{"id":20936,"date":"2008-04-11T14:51:28","date_gmt":"2008-04-11T14:51:28","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=20936"},"modified":"2008-04-11T14:51:28","modified_gmt":"2008-04-11T14:51:28","slug":"a-demissao-na-tv-brasil-e-o-jornalismo-preguicoso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=20936","title":{"rendered":"A demiss\u00e3o na TV Brasil e o jornalismo pregui\u00e7oso"},"content":{"rendered":"<p><span>O jornalismo mais pregui&ccedil;oso que existe &eacute; o chamado jornalismo declarat&oacute;rio. O rep&oacute;rter n&atilde;o precisa nem levantar da cadeira; recebe um telefonema de algu&eacute;m, que diz o que quer, geralmente sobre outro algu&eacute;m. O rep&oacute;rter anota tudo, e em seguida, liga para o alvo do primeiro telefonema, dizendo que algu&eacute;m est&aacute; fazendo uma den&uacute;ncia contra ele, e que precisa ouvir o que o segundo tem a dizer sobre isso. Pronto. Como o rep&oacute;rter &quot;ouviu os dois lados da hist&oacute;ria&quot;, o dever dele est&aacute; cumprido. Ele, ent&atilde;o, aperta o &quot;send&quot; e manda o texto para o jornal.<\/p>\n<p><\/span><span>Mas&#8230; e se o que o primeiro telefonema relatou for uma deslavada mentira? Uma hist&oacute;ria bem inventada, ardilosa, nascida de um cora&ccedil;&atilde;o partido? Arquitetada por um marido tra&iacute;do, namorado dispensado ou jornalista demitido?<\/p>\n<p><\/span><span>Fica o dito e o contradito, palavra contra palavra. A verdade, o que aconteceu mesmo, &eacute; um mero detalhe. A mentira tamb&eacute;m. Mas, muitas vezes, um detalhe que achincalha reputa&ccedil;&otilde;es, mancha trabalho &aacute;rduo. De um dia para o outro, a mentira vira verdade. Dois dias depois, vira editorial, embasa opini&otilde;es de outras pessoas. At&eacute; de colunistas muito sabidos, mas pouco conhecidos no mercado que eles insistem em comentar.<\/p>\n<p><\/span><span>A s&eacute;rie de reportagens envolvendo a TV Brasil, que come&ccedil;ou na Folha de S. Paulo (justamente no Dia do Jornalista, 7 de abril) e espalhou-se sem reflex&atilde;o por outros ve&iacute;culos, &eacute; exemplo t&iacute;pico de jornalismo declarat&oacute;rio &ndash; o mais pregui&ccedil;oso que existe. A manchete deixa claro: &quot;Jornalista acusa Planalto de interferir na TV Brasil&quot;. A fonte &eacute; um jornalista que se diz &quot;sob press&atilde;o insuport&aacute;vel&quot; acaba de sair da pr&oacute;pria TV. Uau! &Eacute; abre de p&aacute;gina! <\/p>\n<p><\/span><span>Quem &eacute; o jornalista? Luiz Lobo, o &acirc;ncora, o editor-chefe. Deve ter pedido demiss&atilde;o, imolando-se pela causa do bom jornalismo. N&atilde;o. Foi demitido. Sob alega&ccedil;&atilde;o de que queria mandar sem estar presente. Detalhe, portanto. Chegava no fim da tarde e queria mudar os textos de um telejornal que come&ccedil;a a ser feito de manh&atilde;. Est&aacute; na internet que ele &eacute; CEO e &quot;founder&quot; de uma produtora de v&iacute;deo nos Estados Unidos. Tudo isso deve dar muito trabalho. H&aacute; registro nas atas de reuni&atilde;o de pauta: entre 16 de janeiro e 04 de abril, dia em que foi demitido, o editor-chefe compareceu a sete (07) encontros, realizados &agrave;s 11 da manh&atilde;. Neste per&iacute;odo foram exatas 50 reuni&otilde;es. Pouco mais de 10% de presen&ccedil;a reprova qualquer um.<\/p>\n<p><\/span><span>E se havia tanta &quot;interfer&ecirc;ncia do Planalto&quot;, &quot;press&atilde;o insuport&aacute;vel&quot;, por que o jornalista demitido n&atilde;o pediu demiss&atilde;o antes? Por que a reda&ccedil;&atilde;o n&atilde;o saiu toda junto com ele, como, em carta enviada &agrave; dire&ccedil;&atilde;o da empresa, ele tinha dito que iria acontecer?<\/p>\n<p><\/span><span>Mais detalhes: a &quot;v&iacute;tima&quot; alega que foi pressionanda por uma &quot;interventora do Planalto&quot;. O rep&oacute;rter que ouve isso, ent&atilde;o, faz o qu&ecirc;? Comprova as acusa&ccedil;&otilde;es, certo? Se houve press&atilde;o em favor do governo, &eacute; s&oacute; ver as reportagens e como elas sa&iacute;ram. Os VTs est&atilde;o no You Tube. Ent&atilde;o d&aacute; pra verificar se a acusa&ccedil;&atilde;o &eacute; s&eacute;ria sem sair da cadeira. &Oacute;timo, at&eacute; para o jornalismo pregui&ccedil;oso.<\/p>\n<p><\/span><span>Mas que est&aacute; nas mat&eacute;rias &eacute; s&oacute; outro detalhe. Oposi&ccedil;&atilde;o falando que &eacute; dossi&ecirc;, governo dizendo que &eacute; base de dados. O que faz a TV Brasil? Mostra as duas vers&otilde;es, sem tomar uma delas como definitiva. N&atilde;o se apropria dos termos que denotam acreditar num ou noutro lado. Fraca a interventora, n&atilde;o? L&ecirc; todos os textos e n&atilde;o publica a vers&atilde;o do governo. E permite os dois lados darem suas vers&otilde;es&#8230;<\/p>\n<p><\/span><span>E a hist&oacute;ria da CPMF? A pauta surgiu de uma entrevista do presidente do Conselho Nacional de Sa&uacute;de na R&aacute;dio Nacional, na qual ele alertava: com aquele or&ccedil;amento, depois do corte motivado pela queda da CPMF, o dinheiro acabaria antes que o ano. Pauta aprovada na reuni&atilde;o &ndash; neste dia, na presen&ccedil;a do editor-chefe. No ar, a reportagem mostrou filas, gente chorando, hospitais aos peda&ccedil;os. Dizia que o dinheiro acabaria em setembro, mas n&atilde;o citava a CPMF. Ora: mat&eacute;rias precisam responder, sempre, os tais &quot;quem, que, como, onde, quando e por que&quot;. Faltava o &uacute;ltimo item. Logo, havia uma falha nela. <\/p>\n<p><\/span><span>O que chegou ao telespectador foi uma reportagem com as mazelas da sa&uacute;de sem falar no corte da CPMF. Virou prova de &quot;censura&quot; e &quot;jornalismo chapa branca&quot;. Errado. Se foi ao ar (e foi), n&atilde;o houve censura. E n&atilde;o foi chapa branca; foi chapa preta. E como a chapa da TV P&uacute;blica n&atilde;o tem cor, os respons&aacute;veis foram advertidos. Quem aprovou o VT n&atilde;o foi a &quot;interventora&quot;. Foi o editor-chefe. Mas isso &eacute; s&oacute; mais um detalhe.<\/p>\n<p><\/span><span>A &quot;interventora&quot; tem mais de 15 anos de experi&ecirc;ncia em reda&ccedil;&otilde;es de TV em Bras&iacute;lia. &Eacute;, sim, casada com um assessor do Planalto. Mas o que &eacute; que isso prova? James Carvile, famoso conselheiro de Bill Clinton (o que cunhou a frase &quot;&eacute; a economia, est&uacute;pido&quot;) &eacute; casado com Mary Matalin, consultora pol&iacute;tica do partido republicano, advers&aacute;rio de Clinton. Casamento n&atilde;o &eacute; problema para gente que tem &eacute;tica. Geralmente &eacute; para quem n&atilde;o tem. <\/p>\n<p><\/span><span>Se h&aacute; interfer&ecirc;ncia, ela precisa aparecer em algum lugar. Al&eacute;m, claro, da cabe&ccedil;a do jornalista demitido e da manchete dos jornais.<\/p>\n<p><\/span><span>O jornalista demitido alega que n&atilde;o tinha liberdade de sequer escrever manchetes. Pois bem: os ve&iacute;culos que publicaram a hist&oacute;ria se importariam de contar ao leitor como s&atilde;o escritas as suas pr&oacute;prias manchetes? Algu&eacute;m faz isso sozinho? Ou passa por uma s&eacute;rie de pessoas, num processo de revis&atilde;o editorial? &Eacute; assim em qualquer reda&ccedil;&atilde;o, por quest&atilde;o de controle de qualidade. Jornalismo &eacute; atividade conjunta, ainda mais numa emissora p&uacute;blica. Mais at&eacute; num ve&iacute;culo em forma&ccedil;&atilde;o, no qual turnos de 12 ou 14 horas por dia, para as chefias, t&ecirc;m sido comuns. Menos para o editor-chefe.<\/p>\n<p><\/span><span>A melhor resposta a qualquer acusa&ccedil;&atilde;o de partidarismo ou interfer&ecirc;ncia na TV Brasil vai ao ar todos os dias, &agrave;s oito da manh&atilde; e &agrave;s nove da noite, nas duas edi&ccedil;&otilde;es do Rep&oacute;rter Brasil, nas emissoras p&uacute;blicas de 21 estados brasileiros. Tamb&eacute;m est&aacute; nos notici&aacute;rio difundido por mais de 500 emissoras de r&aacute;dio, da Rede Nacional de R&aacute;dio. E no conte&uacute;do da Ag&ecirc;ncia Brasil, republicado por incont&aacute;veis jornais e na sua pr&oacute;pria p&aacute;gina na internet. Todos s&atilde;o ve&iacute;culos EBC. N&atilde;o temos vergonha do jornalismo que praticamos. N&atilde;o temos constrangimento.<\/span><span>&nbsp;<\/span><span>Nem pregui&ccedil;a.<\/p>\n<p><em>* Eduardo Castro &eacute; gerente executivo de jornalismo da EBC &#8211; Empresa Brasil de Comunica&ccedil;&atilde;o.<\/em><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O jornalismo mais pregui&ccedil;oso que existe &eacute; o chamado jornalismo declarat&oacute;rio. O rep&oacute;rter n&atilde;o precisa nem levantar da cadeira; recebe um telefonema de algu&eacute;m, que diz o que quer, geralmente sobre outro algu&eacute;m. 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