{"id":20931,"date":"2008-04-11T14:16:16","date_gmt":"2008-04-11T14:16:16","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=20931"},"modified":"2008-04-11T14:16:16","modified_gmt":"2008-04-11T14:16:16","slug":"comunicacao-e-dialogo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=20931","title":{"rendered":"Comunica\u00e7\u00e3o \u00e9 di\u00e1logo"},"content":{"rendered":"<p><span>Ningu&eacute;m &eacute; dono da raz&atilde;o final a priori. A raz&atilde;o n&atilde;o se imp&otilde;e pela propaganda, pelo mon&oacute;logo do proselitismo. Ela s&oacute; adquire validade quando faz sentido natural para o conjunto dos interlocutores &ndash; e comunicar &eacute; justamente isto: tecer o sentido comum. Comunicar &eacute; buscar pontes de entendimento. &Eacute; dialogar.<\/p>\n<p>O<\/span><span>s respons&aacute;veis pela media&ccedil;&atilde;o do debate p&uacute;blico n&atilde;o podem mais ignorar o fato de que nada &eacute; mais danoso &ndash; e enganoso &ndash; do que p&ocirc;r os meios de comunica&ccedil;&atilde;o a servi&ccedil;o de ide&aacute;rios prontos e fechados. Esse tipo de pr&aacute;tica &ndash; em meios p&uacute;blicos ou privados, tanto faz &ndash; n&atilde;o constr&oacute;i confian&ccedil;a, n&atilde;o estimula a diverg&ecirc;ncia e a participa&ccedil;&atilde;o cr&iacute;tica, n&atilde;o emancipa o cidad&atilde;o. Nos dias atuais, de inova&ccedil;&otilde;es tecnol&oacute;gicas e pol&iacute;ticas que n&atilde;o cessam, nenhuma sociedade gera um espa&ccedil;o p&uacute;blico saud&aacute;vel na base da obedi&ecirc;ncia e da concord&acirc;ncia. Foi-se o tempo em que comunica&ccedil;&atilde;o era um alto-falante na pracinha da prov&iacute;ncia. Foi-se o tempo em que a receita era adestrar as massas.<\/p>\n<p><\/span><span>As t&eacute;cnicas de massifica&ccedil;&atilde;o corroem a credibilidade dos pr&oacute;prios meios. N&atilde;o promovem o encontro de opini&otilde;es complementares, n&atilde;o respeitam nem assimilam os pontos de vista alternativos &ndash; apenas militam para fazer prevalecer o interesse de quem exerce poder econ&ocirc;mico ou pol&iacute;tico sobre a media&ccedil;&atilde;o do debate. N&atilde;o raro, poder abusivo. A massifica&ccedil;&atilde;o at&eacute; consegue potencializar fanatismos de diversas naturezas, mas n&atilde;o gera sabedoria compartilhada. Pode compactar as maiorias em momentos espec&iacute;ficos, mas no longo prazo conduz &agrave; destrui&ccedil;&atilde;o. O s&eacute;culo 20 &eacute; pr&oacute;digo em exemplos tr&aacute;gicos &ndash; e, no s&eacute;culo 21, ainda h&aacute; quem insista em retomar e reeditar as f&oacute;rmulas ultrapassadas.<\/p>\n<p><\/span><span><strong>Causas estranhas<\/p>\n<p><\/strong><\/span><span>Aos mais ansiosos os tr&ecirc;s par&aacute;grafos acima talvez soem gen&eacute;ricos, abstratos, descolados das atualidades ditas jornal&iacute;sticas, dos dossi&ecirc;s da vida, da dengue desgovernada, dos congestionamentos. E, no entanto, essas palavras, assim mesmo, aparentemente vagas, tocam no &acirc;mago da qualidade do debate p&uacute;blico e na capacidade que ele tem ou n&atilde;o tem de encarar e superar seus impasses. Eis aqui um dos temas mais graves dos nossos tempos. Um dos mais urgentes, tamb&eacute;m. Eis aqui um tema visceralmente jornal&iacute;stico.<\/p>\n<p><\/span><span>No universo da comunica&ccedil;&atilde;o social brasileira, temos vivido sob o risco crescente da polariza&ccedil;&atilde;o extremada e suas deturpa&ccedil;&otilde;es inerentes: a desqualifica&ccedil;&atilde;o de quem diverge, a tentativa de dizimar a reputa&ccedil;&atilde;o alheia, a agressividade que se volta contra a pessoa sem se ocupar dos argumentos, as manipula&ccedil;&otilde;es deliberadas. O mesmo risco pesa de modo particular sobre o jornalismo. <\/p>\n<p><\/span><span>Embora n&atilde;o caiba, aqui, nenhum tipo de generaliza&ccedil;&atilde;o, &eacute; poss&iacute;vel notar, em alguns epis&oacute;dios, que not&iacute;cias e manchetes s&atilde;o moldadas, volunt&aacute;ria ou involuntariamente, segundo uma l&oacute;gica que tende a submeter o significado dos fatos a uma disputa meramente partid&aacute;ria e ocasional. A&iacute;, o relato dos acontecimentos vira um acess&oacute;rio no embate oposi&ccedil;&atilde;o versus situa&ccedil;&atilde;o e o notici&aacute;rio se reduz a um ringue em que se enfrentam as vaidades da esquerda, ou do que se diz esquerda, e da direita, ou daquilo que se sup&otilde;e ser a direita. <\/p>\n<p><\/span><span>De um lado, &eacute; not&iacute;cia o que fere o governo. Do outro lado, &eacute; not&iacute;cia o que desmoraliza a oposi&ccedil;&atilde;o. Onde est&atilde;o os fatos? Onde est&atilde;o as discuss&otilde;es de fundo? Onde est&aacute; a realidade complexa e surpreendente? Ser&aacute; que o que define a ess&ecirc;ncia de um ve&iacute;culo jornal&iacute;stico, ent&atilde;o, &eacute; isto: saber se ele &eacute; contra ou a favor desse ou daquele governo?<\/p>\n<p><\/span><span>O jornalismo &ndash; assim como a comunica&ccedil;&atilde;o social &ndash; n&atilde;o funciona adequadamente quando se deixa reger pelos par&acirc;metros da l&oacute;gica partid&aacute;ria. Ao se render a esses par&acirc;metros, a imprensa renuncia a seu campo pr&oacute;prio e se converte em instrumento de causas estranhas ao direito &agrave; informa&ccedil;&atilde;o. A pr&oacute;pria pol&iacute;tica &ndash; a pol&iacute;tica em seu sentido mais alto &ndash; sai prejudicada.<\/p>\n<p><\/span><span><strong>Partidos raivosos<\/p>\n<p><\/strong><\/span><span>Em vez de operar segundo ditames partid&aacute;rios de ocasi&atilde;o, cabe &agrave; imprensa observar e cobrir os partidos e suas escaramu&ccedil;as, vendo-os de fora. Os interesses dos partidos e dos governos devem representar, para os encarregados da comunica&ccedil;&atilde;o social, n&atilde;o uma baliza para alinhamentos ou combates sistem&aacute;ticos, mas um fen&ocirc;meno externo. Infelizmente, contudo, se observarmos com cuidado, veremos que esse tipo de desvio ainda n&atilde;o foi totalmente superado. Entre n&oacute;s ainda sobrevive uma concep&ccedil;&atilde;o excessivamente instrumental dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o, que s&atilde;o vistos &ndash; e, por vezes, s&atilde;o administrados &ndash; como porta-vozes da corrente A ou B e nada mais.<\/p>\n<p><\/span><span>Ora, sem preju&iacute;zo das vis&otilde;es de mundo que toma como miss&atilde;o &ndash; vis&otilde;es que jamais se deveriam rebaixar a programas partid&aacute;rios &ndash;, um &oacute;rg&atilde;o de imprensa alcan&ccedil;a sucesso quando presta servi&ccedil;os e d&aacute; voz a seu p&uacute;blico e quando abre novos canais entre os cidad&atilde;os. Sobretudo agora, com as novas tecnologias, o di&aacute;logo passa a ser o centro do sistema nervoso da comunica&ccedil;&atilde;o. Os ve&iacute;culos ganham mais vitalidade quanto mais escapam da opacidade, quanto mais refletem a diversidade e quanto menos pretendem ser, eles mesmos, uma posi&ccedil;&atilde;o fechada a ser seguida pelo rebanho.<\/p>\n<p><\/span><span>O Brasil precisa de pontes de di&aacute;logo &ndash; e s&oacute; poder&aacute; obt&ecirc;-las da qualidade de sua comunica&ccedil;&atilde;o social, n&atilde;o das querelas partid&aacute;rias. H&aacute; bons pensadores de um lado e de outro. H&aacute; homens p&uacute;blicos de valor dentro e fora do governo. Que suas id&eacute;ias dialoguem no espa&ccedil;o p&uacute;blico. Se a comunica&ccedil;&atilde;o social e o jornalismo se deixarem formatar e organizar pelas trincheiras que partidos raivosos tentam imprimir sobre a realidade, n&atilde;o ser&atilde;o capazes de erguer as pontes necess&aacute;rias. Continuar&atilde;o, eles mesmos, entrincheirados. Abdicar&atilde;o de seu compromisso com o p&uacute;blico e com a busca da verdade &ndash; que, a prop&oacute;sito, n&atilde;o &eacute; monop&oacute;lio nem de governos nem da oposi&ccedil;&atilde;o.<\/span><span>&nbsp;<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ningu&eacute;m &eacute; dono da raz&atilde;o final a priori. A raz&atilde;o n&atilde;o se imp&otilde;e pela propaganda, pelo mon&oacute;logo do proselitismo. Ela s&oacute; adquire validade quando faz sentido natural para o conjunto dos interlocutores &ndash; e comunicar &eacute; justamente isto: tecer o sentido comum. Comunicar &eacute; buscar pontes de entendimento. &Eacute; dialogar. 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