{"id":20711,"date":"2008-03-18T15:56:36","date_gmt":"2008-03-18T15:56:36","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=20711"},"modified":"2008-03-18T15:56:36","modified_gmt":"2008-03-18T15:56:36","slug":"protecao-autoral-do-tradutor-ainda-nao-e-respeitada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=20711","title":{"rendered":"Prote\u00e7\u00e3o autoral do tradutor ainda n\u00e3o \u00e9 respeitada"},"content":{"rendered":"<p>O verbo traduzir vem do latim &ldquo;traducere&rdquo; e segundo o dicion&aacute;rio Aur&eacute;lio significa: conduzir al&eacute;m, transferir, transpor, trasladar de uma l&iacute;ngua para outra, revelar, explicar, manifestar, explanar, transparecer, verter. S&atilde;o estas as tarefas do tradutor ao traduzir um texto da l&iacute;ngua de partida para a l&iacute;ngua de chegada. Tarefas estas &aacute;rduas, que exigem honestidade, &eacute;tica, cultura, sensibilidade, amor e respeito &agrave;s culturas e aos idiomas. Os tradutores s&atilde;o os intermedi&aacute;rios entre l&iacute;nguas e culturas e exercem este of&iacute;cio por amor &agrave; literatura e &agrave;s l&iacute;nguas.<\/p>\n<p>Contudo, o trabalho do tradutor &eacute; muitas vezes invis&iacute;vel ao p&uacute;blico, mas &eacute; ineg&aacute;vel a import&acirc;ncia do seu of&iacute;cio &mdash; levar os conhecimentos cient&iacute;ficos, liter&aacute;rios e t&eacute;cnicos para todos indistintamente, transportando este saber para o idioma materno de um povo. Segundo estudos ling&uuml;&iacute;sticos, por mais que se tenha conhecimento de um idioma estrangeiro, as sensa&ccedil;&otilde;es e significados jamais ser&atilde;o t&atilde;o bem entendidos quanto no idioma materno.<\/p>\n<p>Na maioria dos pa&iacute;ses, a import&acirc;ncia do trabalho do tradutor &eacute; desconhecida pelo p&uacute;blico, e seu trabalho n&atilde;o recebe a devida valoriza&ccedil;&atilde;o e remunera&ccedil;&atilde;o. Esta situa&ccedil;&atilde;o ensejou na Alemanha, pa&iacute;s onde quase 50% das publica&ccedil;&otilde;es s&atilde;o tradu&ccedil;&otilde;es, aten&ccedil;&atilde;o especial por parte do ex-presidente alem&atilde;o Roman Herzog (1994-1999) que se pronunciou em defesa da valoriza&ccedil;&atilde;o do of&iacute;cio do tradutor dizendo: &ldquo;&eacute; simplesmente escandaloso, que membros de uma das mais importantes profiss&otilde;es intelectuais, geralmente encontrem dificuldades para sobreviver da pr&oacute;pria profiss&atilde;o&rdquo;.<\/p>\n<p>Todavia, na maior parte dos pa&iacute;ses, a quest&atilde;o restringe-se &agrave; discuss&atilde;o acerca da modesta remunera&ccedil;&atilde;o recebida pelos tradutores e &agrave; falta de reconhecimento p&uacute;blico.<\/p>\n<p>No Brasil, onde 80% da produ&ccedil;&atilde;o editorial do pa&iacute;s &eacute; de livros traduzidos, a discuss&atilde;o ganhou destaque recentemente, quando a imprensa divulgou den&uacute;ncias de pl&aacute;gio por parte de algumas editoras.1 Verificamos em nosso pa&iacute;s, casos de omiss&atilde;o do nome do tradutor em artigos da imprensa, resenhas e mesmo livros, privando-o de sua devida valoriza&ccedil;&atilde;o como criador intelectual, desrespeitando as determina&ccedil;&otilde;es legais, al&eacute;m da quest&atilde;o da baixa remunera&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Sendo o of&iacute;cio do tradutor t&atilde;o importante &eacute; de se indagar o motivo pelo qual este n&atilde;o &eacute; devidamente valorizado e, a legisla&ccedil;&atilde;o muitas vezes descumprida, deixando-se de atribuir os devidos cr&eacute;ditos ao seu trabalho. O tradutor &eacute; autor de obra derivada, ou seja, ele &eacute; o autor de obra proveniente de uma obra prim&iacute;gena. Ele &eacute; autor do texto traduzido ou vertido para o idioma de chegada.<\/p>\n<p>Isto porque n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel, na maioria das vezes, fazer-se uma tradu&ccedil;&atilde;o literal do texto original. Nos idiomas, muitas vezes, n&atilde;o encontramos correspond&ecirc;ncias perfeitas entre palavras e express&otilde;es. A tarefa do tradutor &eacute; encontrar estas correspond&ecirc;ncias sem&acirc;nticas adaptando, recriando, sem alterar o conte&uacute;do e o significado do texto original.<\/p>\n<p>Por estas raz&otilde;es ao tradutor &eacute; dada prote&ccedil;&atilde;o autoral. Seu trabalho &eacute; uma cria&ccedil;&atilde;o do esp&iacute;rito, &ldquo;geistige Sch&ouml;pfungen&rdquo; dotada de criatividade e originalidade. Como autor de obra derivada, o tradutor det&eacute;m dois tipos de direitos. O direito patrimonial e o direito moral. O direito patrimonial traduz-se no direito exclusivo de utilizar, fruir e dispor da obra liter&aacute;ria, art&iacute;stica ou cient&iacute;fica.<\/p>\n<p>O direito moral do autor consiste no direito de reivindicar, a qualquer tempo, a autoria da obra; e no direito de ter seu nome, pseud&ocirc;nimo ou sinal convencional indicado ou anunciado, como sendo o do autor, na utiliza&ccedil;&atilde;o de sua obra;<\/p>\n<p>Na Alemanha, a lei de direitos autorais &ldquo;Urheberrechtsgesetz&rdquo; em seu artigo 3&ordm; reza que, as tradu&ccedil;&otilde;es e outras adapta&ccedil;&otilde;es de obras que constituam cria&ccedil;&otilde;es intelectuais do adaptador, gozar&atilde;o de prote&ccedil;&atilde;o como obras independentes, sem preju&iacute;zo dos direitos autorais da obra adaptada2.<\/p>\n<p>Assim tamb&eacute;m no Brasil, a tradu&ccedil;&atilde;o goza de direito aut&ocirc;nomo. &Eacute; o caso, por exemplo, da obra original estar em dom&iacute;nio p&uacute;blico, mas sua tradu&ccedil;&atilde;o ainda gozar de prote&ccedil;&atilde;o autoral.<\/p>\n<p>Alguns tradutores liter&aacute;rios brasileiros como Augusto de Campos e Haroldo de Campos, ao traduzirem poemas, o fazem com tamanha beleza e arte, que tais poemas tornam-se verdadeiras recria&ccedil;&otilde;es do esp&iacute;rito aut&ocirc;nomas, mas ainda assim, fi&eacute;is em sentido &agrave; obra original.<\/p>\n<p>Deste modo, para que possa haver a utiliza&ccedil;&atilde;o de uma obra traduzida que ainda n&atilde;o esteja em dom&iacute;nio p&uacute;blico, &eacute; necess&aacute;ria a autoriza&ccedil;&atilde;o do autor original e de seu tradutor.<\/p>\n<p>A Conven&ccedil;&atilde;o de Berna em seu artigo 3&ordm; estabelece que:<\/p>\n<p>&ldquo;art. 3&ordm;. S&atilde;o protegidas como obras originais, sem preju&iacute;zo dos direitos do autor da obra original, as tradu&ccedil;&otilde;es, adapta&ccedil;&otilde;es, arranjos de m&uacute;sica e outras transforma&ccedil;&otilde;es de uma obra liter&aacute;ria ou art&iacute;stica.&rdquo;<\/p>\n<p>No Brasil, a Lei 9.610\/98 disp&otilde;e em seu artigo 7&ordm;, inciso XI:<\/p>\n<p>Art. 7&ordm; S&atilde;o obras intelectuais protegidas as cria&ccedil;&otilde;es do esp&iacute;rito, expressas por qualquer meio ou fixadas em qualquer suporte, tang&iacute;vel ou intang&iacute;vel, conhecido ou que se invente no futuro, tais como:<\/p>\n<p>XI &#8211; as adapta&ccedil;&otilde;es, tradu&ccedil;&otilde;es e outras transforma&ccedil;&otilde;es de obras originais, apresentadas como cria&ccedil;&atilde;o intelectual nova;<\/p>\n<p>O artigo 53, inciso II do mesmo dispositivo legal determina que, nas edi&ccedil;&otilde;es traduzidas, deve-se fazer constar o t&iacute;tulo original e o nome do tradutor.<\/p>\n<p>As normas da ABNT para publica&ccedil;&otilde;es, jornais e peri&oacute;dicos tamb&eacute;m estabelecem que, o nome do autor deve constar nas refer&ecirc;ncias bibliogr&aacute;ficas, ainda que n&atilde;o mencionando especificamente o tradutor. Todavia, sendo o tradutor o autor da obra derivada, n&atilde;o &eacute; necess&aacute;ria a repeti&ccedil;&atilde;o daquilo que j&aacute; disp&otilde;e claramente a Lei 9.610\/98, os tratados internacionais e legisla&ccedil;&otilde;es estrangeiras.<\/p>\n<p>Portanto, cumpre a todos observar a legisla&ccedil;&atilde;o sobre os direitos autorais do tradutor, evitando desta forma, o desrespeito ao seu trabalho intelectual. Devemos dispensar ao tradutor o mesmo respeito que dispensamos a todos os criadores de obras intelectuais sejam eles, m&uacute;sicos, escritores, fot&oacute;grafos, artistas pl&aacute;sticos, etc.<\/p>\n<p>&Eacute; imperativa a atribui&ccedil;&atilde;o dos cr&eacute;ditos ao tradutor quando este exercer seu of&iacute;cio traduzindo obras protegidas pelo direito autoral, ou seja, aquelas obras elencadas no artigo 7&ordm; da Lei 9.610\/98.<\/p>\n<p>Est&atilde;o exclu&iacute;dos da prote&ccedil;&atilde;o desta lei, os tradutores de manuais t&eacute;cnicos, esbo&ccedil;os, m&eacute;todos, e outros documentos de car&aacute;ter t&eacute;cnico ou informativo discriminados no artigo 8&ordm; do mesmo diploma legal.<\/p>\n<p>A lei vigente de prote&ccedil;&atilde;o autoral do tradutor deve ser respeitada e os seus cr&eacute;ditos devidamente atribu&iacute;dos em livros, artigos de imprensa, resenhas liter&aacute;rias, conforme determina a legisla&ccedil;&atilde;o autoral e os Tratados Internacionais. Somente assim, poderemos garantir a qualidade e autenticidade da obra e do acervo cultural do pa&iacute;s.<\/p>\n<p>Notas de rodap&eacute;:<\/p>\n<p>1. Folha de S&atilde;o Paulo &#8211; Caderno Ilustrada de 04\/11\/2007 e 15\/12\/2007<\/p>\n<p>2. UrhG &sect; 3 Bearbeitungen &mdash; &Uuml;bersetzungen und andere Bearbeitungen eines Werkes, die pers&ouml;nliche geistige. Sch&ouml;pfungen des Bearbeiters sind, werden unbeschadet des Urheberrechts am bearbeiteten Werk wie selbst&auml;ndige Werke gesch&uuml;tzt. Die nur unwesentliche Bearbeitung eines nicht gesch&uuml;tzten Werkes der Musik wird nicht als selbst&auml;ndiges Werk gesch&uuml;tzt.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O verbo traduzir vem do latim &ldquo;traducere&rdquo; e segundo o dicion&aacute;rio Aur&eacute;lio significa: conduzir al&eacute;m, transferir, transpor, trasladar de uma l&iacute;ngua para outra, revelar, explicar, manifestar, explanar, transparecer, verter. 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