{"id":20814,"date":"2008-04-01T11:39:07","date_gmt":"2008-04-01T11:39:07","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=20814"},"modified":"2008-04-01T11:39:07","modified_gmt":"2008-04-01T11:39:07","slug":"o-estado-contra-a-lei-rouanet","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=20814","title":{"rendered":"O Estado contra a Lei Rouanet"},"content":{"rendered":"<p><span>Semana passada vimos publicar o mesmo artigo com duas vers&otilde;es, dois t&iacute;tulos e um s&oacute; conte&uacute;do. O primeiro, no Jornal do Brasil, retumbava: &ldquo;O teatro n&atilde;o &eacute; invi&aacute;vel economicamente&rdquo;. Seu autor, Celso Frateschi, presidente da Funarte. <\/p>\n<p><\/span><span>O outro traz a assinatura conjunta deste com o secret&aacute;rio-executivo do Minist&eacute;rio da Cultura, Juca Ferreira, e &eacute; publicado na Folha de S.Paulo sob o t&iacute;tulo &ldquo;Incentivo ao Teatro?&rdquo;. O motivo &eacute; a comemora&ccedil;&atilde;o do dia do teatro. <\/p>\n<p><\/span><span>Com as m&atilde;os abanando diante do caos vivido pela produ&ccedil;&atilde;o teatral, vieram a p&uacute;blico colocar a culpa pelos desmandos &agrave; Lei Rouanet, da falta de p&uacute;blico &agrave; diminui&ccedil;&atilde;o das temporadas. <\/span>S&oacute; faltaram pedir o pesco&ccedil;o dos governantes, diante do descaso do mecanismo governamental em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s necessidades das artes c&ecirc;nicas brasileiras. <\/p>\n<p>Quase nos fizeram acreditar que o problema da lei &eacute; a pr&oacute;pria lei, como se tivesse pernas pr&oacute;prias e n&atilde;o dependesse de governo para seguir o caminho correto, ou desej&aacute;vel. Cinco anos de poder foram necess&aacute;rios para descobrir verdadeiros exus: empresas e produtores culturais que lucram com a lei. A pena para a doen&ccedil;a, matar o doente. Em portugu&ecirc;s claro: acabar com a lei.<\/p>\n<p>Mas como pode a Lei Rouanet ter esse poder todo se ela &eacute; t&atilde;o-somente um mecanismo de est&iacute;mulo ao investimento privado? Convenhamos que qualquer julgo al&eacute;m do seu campo de atua&ccedil;&atilde;o constitui mera (ir)responsabilidade interpretativa de quem escreve, ou simplesmente assina, o petardo. O que espanta &eacute; o pr&oacute;prio poder p&uacute;blico incitar uma vis&atilde;o equivocada da lei. Com que objetivo?<\/p>\n<p>Vale lembrar que o teatro, assim como todas as outras artes, est&aacute; &oacute;rf&atilde;o de pol&iacute;ticas p&uacute;blicas. O MinC optou, j&aacute; em 2003, por extinguir as secretarias chamadas final&iacute;sticas (m&uacute;sica\/artes c&ecirc;nicas, patrim&ocirc;nio\/museus, livro e leitura), dando prioridade apenas para o audiovisual. No lugar, ampliou o escopo do Minist&eacute;rio e passou a dar prioridade para quest&otilde;es como Tv p&uacute;blica, propriedade intelectual, cultura digital, diversidade cultural. Apostou na transversalidade em detrimento da pol&iacute;tica setorial. <\/p>\n<p>Amplamente aplaudida e reconhecida no Brasil e no mundo, as pol&iacute;ticas propostas por Gilberto Gil carecem ainda de a&ccedil;&otilde;es program&aacute;ticas que as sustentem. Sem uma pol&iacute;tica transversal consistente (e que v&aacute; al&eacute;m do discurso) corremos o risco de perder o velho e n&atilde;o ganhar o novo.<\/p>\n<p>Como pode o artigo do MinC vociferar: &ldquo;n&atilde;o devemos propor o novo sem entender o velho&rdquo;, se ele pr&oacute;prio n&atilde;o consegue dar conta do maior e mais eficaz sistema de financiamento &agrave; cultura que o Brasil j&aacute; teve? <\/p>\n<p>A Lei Rouanet tem problemas, todos sabemos. J&aacute; eram s&eacute;rios e graves em 2002. Com a inabilidade deste minist&eacute;rio em resolv&ecirc;-los, a Lei transformou-se numa bomba-rel&oacute;gio, pronta para estourar nas m&atilde;os do ministro Gilberto Gil. Como n&atilde;o est&aacute; disposto a aceitar o fardo, o MinC quer colocar o problema da lei no colo do &ldquo;mercado&rdquo;, das empresas que se promovem e lucram com a lei. Como se o MinC n&atilde;o fosse o &uacute;nico &oacute;rg&atilde;o respons&aacute;vel por seu destino e gest&atilde;o. <\/p>\n<p>A Lei Rouanet &eacute; acusada de causar distor&ccedil;&otilde;es no mercado cultural desde aquela campanha presidencial. Artistas carentes foram ao Canec&atilde;o pedir socorro a Lula, pois a cultura estava sendo privatizada. Desde ent&atilde;o o MinC realizou uma s&eacute;rie de viagens com todo o seu gabinete para os quatro cantos, prometendo mudan&ccedil;as e ouvindo o que j&aacute; sab&iacute;amos. Tr&ecirc;s anos depois, decretou mudan&ccedil;as cosm&eacute;ticas, sem efeitos pr&aacute;ticos. <\/p>\n<p>O que os fogos de artif&iacute;cio escondem &eacute; que a causa de tais distor&ccedil;&otilde;es n&atilde;o est&aacute; na lei, mas sim na falta de pol&iacute;ticas mais amplas, tanto para as artes quanto para o mercado, que quer e precisa crescer e exige um conjunto de a&ccedil;&otilde;es mais adequadas ao empreendedorismo e ao lucro (sim, avisa l&aacute; que somos capitalistas). <\/p>\n<p>Mas estamos longe de alcan&ccedil;ar uma realidade em que o Minist&eacute;rio da Cultura comemore o crescimento e o sucesso econ&ocirc;mico de empresas culturais, dando-lhes o suporte necess&aacute;rio para empregar gente, recolher impostos e ajudar a financiar a rica diversidade cultural do Brasil.<\/p>\n<p>Um mecanismo de financiamento privado n&atilde;o pode ter a responsabilidade de compensar a falta do Estado, mais ausente do que nunca. Em termos de financiamento p&uacute;blico, a pr&oacute;pria Lei j&aacute; abarca mecanismos de compensa&ccedil;&atilde;o, como o Fundo Nacional de Cultura, que sempre foi acusado de ser uma caixa-preta. Hoje continua na mesma situa&ccedil;&atilde;o, com um volume insuficiente de editais, que continuam sem transpar&ecirc;ncia, geridos e definidos por grupos que sustentam o poder e a ideologia do MinC. <\/p>\n<p>Parece haver um entrave ideol&oacute;gico a ser superado pelo MinC. A Lei foi criada com base num princ&iacute;pio liberal, de que a sociedade (incluindo o mercado) teria condi&ccedil;&otilde;es, por si, de regular a lei. Mas como pode a sociedade saber o que &eacute; bom para a sociedade, se existe um grupo de pessoas privilegiadas com esse dom supremo?<\/p>\n<p>Ent&atilde;o o Governo faz de tudo para exercer comando sobre os projetos, interferindo diretamente na comiss&atilde;o que os aprova, gerando burocracias para segurar o que n&atilde;o lhe conv&eacute;m e facilitar o que considera alinhado com a &ldquo;atual pol&iacute;tica&rdquo;. E faz de maneira in&aacute;bil, truculenta. Mostra-se cada vez mais perdido com a situa&ccedil;&atilde;o, chegando a implementar e mudar diretrizes e procedimentos como quem troca de roupa. <\/p>\n<p>O Estado foi incapaz de incorporar a Lei Rouanet como pol&iacute;tica p&uacute;blica, deixando-o ao prazer do mercado. A primeira reuni&atilde;o que o MinC fez com as empresas patrocinadoras foi em 2007. Ainda assim para cobrar, n&atilde;o para orientar, dar diretrizes, ou declarar uma pol&iacute;tica clara para o investimento privado. Isso &eacute; um contra-senso, j&aacute; que a aplicabilidade da lei est&aacute; intimamente ligada &agrave; a&ccedil;&atilde;o das empresas. <\/p>\n<p>Este governo trata a lei como um filho bastardo, fruto das andan&ccedil;as do Estado com o mercado. N&atilde;o o reconhece como um potente instrumento de financiamento &agrave; cultura. E por n&atilde;o o acolher, age contra ele. E por ele &eacute; consumido, pois n&atilde;o consegue formular alternativas para o aniquilar, substituir ou complementar. <\/p>\n<p>Por outro lado, a lei foi apropriada pelo mercado. Empresas a utilizam como estrat&eacute;gia de comunica&ccedil;&atilde;o. Isso n&atilde;o &eacute; uma distor&ccedil;&atilde;o em si, e n&atilde;o &eacute; um mal em si. &Eacute; apenas conseq&uuml;&ecirc;ncia do abandono do mecanismo como ingrediente de pol&iacute;tica cultural que dialoga com o capitalismo em que est&aacute; (indesejavelmente) inserido.<\/p>\n<p>Vendo-se incapaz de atuar na lei pela via do di&aacute;logo, o MinC passou a criar um arsenal de regras e burocracias, desenvolvidas com o objetivo &uacute;nico de tornar o instrumento moroso e ineficaz. A estrat&eacute;gia &eacute; esvaziar a lei, como fez Celso Frateschi em sua gest&atilde;o municipal em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; Lei Mendon&ccedil;a. Repete a dose &agrave; frente da Funarte, respons&aacute;vel por conceder parecer t&eacute;cnico &agrave; Lei.<\/p>\n<p>Como resultado disso, criou-se um mercado paralelo de aprova&ccedil;&atilde;o de leis dentro do pr&oacute;prio minist&eacute;rio, que atuava (ou atua?) no sentido de quebrar os bloqueios criados por este governo. A a&ccedil;&atilde;o resultou no final de 2007 na pris&atilde;o de uma quadrilha pela Pol&iacute;cia Federal. Um tiro no p&eacute;.<\/p>\n<p>O mercado agora prepara ofensiva. V&aacute;rios movimentos est&atilde;o se formando pelo Brasil afora em defesa dos direitos culturais e liberdade de express&atilde;o, consagrados por nossa Carta Magna e pela pr&oacute;pria Lei 8.313\/91. <\/p>\n<p><span><em>* Aplacados pela censura e pela persegui&ccedil;&atilde;o, os autores deste artigos protegem-se sob o codinome Julinho da Adelaida Sobrinho, um parente fict&iacute;cio de Julinho da Adelaide, heter&ocirc;nimo de Chico Buarque de Holanda, criado para fugir da censura dos tempos dif&iacute;ceis da ditadura, que insiste em nos rodear.<\/em><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Semana passada vimos publicar o mesmo artigo com duas vers&otilde;es, dois t&iacute;tulos e um s&oacute; conte&uacute;do. 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