{"id":20869,"date":"2008-04-06T13:21:50","date_gmt":"2008-04-06T13:21:50","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=20869"},"modified":"2008-04-06T13:21:50","modified_gmt":"2008-04-06T13:21:50","slug":"ombudsman-deixa-cargo-por-divergir-de-veto-a-divulgacao-de-critica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=20869","title":{"rendered":"Ombudsman deixa cargo por divergir de veto \u00e0 divulga\u00e7\u00e3o de cr\u00edtica"},"content":{"rendered":"<p>M&aacute;rio Magalh&atilde;es escreveu neste domingo (6) sua &uacute;ltima coluna como&nbsp;ombudsman da Folha de S. Paulo. Magalh&atilde;es, no cargo h&aacute; um ano, teve sua perman&ecirc;ncia condicionada&nbsp;(o ombudsman tem mandato de um ano, renov&aacute;vel por mais dois<em>)<\/em> ao fim da circula&ccedil;&atilde;o na internet das cr&iacute;ticas di&aacute;rias do ombudsman.&nbsp;Magalh&atilde;es n&atilde;o concordou e, diante do impasse, deixou o posto. O jornalista, o oitavo a ocupar a fun&ccedil;&atilde;o, tornou-se o segundo a n&atilde;o prosseguir por mais um ano, e foi o primeiro a ter como exig&ecirc;ncia, para renovar, o retrocesso na transpar&ecirc;ncia do seu trabalho.<\/p>\n<p>Confira a &uacute;ltima coluna de Magalh&atilde;es.<\/p>\n<p>*&nbsp;<\/p>\n<p><strong><u>Despedida<\/u><\/strong><\/p>\n<p>No&nbsp;ano&nbsp;que passou, quando as noites de domingo se insinuavam, e tantas fam&iacute;lias sa&iacute;am para o &uacute;ltimo passeio do fim de semana, a minha sabia que ficar&iacute;amos em casa -ou pelo menos n&atilde;o ir&iacute;amos todos. Era hora de eu come&ccedil;ar a longa e solit&aacute;ria jornada madrugada adentro para terminar de esquadrinhar jornais e revistas.<\/p>\n<p>De manh&atilde;, com as olheiras a denunciar o sono roubado, leria as edi&ccedil;&otilde;es do dia e escreveria a mais encorpada cr&iacute;tica semanal, a da segunda-feira. Hoje &agrave; noite, se algu&eacute;m me chamar, ter&aacute; companhia.<\/p>\n<p>Esta &eacute; a 51&ordf; e derradeira coluna dominical que escrevo como ombudsman da Folha. Assumi em 5 de abril de 2007, e o meu mandato se encerrou anteontem. Embora o estatuto autorize a renova&ccedil;&atilde;o por mais dois per&iacute;odos, n&atilde;o houve acordo com a dire&ccedil;&atilde;o do jornal para a continuidade.<\/p>\n<p>A Folha condicionou minha perman&ecirc;ncia ao fim da circula&ccedil;&atilde;o na internet das cr&iacute;ticas di&aacute;rias do ombudsman. A reivindica&ccedil;&atilde;o me foi apresentada h&aacute; meses. N&atilde;o concordei. Diante do impasse, deixo o posto. Oitavo jornalista a ocupar a fun&ccedil;&atilde;o, torno-me o segundo a n&atilde;o prosseguir por mais um ano. Todos foram convidados a ficar. Sou o primeiro a ter como exig&ecirc;ncia, para renovar, o retrocesso na transpar&ecirc;ncia do seu trabalho.<\/p>\n<p>A cr&iacute;tica da quinta foi a &uacute;ltima que circulou na Folha Online, com acesso a n&atilde;o-assinantes da Folha e do UOL.<\/p>\n<p>A partir de agora, os coment&aacute;rios produzidos pelo ombudsman durante a semana s&oacute; poder&atilde;o ser conhecidos por audi&ecirc;ncia restrita, de funcion&aacute;rios do jornal e da empresa, que os recebe por correio eletr&ocirc;nico. Os leitores perdem o direito. Era assim nos prim&oacute;rdios do cargo, criado em 1989. A internet engatinhava.<\/p>\n<p>Como se constata no site <a href=\"http:\/\/www.folha.com.br\/ombudsman\">www.folha.com.br\/ombudsman<\/a>, desde 2000 as cr&iacute;ticas v&atilde;o ao ar. Por oito anos, os leitores puderam monitorar a atividade cotidiana de quem tem a atribui&ccedil;&atilde;o de represent&aacute;-los.<\/p>\n<p>N&atilde;o poder&atilde;o mais.<\/p>\n<p><strong>Regras<\/p>\n<p><\/strong>O comando da Folha esgrimiu um argumento para a decis&atilde;o: no ambiente de concorr&ecirc;ncia exacerbada do mercado jornal&iacute;stico, id&eacute;ias e sugest&otilde;es do ombudsman s&atilde;o implementadas por outros di&aacute;rios.<\/p>\n<p>De fato, isso ocorre. E continuar&aacute; a ocorrer.<\/p>\n<p>Quase 20 anos atr&aacute;s, as cr&iacute;ticas ainda denominadas internas eram distribu&iacute;das em papel &agrave; Reda&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Acabavam nas bancadas de outros jornais. Um deles veiculou publicidade alardeando elogio do ombudsman.<\/p>\n<p>Com a difus&atilde;o por e-mail, ser&aacute; ainda mais dif&iacute;cil conter a distribui&ccedil;&atilde;o irregular das anota&ccedil;&otilde;es do ouvidor. Eventuais interessados, se bem articulados, ter&atilde;o como l&ecirc;-las. Que segredo sobrevive a centenas de destinat&aacute;rios?<\/p>\n<p>J&aacute; os leitores ditos comuns, os que fazem a fortuna de toda empreitada jornal&iacute;stica de sucesso, ser&atilde;o barrados. A medida n&atilde;o resolve o problema a cuja solu&ccedil;&atilde;o se prop&otilde;e, mas prejudica quem &eacute; alheio a ele.<\/p>\n<p>A n&atilde;o-renova&ccedil;&atilde;o do mandato &eacute; leg&iacute;tima, respeita a Constitui&ccedil;&atilde;o do jornal. Sua dire&ccedil;&atilde;o tem a prerrogativa de convidar ou n&atilde;o o ombudsman a permanecer. E de estabelecer as normas. N&atilde;o h&aacute; quebra de contrato, e sim respeito.<\/p>\n<p>No meu caso, haveria mudan&ccedil;a de regra no meio da gest&atilde;o, composta de um a tr&ecirc;s mandatos. Regras, como a Folha recomenda, devem ser estabelecidas antes do jogo.<\/p>\n<p><strong>Aut&oacute;psia<\/p>\n<p><\/strong>N&atilde;o &eacute; praxe dos jornais impressos do mundo inteiro compartilhar na rede o que muitos deles chamam de memorando interno do ouvidor.<\/p>\n<p>Assim como, na confer&ecirc;ncia da Organiza&ccedil;&atilde;o dos Ombudsmans de Not&iacute;cias, com participantes de 13 pa&iacute;ses, n&atilde;o encontrei quem digitasse todo santo dia, como fazemos aqui, uma cr&iacute;tica ou memorando.<\/p>\n<p>A Folha deu um passo ousado na imprensa brasileira ao nomear um ombudsman. Radicalizou e tornou p&uacute;blicas as cr&iacute;ticas antes limitadas &agrave; Reda&ccedil;&atilde;o. Mais do que as colunas dominicais, essa esp&eacute;cie de parecer se destina a uma aut&oacute;psia das edi&ccedil;&otilde;es. Em min&uacute;cias, identifica suas fraquezas, sem desprezar as virtudes. Exp&otilde;e as v&iacute;sceras do jornal.<\/p>\n<p>O desafio do ombudsman &eacute; ser a melhor s&iacute;ntese poss&iacute;vel dos interesses dos leitores. A eles interessa que o jornal seja bom. Nas cr&iacute;ticas, o ombudsman busca contribuir para que o jornal do dia seguinte seja melhor que o da v&eacute;spera.<\/p>\n<p>Essa conflu&ecirc;ncia faz do ombudsman um benef&iacute;cio potencial ao leitor e ao jornal.<\/p>\n<p>Mesmo com as cr&iacute;ticas vetadas aos leitores, a Folha n&atilde;o perder&aacute; a primazia em transpar&ecirc;ncia no jornalismo nacional. As colunas de domingo persistir&atilde;o, e a publica&ccedil;&atilde;o de um artigo como este expressa toler&acirc;ncia com o pensamento divergente. Quantos jornais o imprimiriam, se o objeto de an&aacute;lise fossem eles?<\/p>\n<p><strong>Regress&atilde;o<\/p>\n<p><\/strong>A despeito desse cen&aacute;rio, a restri&ccedil;&atilde;o imposta configura regress&atilde;o na transpar&ecirc;ncia. O projeto editorial da Folha diagnostica &quot;um jornalismo cada vez mais cr&iacute;tico e mais criticado&quot;. Reconhece que &quot;o leitor fiscaliza a pauta de compromissos&quot; do jornal.<\/p>\n<p>O ombudsman deve ser um instrumento dos leitores. Se 80% dos pronunciamentos semanais ficam inacess&iacute;veis (as cr&iacute;ticas de segunda a quinta; n&atilde;o escrevo &agrave;s sextas), reduz-se a fiscaliza&ccedil;&atilde;o dos leitores sobre aquele cuja atribui&ccedil;&atilde;o &eacute; batalhar em nome deles.<\/p>\n<p>Essa peleja n&atilde;o implica, em um exemplo, advogar o alinhamento do jornal com partid&aacute;rios ou opositores das pesquisas com c&eacute;lulas-tronco embrion&aacute;rias, mas incentivar o equil&iacute;brio no notici&aacute;rio e nos espa&ccedil;os de controv&eacute;rsia.<\/p>\n<p>O ombudsman incapaz de zelar pela manuten&ccedil;&atilde;o da transpar&ecirc;ncia do seu of&iacute;cio carece de autoridade para combater pela transpar&ecirc;ncia do jornal. Como cobrar o que se topou diminuir?<\/p>\n<p>A tend&ecirc;ncia mundial &eacute; de expans&atilde;o da transpar&ecirc;ncia das organiza&ccedil;&otilde;es jornal&iacute;sticas. A novidade da Folha aparece na contram&atilde;o.<\/p>\n<p><strong>Agradecimentos<\/p>\n<p><\/strong>A cr&iacute;tica di&aacute;ria &eacute; valiosa como instrumento de di&aacute;logo entre os leitores e o ombudsman. O que ele pensa disso e daquilo? Por vezes, a resposta se encontra nos apontamentos do dia. Na semana passada, foi poss&iacute;vel conferir se eu perguntei &agrave; Folha quem lhe forneceu o dossi&ecirc; do momento. A resposta significaria romper o compromisso de sigilo com a fonte. Um ministro disse que eu perguntei. N&atilde;o &eacute; verdade.<\/p>\n<p>Se fosse responder aos leitores sem a chance de lhes remeter &agrave; cr&iacute;tica on-line, n&atilde;o sei se daria conta do atendimento. Em 1991, primeiro ano do qual sobreviveu estat&iacute;stica, houve 3.748 contatos com o ombudsman. Em 2007, o recorde de 13.374.<\/p>\n<p>Em janeiro, fevereiro e mar&ccedil;o de 2008, registraram-se marcas in&eacute;ditas. O salto de 24% na compara&ccedil;&atilde;o com id&ecirc;ntico trimestre do ano anterior projeta resultado anual superior a 16.500, sem considerar o impacto de eventos como elei&ccedil;&atilde;o e Olimp&iacute;ada.<\/p>\n<p>O vigor do Departamento de Ombudsman &eacute; manifesta&ccedil;&atilde;o da mudan&ccedil;a de comportamento de cidad&atilde;os e consumidores de not&iacute;cias: a f&eacute; nos relatos jornal&iacute;sticos d&aacute; lugar ao ceticismo; troca-se a submiss&atilde;o a vers&otilde;es pela leitura cr&iacute;tica; a passividade, por cobran&ccedil;a. Essa &eacute; a principal caracter&iacute;stica do jornalismo do s&eacute;culo 21. Merece ser saudada pela sociedade e pelos jornalistas.<\/p>\n<p>Na chegada, eu pensava ter muito a dizer. Ao partir, sei que tenho muito a ouvir.<\/p>\n<p>Gostaria de ter falado de outros assuntos, dos an&uacute;ncios de prostitui&ccedil;&atilde;o aos interesses cruzados do jornal. Fica para outra vez.<\/p>\n<p>Pelo ano em que fui feliz, agrade&ccedil;o &agrave; confian&ccedil;a que a dire&ccedil;&atilde;o da Folha depositou em mim. Tive liberdade para escrever o que quis. Uma executiva me disse que o jornal precisava de um &quot;ombudsman cr&iacute;tico&quot;. Tentei desempenhar escrupulosamente a miss&atilde;o.<\/p>\n<p>Sou muito grato &agrave; minha supersecret&aacute;ria, Ros&acirc;ngela Pimentel, e ao meu assistente, o futuro jornalista Carlos Murga. Na Secretaria de Reda&ccedil;&atilde;o, devo a Suzana Singer e Alba Bruna Campanerut. Na editoria de Arte, a F&aacute;bio Marra e Julia Monteiro. Ao colocar a coluna no papel e me salvar de vexames maiores, Vanessa Alves coordenou um time talentoso e generoso.<\/p>\n<p>Minha gratid&atilde;o maior &eacute; para quem me deu li&ccedil;&otilde;es inestim&aacute;veis -hoje &agrave; noite, em casa ou na rua, n&atilde;o esquecerei o brinde aos leitores da Folha.<\/p>\n<p><em>* M&aacute;rio Magalh&atilde;es &eacute; o ombudsman da Folha desde 5 de abril de 2007. O ombudsman tem mandato de um ano, renov&aacute;vel por mais dois. N&atilde;o pode ser demitido durante o exerc&iacute;cio da fun&ccedil;&atilde;o e tem estabilidade por seis meses ap&oacute;s deix&aacute;-la. Suas atribui&ccedil;&otilde;es s&atilde;o criticar o jornal sob a perspectiva dos leitores, recebendo e verificando suas reclama&ccedil;&otilde;es, e comentar, aos domingos, o notici&aacute;rio dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>M&aacute;rio Magalh&atilde;es escreveu neste domingo (6) sua &uacute;ltima coluna como&nbsp;ombudsman da Folha de S. Paulo. Magalh&atilde;es, no cargo h&aacute; um ano, teve sua perman&ecirc;ncia condicionada&nbsp;(o ombudsman tem mandato de um ano, renov&aacute;vel por mais dois) ao fim da circula&ccedil;&atilde;o na internet das cr&iacute;ticas di&aacute;rias do ombudsman.&nbsp;Magalh&atilde;es n&atilde;o concordou e, diante do impasse, deixou o posto. &hellip; <a href=\"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=20869\" class=\"more-link\">Continue lendo <span class=\"screen-reader-text\">Ombudsman deixa cargo por divergir de veto \u00e0 divulga\u00e7\u00e3o de cr\u00edtica<\/span> <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[40],"tags":[706],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/20869"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=20869"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/20869\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=20869"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=20869"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=20869"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}