{"id":20916,"date":"2008-04-10T10:43:02","date_gmt":"2008-04-10T10:43:02","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=20916"},"modified":"2008-04-10T10:43:02","modified_gmt":"2008-04-10T10:43:02","slug":"os-novos-terroristas-da-midia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=20916","title":{"rendered":"Os novos terroristas da m\u00eddia"},"content":{"rendered":"<p><span>Poucas vezes uma reportagem foi t&atilde;o distorcida quanto a do Jornal Nacional desta quarta-feira (9\/4) a respeito do MST. Nos dois minutos e vinte e quatro segundos da mat&eacute;ria busca-se a criminaliza&ccedil;&atilde;o dos camponeses; para tanto, imagens e palavras s&atilde;o cuidadosamente articuladas para transmitir ao telespectador a id&eacute;ia de que os militantes do MST &eacute; quem s&atilde;o os respons&aacute;veis por todo o medo que ronda os paraenses. <\/p>\n<p><\/span><span>Logo na abertura da mat&eacute;ria, o fundo escurecido por tr&aacute;s do apresentador exibe a sombra de tr&ecirc;s camponeses portando ferramentas de trabalho em posi&ccedil;&otilde;es amea&ccedil;adoras, como a destruir a cerca cuidadosamente iluminada pelo departamento de arte da emissora. Quando os militantes aparecem nas imagens, est&atilde;o montando o acampamento e utilizando folhas de palmeiras &#8211; naturalmente j&aacute; arrancadas das &aacute;rvores. Quando a mat&eacute;ria corta para ouvir a opini&atilde;o de um empres&aacute;rio local, ele tem ao fundo exatamente uma folha de palmeira, s&oacute; que firme no solo &#8211; e vistosa, viva. O representante da Vale do Rio Doce &eacute; o que tem mais tempo para se manifestar, tanto tempo que at&eacute; gagueja &#8211; e balbucia: &quot;esses movimentos&#8230; est&atilde;o [nos] impedindo de trabalhar&quot;. Em nenhum momento os representantes do MST s&atilde;o ouvidos, o que contraria, inclusive, as pr&oacute;prias regras do jornalismo da Globo. Mas quando os interesses comerciais de empresas amigas est&atilde;o em jogo, no caso a Vale do Rio Doce, tudo indica que essas regras s&atilde;o postas de lado.<\/p>\n<p><\/span><span>Outro dado marcante desta reportagem veiculada pelo Jornal Nacional &eacute; a descontextualiza&ccedil;&atilde;o dos fatos. O telespectador &eacute; apenas informado que o MST &ldquo;amea&ccedil;a invadir a Estrada de Ferro Caraj&aacute;s, da Companhia Vale&rdquo;, mas n&atilde;o se explica que esta a&ccedil;&atilde;o direta tem uma origem: a privatiza&ccedil;&atilde;o fraudulenta da Vale do Rio Doce. A companhia foi leiloada, em 1997, por R$ 3,3 bilh&otilde;es. Valor semelhante ao lucro l&iacute;quido da empresa obtido no segundo trimestre de 2005 (R$ 3,5 bi), numa clara demonstra&ccedil;&atilde;o do preju&iacute;zo causado ao patrim&ocirc;nio do povo brasileiro. Desde ent&atilde;o, cidad&atilde;os e cidad&atilde;s v&ecirc;m promovendo manifesta&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas e a&ccedil;&otilde;es judiciais que t&ecirc;m por objetivo chamar a aten&ccedil;&atilde;o da sociedade brasileira e sensibilizar as autoridades competentes para anular o processo licitat&oacute;rio. Se h&aacute; uma diferen&ccedil;a brutal entre discordar de uma determinada opini&atilde;o e omiti-la, este caso torna-se ainda mais grave porque n&atilde;o se trata de uma opini&atilde;o, e sim de um fato pol&iacute;tico: a privatiza&ccedil;&atilde;o da Vale est&aacute; sendo questionada na Justi&ccedil;a &ndash; e com grandes chances de ser revertida. Ao sonegar esta informa&ccedil;&atilde;o, a Globo comete um crime e deveria ser punida pelos &oacute;rg&atilde;os competentes.<\/p>\n<p><\/span><span>Com a mesm&iacute;ssima parcialidade age o jornal O Globo. A reportagem publicada no mesmo dia sobre o MST n&atilde;o deixa d&uacute;vidas quanto ao lado assumido pela publica&ccedil;&atilde;o. A chamada na capa diz tudo: &ldquo;MST desafia a Justi&ccedil;a e volta a amea&ccedil;ar a Vale&rdquo;; o pequeno texto, logo abaixo, aprofunda a toada: &ldquo;O MST amea&ccedil;a descumprir ordem judicial e invadir novamente a ferrovia de Caraj&aacute;s, da Vale, no Par&aacute;. Moradores da regi&atilde;o est&atilde;o atemorizados, com a cidade cercada por mais de mil militantes do MST, a quem acusam de terrorismo&rdquo;. A reportagem principal, &agrave; p&aacute;gina 9, &eacute; acompanhada de outra de igual tamanho. Ambas ouvem apenas a vers&atilde;o da mineradora privatizada pelo governo tucano de FHC. Imediatamente abaixo, como a refor&ccedil;ar a vis&atilde;o policialesca, uma fotografia de um homem morto sobre o t&iacute;tulo: &ldquo;Em Porto Alegre, um flagrante de homic&iacute;dio&rdquo;. Nenhum dos dois ve&iacute;culos (O Globo e JN) registrou o apoio recebido pelo MST por artistas, intelectuais e lideran&ccedil;as partid&aacute;rias. <\/p>\n<p><\/span><span>Esta falsa preocupa&ccedil;&atilde;o do &ldquo;Globo&rdquo; com a defesa do povo brasileiro n&atilde;o &eacute; de agora. O mesmo jornal que hoje sugere que os militantes do MST s&atilde;o terroristas por atemorizar os paraenses procedeu da mesma forma h&aacute; 44 anos, quando um golpe de Estado derrubou o presidente constitucional Jo&atilde;o Goulart. Em texto editorial do dia 2 de abril de 1964, o &ldquo;Globo&rdquo; assinalou:<\/p>\n<p><\/span><span><em>&#8211; Vive a Na&ccedil;&atilde;o dias gloriosos. Porque souberam unir-se todos os patriotas (&#8230;) para salvar o que &eacute; essencial: a democracia, a lei e a ordem. Gra&ccedil;as &agrave; decis&atilde;o e ao hero&iacute;smo das For&ccedil;as Armadas (&#8230;), o Brasil livrou-se do Governo irrespons&aacute;vel, que insistia em arrast&aacute;-lo para rumos contr&aacute;rios &agrave; sua voca&ccedil;&atilde;o e tradi&ccedil;&otilde;es. (&#8230;) Poderemos, desde hoje, encarar o futuro confiantemente (&#8230;) Salvos da comuniza&ccedil;&atilde;o que celeremente se preparava, os brasileiros devem agradecer aos bravos militares, que os protegeram de seus inimigos. (&#8230;) Aliaram-se os mais ilustres l&iacute;deres pol&iacute;ticos, os mais respeitados Governadores, com o mesmo intuito redentor que animou as For&ccedil;as Armadas. Era a sorte da democracia no Brasil que estava em jogo.(&#8230;) A esses l&iacute;deres civis devemos, igualmente, externar a gratid&atilde;o de nosso povo.(&#8230;) Se os banidos, para intrigarem os brasileiros com seus l&iacute;deres e com os chefes militares, afirmarem o contr&aacute;rio, estar&atilde;o mentindo, estar&atilde;o, como sempre, procurando engodar as massas trabalhadoras, que n&atilde;o lhes devem dar ouvidos (&#8230;).<\/p>\n<p><\/em><\/span><span>Assim como para o &ldquo;Globo&rdquo; os inimigos do passado eram aqueles que se insurgiam contra a ditadura que seq&uuml;estrou, torturou e matou milhares de brasileiros, hoje os terroristas s&atilde;o aqueles que lutam contra as multinacionais que roubam o patrim&ocirc;nio p&uacute;blico, danificam o meio-ambiente e produzem graves problemas sociais. &Eacute; exatamente por isso que ao interromper o fluxo de exporta&ccedil;&atilde;o de uma dessas empresas os militantes do MST acertam em cheio no sistema nervoso do capitalismo. Dotados apenas de enxadas e coragem, os sem-terra enfrentam jagun&ccedil;os armados, policiais e poderosos grupos de comunica&ccedil;&atilde;o &#8211; esse coquetel que tem como objetivo massacrar o povo organizado. Assim &eacute; que os militantes do MST ensinam ao povo brasileiro: n&atilde;o &eacute; uma luta justa, mas &eacute; uma luta que pode ser vencida. <\/p>\n<p><\/span><span>Por outro lado, o jornalismo das Organiza&ccedil;&otilde;es Globo mais uma vez revelou seu car&aacute;ter covarde e submisso. Aliou-se aos poderosos e rasgou o juramento profissional da categoria, sobretudo no seguinte trecho: &quot;A Comunica&ccedil;&atilde;o &eacute; uma miss&atilde;o social. Por isto, juro respeitar o p&uacute;blico, combatendo todas as formas de preconceito e discrimina&ccedil;&atilde;o, valorizando os seres humanos em sua singularidade e na luta por sua dignidade&quot;. <\/p>\n<p><\/span><span>Mas n&atilde;o h&aacute; de ser nada. A Hist&oacute;ria vai se ocupar de reservar a cada qual seu devido lugar. <\/span><\/p>\n<p><span>&nbsp;<\/span> <\/p>\n<p style=\"margin: 0cm 0cm 0pt\" class=\"MsoNormal\"><span>* Marcelo Salles &eacute;&nbsp;editor do jornal Fazendo Media (www.fazendomedia.com).<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Poucas vezes uma reportagem foi t&atilde;o distorcida quanto a do Jornal Nacional desta quarta-feira (9\/4) a respeito do MST. 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