{"id":20688,"date":"2008-03-14T18:50:38","date_gmt":"2008-03-14T18:50:38","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=20688"},"modified":"2008-03-14T18:50:38","modified_gmt":"2008-03-14T18:50:38","slug":"a-tv-brasil-em-tempos-de-convergencia-tecnologica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=20688","title":{"rendered":"A TV Brasil em tempos de converg\u00eancia tecnol\u00f3gica"},"content":{"rendered":"<p style=\"margin: 0cm 0cm 0pt\" class=\"MsoNormal\"><span>Quando surge, na d&eacute;cada de 1920, a radiodifus&atilde;o &eacute; uma tecnologia a procura de uma utilidade econ&ocirc;mica. Seu principal problema era financiamento. Alguns empreendimentos pioneiros, entre eles a British Broadcasting Corporation &ndash; BBC, criada por um cons&oacute;rcio de fabricantes de sistemas de radiotransmiss&atilde;o &ndash; imaginavam poder sobreviver e lucrar cobrando assinatura aos poss&iacute;veis radio-ouvintes. A &oacute;bvia dificuldade t&eacute;cnica para controlar a adimpl&ecirc;ncia dos assinantes levou esses projetos ao fracasso.<\/span><\/p>\n<p><span><br \/><\/span><span>Ent&atilde;o, entrou o Estado. Devido &agrave; pequena extens&atilde;o territorial da maioria dos pa&iacute;ses capitalistas avan&ccedil;ados da &eacute;poca, com reflexos diretos na ocupa&ccedil;&atilde;o e gest&atilde;o das escassas radiofreq&uuml;&ecirc;ncias; &agrave;s crises sociais e pol&iacute;ticas que ent&atilde;o abalavam o mundo; e ao permanente clima de guerra entre as grandes pot&ecirc;ncias que acabaria desembocando no grande conflito de 1939, a radiodifus&atilde;o era vista como um important&iacute;ssimo instrumento de propaganda pol&iacute;tico-ideol&oacute;gica, mobiliza&ccedil;&atilde;o nacional e manuten&ccedil;&atilde;o da coes&atilde;o social.<\/p>\n<p><\/span><span>Nos anos 1920 e 1930, quando a radiodifus&atilde;o se consolidou como meio de informa&ccedil;&atilde;o, de cultura e de entretenimento, a democracia representativa liberal era uma exce&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o uma regra. Jap&atilde;o, Alemanha, It&aacute;lia, os pa&iacute;ses do Leste europeu eram todos nazi-fascistas. Na jovem Uni&atilde;o Sovi&eacute;tica, o Partido Comunista assumira o controle absoluto de todas as dimens&otilde;es da vida p&uacute;blica. Ou seja, Estado e Governo tendiam a ser uma coisa s&oacute;. O Judici&aacute;rio, as For&ccedil;as Armadas, a escola, a imprensa, sem falar do Legislativo que, em muitos casos, ainda funcionava formalmente, eram colocados a servi&ccedil;o de um projeto pol&iacute;tico, e de seu partido ou homens representativos, como se formassem um &uacute;nico, monol&iacute;tico e poderoso bloco estatal de poder.<\/p>\n<p><\/span><span>N&atilde;o seria poss&iacute;vel fazer-se, exceto para efeitos rituais, a cl&aacute;ssica distin&ccedil;&atilde;o entre o Executivo, o Legislativo e o Judici&aacute;rio, a partir da qual outras institui&ccedil;&otilde;es do Estado ou a ele relacionadas podem tamb&eacute;m se organizar&nbsp; autonomamente, em fun&ccedil;&atilde;o de suas finalidades, arranjos pol&iacute;tico-sociais e cultura profissional.&nbsp; Numa tal situa&ccedil;&atilde;o, seria natural que a radiodifus&atilde;o tamb&eacute;m se tornasse instrumento n&atilde;o apenas do Estado, mas do Governo que controlava esse Estado.<\/p>\n<p><\/span><span>Not&aacute;veis exce&ccedil;&otilde;es &agrave; &eacute;poca eram os Estados Unidos e o Reino Unido. L&aacute;, a radiodifus&atilde;o viria a ter um desenvolvimento comercial tipicamente capitalista, financiando-se atrav&eacute;s da publicidade. Iria servir ao mercado.<\/p>\n<p><\/span><span>No Reino Unido, o fracasso comercial da primeira BBC e os demais aspectos t&eacute;cnicos ou pol&iacute;ticos que estavam levando &agrave; estatiza&ccedil;&atilde;o da radiodifus&atilde;o em todo o mundo acabariam conduzindo a uma interven&ccedil;&atilde;o governamental na emissora. Mas as condi&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas eram muito especiais. Explicitamente, o Reino Unido n&atilde;o desejava adotar um modelo similar ao que vinha se consolidando na Alemanha, na It&aacute;lia ou na Uni&atilde;o Sovi&eacute;tica. Numa democracia parlamentarista, onde os partidos se revezam no poder, o Judici&aacute;rio &eacute; um ente independente, e a imprensa goza de ampla liberdade, a radiodifus&atilde;o poderia vir a ser do Estado, mas nunca do Governo.<\/p>\n<p><\/span><span>A BBC n&atilde;o foi constitu&iacute;da para servir ao primeiro-ministro de plant&atilde;o. Por isto, gozava de grande autonomia pol&iacute;tica e administrativa. Por&eacute;m, de dez em dez anos, o Parlamento aprova o seu programa de trabalho para a d&eacute;cada seguinte, junto com as verbas necess&aacute;rias: o or&ccedil;amento depende diretamente de um imposto cobrado a todo cidad&atilde;o brit&acirc;nico que possua um aparelho de TV. Atualmente, esta taxa &eacute;, mais ou menos, de R$ 50 por m&ecirc;s.<\/p>\n<p><\/span><span>Assim, a cada d&eacute;cada, o jogo pol&iacute;tico democr&aacute;tico determina o lugar da BBC no Estado e na sociedade. Logo, sua independ&ecirc;ncia tem limites. Seu conselho administrativo &eacute; de livre nomea&ccedil;&atilde;o pela Coroa, mas dificilmente os nomes indicados n&atilde;o ter&atilde;o sido levados ao rei ou rainha, pelas for&ccedil;as pol&iacute;ticas hegem&ocirc;nicas em cada oportunidade. A BBC tornou-se uma institui&ccedil;&atilde;o a servi&ccedil;o dos interesses imperiais brit&acirc;nicos, tanto quanto a R&aacute;dio de Berlim servia &agrave; Alemanha nazista, ou a R&aacute;dio de Moscou, ao movimento comunista internacional. Sua relativa autonomia, por outro lado, permitiu que fosse dirigida, durante 16 anos seguidos, por um super-burocrata, John Reith, que imprimiu-lhe sua marca e deixou-a dotada com uma forte burocracia weberiana, muito ciosa dos seus interesses e do seu espa&ccedil;o dentro do conjunto estatal. Tudo isso permitiu a consolida&ccedil;&atilde;o desse modelo &iacute;mpar ao qual deu-se o conveniente nome de &ldquo;radiodifus&atilde;o p&uacute;blica&rdquo;.<\/p>\n<p><\/span><span>Somente depois da Segunda Guerra, o modelo chegou ao Jap&atilde;o (NHK), &agrave; Alemanha (ARD) e outros pa&iacute;ses, todos eles democracias parlamentares, onde o Poder Executivo &eacute; fraco, pois radica diretamente no legislativo. Os sistemas n&atilde;o-comerciais de radiodifus&atilde;o tornaram-se assim uma outra inst&acirc;ncia do Estado a servi&ccedil;o do p&uacute;blico, e n&atilde;o de interesses pol&iacute;ticos circunstanciais, assim como tamb&eacute;m o s&atilde;o a escola, a Justi&ccedil;a ou as For&ccedil;as Armadas.<\/p>\n<p><\/span><span>A partir dos anos 1980, essa radiodifus&atilde;o estatal entrou em crise. A &ldquo;sociedade do espet&aacute;culo&rdquo;, na feliz express&atilde;o de Guy D&eacute;bord, desejava consumir uma televis&atilde;o bem diferente daquela que lhe ofereciam as emissoras ditas p&uacute;blicas. As condi&ccedil;&otilde;es t&eacute;cnicas ou pol&iacute;ticas que presidiram a funda&ccedil;&atilde;o dessas emissoras, nos anos 1920, haviam ficado para tr&aacute;s. As condi&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas e culturais do mundo capitalista hoje em dia, apoiadas nas tecnologias digitais, na TV digital inclusive em terminais m&oacute;veis, na difus&atilde;o por cabo ou sat&eacute;lite e, sobretudo, na internet com todas as suas potencialidades (webr&aacute;dio, IPTV, YouTube etc), modificaram completamente o cen&aacute;rio que um dia moldou a radiodifus&atilde;o estatal.<\/p>\n<p><\/span><span>J&aacute; desde os anos 50 do s&eacute;culo passado, em todos os pa&iacute;ses, inclusive no Reino Unido, o mercado da radiodifus&atilde;o (r&aacute;dio e TV) veio sendo aberto a emissoras comerciais. Os Estados Unidos deixaram de ser os &uacute;nicos a ostentar um sistema mercantil de r&aacute;dio e TV.<\/p>\n<p><\/span><span>Com a expans&atilde;o dos sistemas de TV por assinatura, via cabo ou sat&eacute;lite, os velhos monop&oacute;lios, e mesmo toda a radiodifus&atilde;o atmosf&eacute;rica (ou &ldquo;terrestre&rdquo;), viram sua audi&ecirc;ncia ser erodida por centenas de novos canais comerciais dedicados a filmes, esportes, not&iacute;cias, shows etc. J&aacute; s&atilde;o mais de 800 na Europa, transmitidos por cabo, sat&eacute;lite ou freq&uuml;&ecirc;ncias hertzianas, contra apenas 36 estatais, transmitidos ainda basicamente pela atmosfera. Nos maiores pa&iacute;ses europeus, a audi&ecirc;ncia da TV &ldquo;p&uacute;blica&rdquo; j&aacute; caiu &agrave; metade, ou menos. Em muitos dos menores, j&aacute; praticamente desapareceu. A pluralidade e a diversidade est&atilde;o encontrando caminhos para se expressar que, para falar a verdade, inexistiam nos &aacute;ureos tempos da velha radiodifus&atilde;o estatal.<\/p>\n<p><\/span><span>No Brasil, nos anos 1930, gra&ccedil;as ao pioneirismo vision&aacute;rio de Edgard Roquette-Pinto, tamb&eacute;m se pensou em criar uma r&aacute;dio em moldes p&uacute;blicos, sustentada pela assinatura dos radio-ouvintes. Fracassou, como nos demais lugares. Vindo a ditadura Vargas, o Governo constituiu uma poderosa emissora de r&aacute;dio (a R&aacute;dio Nacional) que, durante duas d&eacute;cadas, viria a cumprir papel fundamental na constru&ccedil;&atilde;o da unidade nacional e na consolida&ccedil;&atilde;o de uma cultura brasileira. A R&aacute;dio Nacional, ao contr&aacute;rio de suas equivalentes em outros pa&iacute;ses, n&atilde;o detinha nenhum monop&oacute;lio.<\/p>\n<p><\/span><span>A partir dos anos 1950, junto com o advento da televis&atilde;o, o sistema brasileiro de radiodifus&atilde;o tornou-se definitivamente comercial, primeiro sob a lideran&ccedil;a da Rede Tupi e, depois, da Rede Globo. O Governo limitou-se a controlar as suas pr&oacute;prias emissoras que, por todos esses anos, sobreviveram desimportantes no cen&aacute;rio radiodifusor brasileiro. O Estado (n&atilde;o confundir com Governo) delegou &agrave; iniciativa privada, assim como nos Estados Unidos, o papel de principal protagonista da radiodifus&atilde;o.<\/p>\n<p><\/span><span>Agora, com 80 anos de atraso, o Governo resolveu anunciar a cria&ccedil;&atilde;o da TV Brasil, que seria uma BBC brasileira. Estaria, para isso, baseando-se numa suposta distin&ccedil;&atilde;o entre &ldquo;emissora estatal&rdquo; e &ldquo;emissora p&uacute;blica&rdquo; que, em momento de pouca reflex&atilde;o, a Constituinte de 1988 introduziu em nossa Carta Magna, como se qualquer inst&acirc;ncia estatal, sobretudo numa democracia, n&atilde;o fosse, por defini&ccedil;&atilde;o, p&uacute;blica.<\/p>\n<p><\/span><span>Mas essa TV Brasil n&atilde;o ser&aacute; uma emissora sustentada por impostos cobrados diretamente ao p&uacute;blico, como o s&atilde;o, at&eacute; hoje, a brit&acirc;nica, a japonesa, a alem&atilde; etc &ndash; e isso faz muita diferen&ccedil;a. N&atilde;o herdar&aacute; a tradi&ccedil;&atilde;o e influ&ecirc;ncia pol&iacute;tica, educacional e cultural de uma BBC, NHK ou RTF, at&eacute; poucos anos atr&aacute;s detentoras quase exclusivas das audi&ecirc;ncias televisivas em seus respectivos pa&iacute;ses. N&atilde;o integrar&aacute; um Estado weberiano. E nem contar&aacute;, &agrave; sua retaguarda, com o equil&iacute;brio do jogo pol&iacute;tico parlamentarista, mas antes, num sistema presidencialista imperial, dificilmente deixar&aacute; de ser, com o tempo, mais uma inst&acirc;ncia do Estado a servi&ccedil;o do Executivo.<\/p>\n<p><\/span><span>A TV Brasil ser&aacute; p&uacute;blica e democr&aacute;tica se e quando o Estado brasileiro for, de fato, p&uacute;blico e democr&aacute;tico. Mas mesmo nessa hip&oacute;tese, considerando os dias de hoje, talvez fosse mais produtivo para a agenda democr&aacute;tica discutir e construir uma pol&iacute;tica e legisla&ccedil;&atilde;o que impulsionassem a universaliza&ccedil;&atilde;o de sistemas interativos de comunica&ccedil;&atilde;o social (tecnologias WiFi; amplas faixas de espectro aberto; universaliza&ccedil;&atilde;o da banda-larga sobre uma infra-estrutura p&uacute;blico-estatal etc.), no lugar de um sistema unidirecional de comunica&ccedil;&atilde;o, como o &eacute; esta radiodifus&atilde;o moldada nos tempos passados de centraliza&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica.<\/p>\n<p><\/span><span>N&atilde;o vai demorar a muitos perceberem que a vontade, mesmo generosa, n&atilde;o tem conson&acirc;ncia com o real. Uma vez disse o cr&iacute;tico Roberto Schwartz que, no Brasil, as &ldquo;id&eacute;ias est&atilde;o fora do lugar&rdquo;. Esqueceu de acrescentar: e do tempo.<\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span><em>* Marcos Dantas &eacute; professor do Departamento de Comunica&ccedil;&atilde;o Social da PUC-Rio e doutor em Engenharia de Produ&ccedil;&atilde;o. Foi secret&aacute;rio de Planejamento e Or&ccedil;amento do Minist&eacute;rio das Comunica&ccedil;&otilde;es, secret&aacute;rio de Educa&ccedil;&atilde;o a Dist&acirc;ncia do MEC e membro do Conselho Consultivo da Anatel.<\/em><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando surge, na d&eacute;cada de 1920, a radiodifus&atilde;o &eacute; uma tecnologia a procura de uma utilidade econ&ocirc;mica. Seu principal problema era financiamento. Alguns empreendimentos pioneiros, entre eles a British Broadcasting Corporation &ndash; BBC, criada por um cons&oacute;rcio de fabricantes de sistemas de radiotransmiss&atilde;o &ndash; imaginavam poder sobreviver e lucrar cobrando assinatura aos poss&iacute;veis radio-ouvintes. 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