{"id":20867,"date":"2008-04-04T19:03:18","date_gmt":"2008-04-04T19:03:18","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=20867"},"modified":"2008-04-04T19:03:18","modified_gmt":"2008-04-04T19:03:18","slug":"governo-quer-restringir-publicidade-de-bebidas-na-televisao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=20867","title":{"rendered":"Governo quer restringir publicidade de bebidas na televis\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><span>A iniciativa do governo federal de pedir urg&ecirc;ncia na tramita&ccedil;&atilde;o do Projeto de Lei 2733\/08 e a sua poss&iacute;vel aprova&ccedil;&atilde;o nas pr&oacute;ximas semanas deve encerrar uma defini&ccedil;&atilde;o curiosa do setor publicit&aacute;rio brasileiro. Aprovada em 1996, a Lei 9294 passou a definir o que, na pr&aacute;tica, era considerado bebida alco&oacute;lica ou n&atilde;o para efeito de propaganda. Estabelecia ent&atilde;o a chamada escala Gay Lussac de teor alco&oacute;lico em 13 graus, o que exclu&iacute;a cervejas, vinhos e bebidas &ldquo;ice&rdquo; da restri&ccedil;&atilde;o &agrave; publicidade que as bebidas destiladas eram obrigadas a respeitar, das 6 &agrave;s 21h.<\/p>\n<p><\/span><span>Em novembro de 2005, a Ag&ecirc;ncia Nacional de Vigil&acirc;ncia Sanit&aacute;ria (Anvisa)&nbsp;publicou a consulta p&uacute;blica com a proposta de regulamento da propaganda de bebidas alco&oacute;licas, tendo por base a Lei 9294\/96 e o C&oacute;digo Brasileiro de Auto-Regulamenta&ccedil;&atilde;o Publicit&aacute;ria. Agora, o PL 2733 pretende mudar essa hist&oacute;ria. O texto produzido pelo Minist&eacute;rio da Sa&uacute;de e pela Secretaria Nacional Anti-Drogas reduz para 0,5 grau Gay Lussac o que deve ser considerada bebida alco&oacute;lica. Cervejas, vinhos e &ldquo;ices&rdquo;, passariam, portanto, para efeitos legais, a ser o que todos j&aacute; sabem, bebidas alco&oacute;licas. A ironia, nesse caso, &eacute; inevit&aacute;vel, mas existe entre os setores envolvidos n&atilde;o s&oacute; uma infinidade de interpreta&ccedil;&otilde;es como tamb&eacute;m discrep&acirc;ncias sobre a efic&aacute;cia da medida que, em &uacute;ltima inst&acirc;ncia, pretende colocar limites sobre a publicidade, um setor que movimenta por volta de R$ 30 bilh&otilde;es por ano.<\/p>\n<p><\/span><span>Logo ap&oacute;s o pedido de urg&ecirc;ncia do governo, a Associa&ccedil;&atilde;o Brasileira de Anunciantes (ABA) divulgou nota repudiando a iniciativa que, segundo a entidade, partiu &ldquo;de convic&ccedil;&otilde;es pessoais e da vis&atilde;o de reduzidos grupos de press&atilde;o setoriais&rdquo;. A ABA reivindica os princ&iacute;pios do C&oacute;digo Brasileiro de Auto-Regulamenta&ccedil;&atilde;o Publicit&aacute;ria como o instrumento mais conveniente para arbitrar a respeito. A partir do dia 10 de abril, o Conselho Nacional de Auto-Regulamenta&ccedil;&atilde;o Publicit&aacute;ria (Conar), &oacute;rg&atilde;o composto por empresas de m&iacute;dia, anunciantes, ag&ecirc;ncias de publicidade entre outros, pretende implantar novas medidas restritivas &agrave; propaganda de bebidas alco&oacute;licas.<\/p>\n<p><\/span><span>J&aacute; no in&iacute;cio do documento sobre tais mudan&ccedil;as, o Conar faz a diferencia&ccedil;&atilde;o entre &ldquo;bebidas alco&oacute;licas&rdquo;, &ldquo;cervejas e vinhos&rdquo; e &ldquo;ices e assemelhados&rdquo;. A justificativa para a distin&ccedil;&atilde;o sugerida pela auto-regulamenta&ccedil;&atilde;o diz que cervejas e vinhos s&atilde;o bebidas &ldquo;normalmente consumidas durante as refei&ccedil;&otilde;es, por isso ditas de mesa&rdquo;. N&atilde;o &eacute; necess&aacute;ria muita sagacidade para constatar que nenhuma propaganda de cerveja incentiva tal utiliza&ccedil;&atilde;o e que a destina&ccedil;&atilde;o delas n&atilde;o pretende ser o ambiente familiar.<\/p>\n<p><\/span><span>As entidades e organiza&ccedil;&otilde;es que defendem a restri&ccedil;&atilde;o &agrave; publicidade sustentam que a medida &eacute; essencial para o combate ao uso abusivo do &aacute;lcool. Estudos da Organiza&ccedil;&atilde;o Mundial da Sa&uacute;de (OMS) de 2004 apontam tend&ecirc;ncia de aumento do consumo de &aacute;lcool no Brasil nos &uacute;ltimos 30 anos e a cerveja &eacute;, de longe, a bebida mais consumida no pa&iacute;s. Mas o dado mais relevante para essa discuss&atilde;o consta no 1&ordm; Levantamento Nacional sobre os Padr&otilde;es de Consumo de &Aacute;lcool na Popula&ccedil;&atilde;o Brasileira. Segundo a pesquisa, a m&eacute;dia de in&iacute;cio do consumo de &aacute;lcool no pa&iacute;s est&aacute; por volta dos 15 anos de idade, e a tend&ecirc;ncia &eacute; que essa m&eacute;dia diminua ainda mais.<\/p>\n<p><\/span><span><strong>Quem educa?<\/p>\n<p><\/strong><\/span><span>&ldquo;O grande benef&iacute;cio [da nova lei] &eacute; parar de deseducar as nossas crian&ccedil;as. A propaganda no Brasil deseduca nossas crian&ccedil;as sobre o efeito do &aacute;lcool e da sua fun&ccedil;&atilde;o social&rdquo;, afirma o coordenador da Unidade de Pesquisa em &Aacute;lcool e Drogas da Universidade Federal de S&atilde;o Paulo (Uniad) Ronaldo Laranjeira. O Movimento Propaganda sem Bebida, organizado pelo Uniad e pelo Conselho Regional de Medicina de S&atilde;o Paulo, tem pautado a quest&atilde;o e entregou no &uacute;ltimo dia 2 ao presidente da C&acirc;mara dos Deputados, Arlindo Chinaglia, um abaixo-assinado com cerca de 600 mil ades&otilde;es, pedindo a aprova&ccedil;&atilde;o do PL 2733.<\/p>\n<p><\/span><span>Para o superintendente do Sindicato Nacional da Ind&uacute;stria da Cerveja, (Sindicerv), Marcos Mesquita, a discuss&atilde;o sobre a restri&ccedil;&atilde;o &agrave; publicidade &eacute; &ldquo;manique&iacute;sta&rdquo; e que seria &ldquo;presun&ccedil;&atilde;o&rdquo; do governo tentar tutelar o povo ao adotar a medida. &ldquo;Acredito que a influ&ecirc;ncia &agrave;s crian&ccedil;as atrav&eacute;s da propaganda n&atilde;o aconte&ccedil;a se cuidarmos do conte&uacute;do. J&aacute; existe a proibi&ccedil;&atilde;o de consumo para menores&rdquo;, afirma, responsabilizando os pais pela educa&ccedil;&atilde;o dos filhos. &ldquo;Nem a televis&atilde;o, nem o Estado educam meu filho&rdquo;. E para salientar sua posi&ccedil;&atilde;o, o superintende do Sindicerv questiona se &eacute; necess&aacute;rio haver restri&ccedil;&atilde;o a qualquer bebida alco&oacute;lica. &ldquo;O governo acredita que &eacute; s&oacute; parar de fazer propaganda e automaticamente acabam os problemas&rdquo;. <\/p>\n<p><\/span><span>Laranjeira retruca a hip&oacute;tese de que a propaganda auto-regulamentada n&atilde;o influencie nos h&aacute;bitos de consumo de crian&ccedil;as e adolescentes e afirma que as empresas sabem disso. &ldquo;Eles sabem que a propaganda influencia principalmente o p&uacute;blico jovem, criando expectativas, atitudes e vontade de experimenta&ccedil;&atilde;o precoce. A educa&ccedil;&atilde;o n&atilde;o muda comportamento, a atitude muda, principalmente a exposi&ccedil;&atilde;o de imagens di&aacute;rias, bem feitas e sedutoras, falando a linguagem do jovem, com humor, sexualidade e promessa de bem estar se houver o consumo&rdquo;.<\/p>\n<p><\/span><span><strong>Regulamenta&ccedil;&atilde;o<\/p>\n<p><\/strong><\/span><span>Tanto a ind&uacute;stria de cerveja quanto os anunciantes argumentam que a propaganda n&atilde;o faz o mercado consumidor crescer, mas &eacute; fundamental para a concorr&ecirc;ncia. Mesquita, do Sindicerv, vincula o aumento de demanda &agrave; necessidade de crescimento econ&ocirc;mico. &ldquo;Propaganda bem sucedida implica em aumento de vendas em cima dos concorrentes. N&atilde;o d&aacute; pra colocar dinheiro no bolso do consumidor&rdquo;, afirma, e continua: &ldquo;Na Fran&ccedil;a aconteceu assim tamb&eacute;m. O que deve ser feito &eacute; aumentarmos a puni&ccedil;&atilde;o, fiscalizarmos o consumo de menores. Mas como a Fran&ccedil;a fez, o ministro [da Sa&uacute;de, <\/span>Jos&eacute; Gomes<span>] Tempor&atilde;o acha que tem que fazer tamb&eacute;m&rdquo;, acusa Mesquita, citando o caso franc&ecirc;s, onde a restri&ccedil;&atilde;o da publicidade veio acompanhada de outras medidas.<\/p>\n<p><\/span><span>O coordenador da &aacute;rea de Sa&uacute;de Mental, &Aacute;lcool e Drogas do Minist&eacute;rio da Sa&uacute;de, Pedro Gabriel Delgado, refuta o argumento de Mesquita. Delgado utiliza o exemplo da Argentina, onde o vinho era historicamente a bebida mais consumida. Hoje, a cerveja ganhou a prefer&ecirc;ncia dos argentinos, sobretudo por conta do investimento maci&ccedil;o na publicidade. &ldquo;A propaganda diminui a no&ccedil;&atilde;o dos riscos associados. A id&eacute;ia, no caso, &eacute; focada na cerveja como algo que n&atilde;o tem conseq&uuml;&ecirc;ncias. A glamuriza&ccedil;&atilde;o do produto induz ao aumento do consumo pouco respons&aacute;vel e temos pesquisas que concluem isso&rdquo;.<\/p>\n<p><\/span><span>Sobre a defesa da auto-regulamenta&ccedil;&atilde;o, o coordenador do MS lembra que o Estado tem uma responsabilidade de regulamenta&ccedil;&atilde;o definida constitucionalmente e que n&atilde;o se op&otilde;e ao mercado. &ldquo;As experi&ecirc;ncias internacionais comprovam que a publicidade auto-regulamentada &eacute; muito flex&iacute;vel consigo mesma. <\/span>Sem uma regra geral ela acaba sendo muito limitada&rdquo;.&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Governo pede urg\u00eancia na tramita\u00e7\u00e3o de Projeto de Lei que define, para efeitos legais, o que todos j\u00e1 sabem: que cervejas, vinhos e &#8220;ices&#8221; s\u00e3o bebidas alco\u00f3licas. Eventual aprova\u00e7\u00e3o restringir\u00e1 publicidade na TV.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[40],"tags":[251],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/20867"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=20867"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/20867\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=20867"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=20867"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=20867"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}