenvolv&ecirc;-lo. O modelo de custo permitiria um controle efetivo do valor da tarifa. Se o modelo de custo j&aacute; estivesse implementado, poder&iacute;amos verificar a abusividade do valor da assinatura b&aacute;sica cobrada hoje. Voc&ecirc; saberia dizer, por exemplo, se as despesas abundantes que as concession&aacute;rias t&ecirc;m com marketing e outras despesas n&atilde;o confess&aacute;veis n&atilde;o est&atilde;o inchando abusivamente o pre&ccedil;o da tarifa? Ou se custos de outros servi&ccedil;os que prestam n&atilde;o est&atilde;o sendo utilizados para garantir a manuten&ccedil;&atilde;o do alto pre&ccedil;o da tarifa do STFC? N&atilde;o tem como saber porque n&atilde;o existe um modelo de custo. N&atilde;o temos hoje como garantir que uma empresa, que preste uma s&eacute;rie de servi&ccedil;os, n&atilde;o esteja alocando as despesas do modo que lhe for mais conveniente, influenciando os processos de reajuste e revis&atilde;o tarif&aacute;ria.<\/p>\n<p>Al&eacute;m disso, um outro aspecto que deve ser observado s&atilde;o as regras para a transfer&ecirc;ncia de controle acion&aacute;rio da empresa. J&aacute; imaginou se a fus&atilde;o de fato ocorra e amanh&atilde; a Andrade Gutierrez vende a sua parte para a Telefonica ou para a Embratel? Como pretende o governo, nesta altura dos acontecimentos, impedir que isso ocorra ou, ainda, defender uma golden share em fun&ccedil;&atilde;o da fus&atilde;o de duas empresas privadas, ainda que o BNDES seja acionista da OI? No momento da desestatiza&ccedil;&atilde;o, quando se imp&otilde;e esse tipo de restri&ccedil;&atilde;o, o agente privado que ganha o leil&atilde;o j&aacute; conhecia e aceitou a regra do jogo. Mas garantir ao Estado poderes especiais numa empresa privada n&atilde;o configura estatiza&ccedil;&atilde;o? Eu n&atilde;o sou contra. Mas vamos respeitar a transpar&ecirc;ncia e o debate. O que se est&aacute; pretendendo? &Eacute; decepcionante ver a atua&ccedil;&atilde;o de um governo do PT que n&atilde;o debate, n&atilde;o ouve a sociedade, que imp&otilde;e pacotes, ao contr&aacute;rio do que sempre defendeu.<\/p>\n<p><strong>Voc&ecirc; que tem convivido com o trabalho da Anatel por dois anos, qual a sua avalia&ccedil;&atilde;o do trabalho da ag&ecirc;ncia? Quais s&atilde;o as principais defici&ecirc;ncias?<\/strong><br \/>Como eu tamb&eacute;m trabalho na &aacute;rea de energia el&eacute;trica, &eacute; poss&iacute;vel comparar os dois setores. Por exemplo, veja a forma como a Aneel (Ag&ecirc;ncia Nacional de Energia El&eacute;trica) e a Anatel conduzem uma consulta p&uacute;blica. A consulta p&uacute;blica para altera&ccedil;&atilde;o da PGMU, como eu disse antes, come&ccedil;ou em setembro e contava no site apenas com a minuta do decreto e a minuta de aditamento dos contratos de concess&atilde;o. N&atilde;o tinha uma nota t&eacute;cnica ou qualquer documento complementar e ficou aberta apenas por dez dias. Isso quer dizer que eles n&atilde;o querem ouvir a sociedade. No caso da Aneel, quando se abrem consultas p&uacute;blicas,&nbsp; as notas t&eacute;cnicas ficam &agrave; disposi&ccedil;&atilde;o no site, o que permite que a sociedade possa participar de forma mais equilibrada, uma vez que a assimetria de informa&ccedil;&atilde;o entre prestadores de servi&ccedil;o e consumidores &eacute; indiscut&iacute;vel. Al&eacute;m das consultas, existem audi&ecirc;ncias p&uacute;blicas em v&aacute;rias cidades do pa&iacute;s. As reuni&otilde;es para delibera&ccedil;&otilde;es na ANEEL s&atilde;o abertas, ao contr&aacute;rio do que ocorre com a ANATEL. Dei estes exemplos para concluir que a Anatel n&atilde;o &eacute; transparente. E tamb&eacute;m n&atilde;o &eacute; &aacute;gil e eficiente no seu processo de fiscaliza&ccedil;&atilde;o. Digo isso porque a Aneel pode delegar suas fun&ccedil;&otilde;es fiscalizadoras a &oacute;rg&atilde;os locais, como no caso da Comiss&atilde;o de Servi&ccedil;os P&uacute;blicos de Energia, em S&atilde;o Paulo, que efetivamente fiscaliza as distribuidoras. J&aacute; a Anatel &eacute; proibida de fazer o mesmo.<\/p>\n<p>Nos dois &uacute;ltimos processos de revis&atilde;o tarif&aacute;ria no setor de distribui&ccedil;&atilde;o, os consumidores foram contemplados com redu&ccedil;&otilde;es de 11%, em 2007 e at&eacute; 12%, agora em 2008. Isso se deve &agrave; atua&ccedil;&atilde;o respons&aacute;vel da Aneel. E as empresas n&atilde;o diminu&iacute;ram seus lucros por isso e o setor de distribui&ccedil;&atilde;o de energia el&eacute;trica &eacute; sustent&aacute;vel. Se enfrenta crises &eacute; por conta da falta de investimento dos governos e n&atilde;o pela atua&ccedil;&atilde;o da Aneel. Quando a Anatel imp&ocirc;s redu&ccedil;&atilde;o tarif&aacute;ria desde a sua cria&ccedil;&atilde;o? Nunca.<\/p>\n<p>Existe ainda um outro fato. O atual presidente da Telef&oacute;nica &eacute; o Antonio Carlos Valente, que j&aacute; foi presidente da Anatel. Marcos Baffuto, que foi superintendente da &aacute;rea de servi&ccedil;os p&uacute;blicos na ANATEL at&eacute; dezembro de 2005, em mar&ccedil;o de 2006 j&aacute; estava trabalhando para a Telefonica. E h&aacute; muitos outros exemplos que n&oacute;s n&atilde;o ficamos sabendo.<\/p>\n<p><strong>Quer dizer que h&aacute; uma captura da Anatel pelo mercado?<\/strong><br \/>As concession&aacute;rias s&atilde;o muito mais ouvidas do que os consumidores. O lobby da ABRAFIX &ndash; associa&ccedil;&atilde;o que as representa &ndash; na ag&ecirc;ncia &eacute; pesado.<\/p>\n<p><strong>E a imobiliza&ccedil;&atilde;o do Conselho Consultivo?<\/strong><br \/>Essa vota&ccedil;&atilde;o da altera&ccedil;&atilde;o na PGMU foi feita sem a presen&ccedil;a de cadeiras muito importantes do conselho, as vagas do consumidor e da sociedade e mais uma das empresas. Foi equilibrado? Claro que n&atilde;o. L&aacute; estava o Amadeu, que presta consultoria para as concession&aacute;rias de telefonia fixa na SP Comunication, a Em&iacute;lia Maria Silva Ribeiro, assessora da Presid&ecirc;ncia do Senado, dois membros do Minist&eacute;rio das Comunica&ccedil;&otilde;es, Israel Baiman, como representante da C&acirc;mara do Deputados e Zunga, em uma das vagas da sociedade, sendo que a liga&ccedil;&atilde;o desses dois &uacute;ltimos conselheiros com o PT &ndash; e conseq&uuml;entemente com o governo &ndash; &eacute; clara, e n&atilde;o votariam contra o decreto que pode trazer grandes dividendos eleitorais.<\/p>\n<p><strong>Zunga tamb&eacute;m tem um cargo de ger&ecirc;ncia na Brasil Telecom&#8230;<\/strong><br \/>Acho que isso n&atilde;o &eacute; t&atilde;o importante no caso. Os trabalhadores t&ecirc;m interesses grandes e leg&iacute;timos no setor. Se eles n&atilde;o forem trabalhadores de alguma empresa do setor, n&atilde;o estariam nos sindicatos e assim, qualquer deles estaria impedido de participar. Conhe&ccedil;o o Zunga, que &eacute; sindicalista h&aacute; muitos anos e, portanto, representa sim a sociedade. Fizemos muitos trabalhos juntos na defesa do consumidor, desde a privatiza&ccedil;&atilde;o. O problema agora &eacute; o fato de que na atual conjuntura o Conselho Consultivo &eacute; uma quest&atilde;o estrat&eacute;gica para o governo, pois precisava aprovar a altera&ccedil;&atilde;o do PGMU e, agora, o PGO. Acho mais preocupante o fato de ele ser t&atilde;o ligado ao governo, tanto que, durante a reuni&atilde;o ocorrida para discutir o PGMU, disse que meu relat&oacute;rio n&atilde;o poderia ser desconsiderado, mas, contraditoriamente, votou a favor do decreto, adotando recomenda&ccedil;&otilde;es constantes do meu voto, como necessidade de desagrega&ccedil;&atilde;o, de implementa&ccedil;&atilde;o de modelo de custos, introdu&ccedil;&atilde;o de garantia de pre&ccedil;o ison&ocirc;mico para competidores, entre outras. Ora, se o decreto n&atilde;o traz essas garantias, como ele poderia ser favor&aacute;vel?<\/p>\n<p><strong>&Eacute; poss&iacute;vel que o conselho seja mais atuante?<\/strong><br \/>N&atilde;o acredito. E &eacute; importante dizer que as entidades de defesa do consumidor e Procon\/SP enviaram cartas ao Minist&eacute;rio das Comunica&ccedil;&otilde;es, Casa Civil e ANATEL, pedindo que o conselho fosse composto. Em setembro &uacute;ltimo pedi ao presidente da Anatel para que ele convocasse uma reuni&atilde;o e desse posse aos novos conselheiros, pois ent&atilde;o ter&iacute;amos sete membros &ndash; metade mais um, como exige o regimento &ndash; e poder&iacute;amos ter discutido, por exemplo, o PGMU de forma mais tranq&uuml;ila, ampliando na sociedade o debate. Isso n&atilde;o foi feito. Mas nesse meio-tempo a minuta do decreto estava em consulta p&uacute;blica. As segundas vagas da sociedade e consumidor continuam vazias. A configura&ccedil;&atilde;o do Conselho Consultivo propicia que das doze vagas, seis sejam do governo &ndash; senado, c&acirc;mara e poder executivo &ndash; mais duas das empresas e apenas quatro para sociedade e consumidores. Os acordos que comumente acontecem entre os partidos tornam desequilibradas as decis&otilde;es do Conselho. Al&eacute;m disso, os membros s&atilde;o escolhidos pelo Minist&eacute;rio das Comunica&ccedil;&otilde;es e Presid&ecirc;ncia da Rep&uacute;blica, o que pode levar ao questionamento de legitimidade, como est&aacute; acontecendo agora com o Zunga.<\/p>\n<p><strong>Ent&atilde;o o pr&oacute;prio Conselho Consultivo tamb&eacute;m foi capturado?<\/strong><br \/>O Conselho Consultivo, at&eacute; 2005, com o ingresso de membros que n&atilde;o faziam parte do ch&aacute; das cinco das concession&aacute;rias e ex-dirigentes do sistema Telebr&aacute;s e suas consultorias (leia-se lobistas), sempre agiu em favor do status quo. Sabemos que foi necess&aacute;ria a atua&ccedil;&atilde;o do Minist&eacute;rio P&uacute;blico Federal de Pernambuco para tirar da vaga de usu&aacute;rio o diretor de uma companhia de telefonia fixa h&aacute; poucos anos atr&aacute;s. O presidente da Anatel, Embaixador Ronaldo Sardenberg n&atilde;o quis dar posse para os conselheiros nomeados em setembro de 2007, alegando publicamente que o conselho ficaria chapa-branca. Mas eu pergunto, a situa&ccedil;&atilde;o agora n&atilde;o piorou; n&atilde;o est&aacute; chapa-branca &ndash; 6 do governo, 1 das empresas, 1 dos consumidores e 1 da sociedade? E ainda existem vagas em aberto &ndash; do consumidor, da sociedade e uma de empresa. Os nomes indicados j&aacute; est&atilde;o l&aacute;, por que ent&atilde;o n&atilde;o foram nomeados? &Eacute; crucial que o conselho esteja completo com membros efetivamente leg&iacute;timos nesse momento.<\/p>\n<p><strong>Quais s&atilde;o os pontos centrais em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; regula&ccedil;&atilde;o que voc&ecirc; acredita que devem ser enfrentados?<\/strong><br \/>Estabelecimento de tarifa social, revis&atilde;o da estrutura tarif&aacute;ria do STFC,&nbsp; implementa&ccedil;&atilde;o de regras para desagrega&ccedil;&atilde;o de rede,&nbsp; implanta&ccedil;&atilde;o de modelo de custo, aperfei&ccedil;oamento dos mecanismos de fiscaliza&ccedil;&atilde;o, inclus&atilde;o da banda larga como servi&ccedil;o p&uacute;blico e altera&ccedil;&atilde;o das regras do FUST, para que se possa usar os recursos para a universaliza&ccedil;&atilde;o da banda larga.<\/p>\n<p><strong>Recentemente, o ouvidor da Anatel publicou seu relat&oacute;rio sobre a atua&ccedil;&atilde;o da ag&ecirc;ncia em 2007. O que voc&ecirc; achou do relat&oacute;rio? Ele trouxe algum impacto para a ag&ecirc;ncia?<\/strong><br \/>O Relat&oacute;rio apontou falhas grav&iacute;ssimas na atua&ccedil;&atilde;o da Ag&ecirc;ncia, com as quais concordo plenamente. No modelo da Anatel, a ouvidoria n&atilde;o tem o papel de ouvir o consumidor, mas de fiscalizadora da atua&ccedil;&atilde;o da ag&ecirc;ncia, e o relat&oacute;rio elaborado pelo Ouvidor deve ir para o presidente da Rep&uacute;blica e para o Congresso Nacional. Mas, chegando nesses &oacute;rg&atilde;os, ele n&atilde;o tem impacto. Ningu&eacute;m fez nada. Ningu&eacute;m quer enfrentar a CPI da ANATEL; faz-se sempre um esfor&ccedil;o enorme para enterr&aacute;-la, toda vez que ela surge no horizonte. Mas isso seria muito salutar, acreditem.<\/p>\n<p><strong>Houve alguma mudan&ccedil;a com a entrada do Sardenberg?<\/strong><br \/>Que eu tenha notado, n&atilde;o. Tudo o que aconteceu at&eacute; agora em termos de normas e regulamentos j&aacute; estava em curso quando ele entrou. Faz pouco tempo que ele est&aacute; ocupando a vaga.<\/p>\n<p><strong>Uma das quest&otilde;es que o ouvidor aponta em seu relat&oacute;rio &eacute; o fato de que as reclama&ccedil;&otilde;es dos consumidores sempre caem no esquecimento na ag&ecirc;ncia. Isso n&atilde;o &eacute; preocupante?<\/strong><br \/>Principalmente as demandas de car&aacute;ter econ&ocirc;mico, que s&atilde;o simplesmente desconsideradas. Veja nossas batalhas pelas tarifas e pelas cobran&ccedil;as indevidas. N&atilde;o h&aacute; nenhum acesso a quest&otilde;es como renova&ccedil;&atilde;o de contratos de concess&atilde;o, altera&ccedil;&atilde;o de PGMU, entre outros temas. A ag&ecirc;ncia n&atilde;o tem um funcionamento democr&aacute;tico, nem nenhuma permeabilidade para os consumidores. &Eacute; comum vermos os diretores da ag&ecirc;ncia em reuni&otilde;es com concession&aacute;rias, operadoras, em semin&aacute;rios e outros eventos. Mas n&atilde;o &eacute; comum visitarem as entidades de defesa do consumidor, promoverem debates no &acirc;mbito da ag&ecirc;ncia, facilitar informa&ccedil;&otilde;es etc&#8230;<\/p>\n<p><strong>Como voc&ecirc; avalia o modelo de privatiza&ccedil;&atilde;o &agrave; luz das demandas que temos agora? <\/strong><br \/>Acho que o acerto foi a cria&ccedil;&atilde;o de mecanismos regulat&oacute;rios para que o setor de telecomunica&ccedil;&otilde;es realmente se expandisse em termos de infra-estrutura e amplia&ccedil;&atilde;o do acesso. Outro acerto foi a cria&ccedil;&atilde;o de mecanismos que propiciassem a competi&ccedil;&atilde;o, ainda que eles n&atilde;o tenham sido implementados at&eacute; agora. Esse modelo funcionou em alguma medida, onde a competi&ccedil;&atilde;o conseguiu se estabelecer. A diferen&ccedil;a de possibilidade de acesso, se comparada com a situa&ccedil;&atilde;o de quinze anos atr&aacute;s, &eacute; radical. O que falhou foi que o modelo n&atilde;o previu o tratamento discriminat&oacute;rio entre os usu&aacute;rios, a garantia de uma tarifa social, como foi feito na energia el&eacute;trica. A privatiza&ccedil;&atilde;o da distribui&ccedil;&atilde;o da energia el&eacute;trica, por sua vez, demandava menos investimentos em infra-estrutura para a distribui&ccedil;&atilde;o. Ent&atilde;o, se &eacute; preciso altos investimentos e voc&ecirc; est&aacute; num pa&iacute;s com as caracter&iacute;sticas s&oacute;cio-econ&ocirc;micas do Brasil, a previs&atilde;o legal que garanta uma tarifa social para os consumidores de baixa renda &eacute; altamente necess&aacute;ria para garantir a universaliza&ccedil;&atilde;o, tanto pelo vi&eacute;s do acesso pela infra-estrutura quanto pelo vi&eacute;s do acesso pelo pre&ccedil;o.<\/p>\n<p>Outro problema que vejo &eacute; que a telefonia m&oacute;vel acabou cumprindo o papel de &ldquo;competidora da telefonia fixa&rdquo;, penalizando o usu&aacute;rio mais pobre. O problema &eacute; que, no caso do regime privado, ao qual est&aacute; submetida a telefonia m&oacute;vel, n&atilde;o h&aacute; metas de universaliza&ccedil;&atilde;o. Existem por volta de 2200 munic&iacute;pios que n&atilde;o t&ecirc;m cobertura de sinal. E isso se deu de uma maneira n&atilde;o prevista pelo modelo e n&atilde;o houve flexibilidade por parte dos respons&aacute;veis para corrigir isso. As empresas-espelho tamb&eacute;m n&atilde;o deram certo, pois, pelas regras da &eacute;poca, n&atilde;o podiam cobrar pela telefonia fixa menos do que as concession&aacute;rias. Que competi&ccedil;&atilde;o &eacute; essa, se eu n&atilde;o posso entrar no mercado cobrando menos que a minha competidora e, ainda, fico ref&eacute;m dela para prestar meu servi&ccedil;o?<\/p>\n<p>Este cen&aacute;rio foi amplamente conveniente para as concession&aacute;rias, porque elas tamb&eacute;m s&atilde;o s&oacute;cias das operadoras de telefonia celular e as chamadas de fixo para m&oacute;vel e vice-versa trazem mais receitas para as elas. Ou seja, as concession&aacute;rias t&ecirc;m dois bolsos, o da empresa de telefonia fixa e o da operadora da telefonia m&oacute;vel, portanto, para elas est&aacute; tudo bem.<\/p>\n<p><strong>Sendo que a desagrega&ccedil;&atilde;o est&aacute; prevista na lei, n&atilde;o seria prevarica&ccedil;&atilde;o da Anatel n&atilde;o cumpri-la?<\/strong><br \/>Acredito que sim e vamos questionar isso, pelo vi&eacute;s da improbidade administrativa. O consumidor ganhou com o modelo, mas poderia ter ganhado mais se a ANATEL fosse mais eficiente, mais comprometida com o interesse social e com os consumidores. Isso sem falar do mau atendimento, das cobran&ccedil;as indevidas, da falta de discrimina&ccedil;&atilde;o no detalhamento das contas e a fiscaliza&ccedil;&atilde;o insipiente da ANATEL. N&atilde;o h&aacute; d&uacute;vida que ganhamos; mas n&atilde;o podemos ser ing&ecirc;nuos e deixar de reconhecer que n&oacute;s &eacute; que financiamos tudo isso e que as concession&aacute;rias, pesando os dois lados da balan&ccedil;a, ganharam muito mais. Agora, depois de dez anos de sacrif&iacute;cio, j&aacute; &eacute; a hora de dar o retorno para a sociedade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Representante dos usu\u00e1rios no Conselho Consultivo da Anatel diz que altera\u00e7\u00e3o no PGMU \u00e9 ilegal<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[43],"tags":[721],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/20952"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=20952"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/20952\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=20952"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=20952"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=20952"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}