{"id":20943,"date":"2008-04-11T17:10:22","date_gmt":"2008-04-11T17:10:22","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=20943"},"modified":"2008-04-11T17:10:22","modified_gmt":"2008-04-11T17:10:22","slug":"os-jovens-e-as-lan-houses","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=20943","title":{"rendered":"Os jovens e as lan houses"},"content":{"rendered":"<p><em>L&iacute;der de projetos do Centro de Tecnologia e Sociedade da Funda&ccedil;&atilde;o Get&uacute;lio Vargas Direito\/Rio, o advogado Ant&ocirc;nio Carvalho Cabral integra a equipe que est&aacute; &agrave; frente de uma pesquisa bastante interessante: o universo das lan houses de cinco comunidades de baixa renda do Rio de Janeiro. S&atilde;o elas: Rocinha, Manguinhos, Jacarezinho, Antares e Vila Paci&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>O que vem sendo constatado &eacute; precioso e estrat&eacute;gico, pois revela o grande impacto que os estabelecimentos t&ecirc;m na vida da popula&ccedil;&atilde;o local, especialmente no cotidiano de crian&ccedil;as e jovens. &ldquo;As lan houses representam, para crian&ccedil;as e jovens, uma forma segura de lazer, a possibilidade de sa&iacute;rem das ruas e da criminalidade, uma forma de aprenderem a utilizar a tecnologia como ferramenta para um futuro profissional, enfim, representam cidadania, dignidade, educa&ccedil;&atilde;o e divers&atilde;o&rdquo;, afirma Ant&ocirc;nio Cabral.<\/p>\n<p>Em entrevista ao RIO M&Iacute;DIA, o advogado, especialista em direitos autorais, destaca ainda que as lan houses v&ecirc;m contribuindo para a inclus&atilde;o social e digital e que os estabelecimentos podem, sem d&uacute;vida alguma, ampliar o papel que desempenham.<\/em><\/p>\n<p>*<\/p>\n<p><strong>Qual &eacute; a principal fun&ccedil;&atilde;o que as lan houses desempenham hoje nas comunidades pesquisadas?<br \/><\/strong>Possibilitar a inclus&atilde;o digital de uma popula&ccedil;&atilde;o carente sem condi&ccedil;&otilde;es de acessar computadores e a internet de outras formas. Tamanho &eacute; essa revolu&ccedil;&atilde;o que, em 2005, dentre todos os acessos a internet no Brasil, apenas 18% eram feitos por meio das lan houses. Em 2006, esse percentual cresceu para 30%. E, em 2007, chegamos a 49%. E o mais interessante: quanto menor a renda e menor a faixa et&aacute;ria, maior o &iacute;ndice de acessos por meio das lan houses, o que demonstra claramente a import&acirc;ncia delas como fen&ocirc;meno de inclus&atilde;o digital no Brasil. Esses n&uacute;meros s&atilde;o fruto de um estudo realizado pelo Cetic (Centro de Estudos sobre as Tecnologias da Informa&ccedil;&atilde;o e da Comunica&ccedil;&atilde;o) e foram constatados, ainda de forma mais acentuada, nas pesquisas de campo que realizamos. Na Rocinha, existem cerca de 100 lan houses em funcionamento, sendo uma verdadeira febre entre os jovens da comunidade. Em Jacarezinho, existem cerca de 40. E em Manguinhos, cerca de 60. Em Antares, comunidade carente da Zona Oeste do Rio, h&aacute; sete lan houses, todas fruto do esfor&ccedil;o de um jovem morador da comunidade, o Anderson, que, apesar de sua origem humilde, aprendeu a montar computadores e a fazer manuten&ccedil;&atilde;o dos mesmos. Vila Paci&ecirc;ncia foi a &uacute;nica comunidade sem lan houses, mas mesmo nesse caso os jovens acessa a internet nas lan houses existentes na comunidade de Ponte Quebrada, que fica a cerca de 1 km.<\/p>\n<p><strong>Por que h&aacute; esta explos&atilde;o de estabelecimentos nessas comunidades?<br \/><\/strong>Porque existia uma demanda reprimida. Isso &eacute; apenas um reflexo do empreendedorismo dos moradores das favelas que enxergaram um nicho de neg&oacute;cio com muito potencial. Outro fator a ser levado em considera&ccedil;&atilde;o &eacute; justamente a informalidade em que se encontra a maioria das lan houses. Por serem informais, os custos caem muito, propiciando uma boa margem de lucro para os empreendedores. Um caso interessante aconteceu na Rocinha. Ao conversar com um dono de uma lan house, ele disse: &ldquo;Doutor, fala a verdade. Voc&ecirc; est&aacute; fazendo todas essas perguntas porque tem interesse de abrir sua pr&oacute;pria lan house&rdquo;. E emendou: &ldquo;Mas n&atilde;o tem problema. Aqui tem espa&ccedil;o para todos. S&oacute; n&atilde;o abre entre a Rua Dois e a Quatro, &eacute; onde mora o meu p&uacute;blico&rdquo;. Ou seja, h&aacute; um mercado sedento, da&iacute; esse <em>boom<\/em>.<\/p>\n<p><strong>Voc&ecirc; acredita que o n&uacute;mero de lan houses vai crescer ainda mais? <br \/><\/strong>Acreditamos que sim. Fazendo uma avalia&ccedil;&atilde;o do crescimento nos &uacute;ltimos anos, percebe-se que ainda existe potencial. Uma a&ccedil;&atilde;o do Governo poderia aumentar este n&uacute;mero. Ao fornecer, por exemplo, conex&atilde;o<em> wi-fi<\/em> gratuita, os custos das lan Houses ficariam mais baixos, o que tornaria poss&iacute;vel, inclusive, a formalidade destes estabelecimentos e os livrariam de poss&iacute;veis interven&ccedil;&otilde;es de policiais corruptos e traficantes.<\/p>\n<p><strong>O que as lan Houses representam para as crian&ccedil;as e os jovens das comunidades pesquisadas?<br \/><\/strong>As lan houses representam uma forma segura de lazer, a possibilidade de sa&iacute;rem das ruas e da criminalidade ali existentes, uma forma de aprenderem a utilizar a tecnologia como ferramenta para um futuro profissional, enfim, representam cidadania, dignidade, educa&ccedil;&atilde;o e divers&atilde;o. Os jovens ganharam uma alternativa de lazer que os tira das ruas, o que tranq&uuml;iliza os pais, que muitas vezes passam o dia fora trabalhando. Al&eacute;m disso, a lan house se transformou num canal eficiente para fazer pesquisas e trabalhos escolares. Incr&iacute;vel notar que, apesar do uso ainda um pouco limitado dos computadores, os jovens e as crian&ccedil;as s&atilde;o de um modo geral autodidatas. Curioso foi perceber que os jovens destas comunidades usam o tempo livre da mesma forma que os jovens norte-americanos. Em nossas visitas levamos uma pesquisadora norte-americana que disse exatamente isso. A &uacute;nica diferen&ccedil;a est&aacute; no tipo de site acessado. Se nos EUA os jovens utilizam o Myspace, no Brasil eles usam o Orkut. Se l&aacute; usam o Flicker, aqui &eacute; o Flog&atilde;o. Na pr&aacute;tica, tanto americanos quanto brasileiros executam as mesmas tarefas. As lan houses aproximam, no &acirc;mbito do lazer e do h&aacute;bito, jovens das mais diferentes classes sociais e pa&iacute;ses.<\/p>\n<p><strong>O que fazem as crian&ccedil;as e os jovens nas lan houses? <br \/><\/strong>De um modo geral, eles acessam o Orkut, o MSN e o Flog&atilde;o, al&eacute;m de jogos on-line, como o <em>World of Warcraft<\/em> e <em>Counter Strike<\/em>. Fazem tamb&eacute;m pesquisas escolares e auxiliam seus pais, resolvendo alguns problemas por meio do computador (curr&iacute;culo, empregos, CPF, etc.). O curioso &eacute; observar que existem verdadeiras comunidades entre os freq&uuml;entadores de cada lan house. Na Rocinha, por exemplo, aconteceu a festa do encontro das lan houses, com um grande baile que confraternizava os freq&uuml;entadores de cada estabelecimento. Outro aspecto interessante &eacute; a quebra das barreiras criadas pelas fac&ccedil;&otilde;es criminosas. Ou seja, por meio da internet, os jovens podem ter uma rela&ccedil;&atilde;o sadia com jovens de comunidades rivais, algo impens&aacute;vel quando se pensa em encontros reais. <\/p>\n<p><strong>H&aacute; algum tipo de regra\/proibi&ccedil;&atilde;o no acesso que as crian&ccedil;as e os jovens fazem nestes espa&ccedil;os?<br \/><\/strong>As lan houses destas comunidades primam pela informalidade, ou seja, o controle varia de lan house para lan house, mas, de um modo geral, existe uma grande liberdade para o uso da internet. At&eacute; porque a realidade em que eles se encontram j&aacute; &eacute; permeada de viol&ecirc;ncia. Existem decis&otilde;es judiciais no Estado de Minas que pro&iacute;bem certos jogos nas lan houses por serem violentos, o que dentro das comunidades n&atilde;o faz o menor sentido, j&aacute; que a grande viol&ecirc;ncia est&aacute; nas ruas onde eles vivem.<\/p>\n<p><strong>Voc&ecirc;s apostam na amplia&ccedil;&atilde;o do papel das lan houses. O que voc&ecirc;s vislumbram?<br \/><\/strong>Sem d&uacute;vida. O objetivo final da pesquisa &eacute; justamente esse: saber de que forma podemos intervir nas lan houses sem atrapalhar o desenvolvimento desse fen&ocirc;meno. Primeiramente, seria muito importante criarmos um modelo que torne poss&iacute;vel trazer essas lojas para a formalidade, seja atrav&eacute;s de um acordo com as empresas de software, para conseguirmos licen&ccedil;as espec&iacute;ficas dos softwares mais utilizados, ou implementando a cultura do software livre. A pr&oacute;pria Prefeitura do Rio j&aacute; possui uma pol&iacute;tica de desburocratiza&ccedil;&atilde;o dos neg&oacute;cios em comunidades de baixa renda. O Decreto n.&ordm; 25.536 de 2005 estabelece a isen&ccedil;&atilde;o da taxa de licen&ccedil;a para empreendimentos em favelas. Posteriormente, poder&iacute;amos criar parcerias entre as lan houses e as escolas, as ONGs e as empresas, no sentido de utilizar o espa&ccedil;o para oferecer cursos para os jovens. Conversando com os pais dos adolescentes destas comunidades, percebemos uma grande demanda por cursos que poderiam ser oferecidos nas lan houses. Os pais poderiam barganhar com os filhos. Eles pagam pelo divertimento das crian&ccedil;as e elas, por outro lado, participam dos cursos oferecidos. J&aacute; h&aacute; a infra-estrutura t&eacute;cnica (as pr&oacute;prias lan houses) e a presen&ccedil;a e o interesse das crian&ccedil;as e dos jovens (que j&aacute; passam grande per&iacute;odo dentro das lan houses). Falta apenas viabilizar as parcerias para que as lan houses ofere&ccedil;am os cursos. N&atilde;o cursos tradicionais, mas m&oacute;dulos que ensinem como, por exemplo, melhor explorar a internet, como a web pode ser &uacute;til para diversas profiss&otilde;es, programa&ccedil;&atilde;o de games, etc. <\/p>\n<p><strong>Pelo que voc&ecirc;s t&ecirc;m visto, portanto, n&atilde;o h&aacute; nenhum di&aacute;logo entre as lan houses e as escolas que funcionam nestas comunidades. Na sua avalia&ccedil;&atilde;o, haveria espa&ccedil;o para essa parceria?<br \/><\/strong>N&atilde;o identificamos nenhuma rela&ccedil;&atilde;o direta e formal entre as escolas e as lan houses. O que ocorre &eacute; a utiliza&ccedil;&atilde;o dos alunos, por conta pr&oacute;pria, da internet para fazer trabalhos escolares. Com certeza poderia haver parcerias entre as escolas e as lan houses, seja para dar descontos para os alunos ou at&eacute; para que os professores utilizassem a estrutura da lan house para oferecer cursos. No entanto, o mais importante no momento &eacute; dar prosseguimento a nossa pesquisa para entender com maior profundidade os poss&iacute;veis efeitos de qualquer interven&ccedil;&atilde;o nas lan houses, uma vez que, sem nenhuma interven&ccedil;&atilde;o, elas s&atilde;o um fen&ocirc;meno de massa e j&aacute; respondem por 49% dos acessos a internet no Brasil. &Eacute; preciso primeiro entender os interesses e as necessidades das comunidades carentes, dos jovens e dos donos das lan houses para, ent&atilde;o, intervir para melhor atender todos os envolvidos. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pesquisador da FGV fala sobre estudo que acompanha o cotidiano de lan houses no Rio<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[43],"tags":[681,680],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/20943"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=20943"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/20943\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=20943"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=20943"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=20943"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}