{"id":20800,"date":"2008-03-28T21:03:06","date_gmt":"2008-03-28T21:03:06","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=20800"},"modified":"2008-03-28T21:03:06","modified_gmt":"2008-03-28T21:03:06","slug":"o-silencio-e-a-calunia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=20800","title":{"rendered":"O sil\u00eancio e a cal\u00fania"},"content":{"rendered":"<p><span>Pergunto aos leitores: em qual pa&iacute;s democr&aacute;tico e civilizado a sa&iacute;da de um jornalista do peso de Paulo Henrique Amorim de um portal da import&acirc;ncia do iG seria ignorada pelo resto da m&iacute;dia? Na imprensa, a not&iacute;cia s&oacute; mereceu uma lac&ocirc;nica nota na Folha de S.Paulo, no v&iacute;deo o registro pela TV Senado de um discurso do senador In&aacute;cio Arruda, do PCdoB do Cear&aacute;, a lamentar o epis&oacute;dio e solidarizar-se com Amorim. <\/p>\n<p><\/span><span>E o epis&oacute;dio n&atilde;o somente &eacute; muito grave, mas tamb&eacute;m altamente representativo da prepot&ecirc;ncia dos senhores, acobertados pelos seus sabujos midi&aacute;ticos. O espet&aacute;culo da tartufaria n&atilde;o &eacute; surpreendente. N&atilde;o cabe espanto, sequer um leve assomo de perplexidade. Tudo normal, na Terra brasilis, t&atilde;o distante, tadinha, da contemporaneidade do mundo. Porque n&atilde;o h&aacute; pa&iacute;s democr&aacute;tico e civilizado onde o abrupto afastamento de um profissional t&atilde;o honrado e competente quanto Amorim n&atilde;o teria repercuss&atilde;o na m&iacute;dia, imediata e profunda. <\/p>\n<p><\/span><span>N&atilde;o faltaria a busca das raz&otilde;es que levaram o iG a agir de forma t&atilde;o violenta, ao tirar Conversa Afiada do ar sem aviso pr&eacute;vio, ao lacrar o computador do jornalista e enxotar o pessoal da equipe da sede do portal. Bastaria este comportamento para justificar a repulsa da categoria em peso e a investiga&ccedil;&atilde;o dos interesses envolvidos, necessariamente gra&uacute;dos. <\/p>\n<p><\/span><span>Pelo contr&aacute;rio, ouviu-se clangoroso sil&ecirc;ncio, quase a insinuar que, se a m&iacute;dia n&atilde;o o noticia, o fato n&atilde;o aconteceu. Que diria Hannah Arendt ao verificar que no Brasil h&aacute; cada vez menos &ldquo;homens dispostos a dizer o que acontece e que acontece porque &eacute;&rdquo;, de sorte a garantir &ldquo;a sobreviv&ecirc;ncia humana&rdquo;? <\/p>\n<p><\/span><span>Pois o fato se deu, e n&atilde;o se exigem esfor&ccedil;os mentais einsteinianos para entender que os donos do iG (Brasil Telecom, Fundos e Daniel Dantas) decidiram abandonar Amorim ao seu destino. N&atilde;o &eacute; dif&iacute;cil tamb&eacute;m enxergar como pano de fundo o projeto de fundir Brasil Telecom com Oi, a ser executado com o apoio do BNDES, e portanto do governo federal, a configurar mais um cl&aacute;ssico do capitalismo sem risco de marca tipicamente brasileira. <\/p>\n<p><\/span><span>Ocorre-me comparar o mutismo atual diante de um fato t&atilde;o chocante com a indigna&ccedil;&atilde;o midi&aacute;tica que, recentemente, submergiu a campanha de a&ccedil;&otilde;es movidas em ju&iacute;zo por fi&eacute;is da Igreja Universal do Reino de Deus contra a jornalista Elvira Lobato, da Folha de S.Paulo, autora de reportagem sobre o &ecirc;xito empresarial da Iurd. N&atilde;o est&aacute; claro at&eacute; o momento se o Alt&iacute;ssimo acudiu o bispo Macedo e seus pros&eacute;litos, mas &eacute; certo que, se o fez, ou o fizer, ter&aacute; de enfrentar a ira da m&iacute;dia nativa. <\/p>\n<p><\/span><span>Foi um coro de manifesta&ccedil;&otilde;es a favor da liberdade de express&atilde;o amea&ccedil;ada, um ros&aacute;rio de editoriais candentes, de colunas vitri&oacute;licas, de comunicados de entidades representativas da categoria. A saber, Fenaj, ABI, ANJ, Abraji, sem contar a associa&ccedil;&atilde;o dos correspondentes estrangeiros (OPC). Ah, sim, a famosa liberdade de imprensa. A m&iacute;dia verde-amarela n&atilde;o hesita em defend&ecirc;-la, quando lhe conv&eacute;m. Permito-me concluir que, no caso de Paulo Henrique Amorim, n&atilde;o lhe conv&eacute;m. <\/p>\n<p><\/span><span>Recordo epis&oacute;dio similar que me diz respeito. A minha sa&iacute;da de Veja em fevereiro de 1976. Vai &agrave;s livrarias na segunda 31, lan&ccedil;ado em Curitiba, um livro de mem&oacute;rias de Karlos Rischbieter, presidente da Caixa Econ&ocirc;mica Federal no come&ccedil;o do governo do ditador de plant&atilde;o Ernesto Geisel, depois transferido para a presid&ecirc;ncia do Banco do Brasil e enfim ministro da Fazenda de outro plantonista, Jo&atilde;o Batista Figueiredo. Ficou por um ano, saiu contestando as pol&iacute;ticas que a ditadura pretendia levar adiante. <\/p>\n<p><\/span><span>Escreve Rischbieter em um dos cap&iacute;tulos: <\/p>\n<p><\/span><span>&ldquo;No come&ccedil;o de 1975 deu entrada na Caixa um pedido de financiamento do Grupo Abril. O pedido era de um financiamento que equivalia a 50 milh&otilde;es de d&oacute;lares, para consolida&ccedil;&atilde;o de v&aacute;rias d&iacute;vidas, em grande parte em moeda estrangeira. O pedido foi analisado pelo pessoal competente, recebeu parecer positivo e foi aprovado pela diretoria. Mas faltava a aprova&ccedil;&atilde;o do Governo. E Armando Falc&atilde;o, ministro da Justi&ccedil;a e guardi&atilde;o dos &ldquo;valores revolucion&aacute;rios&rdquo; vetou o financiamento com o argumento de que a Veja, carro-chefe das publica&ccedil;&otilde;es do grupo, e que tinha como diretor Mino Carta, era sistematicamente antigoverno. Em seu livro autobiogr&aacute;fico, O Castelo de &Acirc;mbar, Mino conta com detalhes o epis&oacute;dio que culminou com sua sa&iacute;da do Grupo Abril. Eu tentei, no meio da discuss&atilde;o, convencer o general Golbery a assumir o controle da situa&ccedil;&atilde;o e convencer o presidente a vetar o veto do ministro da Justi&ccedil;a. Mas foi em v&atilde;o. O empr&eacute;stimo s&oacute; foi aprovado quando Mino Carta deixou a Veja no come&ccedil;o de 1976&rdquo;. <\/p>\n<p><\/span><span>In illo tempore colegas de profiss&atilde;o tamb&eacute;m silenciaram, com exce&ccedil;&atilde;o do jornal do sindicato paulista. Em compensa&ccedil;&atilde;o, alguns insinuavam, quando n&atilde;o afirmavam, que eu prestava servi&ccedil;o ao chefe da Casa Civil, Golbery do Couto e Silva, quem sabe em troca de vantagens financeiras. Tempos depois, em 1979, Figueiredo no poder, um c&eacute;lebre jornalista escreveu um texto na Folha de S.Paulo intitulado &ldquo;De Jo&atilde;o a Mino, os donos do poder&rdquo;. Jo&atilde;o Figueiredo, est&aacute; claro. Apresentava-se ali a seguinte tese: &ldquo;L&aacute; na outra ponta do bonapartismo, em vers&atilde;o microsc&oacute;pica e virulenta, est&aacute; o jornalista Mino Carta, mini-representante do mandonismo local, que apoderou-se da abertura pol&iacute;tica concebida e instrumentada pelo general Golbery do Couto e Silva, seu amigo e aparente protetor, para pontificar sobre o que &eacute; certo ou errado&rdquo;. <\/p>\n<p><\/span><span>Vinte anos depois, em 1999, outro jornalista de larga nomeada escreveu um livro para recuperar o tempo perdido e disse que eu fui demitido da Veja. Nada disso, esta &eacute; a vers&atilde;o do patr&atilde;o. Eu me demiti, para n&atilde;o ter de levar as moedas da Editora Abril, e n&atilde;o seriam trinta dinheiros. Mas, desde a elei&ccedil;&atilde;o de Lula em 2002, h&aacute; quem sustente, peri&oacute;dica e inexoravelmente, que CartaCapital est&aacute; a servi&ccedil;o do governo. Eis a&iacute;, in&uacute;meros jornalistas nativos n&atilde;o conseguem imaginar um colega digno que n&atilde;o se porte igual a eles. <\/p>\n<p>* Mino Carta &eacute; <\/span><span>diretor de reda&ccedil;&atilde;o da Carta Capital<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pergunto aos leitores: em qual pa&iacute;s democr&aacute;tico e civilizado a sa&iacute;da de um jornalista do peso de Paulo Henrique Amorim de um portal da import&acirc;ncia do iG seria ignorada pelo resto da m&iacute;dia? 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