{"id":20873,"date":"2008-04-07T11:18:26","date_gmt":"2008-04-07T11:18:26","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=20873"},"modified":"2008-04-07T11:18:26","modified_gmt":"2008-04-07T11:18:26","slug":"relacao-com-investidores-financeiros-deixa-setor-de-cabelo-em-pe","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=20873","title":{"rendered":"Rela\u00e7\u00e3o com investidores financeiros deixa setor &#8216;de cabelo em p\u00e9&#8217;"},"content":{"rendered":"<p>Atividade escorada em incentivo p&uacute;blico, o cinema brasileiro v&ecirc;-se, vira e mexe, metido em discuss&otilde;es sobre a legitimidade de certos modelos de apoio. Nos anos 2000, houve pol&ecirc;micas, por exemplo, em torno do artigo 3&ordm; da Lei do Audiovisual &ndash; que permite &agrave;s majors de Hollywood a aplica&ccedil;&atilde;o de dinheiro de imposto em produ&ccedil;&atilde;o &ndash; e dos concursos destinados a partilhar as verbas das estatais. Pois, agora, uma nova fonte de financiamento deixa o setor de orelhas em p&eacute;: os Funcines. <\/p>\n<p>Se a Lei do Audiovisual, criada em 1993 para ressuscitar o cinema afundado por Collor, acoplou ao cen&aacute;rio a figura do diretor de marketing, incumbido de decidir que filmes mereciam patroc&iacute;nio, os Funcines moldam outro personagem de terno e gravata, o investidor financeiro. <\/p>\n<p>O novo mecanismo, como o nome anuncia, &eacute; um fundo dedicado ao audiovisual. O primeiro deles, operado pelo Banco do Brasil, nasceu em 2004. Mas s&oacute; agora o sistema vingou de fato. Neste momento, quatro Funcines est&atilde;o cadastrados na Comiss&atilde;o de Valores Mobili&aacute;rios (CVM) com um patrim&ocirc;nio total de 32,6 milh&otilde;es de reais. <\/p>\n<p>O mais polpudo e antigo em opera&ccedil;&atilde;o &eacute; gerido pela Rio Bravo, companhia criada por Gustavo Franco, ex-presidente do Banco Central. O RB Cinema 1 injetou dinheiro em filmes como O Maior Amor do Mundo (2006), Quer&ocirc; (2007), O Ano em Que Meus Pais Sa&iacute;ram de F&eacute;rias (2007) e Desafinados, ainda in&eacute;dito. Outros vir&atilde;o. <\/p>\n<p>A despeito de serem geridos por investidores privados, os fundos s&atilde;o tema p&uacute;blico por uma simples raz&atilde;o: podem se beneficiar de um incentivo fiscal que permite dedu&ccedil;&atilde;o de 100% do Imposto de Renda devido pelas empresas. Quando nasceram, o teto de dedu&ccedil;&atilde;o ficava na casa dos 60% e, provavelmente por isso, pouqu&iacute;ssimo interesse despertaram. <\/p>\n<p>&ldquo;O incentivo &eacute; meu argumento de venda&rdquo;, afirma Gustavo Cat&atilde;o, analista da Rio Bravo. O que ele diz aos poss&iacute;veis cotistas? &ldquo;Em vez de pagar o imposto, voc&ecirc; coloca o dinheiro num Funcine e eu posso retorn&aacute;-lo para voc&ecirc;.&rdquo; Na defini&ccedil;&atilde;o do pr&oacute;prio analista, &ldquo;&eacute; um argumento irresist&iacute;vel&rdquo;. <\/p>\n<p>N&atilde;o &eacute; demais lembrar que imposto que deixa de ser pago &eacute;, em tese, dinheiro p&uacute;blico. Como 20% dos fundos podem ser investidos em t&iacute;tulos e, enquanto os filmes n&atilde;o s&atilde;o feitos, todo valor fica aplicado, h&aacute; quem questione o rumo das opera&ccedil;&otilde;es. &ldquo;Mesmo que o filme seja um fracasso de bilheteria, o investidor vai ganhar. Os investidores que n&atilde;o p&otilde;em dinheiro pr&oacute;prio t&ecirc;m rentabilidade garantida&rdquo;, pontua o cineasta Andr&eacute; Klotzel, integrante da diretoria da Associa&ccedil;&atilde;o Paulista de Cineastas (Apaci). <\/p>\n<p>O presidente da entidade, &Iacute;caro Martins, vai al&eacute;m. &ldquo;Do jeito que est&aacute;, o mecanismo tem todas as condi&ccedil;&otilde;es para se tornar um esquema de lavagem dinheiro. Ele deixa brechas para achaques e atrai todo tipo de aventureiros do mercado de capitais. Se nada for feito, os Funcines podem virar o grande esc&acirc;ndalo do cinema brasileiro&rdquo;, alerta. <\/p>\n<p>O temor se estende para outros produtores e cineastas, que, em p&uacute;blico, preferem n&atilde;o meter a m&atilde;o nessa cumbuca. O presidente da Ag&ecirc;ncia Nacional de Cinema (Ancine), Manoel Rangel, por sua vez, aplaca os ru&iacute;dos da poss&iacute;vel pol&ecirc;mica. <\/p>\n<p>Questionado sobre a legitimidade de se colocar dinheiro 100% incentivado na roda financeira, ele joga sobre a mesa, como contra-argumento, todos os incentivos fiscais. &ldquo;Me parece uma pergunta capciosa. O dinheiro n&atilde;o tem como destino o mercado financeiro, ele tem obriga&ccedil;&atilde;o de ser investido em filmes&rdquo;, frisa. &ldquo;N&atilde;o h&aacute; diferen&ccedil;a de legitimidade em rela&ccedil;&atilde;o ao artigo 1&ordm; da Lei do Audiovisual. Quem questiona o Funcine deveria questionar a Lei do Audiovisual. Ambos usam dinheiro p&uacute;blico. Um fica na m&atilde;o de um investidor. Outro, na de um produtor.&rdquo; Talvez esteja a&iacute; o n&oacute; da quest&atilde;o. <\/p>\n<p>Se no artigo 1&ordm; o interesse dos investidores passava pelo poss&iacute;vel ganho de imagem da marca, no Funcine a id&eacute;ia &eacute; ganhar dinheiro a partir de dinheiro. Mas a Lei do Audiovisual, prorrogada at&eacute; 2010 &ndash; o prazo inicial era 2003 &ndash;, nunca conseguiu criar a cultura do investimento sem incentivos. Por que os Funcines conseguiriam? <\/p>\n<p>&ldquo;Nos Funcines, a l&oacute;gica &eacute; outra. Os recursos s&atilde;o administrados por gestores que buscam rentabilidade e, ao mesmo tempo, seguem par&acirc;metros de pol&iacute;tica p&uacute;blica&rdquo;, diz Rangel. Para quem teme que os fundos roubem patrocinadores do produtor independente, Rangel assegura: &ldquo;N&atilde;o &eacute; o que tem ocorrido. Os dados demonstram que os Funcines se desenvolvem paralelamente e t&ecirc;m atra&iacute;do novos investidores&rdquo;. <\/p>\n<p>Mas, por enquanto, boa parte do dinheiro veio do Banco Nacional de Desenvolvimento Econ&ocirc;mico e Social (BNDES). S&oacute; para 2008 o banco prev&ecirc; um investimento m&iacute;nimo de 25 milh&otilde;es de reais em Funcines. Luciane Gorgulho, chefe do Departamento da Cultura da institui&ccedil;&atilde;o pondera que, em 2007, apenas um ter&ccedil;o do dinheiro dos fundos usou o mecanismo de dedu&ccedil;&atilde;o fiscal e anota que os editais de financiamento continuam. <\/p>\n<p>&ldquo;O BNDES tem uma carteira de investimentos em fundos de 1 bilh&atilde;o de reais. Os Funcines s&atilde;o um investimento pioneiro, que sinaliza para o mercado uma oportunidade de neg&oacute;cio. O objetivo &eacute; fazer o cinema se desenvolver como setor econ&ocirc;mico&rdquo;, explica Gorgulho. &ldquo;Tamb&eacute;m n&atilde;o pretendemos investir em todo e qualquer Funcine, mas naqueles que contribuem para os gargalos da ind&uacute;stria, como a distribui&ccedil;&atilde;o.&rdquo; <\/p>\n<p>Foi esse o caso do fundo Lacan-Downtown, destinado &agrave; distribui&ccedil;&atilde;o de filmes brasileiros. Hoje, t&ecirc;m poder de fogo nas salas de cinema basicamente os filmes distribu&iacute;dos por majors, como Columbia e Warner. Esse Funcine, visto como uma nova alternativa para colocar os t&iacute;tulos nas telas, recebeu 8 milh&otilde;es de reais do BNDES e captou 4,6 milh&otilde;es com dez empresas, todas estreantes no setor audiovisual. <\/p>\n<p>&ldquo;A capta&ccedil;&atilde;o direta, feita pelos produtores, desestimulou as empresas a investir, at&eacute; porque, se colocasse 500 mil reais num projeto, o patrocinador desaparecia no meio de v&aacute;rios outros&rdquo;, avalia Bruno Wainer, distribuidor e idealizador desse Funcine. Para refor&ccedil;ar a id&eacute;ia de que o novo investimento n&atilde;o se d&aacute; por raz&otilde;es institucionais e sim financeiras, ele informa que, dos dez investidores, oito declaram n&atilde;o querer retorno de imagem. <\/p>\n<p>&ldquo;Minha responsabilidade &eacute; oferecer o maior retorno aos investidores. Estou buscando o melhor neg&oacute;cio poss&iacute;vel. Existe um erro qualquer no cinema brasileiro que faz com que se produza sem responsabilidade de retorno&rdquo;, prossegue Wainer. Em 2007, foram lan&ccedil;ados 82 t&iacute;tulos nacionais. Desses, 49% fizeram at&eacute; 10 mil espectadores e 32% ficaram na faixa entre 10 mil e 100 mil ingressos. <\/p>\n<p>Os investidores, de modo geral, parecem querer tirar do cinema um lucro que, fora de Hollywood, ele muitas vezes n&atilde;o d&aacute;. Paulo Bylik, s&oacute;cio da Rio Bravo, diz que aplica em cinema como em ossos de tit&acirc;nio e software de telefonia. At&eacute; por isso, trata como perif&eacute;rico o incentivo fiscal &ndash; a despeito de t&ecirc;-lo usado. &ldquo;Essa &eacute; uma muleta sobre a qual o cinema brasileiro se ap&oacute;ia e que n&atilde;o leva a lugar nenhum. Para quem quer produzir um filme de sucesso, a conta do Imposto de Renda &eacute; subsidi&aacute;ria.&rdquo; Ser&aacute;? <\/p>\n<p>Todos sabem que, por ora, sem incentivo fiscal, a produ&ccedil;&atilde;o &ndash; &agrave;s vezes neg&oacute;cio, outras tantas vezes cultura &ndash; definharia. Num Pa&iacute;s em que 90% dos munic&iacute;pios n&atilde;o t&ecirc;m sala de cinema e a tev&ecirc; aberta n&atilde;o compra filmes nacionais, raros s&atilde;o os t&iacute;tulos que se pagam. O pr&oacute;prio RB Cinema 1 s&oacute; teve retorno financeiro com O Ano em Que Meus Pais Sa&iacute;ram de F&eacute;rias. <\/p>\n<p>N&atilde;o &agrave; toa, as dificuldades de se conciliar interesses entre cineastas e homens de finan&ccedil;as come&ccedil;am a surgir. Os produtores de filmes menores nem procuraram nem foram procurados por Funcines. &ldquo;Tudo o que conseguimos foi captado pela Paula Lavigne&rdquo;, diz Giba Assis Brasil, da Casa de Cinema de Porto Alegre, produtora dos filmes de Jorge Furtado. &ldquo;Esse &eacute; um neg&oacute;cio que funciona onde tem dinheiro. N&atilde;o temos acesso a essas negocia&ccedil;&otilde;es.&rdquo; <\/p>\n<p>Mesmo Luiz Carlos Barreto, o mais famoso produtor brasileiro e um dos articuladores dos Funcines, tem tido dificuldades de negocia&ccedil;&atilde;o. &ldquo;Os Funcines s&atilde;o uma fonte fundamental de financiamento, mas algumas propostas s&atilde;o inaceit&aacute;veis. Eles querem, por exemplo, prioridade no resgate da receita dos filmes&rdquo;, relata. <\/p>\n<p>&Agrave; necessidade de regulamenta&ccedil;&atilde;o, a Ancine responde com uma consulta p&uacute;blica. A partir das manifesta&ccedil;&otilde;es do setor, deve ser publicada uma nova instru&ccedil;&atilde;o normativa para definir alguns par&acirc;metros dos futuros contratos. &Eacute; o cinema-neg&oacute;cio estreando<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Atividade escorada em incentivo p&uacute;blico, o cinema brasileiro v&ecirc;-se, vira e mexe, metido em discuss&otilde;es sobre a legitimidade de certos modelos de apoio. 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