{"id":20795,"date":"2008-03-28T11:55:04","date_gmt":"2008-03-28T11:55:04","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=20795"},"modified":"2008-03-28T11:55:04","modified_gmt":"2008-03-28T11:55:04","slug":"comissao-hutchins-o-velho-novo-paradigma-faz-61-anos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=20795","title":{"rendered":"Comiss\u00e3o Hutchins: o velho (novo) paradigma faz 61 anos"},"content":{"rendered":"<p><span>Mar&ccedil;o &eacute; o m&ecirc;s de anivers&aacute;rio do famoso relat&oacute;rio da Hutchins Commission &ndash; &quot;Uma imprensa livre e respons&aacute;vel&quot; (A free and responsible press) &ndash; publicado em 1947, nos EUA. A Comiss&atilde;o, formada por 13 personalidades do mundo acad&ecirc;mico e empresarial, financiada pelo grupo Time Life e pela Enciclop&eacute;dia Brit&acirc;nica, foi presidida pelo ent&atilde;o reitor da Universidade de Chicago, Robert M. Hutchins. Criada em 1942, no correr da Segunda Guerra Mundial, antecipando as mudan&ccedil;as que estavam por vir e respondendo a uma onda crescente de cr&iacute;ticas &agrave; atua&ccedil;&atilde;o da m&iacute;dia, a Comiss&atilde;o tinha como objetivo principal definir quais eram as fun&ccedil;&otilde;es da m&iacute;dia na sociedade moderna. Objeto de muitas cr&iacute;ticas ao longo dos seus 61 anos, o relat&oacute;rio da Hutchins Commission deu origem &agrave; chamada teoria da responsabilidade social da m&iacute;dia.<\/p>\n<p><\/span><span><strong>Responsabilidade social<\/p>\n<p><\/strong><\/span><span>A responsabilidade social (RS) n&atilde;o &eacute; um conceito novo e sua origem est&aacute; associada &agrave; filosofia utilitarista que surge na Inglaterra e nos Estados Unidos no s&eacute;culo 19, de certa forma derivada das id&eacute;ias de Jeremy Bentham e John Stuart Mill.<\/p>\n<p><\/span><span>Nos anos p&oacute;s-Segunda Grande Guerra, a RS se constituiu como um modelo a ser aplicado &agrave;s empresas em geral &ndash; e &agrave;s empresas jornal&iacute;sticas norte-americanas, em particular &ndash; e come&ccedil;ou a ser introduzida por meio de c&oacute;digos de auto-regula&ccedil;&atilde;o estabelecidos para o comportamento de jornalistas e de setores como r&aacute;dio e televis&atilde;o. Esse modelo est&aacute; ligado diretamente &agrave; defesa da liberdade, inclusive &agrave; liberdade de imprensa e ao desenvolvimento do capitalismo e dos direitos civis. <\/p>\n<p><\/span><span>A RS se baseia na cren&ccedil;a individualista de que qualquer um que goze de liberdade tem certas obriga&ccedil;&otilde;es para com a sociedade &ndash; da&iacute; seu car&aacute;ter normativo. Na sua aplica&ccedil;&atilde;o &agrave; m&iacute;dia, &eacute; uma evolu&ccedil;&atilde;o de outra teoria da imprensa &ndash; a libert&aacute;ria &ndash; que n&atilde;o se preocupava em garantir um fluxo de informa&ccedil;&atilde;o em nome do interesse p&uacute;blico. A RS aceita que a m&iacute;dia deve servir ao sistema econ&ocirc;mico e buscar a obten&ccedil;&atilde;o do lucro, mas subordina essas fun&ccedil;&otilde;es &agrave; promo&ccedil;&atilde;o do processo democr&aacute;tico e ao esclarecimento do p&uacute;blico (&quot;o p&uacute;blico tem o direito de saber&quot;).<\/p>\n<p><\/span><span><strong>Cinco pontos<\/p>\n<p><\/strong><\/span><span>O relat&oacute;rio da Hutchins Commission resumiu as exig&ecirc;ncias que os meios de comunica&ccedil;&atilde;o teriam de cumprir em cinco pontos:<\/p>\n<p><\/span><span>1. Propiciar relatos fi&eacute;is e exatos, separando not&iacute;cias (reportagens objetivas) das opini&otilde;es (que deveriam ser restritas &agrave;s p&aacute;ginas de opini&atilde;o);<\/p>\n<p><\/span><span>2. Servir como f&oacute;rum para interc&acirc;mbio de coment&aacute;rios e cr&iacute;ticas, dando espa&ccedil;o para que pontos de vista contr&aacute;rios sejam publicados;<\/p>\n<p><\/span><span>3. Retratar a imagem dos v&aacute;rios grupos com exatid&atilde;o, registrando uma imagem representativa da sociedade, sem perpetuar os estere&oacute;tipos;<\/p>\n<p><\/span><span>4. Apresentar e clarificar os objetivos e valores da sociedade, assumindo um papel educativo; e, por fim,<\/p>\n<p><\/span><span>5. Distribuir amplamente o maior n&uacute;mero de informa&ccedil;&otilde;es poss&iacute;veis.<\/p>\n<p><\/span><span>Esses cinco pontos se tornariam a origem dos crit&eacute;rios profissionais do chamado &quot;bom jornalismo&quot; &ndash; objetividade, exatid&atilde;o, isen&ccedil;&atilde;o, diversidade de opini&otilde;es, interesse p&uacute;blico &ndash; adotado nos Estados Unidos e presente nos Manuais de Reda&ccedil;&atilde;o de boa parte dos jornais nas democracias liberais. <\/p>\n<p><\/span><span><strong>Li&ccedil;&otilde;es contempor&acirc;neas<\/p>\n<p><\/strong><\/span><span>Em livro lan&ccedil;ado recentemente nos EUA (The Big Picture &ndash; Why Democracies need Journalistic Excellence; Routledge, 2008) o jornalista Jeffrey Scheuer chama a aten&ccedil;&atilde;o para o fato de que o relat&oacute;rio da Hutchins Commission estabeleceu um precedente ajudando a legitimar a cr&iacute;tica da m&iacute;dia como uma atividade importante das democracias maduras. Al&eacute;m disso, o relat&oacute;rio talvez tenha sido respons&aacute;vel por uma mudan&ccedil;a fundamental de paradigma no jornalismo: da liberdade de imprensa para a responsabilidade da imprensa.<\/p>\n<p><\/span><span>Teria essa mudan&ccedil;a de paradigma de fato ocorrido? Ela chegou ao Brasil?<\/p>\n<p><\/span><span>Talvez o jornalismo brasileiro ainda tenha algo a aprender com o velho relat&oacute;rio da Hutchins Commission. Talvez j&aacute; seja tempo de os empres&aacute;rios de m&iacute;dia &ndash; que hoje incluem os donos, controladores e gerentes de provedores de internet &ndash; se darem conta de que os tempos s&atilde;o outros e a consci&ecirc;ncia dos direitos individuais e coletivos avan&ccedil;a e ganha for&ccedil;a dia a dia em camadas cada vez mais amplas de nossa popula&ccedil;&atilde;o. <\/p>\n<p><\/span><span>O sucesso empresarial da ind&uacute;stria privada das comunica&ccedil;&otilde;es &ndash; da qual fazem parte as empresas de telecomunica&ccedil;&otilde;es, seja atrav&eacute;s da distribui&ccedil;&atilde;o de conte&uacute;do ou do provimento de tecnologia &ndash; est&aacute; cada vez mais ligado ao respeito aos direitos de comunica&ccedil;&atilde;o do cidad&atilde;o consumidor. Talvez seja tempo de pensar menos no surrado &quot;escudo&quot; da amea&ccedil;a &quot;de fora&quot; &agrave; liberdade de imprensa e pensar mais na responsabilidade social daqueles que escolheram a m&iacute;dia como atividade profissional e empresarial. <\/p>\n<p><\/span><span>Com 61 anos de idade, o velho relat&oacute;rio da Hutchins Commission &ndash; &quot;Uma imprensa livre e respons&aacute;vel&quot; &ndash; permanece novo, v&aacute;lido e atual, pelo menos entre n&oacute;s.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mar&ccedil;o &eacute; o m&ecirc;s de anivers&aacute;rio do famoso relat&oacute;rio da Hutchins Commission &ndash; &quot;Uma imprensa livre e respons&aacute;vel&quot; (A free and responsible press) &ndash; publicado em 1947, nos EUA. A Comiss&atilde;o, formada por 13 personalidades do mundo acad&ecirc;mico e empresarial, financiada pelo grupo Time Life e pela Enciclop&eacute;dia Brit&acirc;nica, foi presidida pelo ent&atilde;o reitor da &hellip; <a href=\"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=20795\" class=\"more-link\">Continue lendo <span class=\"screen-reader-text\">Comiss\u00e3o Hutchins: o velho (novo) paradigma faz 61 anos<\/span> <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[695],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/20795"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=20795"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/20795\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=20795"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=20795"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=20795"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}