{"id":20903,"date":"2008-04-09T12:38:25","date_gmt":"2008-04-09T12:38:25","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=20903"},"modified":"2008-04-09T12:38:25","modified_gmt":"2008-04-09T12:38:25","slug":"governo-troca-politica-de-inclusao-ampla-por-banda-larga-nas-escolas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=20903","title":{"rendered":"Governo troca pol\u00edtica de inclus\u00e3o ampla por banda larga nas escolas"},"content":{"rendered":"<p><span>No dia 7 de abril foi publicado no Di&aacute;rio Oficial da Uni&atilde;o o Decreto Presidencial 6424 que determina uma mudan&ccedil;a nos contratos de concess&atilde;o com as operadoras do Servi&ccedil;o Telef&ocirc;nico Fixo Comutado (STFC): Telefonica, Oi e Brasil Telecom.<\/p>\n<p><\/span><span>Os contratos, assinados em 2005, obrigavam que as empresas instalassem Postos de Servi&ccedil;o Telef&ocirc;nico (PSTs) em cada cidade brasileira. Menos de tr&ecirc;s anos depois, chegou-se &agrave; conclus&atilde;o que aquelas obriga&ccedil;&otilde;es estavam erradas e o pr&oacute;prio governo sugeriu a mudan&ccedil;a, sem contudo, assumir publicamente o equ&iacute;voco cometido em 2005.<br \/><\/span><span><br \/>Pelas novas regras, acordadas com as operadoras, estas deixam de estar obrigadas a instalar os PSTs&nbsp; (exceto no caso de cooperativas rurais), mas passam a ter que colocar seus backhauls em todas as sedes municipais brasileiras.<\/span><span><\/p>\n<p>Se a banda larga pudesse ser comparada com &aacute;rvores, os backbones que&nbsp; as operadoras possuem seriam os troncos, o backhaul os galhos e cada cidade brasileira uma folha. Sem o backhaul, n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel levar a seiva que vem do tronco para cada folha. Ou seja, o backhaul interliga o backbone da operadora &agrave;s cidades. No Brasil, mais de 2000 munic&iacute;pios n&atilde;o t&ecirc;m backhaul e, portanto, n&atilde;o podem se conectar &agrave; banda larga.<\/span><span><\/p>\n<p>A proposta do governo &eacute; digna de m&eacute;rito, porque, no s&eacute;culo XXI, &eacute; muito mais importante garantir a universaliza&ccedil;&atilde;o da banda larga do que do telefone fixo. Contudo, este adendo aos contratos de 2005 ainda apresenta problemas. S&atilde;o pelo menos dois.<\/span><span><\/p>\n<p>As velocidades m&iacute;nimas exigidas para cada backhaul s&atilde;o muito baixas. Por exemplo, uma imagin&aacute;ria cidade com 70.000 habitantes teria, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estat&iacute;stica (IBGE), em torno de 20.000 resid&ecirc;ncias, mas contaria com um backhaul de apenas 64 Mbps. Ou seja, se apenas 1.000 casas tiverem dinheiro para contratar o servi&ccedil;o de banda larga oferecido pela tele, ainda haveriam 19.000 exclu&iacute;das e a velocidade m&aacute;xima dispon&iacute;vel para cada resid&ecirc;ncia conectada &agrave; suposta banda larga seria de apenas 64 Kbps, ou igual &agrave;quela obtida por uma linha telef&ocirc;nica comum.<\/span><span><\/p>\n<p>E n&atilde;o h&aacute; a obriga&ccedil;&atilde;o para que a operadora fa&ccedil;a unbundling em seu backhaul. Por detr&aacute;s desse palavr&oacute;rio t&eacute;cnico, tal obriga&ccedil;&atilde;o significa que a operadora teria que vender parte da capacidade instalada do seu backhaul a qualquer provedor interessado em competir com a pr&oacute;pria tele. E a pre&ccedil;os n&atilde;o discriminat&oacute;rios, regulados pela Ag&ecirc;ncia Nacional de Telecomunica&ccedil;&otilde;es (Anatel). Essa seria a &uacute;nica forma de estimular a concorr&ecirc;ncia. Do jeito como ficou, o Decreto permite que os backhauls sejam usados exclusivamente pelos pr&oacute;prios servi&ccedil;os de banda larga das operadoras (BrTurbo, Velox e Speedy), matando qualquer possibilidade de concorr&ecirc;ncia local.<\/span><span><\/p>\n<p>Mas, principalmente, a falta do unbundling dificulta em muito o surgimento de experi&ecirc;ncias de redes comunit&aacute;rias, organizadas pelas prefeituras e\/ou pela sociedade civil, usando tecnologias sem fio, e que levam a Internet gratu&iacute;ta &agrave; pr&eacute;dios p&uacute;blicos (como bibliotecas e telecentros), mas tamb&eacute;m &agrave;s pr&oacute;prias casas, o que j&aacute; fazem Sud Minucci (SP) e Duas Barras (RJ).<\/span><span><\/p>\n<p>Em resumo, ainda que amplie o alcance da banda larga, o Decreto Presidencial 6424 est&aacute; longe de garantir a t&atilde;o sonhada inclus&atilde;o digital de nossa popula&ccedil;&atilde;o e tem como efeito colateral o aprofundamento do monop&oacute;lio regional exercido por cada tele em sua &aacute;rea de concess&atilde;o.<\/p>\n<p><\/span><span><strong>O acordo subterr&acirc;neo<\/p>\n<p><\/strong><\/span><span>A mudan&ccedil;a dos contratos de concess&atilde;o teve que contar com a concord&acirc;ncia das teles. Caso contr&aacute;rio, ficaria valendo a obriga&ccedil;&atilde;o inicial dos PSTs. Para convencer as teles, um estudo da Anatel comprovou que o custo de instala&ccedil;&atilde;o dos backhauls nos munic&iacute;pios que ainda n&atilde;o o possuem seria o mesmo da instala&ccedil;&atilde;o dos PSTs. Seria trocar seis por meia d&uacute;zia, sem onerar o caixa destas empresas. E &eacute; &oacute;bvio que as teles perceberam, tamb&eacute;m, que a futura presta&ccedil;&atilde;o de servi&ccedil;os de banda larga lhes trar&aacute; muito mais receita do que a administra&ccedil;&atilde;o de postos telef&ocirc;nicos.<\/span><span><\/p>\n<p>Tudo certo, eis que surge um novo elemento. Al&eacute;m da troca dos PSTs pelos backhauls, o governo negociou um segundo acordo com as teles, que prev&ecirc; a instala&ccedil;&atilde;o de conex&atilde;o de 1 Mbps em cada uma das 56 mil escolas p&uacute;blicas urbanas brasileiras, sem custos para os governos (federal, estaduais e municipais) pelo menos at&eacute; 2025 (quando vencem os atuais contratos de concess&atilde;o). At&eacute; 2010 todas essas escolas dever&atilde;o estar com a conex&atilde;o funcionando.<\/span> <\/p>\n<p style=\"margin: 0cm 0cm 0pt\" class=\"MsoNormal\"><span><br \/>Se as teles brigaram tanto para ter certeza que a obriga&ccedil;&atilde;o dos backhauls n&atilde;o lhes custaria nada a mais do que a antiga obriga&ccedil;&atilde;o dos PSTs, se n&atilde;o queriam desembolsar nada al&eacute;m do que fora previsto inicialmente, por que aceitaram t&atilde;o prontamente este novo acordo, que foi anunciado no dia 8 de abril pelo presidente Lula? Nada as obrigava a este novo acordo. Por que concordaram? Puro patriotismo?<\/p>\n<p><\/span><span>Coincid&ecirc;ncia ou n&atilde;o, ao mesmo tempo em que come&ccedil;aram as negocia&ccedil;&otilde;es em torno deste segundo acordo, sa&iacute;a de cena o debate no interior do governo sobre o &ldquo;backbone estatal&rdquo;. <\/span>Essa proposta consistia em dois movimentos. Primeiro, unificar a gest&atilde;o dos cerca de 40 mil Km de fibra &oacute;ptica que o governo federal j&aacute; possui, seja atrav&eacute;s das estatais ou da massa falida da Eletronet. Em segundo lugar, construir sua pr&oacute;pria rede de backhaul, levando a conex&atilde;o deste backbone estatal a cada munic&iacute;pio brasileiro. Com isso, o governo estaria em condi&ccedil;&otilde;es de ofertar &agrave;s cidades (prefeituras e\/ou sociedade civil) a possibilidade de construirem redes locais que posteriormente seriam conectadas &agrave; infra-estrutura do governo federal. Sem fins lucrativos, este backbone estatal poderia cobrar das cidades apenas o necess&aacute;rio para se manter e crescer (o que &eacute; bem menos do que cobram atualmente as teles). De inic&iacute;o, j&aacute; seria poss&iacute;vel prever que as prefeituras e governos estaduais poderiam usar os servi&ccedil;os de telefonia por IP desta rede, deixando de ser usu&aacute;rias das operadoras privadas. Uma economia de muitos milh&otilde;es para os cofres p&uacute;blicos. Mas, tamb&eacute;m seria poss&iacute;vel construir redes comunit&aacute;rias, que levassem Internet banda larga, telefonia por IP, webr&aacute;dio, IPTV e muito mais para todas as comunidades hoje exclu&iacute;das das estrat&eacute;gias de mercado das teles. Uma liga&ccedil;&atilde;o local, feita de um telefone conectado a esta rede comunit&aacute;ria para outro igualmente conectado, teria pre&ccedil;o igual a zero!<\/p>\n<p>Mas, o acordo subterr&acirc;neo com as teles foi al&eacute;m. N&atilde;o bastava apenas garantir que o governo abriria m&atilde;o de usar sua pr&oacute;pria infra-estrutura para fazer inclus&atilde;o digital. As teles tamb&eacute;m ganharam o direito de explorar sozinhas a rede que ir&atilde;o construir para chegarem at&eacute; as escolas. Essa rede passar&aacute; na porta de milhares de resid&ecirc;ncia e obviamente as teles a usar&atilde;o para vender seus servi&ccedil;os de banda larga. A proposta do governo n&atilde;o obriga a que as teles tenham que partilhar essa rede com os provedores locais (o tal unbundling).<\/p>\n<p>Com backhauls e redes de &ldquo;&uacute;ltima milha&rdquo; para uso exclusivo, as teles acabaram de ganhar o monop&oacute;lio da banda larga em todo o pa&iacute;s.<\/p>\n<p>Se tudo isso for mais do que uma simples coincid&ecirc;ncia, quando o presidente da Rep&uacute;blica inaugurar a primeira escola conectada em banda larga atrav&eacute;s deste segundo acordo com as operadoras, o que pouca gente saber&aacute; &eacute; que esse evento festivo tamb&eacute;m ser&aacute; o funeral de uma id&eacute;ia muito mais inclusiva. Por esta linha de racioc&iacute;nio, o governo negociou a instala&ccedil;&atilde;o da banda larga nas escolas em troca do abandono da id&eacute;ia de um backbone estatal e da morte dos pequenos provedores locais.<\/p>\n<p><span>Para as teles, as 56 mil escolas conectadas at&eacute; que sa&iacute;ram barato&#8230;<\/p>\n<p><\/span>* Veja mais em <a href=\"Governo%20troca%20banda%20larga%20nas%20escolas%20por%20pol&iacute;tica%20de%20inclus&atilde;o%20digital%20mais%20ampla\">&#39;<\/a><a href=\"Governo%20troca%20banda%20larga%20nas%20escolas%20por%20pol&iacute;tica%20de%20inclus&atilde;o%20digital%20mais%20ampla\">Governo troca banda larga nas escolas por pol&iacute;tica de inclus&atilde;o digital mais ampla&#39;<\/a> <\/p>\n<p>** Gustavo Gindre &eacute; pesquisador em pol&iacute;ticas de comunica&ccedil;&atilde;o, membro eleito do Comit&ecirc; Gestor da Internet no Brasil e membro do Intervozes &#8211; Coletivo Brasil de Comunica&ccedil;&atilde;o Social.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando o presidente inaugurar a primeira escola conectada em banda larga por meio do acordo com as operadoras, o que pouca gente saber\u00e1 \u00e9 que esse evento tamb\u00e9m ser\u00e1 o funeral de uma id\u00e9ia mais inclusiva. <\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[56],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/20903"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=20903"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/20903\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=20903"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=20903"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=20903"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}