{"id":20901,"date":"2008-04-08T18:17:19","date_gmt":"2008-04-08T18:17:19","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=20901"},"modified":"2008-04-08T18:17:19","modified_gmt":"2008-04-08T18:17:19","slug":"em-brasilia-19-horas-uma-odisseia-pelo-direito-a-informacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=20901","title":{"rendered":"Em Bras\u00edlia, 19 horas: uma odiss\u00e9ia pelo direito \u00e0 informa\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><em>Em Bras&iacute;lia, 19 horas: a guerra entre a chapa-branca e o direito &agrave; informa&ccedil;&atilde;o no primeiro governo Lula, de Eug&ecirc;nio Bucci, 294 pp., Editora Record, Rio de Janeiro, 2008. Lan&ccedil;amento em S&atilde;o Paulo na quinta-feira (10\/05) no Sesc Vila Mariana.<\/em><\/p>\n<p>Quando assumiu a dire&ccedil;&atilde;o da Radiobr&aacute;s, em 2 de janeiro de 2003, Eug&ecirc;nio Bucci come&ccedil;ou a escrever uma nova hist&oacute;ria da comunica&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica no Brasil. Com uma id&eacute;ia na cabe&ccedil;a &ndash; lutar pelo direito &agrave; informa&ccedil;&atilde;o &ndash; muni&ccedil;&atilde;o intelectual e alguns poucos mas fi&eacute;is soldados, invadiu o Planalto Central brasileiro ciente de que sofreria vergonhosa derrota. Ao fim e ao cabo, deixou a guerra quando quis, como quis, o que s&oacute; ocorre com grandes estrategistas. Venceu.<\/p>\n<p>Recolheu as armas e iniciou seu p&eacute;riplo de retorno ao Planalto Paulista em 20 de abril de 2007, deixando para tr&aacute;s uma empresa transformada, um trabalho reconhecido por parte da popula&ccedil;&atilde;o e as bases da reforma que o governo agora promove com a transforma&ccedil;&atilde;o da Radiobr&aacute;s e da Acerp (Associa&ccedil;&atilde;o de Comunica&ccedil;&atilde;o Educativa Roquette Pinto) em Empresa Brasil de Comunica&ccedil;&atilde;o (EBC). Em seus quatro anos, tr&ecirc;s meses e vinte dias de Bras&iacute;lia, pelejou, acertou, errou, de forma destemida, consciente que estava dos riscos.<\/p>\n<p>O compilado das batalhas foi reunido em uma obra de 294 p&aacute;ginas que leva o nome de Em Bras&iacute;lia, 19 horas &ndash; A guerra entra a chapa-branca e o direito &agrave; informa&ccedil;&atilde;o no primeiro governo Lula, da Editora Record. Uma &quot;cr&ocirc;nica de Aldeia&quot;, no dizer do pr&oacute;prio autor, honesta e profunda, em que Bucci dialoga n&atilde;o apenas com os iniciados no debate da comunica&ccedil;&atilde;o &ndash; muito embora o livro seja obrigat&oacute;rio para comunicadores em geral &ndash;, mas potencialmente com todos os brasileiros que querem conhecer como o governo Lula se processa.<\/p>\n<p>&Eacute; o melhor dos livros publicados, at&eacute; agora, sobre os bastidores de Bras&iacute;lia p&oacute;s-2003 &ndash; n&atilde;o porque fa&ccedil;a revela&ccedil;&otilde;es bomb&aacute;sticas, mas porque descreve verdades. Algumas delas inc&ocirc;modas, com valor de not&iacute;cia, o que ficou comprovado no &uacute;ltimo fim de semana, quando o livro chegou &agrave;s p&aacute;ginas dos principais di&aacute;rios do pa&iacute;s. No s&aacute;bado (5\/4), Em Bras&iacute;lia, 19 horas mereceu uma resenha sens&iacute;vel e bem apurada de O Globo, uma p&aacute;gina bem feita de O Estado de S.Paulo e uma leitura da Folha de S.Paulo, escrita pelo apresentador do Roda Viva, da TV Cultura, Carlos Eduardo Lins da Silva [<a href=\"http:\/\/www.observatoriodaimprensa.com.br\/artigos.asp?cod=479AZL004\">ver aqui<\/a>].<\/p>\n<p>No trabalho, Bucci reproduz bilhetes de Jos&eacute; Dirceu, ent&atilde;o ministro da Casa Civil, e de Ricardo Berzoini, ex-ministro e atual presidente do Partido dos Trabalhadores (PT), narra as rea&ccedil;&otilde;es do ministro Luiz Gushiken, da Secretaria de Comunica&ccedil;&atilde;o (Secom) e do pr&oacute;prio presidente da Rep&uacute;blica, e torna p&uacute;blica as a&ccedil;&otilde;es subterr&acirc;neas do assessor de comunica&ccedil;&atilde;o da Secom, Bernardo Kucinski. Sem essas hist&oacute;rias, n&atilde;o estar&iacute;amos diante de uma obra veraz. As contrariedades, disputas e press&otilde;es fizeram parte do cotidiano do presidente da Radiobr&aacute;s. Mas elas s&atilde;o tratadas, no decorrer do texto, com extrema naturalidade &ndash; afinal, guerras pressup&otilde;em, no m&iacute;nimo, dois lados contrapostos. E essa n&atilde;o foi uma guerra diferente de qualquer outra.<\/p>\n<p><em>&quot;(&#8230;) Todas as minhas cr&iacute;ticas sobre o equ&iacute;voco editorial da Radiobr&aacute;s j&aacute; foram feitas por escrito e oralmente ao Gushiken, ao Bucci, ao Garcez, ao Dieguez, mais de uma vez. Al&eacute;m disso ofereci as solu&ccedil;&otilde;es, por escrito, tamb&eacute;m mais de uma vez. Acho que um dos problemas do nosso governo foi a forma como deixamos setores vitais em m&atilde;os despreparadas e principalmente n&atilde;o dispostas a ouvir. Demiti-me do Conselho da Radiobr&aacute;s por causa disso e o Lassance se demitiu h&aacute; pouco por causa disso. Betty [sic] Carmona tamb&eacute;m se demitiu. Registre, para todos os efeitos, que a dire&ccedil;&atilde;o da Radiobr&aacute;s imprimiu uma determinada dire&ccedil;&atilde;o &agrave; cobertura jornal&iacute;stica da Ag&ecirc;ncia Brasil, chamada por eles de jornalismo p&uacute;blico, que al&eacute;m de executada de forma incompetente e n&atilde;o atender as nossas necessidades de comunica&ccedil;&atilde;o, nunca recebeu mandato expl&iacute;cito do governo.&quot;<\/em> (Trecho de carta de Bernardo Kucinski, enviada a Gilberto Carvalho, chefe do gabinete de Lula, com cr&iacute;ticas &agrave; gest&atilde;o da Radiobr&aacute;s, especialmente da Ag&ecirc;ncia Brasil).<\/p>\n<p><strong>A face humana da guerra<\/p>\n<p><\/strong>Mas h&aacute; muito mais que revela&ccedil;&otilde;es de bastidor no livro. Em Bras&iacute;lia, 19 horas descreve o trabalho cotidiano de engenharia republicana que ocorreu na Radiobr&aacute;s durante o governo Lula. Um esfor&ccedil;o b&eacute;lico de lapida&ccedil;&atilde;o de conceitos, par&acirc;metros editoriais e compromisso p&uacute;blico realizado por personagens at&eacute; ent&atilde;o desconhecidos (entre os quais eu me incluo) e que s&atilde;o generosamente apresentados pelo autor-general.<\/p>\n<p>Durante o tempo em que esteve &agrave; frente da Radiobr&aacute;s, Bucci imprimiu &ndash; como ele mesmo afirma na introdu&ccedil;&atilde;o &ndash; o melhor de &quot;sua personalidade para construir a impessoalidade&quot;. Esse seu movimento foi assimilado por sua equipe, configurando uma gest&atilde;o radicalmente partid&aacute;ria do apartidarismo, da objetividade, da pluralidade e da transpar&ecirc;ncia. O resultado imperfeito &ndash; e muito aqu&eacute;m do necess&aacute;rio &ndash; a que se chegou &eacute; fruto das nossas limita&ccedil;&otilde;es, n&atilde;o da falta de empenho.<\/p>\n<p>O livro de Bucci tamb&eacute;m tem o m&eacute;rito de contar a hist&oacute;ria da Radiobr&aacute;s, uma empresa criada durante a ditadura militar e bancada h&aacute; 30 anos pelo dinheiro do contribuinte ao custo m&eacute;dio de 100 milh&otilde;es de reais por ano. Absolutamente desconhecida da maioria dos brasileiros &ndash; a n&atilde;o ser por ser a produtora dos 25 minutos destinados ao poder executivo em A Voz do Brasil &ndash; a Radiobr&aacute;s &eacute; o &oacute;vulo da nova Empresa Brasil de Comunica&ccedil;&atilde;o (EBC), que ser&aacute; respons&aacute;vel pela TV Brasil, a imberbe TV P&uacute;blica brasileira.<\/p>\n<p>Conhecer de que trompas se origina a nova comunica&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica brasileira &eacute; fundamental, por um lado, para que os atuais gestores n&atilde;o repitam erros do passado e, por outro, para que os cidad&atilde;o ampliem sua capacidade de fiscalizar os produtos editoriais da nova empresa, que ser&aacute; melhor &agrave; medida que mais e mais brasileiros dela se apropriarem. Tomar contato com o passado de servilismo e governismo imemorial pode impedir que retrocessos ocorram.<\/p>\n<p><em>&quot;Em suma, apesar do per&iacute;odo em que ficou encarregada da promo&ccedil;&atilde;o de civismo autorit&aacute;rio, a Radiobr&aacute;s jamais teve a seu cargo qualquer outra fun&ccedil;&atilde;o que n&atilde;o fosse a de informar o p&uacute;blico, e nisso baseou sua gest&atilde;o iniciada em janeiro de 2003. Com base na lei, e no que entend&iacute;amos ser o esp&iacute;rito da lei no transcurso do tempo, refor&ccedil;amos a objetividade impessoal dos notici&aacute;rios e pusemos cada vez mais para longe os resqu&iacute;cios de promo&ccedil;&atilde;o governamental que subsistiam dentro da organiza&ccedil;&atilde;o. De novo, a dificuldade n&atilde;o era tanto a lei, mas os condicionamentos internos de profissionais, herdados de traumas profundos.&quot;<\/em> (Em Bras&iacute;lia, 19 horas, p&aacute;g. 85)<\/p>\n<p><strong>Em nome da liberdade<\/p>\n<p><\/strong>Outro ponto alto do livro &eacute; a defesa radical que Bucci faz da liberdade, para ele um valor inegoci&aacute;vel. Homem de esquerda, o autor n&atilde;o &eacute; um liberal cl&aacute;ssico, como afirma Lins da Silva em sua resenha da Folha &ndash; se fosse, n&atilde;o haveria nenhum problema, mas essa &eacute; uma afirma&ccedil;&atilde;o falsa.<\/p>\n<p>No cap&iacute;tulo &quot;Um caso de bem-estar entre o presidente e a empresa&quot;, Bucci recupera sua trajet&oacute;ria de militante iniciada no movimento estudantil, durante a ditadura militar, para demonstrar que sempre foi integrante de uma corrente de pensamento que via como &quot;falso dilema&quot; a oposi&ccedil;&atilde;o entre liberdade e igualdade. Em seu racioc&iacute;nio, a liberdade &eacute; uma causa universal, &quot;mais que burguesa, mais que liberal&quot;. Uma defesa libert&aacute;ria.<\/p>\n<p><em>&quot;Entre janeiro de 2003 e janeiro de 2007, quando pude conversar com o presidente da Rep&uacute;blica sobre imprensa, falei como um liberal convicto, embora o liberalismo n&atilde;o tenha sido propriamente a minha escola. A bandeira da liberdade pertence a todos, n&atilde;o apenas aos liberais que gostam de ostentar pedigree. N&atilde;o h&aacute; outro caminho: &eacute; preciso cultivar e cultuar incondicionalmente a imprensa livre, ou melhor, a imprensa, sem adjetivos &ndash; se ela n&atilde;o &eacute; livre, n&atilde;o &eacute; imprensa. Sem medo de excessos ret&oacute;ricos, digo que s&oacute; ela pode iluminar a casa da liberdade.&quot;<\/em> (Idem, p&aacute;g. 225-226)<\/p>\n<p>Ao empunhar a bandeira da liberdade, pressuposto para a exist&ecirc;ncia e efetiva&ccedil;&atilde;o do direito &agrave; informa&ccedil;&atilde;o, Bucci apontou um novo caminho para a comunica&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica, tema que sequer figurava na agenda da democracia brasileira quando ele acordou presidente da estatal Radiobr&aacute;s, cinco anos atr&aacute;s. A guerra empreendida contribuiu para modificar esse cen&aacute;rio. No in&iacute;cio do segundo mandato de Lula, se discutiu comunica&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica como jamais. Em Bras&iacute;lia, 19 horas &eacute; mais uma contribui&ccedil;&atilde;o a esse debate, que ainda est&aacute; longe de terminar. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em Bras&iacute;lia, 19 horas: a guerra entre a chapa-branca e o direito &agrave; informa&ccedil;&atilde;o no primeiro governo Lula, de Eug&ecirc;nio Bucci, 294 pp., Editora Record, Rio de Janeiro, 2008. Lan&ccedil;amento em S&atilde;o Paulo na quinta-feira (10\/05) no Sesc Vila Mariana. 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