{"id":20798,"date":"2008-03-28T20:15:25","date_gmt":"2008-03-28T20:15:25","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=20798"},"modified":"2008-03-28T20:15:25","modified_gmt":"2008-03-28T20:15:25","slug":"a-cidadania-e-a-producao-de-informacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=20798","title":{"rendered":"A cidadania e a produ\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><span><em>Em 8 de mar&ccedil;o, a ag&ecirc;ncia Carta Maior promoveu uma reuni&atilde;o para discutir a m&iacute;dia nos nossos dias. Mais de quarenta jornalistas, professores de comunica&ccedil;&atilde;o e ativistas da &aacute;rea de comunica&ccedil;&atilde;o participaram do encontro que debateu a luta contra a hegemonia conservadora no &acirc;mbito da dissemina&ccedil;&atilde;o de informa&ccedil;&atilde;o no Brasil. Uma dessas pessoas &eacute; a professora Ivana Bentes Oliveira, doutora em comunica&ccedil;&atilde;o pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde hoje &eacute; diretora da Escola de Comunica&ccedil;&atilde;o. <\/em><\/span><\/p>\n<p><span><em>Nesta entrevista, Ivana fala sobre as grandes corpora&ccedil;&otilde;es de m&iacute;dia, do papel da imprensa alternativa, analisa os cursos de comunica&ccedil;&atilde;o e a obrigatoriedade do diploma. <\/em><\/span><span><\/p>\n<p>*<\/p>\n<p><\/span><span><strong>Como a senhora, que j&aacute; atuou em importantes ve&iacute;culos de comunica&ccedil;&atilde;o e hoje trabalha na &aacute;rea acad&ecirc;mica da comunica&ccedil;&atilde;o, analisa a grande imprensa brasileira, tanto televisiva e radiof&ocirc;nica quanto impressa e on-line?<br \/><\/strong><\/span><span>Ivana Bentes Oliveira &ndash; A primeira coisa que percebemos &eacute; uma redund&acirc;ncia muito grande de pauta. A impress&atilde;o, quando se abre todos os jornais di&aacute;rios, &eacute; que se tem as mesmas manchetes. Claro que h&aacute; sempre os fatos do dia, mas o perfil dos jornais &eacute; muito parecido, o que leva a uma homogeneidade muito grande. Eu penso que seja preciso uma diversidade maior na grande imprensa. E, mais do que uma proposta editorial, ela deve vir da participa&ccedil;&atilde;o de segmentos de pessoas de grupos distintos, com vis&otilde;es pol&iacute;ticas e de mundo diferentes, para combater essa homogeneidade entre os jornais e as linhas editoriais. <\/p>\n<p><\/span><span>Uma outra quest&atilde;o que penso ser decisiva est&aacute; relacionada ao fato de que as mudan&ccedil;as s&oacute; s&atilde;o poss&iacute;veis a partir do momento em que voc&ecirc; rompe um pouco com esse modelo do jornalismo tradicional da grande empresa corporativa e passa a utilizar uma tecnologia como a internet ou outras possibilidades eletr&ocirc;nicas. Tudo isso abre um panorama para uma nova diversidade. Qualquer sujeito, hoje, pode se tornar um produtor de m&iacute;dia. Esse me parece o horizonte da universaliza&ccedil;&atilde;o dessa atividade que j&aacute; foi pensada como uma atividade de especialista. Hoje, &eacute; uma demanda de cidadania a produ&ccedil;&atilde;o de informa&ccedil;&atilde;o, an&aacute;lise, interpreta&ccedil;&atilde;o. Al&eacute;m da diversidade em rela&ccedil;&atilde;o ao que &eacute; produzido. <\/p>\n<p><\/span><span><strong><br \/>E como a senhora analisa o papel da chamada &ldquo;imprensa alternativa&rdquo; ou da &ldquo;imprensa de esquerda&rdquo; no Brasil?<br \/><\/strong><\/span><span>Eu penso que ela se encontra num meio termo. Temos v&aacute;rios projetos interessantes de m&iacute;dia independente hoje, principalmente em revistas e na pr&oacute;pria internet. Ent&atilde;o, a grande beneficiada com essa mudan&ccedil;a de contexto tecnol&oacute;gico, e at&eacute; econ&ocirc;mico, com o barateamento dessas tecnologias, &eacute; a m&iacute;dia independente. Ela sempre teve problemas hist&oacute;ricos de sustentabilidade econ&ocirc;mica, de visibilidade pol&iacute;tica, de mercado, mas sobreviveu, durante todo esse tempo, num trabalho de guerrilha: &eacute; singular e individual. S&oacute; foi a partir do pr&oacute;prio advento da internet que essa m&iacute;dia independente passou a ter alguma visibilidade. <\/p>\n<p><\/span><span>Ent&atilde;o, ag&ecirc;ncias como a Carta Maior, Carta Capital, Vermelho, e mesmo os sites de jornalistas, como os de Paulo Henrique Amorim &ndash; ligado a uma emissora, mas com uma marca de singularidade muito grande &ndash; e de Lu&iacute;s Nassif, que funcionam como formadores de opini&atilde;o, com discurso de an&aacute;lise da pr&oacute;pria m&iacute;dia, fazendo uma esp&eacute;cie de n&atilde;o s&oacute; observat&oacute;rio neutro da m&iacute;dia, mas representando uma milit&acirc;ncia, um engajamento, trazem um trabalho um pouco parecido com os professores universit&aacute;rios que deveriam se debru&ccedil;ar ainda mais sobre essa m&iacute;dia. Parece-me que estamos vivendo um momento de transi&ccedil;&atilde;o com essa possibilidade da explos&atilde;o do que chamamos sempre de m&iacute;dia independente &ndash; que sempre existiu, mas com extremas dificuldades. <\/p>\n<p><\/span><span>N&oacute;s temos uma concentra&ccedil;&atilde;o n&atilde;o s&oacute; econ&ocirc;mica, mas alimentada pelo pr&oacute;prio campo p&uacute;blico, com a m&aacute; distribui&ccedil;&atilde;o das verbas publicit&aacute;rias que n&atilde;o incentiva a m&iacute;dia independente. Esse &eacute; um quadro um pouco cr&iacute;tico, mas absolutamente produtivo, na medida em que essa crise tem produzido alternativas muito distintas de modos de produ&ccedil;&atilde;o de m&iacute;dia que n&atilde;o t&ecirc;m rela&ccedil;&atilde;o simplesmente com essa m&iacute;dia mainstreaming. Estamos num momento de transi&ccedil;&atilde;o de d&eacute;cadas de concentracionismo, de uma homogeneidade, de uma f&oacute;rmula que est&aacute; mais do que desgastada em termos de m&iacute;dia, de produ&ccedil;&atilde;o de informa&ccedil;&atilde;o e uma descentraliza&ccedil;&atilde;o. Al&eacute;m disso, temos uma fragmenta&ccedil;&atilde;o que, obviamente, precisa tamb&eacute;m ser analisada sob um olhar cr&iacute;tico, anal&iacute;tico, mas &eacute; extremamente interessante para todas as &aacute;reas. Essa transi&ccedil;&atilde;o de tecnologia e at&eacute; de mentalidade amadureceu muito e deu alguns saltos nos &uacute;ltimos anos. <\/p>\n<p><\/span><span><strong><br \/>Alguns pesquisadores pensam a comunica&ccedil;&atilde;o a partir dos processos midi&aacute;ticos permitidos, principalmente a partir da d&eacute;cada de 1990. Assim sendo, falam da import&acirc;ncia de se pensar a comunica&ccedil;&atilde;o, antes de tudo, para al&eacute;m do jornalismo. Qual &eacute; a sua an&aacute;lise dos cursos de comunica&ccedil;&atilde;o brasileiros em rela&ccedil;&atilde;o n&atilde;o apenas ao fazer jornal&iacute;stico, mas ao pensar jornalisticamente?<br \/><\/strong><\/span><span>Ivana Bentes Oliveira &ndash; Eu acredito que ainda seja um pensamento muito t&iacute;mido,&nbsp; porque dificilmente vimos algum curso de jornalismo ou de comunica&ccedil;&atilde;o intervindo politicamente nos fatos enquanto eles acontecem. H&aacute; uma dificuldade de interven&ccedil;&atilde;o, de uma an&aacute;lise &ldquo;a quente&rdquo;. H&aacute; uma tend&ecirc;ncia, nos cursos de jornalismo e comunica&ccedil;&atilde;o, &agrave;quilo que chamamos de Profeta do Dia Seguinte, ou seja, de esperar que os fatos aconte&ccedil;am, passem e s&oacute; depois sejam comentados. N&atilde;o h&aacute;, nesse caso, muita import&acirc;ncia de quem traz, por exemplo, um questionamento pol&iacute;tico depois que o momento quente passou. H&aacute; analistas da m&iacute;dia, por exemplo, esses que v&atilde;o para os congressos como Intercom e Comp&ocirc;s, que fazem as an&aacute;lises j&aacute; frias. Ou seja, eles n&atilde;o possuem nenhum poder de interven&ccedil;&atilde;o imediata no campo pol&iacute;tico.<\/p>\n<p><\/span><span>N&atilde;o que os pesquisadores precisem ser ativistas, mas &eacute; preciso haver uma rela&ccedil;&atilde;o mais org&acirc;nica de quem produz m&iacute;dia com a realidade dos fatos. Deveria existir um tr&acirc;nsito maior com essa m&iacute;dia independente, ali&aacute;s com todos os tipos de produ&ccedil;&otilde;es midi&aacute;ticas. E, sem d&uacute;vida, fazer a passagem da velha quest&atilde;o do jornalismo para a quest&atilde;o da comunica&ccedil;&atilde;o, que &eacute; muito mais ampla. Hoje, de forma concreta, a experi&ecirc;ncia audiovisual desloca totalmente a fun&ccedil;&atilde;o e o foco do jornalismo impresso, que continua sendo important&iacute;ssimo, mas precisa ser pensado nesse campo ampliado. <\/p>\n<p><\/span><span>Temos grupos de m&iacute;dias audiovisuais, de r&aacute;dio comunit&aacute;ria, TV comunit&aacute;ria, blogs, sites, que s&atilde;o feitos inclusive por n&atilde;o jornalistas. Ent&atilde;o, hoje eu defendo o seguinte: o campo jornal&iacute;stico &eacute; importante demais para ficar s&oacute; com os jornalistas, parafraseando um dito de que a guerra &eacute; importante demais para ser resolvida pelos senhores da guerra. Tamb&eacute;m penso que a comunica&ccedil;&atilde;o seja importante demais para ficar s&oacute; num nicho, num gueto de jornalismo. A comunica&ccedil;&atilde;o sempre interveio na vida de todo mundo, mas hoje temos um consumidor de informa&ccedil;&atilde;o que virou, ao mesmo tempo, um produtor de m&iacute;dia. <\/p>\n<p><\/span><span>A quest&atilde;o da produ&ccedil;&atilde;o hoje, portanto, precisa ser pensada de forma ampliada. Os cursos de comunica&ccedil;&atilde;o precisam mudar essa mentalidade. Precisamos sair da especificidade, pois, atualmente, a comunica&ccedil;&atilde;o &eacute; um direito. N&oacute;s temos v&aacute;rios ativistas que trabalham com a quest&atilde;o do direito &agrave; informa&ccedil;&atilde;o. Desse modo, &eacute; preciso come&ccedil;ar a pensar a informar esse produtor de m&iacute;dia independente das forma&ccedil;&otilde;es. Parece-me que os cursos j&aacute; est&atilde;o pensando em seguir esse caminho, ou seja, apontar um tr&acirc;nsito maior entre as habilita&ccedil;&otilde;es. <\/p>\n<p><\/span><span>&Eacute; preciso tamb&eacute;m repensar a forma&ccedil;&atilde;o. Por isso, alguns cursos j&aacute; est&atilde;o refazendo os seus curr&iacute;culos. No entanto, considero importante que essas reformula&ccedil;&otilde;es de curr&iacute;culo sejam feitas por meio de um di&aacute;logo com quem est&aacute; fora da universidade, sejam jornalistas, sejam movimentos sociais, seja o pessoal do midiativismo, porque me parece que a diversidade e o pensamento novo precisam ser elaborados em conjunto. Trata-se de uma discuss&atilde;o importante, mas que n&atilde;o pode ser feita s&oacute; por professores. Assim, precisamos nos aproximar cada vez mais de quem est&aacute; fora da universidade. <\/p>\n<p><\/span><span>Possu&iacute;mos uma quantidade enorme de produtores de m&iacute;dia que n&atilde;o est&atilde;o nas universidades e nem nas grandes empresas. &Eacute; necess&aacute;rio incorporar essa produ&ccedil;&atilde;o, ajudar, qualificar e formar qualquer pessoa que v&aacute; trabalhar com m&iacute;dia. Precisamos disputar esse novo produtor de m&iacute;dia. &Eacute; restritivo demais pensar s&oacute; no jornalismo como centro da discuss&atilde;o midi&aacute;tica. Claro que ele tem suas especificidades, sobretudo o impresso. Entretanto, diante desse quadro, n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel pensarmos em coisas mais instigantes sem ampliar seu campo.<\/p>\n<p><\/span><span><strong>Al&eacute;m dos cursos, algumas empresas jornal&iacute;sticas est&atilde;o incorporando aos seus meios de recursos humanos os m&eacute;todos dos cursos de trainee para, de certa forma, ensinar e moldar o jornalista. Qual &eacute; a sua an&aacute;lise desse tipo de treinamento?<br \/><\/strong><\/span><span>H&aacute; um avan&ccedil;o sobre a forma&ccedil;&atilde;o. Estou falando de diversifica&ccedil;&atilde;o, de incorporar metodologias. A partir do momento em que voc&ecirc; tem uma entrada muito cedo do mercado na vida do estudante, isso interfere na forma&ccedil;&atilde;o e se corre o risco de adestrar, limitar essa forma&ccedil;&atilde;o. Penso que seja preciso demonizar experi&ecirc;ncias, mas &eacute; tamb&eacute;m &eacute; necess&aacute;rio haver algum tipo de acompanhamento ou, em alguns casos, n&atilde;o aceitar esse tipo de ger&ecirc;ncia na forma&ccedil;&atilde;o. Caso contr&aacute;rio, nos cursos universit&aacute;rios, que representariam o &uacute;ltimo lugar onde voc&ecirc; ainda teria essa forma&ccedil;&atilde;o ampliada, valorizando os discursos pol&iacute;ticos, existir&aacute; um fechamento, trazendo constrangimentos, limites e formata&ccedil;&otilde;es para o aluno, antes mesmo de ele sair do curso. <\/p>\n<p><\/span><span>Talvez fosse muito mais interessante que as experi&ecirc;ncias de est&aacute;gio nas empresas tivessem um acompanhamento qualitativo maior. &Eacute; complicado se descobrir que nossos alunos est&atilde;o sendo utilizados para trabalhar com telemarketing, vendas, distribui&ccedil;&atilde;o de folheto. A sa&iacute;da do estudante dos cursos &eacute; um momento dif&iacute;cil, de crise, de mudan&ccedil;a de vida, um momento de transforma&ccedil;&atilde;o, e os cursos devem estar atentos a isso tamb&eacute;m.<\/p>\n<p><\/span><span><strong>Qual &eacute; a sua opini&atilde;o sobre o diploma de jornalismo hoje?<br \/><\/strong><\/span><span>Nesse item, a minha opini&atilde;o &eacute; muito clara. Acredito que hoje o diploma represente uma reserva de legitima&ccedil;&atilde;o dos sindicatos. &Eacute; claro que os sindicatos tiveram uma import&acirc;ncia hist&oacute;rica nas lutas pol&iacute;ticas e v&atilde;o continuar a ter, mas tamb&eacute;m considero que devemos passar por um momento de mudan&ccedil;a dessa mentalidade, porque quem faz jornalismo hoje n&atilde;o &eacute; s&oacute; jornalista. N&oacute;s temos v&aacute;rios outros grupos sociais produzindo jornalismo. A partir do momento em que os sindicatos exigem o diploma de jornalista, cuidam apenas daquele com carteira assinada e sindicalizado. Eles est&atilde;o excluindo, deixando de prestar aten&ccedil;&atilde;o num fen&ocirc;meno global que &eacute; o cognitariado, que abrange as pessoas que trabalham com produ&ccedil;&atilde;o de conhecimento a partir da m&iacute;dia, desse campo de comunica&ccedil;&atilde;o, encontradas em diversas &aacute;reas.<\/p>\n<p><\/span><span>Para mim, os sindicatos n&atilde;o podem cuidar apenas dos sindicalizados e dos que t&ecirc;m diploma de jornalista. Precisam &eacute; cuidar do freelancer, das pessoas com menos condi&ccedil;&otilde;es de inser&ccedil;&atilde;o nas grandes m&iacute;dias. Creio que o diploma j&aacute; foi importante, mas n&atilde;o &eacute; mais. As escolas de comunica&ccedil;&atilde;o precisam vender qualidade e n&atilde;o reserva de mercado para um determinado profissional. <\/p>\n<p><\/span><span>Ent&atilde;o, surge uma argumenta&ccedil;&atilde;o contr&aacute;ria, afirmando que isso &eacute; fazer o jogo das empresas. Vejamos que as empresas j&aacute; burlam o diploma de todas as formas, como os colunistas. Sempre pe&ccedil;o aos meus alunos para analisarem qual &eacute; o maior sal&aacute;rio das reda&ccedil;&otilde;es e o resultado &eacute; sempre o mesmo: os colunistas. Quantos deles s&atilde;o formados em jornalismo? Quase nenhum! Os cronistas, os editores, os colunistas, isto &eacute;, os cargos mais nobres da reda&ccedil;&atilde;o s&atilde;o ocupados, geralmente, por n&atilde;o jornalistas. E isso h&aacute; d&eacute;cadas! Eu considero muito saud&aacute;vel o fato de que soci&oacute;logos, antrop&oacute;logos, fil&oacute;sofos, economistas e artistas escrevam nos jornais. O jornalista n&atilde;o tem mais aquele perfil fechado. Se a exig&ecirc;ncia do diploma acabasse amanh&atilde;, os cursos de comunica&ccedil;&atilde;o continuariam iguais. Os cursos que fazem a diferen&ccedil;a dentro da forma&ccedil;&atilde;o desse profissional continuam formando profissionais de qualidade. O que muda e o que acaba s&atilde;o os cursos que realmente vendiam apenas o diploma.<\/p>\n<p><\/span><span><strong>Recentemente, Lu&iacute;s Nassif, em seu blog, divulgou um dossi&ecirc; sobre a Veja, que ele chama de o &ldquo;maior fen&ocirc;meno de antijornalismo dos &uacute;ltimos anos&rdquo;. Qual &eacute; a sua opini&atilde;o sobre o tipo de jornalismo que essa revista faz?<br \/><\/strong><\/span><span>O jornalismo da Veja j&aacute; virou motivo de piada nos cursos de Jornalismo e comunica&ccedil;&atilde;o. E &eacute; &oacute;timo para dar exemplo porque &eacute; de tal forma deformado, repensado, direcionado que acaba se tornando uma caricatura do antijornalismo. N&atilde;o existia isso no Brasil. A Veja veio para explicitar um pensamento conservador reativo que existia sem visibilidade porque as pessoas tinham vergonha de se posicionar dessa forma. Ela apresenta um jogo forte sendo feito e para isso lan&ccedil;a m&atilde;o de manchetes sensacionalistas, de uma constante cria&ccedil;&atilde;o de pautas. O que Nassif faz, em sua an&aacute;lise, &eacute; indicar a explicita&ccedil;&atilde;o de uma linha editorial que existia de uma forma velada. &Eacute; claro que todo mundo que leu a Veja, porque muita gente deixou de l&ecirc;-la, tinha essa impress&atilde;o de uma linha editorial conservadora. No entanto, o Nassif veio explicitar uma constata&ccedil;&atilde;o em v&aacute;rios meios. A revista &eacute; muito estudada nos cursos dentro da linha de um jornalismo constru&iacute;do. Desse modo, &eacute; important&iacute;ssimo o que o Nassif vem fazendo, al&eacute;m de muito corajoso, pois est&aacute; sendo criminalizado, interpelado judicialmente. <\/p>\n<p>Atualmente, inclusive, precisa responder por quest&otilde;es que est&atilde;o na boca de todos e que ele materializou. &Eacute; preciso haver um movimento de apoio a ele, de apoio a uma analista contra uma corpora&ccedil;&atilde;o. Levar essa quest&atilde;o &agrave;s escolas de comunica&ccedil;&atilde;o e &agrave;s m&iacute;dias independentes &eacute; muito importante, al&eacute;m da divulga&ccedil;&atilde;o desse dossi&ecirc;. E, veja voc&ecirc;, o Nassif &eacute; um economista que escreve em jornais e conseguiu por meio de um blog uma repercuss&atilde;o enorme no meio comunicacional. Perceba s&oacute; o poder que apenas um indiv&iacute;duo, sem uma rela&ccedil;&atilde;o com nenhum meio da grande imprensa, tem contra uma grande corpora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p><\/span><span><br \/><strong>Ainda no campo dos blogs, com o advento da internet, as formas de comunicar ampliaram, assim como o mercado de trabalho. O que h&aacute; de novo dentro do fazer jornal&iacute;stico depois da internet? <\/strong><\/span><strong>E o que podemos prever para o futuro?<br \/><\/strong><span>&Eacute; claro que h&aacute; alguma cr&iacute;tica em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; apura&ccedil;&atilde;o, &agrave; falta da face a face. O que voc&ecirc; descobre numa entrevista olhando no olho e criando um clima atmosf&eacute;rico pode ser bem diferente do que numa entrevista por e-mail, por exemplo, na qual as perguntas est&atilde;o dadas e a intera&ccedil;&atilde;o n&atilde;o &eacute; t&atilde;o grande. Sou a favor de sair para as ruas, do jornalista captador da atmosfera das ruas. No entanto, isso &eacute; circunstancial, porque h&aacute; uma potencializa&ccedil;&atilde;o enorme desse fazer jornal&iacute;stico nesse sentido, a come&ccedil;ar pelo alcance que as tecnologias permitem. A internet acaba com a hierarquia da import&acirc;ncia que precisa ser, em primeiro lugar, legitimada socialmente. Claro que as grandes corpora&ccedil;&otilde;es est&atilde;o incorporando esses espa&ccedil;os, como os blogs, que s&atilde;o uma esp&eacute;cie de singularidade dentro daquele limite de espa&ccedil;o do hor&aacute;rio nobre. Por outro lado, pensemos na elei&ccedil;&atilde;o do Lula para o segundo mandato. Lembremos de toda aquela saraivada de den&uacute;ncias feitas pelos meios de comunica&ccedil;&atilde;o, uma campanha eleitoral por eles tentando intervir na elei&ccedil;&atilde;o. Houve a rea&ccedil;&atilde;o, o contradiscurso, que surgiu nos blogs, nas listas de e-mails, dos sites, da m&iacute;dia independente. <\/p>\n<p>Tudo isso foi muito importante no momento em que aconteceu a difus&atilde;o de uma contra-informa&ccedil;&atilde;o, com uma rapidez muito grande que seria imposs&iacute;vel se n&atilde;o houvesse a internet. Essa possibilidade veloz de uma rea&ccedil;&atilde;o gera uma disputa midi&aacute;tica que n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel n&atilde;o considerar relevante. O acesso &agrave; diversidade &eacute; absolutamente facilitada e, claro, a m&iacute;dia independente precisa apostar nesses meios. No entanto, a tecnologia n&atilde;o faz milagre. Por isso, precisa haver um pensamento pol&iacute;tico por tr&aacute;s, al&eacute;m de pol&iacute;ticas p&uacute;blicas e de se democratizar a internet no Brasil. &Eacute; necess&aacute;rio existir um provedor p&uacute;blico de gra&ccedil;a para todos. Isso tudo aponta para uma mudan&ccedil;a, para uma ruptura importante. &Eacute; uma multiplica&ccedil;&atilde;o da informa&ccedil;&atilde;o dentro de apenas um clique.<\/span><span>&nbsp;<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8216;\u00c9 restritivo pensar s\u00f3 no jornalismo como centro da discuss\u00e3o midi\u00e1tica&#8217;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[43],"tags":[696],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/20798"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=20798"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/20798\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=20798"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=20798"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=20798"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}